Os demônios estão soltos: a utilização do transe na religiosidade brasileira.
A pregação [sugestão do pastor] primeiro propõe que existe um culpado por todos os
problemas e mazelas do cliente [fixação da atenção], no caso, o demônio. Esse demônio
deverá se personificar para confirmar as palavras do pastor [criação de expectativas].
As necessidades pessoais elevam, ainda mais, as expectativas do cliente em obter a
cura prometida. Mas, para que ele possa obter a graça divina, o mal deve se manifestar
Homeopatia: Estudos envolvendo remédios homeopáticos aparentemente acabam
divididos por razões políticas. Se, por um lado, a maioria dos resultados não dá suporte
ao uso da homeopatia, outras tentativas bem estruturadas têm obtido resultados positivos.
Alguns desses, no entanto, foram conduzidos por homeopatas, e seus relatórios contêm
uma retórica que reflete viés suficientemente forte para minar a credibilidade dos
Terapias Alternativas: A força do profissional alternativo está, geralmente, no
fascínio do discurso. Contrariando a complexidade da ciência médica, cujo entendimento
é bastante trabalhoso para pessoas não versadas em medicina, são usadas algumas
palavras fáceis e abrangentes no intuito de convencer com simplicidade. Para eles,
de maneira simplória, todas as doenças são "desequilíbrios", e qualquer coisa que o
profissional alternativo faça será no sentido de recuperar esse "equilíbrio".
EZ: Hoje em dia, vemos mais e mais esotéricos comentando sobre Física Quântica.
A que se deve isso?
LA: É uma questão de paradigma... Agora é “moda” dizer que algo foi comprovado pela
ciência e/ou tem fundamentos científicos e quando isso acontece indica que o assunto
é digno de ser estudado, aceito. Esse é o ponto chave para compreender o fenômeno
da Física Quântica ter virado “vedete” esotérica: é um ramo da ciência que cai como
uma luva para essa linha de argumentação: pouco conhecido, explora um mundo
invisível, baseia-se em princípios como a dualidade onda-partícula, que dá a entender
que há a necessidade de um observador para que algo possa ser tomado como material
ou uma simples emissão ondulatória...
EZ: Mas a Física Quântica, ou melhor, a Mecânica Quântica foi desenvolvida para a
aplicação no mundo subatômico. De que forma, então, os esotéricos podem fundamentar
suas teses nela?
LA: Bem, a base da argumentação esotérica fundamenta-se num ponto bastante
interessante: a realidade é criada conforme a crença pessoal. Tem a ver com a forma
como os orientais, leia-se culturas como a Hindu, compreendem a realidade. Têm-na
como resultado da vivência do indivíduo, como resultado de seus atos. É o conceito
de karma: ações que desencadeiam outras ações e que determinam a maneira como a
realidade vai sendo composta a partir disso. Esse conceito de que o indivíduo determina
de que forma a realidade será vivida, tem um grande “peso” para que haja a escolha
da Física Quântica como a “panacéia-explica-tudo”. Quem se utiliza dela, lê em seus
postulados que a matéria é resultado de “energia com propriedades de partículas”,
que a luz pode ser vista como feixes de partículas ou ondulações de acordo com o
“observador” e de repente está tudo explicado: há a necessidade de um observador
e esta necessidade vai ao encontro das crenças esotéricas... MAS esquecem-se de
que o papel do “observador” na FQ é determinado na maneira como os experimentos
serão levados adiante. Se encarados como experimentos visando as características
“particulares” do mundo sub-atômico, utilizam-se certos tipos de instrumentos; se em
outros casos as emissões são consideradas, utilizam-se os recursos de ondulatória...
“ Átomos podem ser ocos, podemos estar vivendo num mundo
criado a partir de porções de “nada” ordenadas...
mas nada disso descaracteriza a matéria como existente.”
EZ: E o colapso da Função de Onda?
LA: É a base de alegação esotérica para dizer que a FQ é a confirmação científica
da necessidade do observador para a compreensão dos eventos físicos... Mas
também apresenta erros de interpretação. A FQ, ou Mecânica Quântica, foi criada para o
mundo subatômico. É nesse mundo da malha fina da matéria que tais conceitos
podem e devem ser aplicados de acordo com a Física, não cabendo seus postulados no
mundo físico palpável e visível em que vivemos, uma vez que este é o mundo composto
pelas partículas que já estão definidas e que existem “dentro” da composição das estruturas materiais... Átomos podem ser ocos, podemos estar vivendo num mundo criado a partir de porções de “nada” ordenadas... mas nada disso descaracteriza a matéria como existente, apesar de se conhecer, através das aplicações da Física das Partículas, sua estrutura íntima composta por partículas em constante movimento e em estruturas “ocas” como os átomos...
EZ: E a questão da consciência, explorada por Goswami e outros, sob a ótica da FQ ?
LA: Sim, existe a idéia de que se tudo é “energia”, como idealizam estar postulado na FQ,
então poderia existir uma estrutura para a consciência e outras “emanações” imateriais
de que aparentemente dispomos e/ou sofremos as conseqüências diretas ou indiretas.
A questão é como conciliar estes conceitos sem cair na tentação de entrar na porta
esotérica sem bater, ou permitir que a Física sofra a interpretação de seus conceitos
sob a ótica esotérica a partir da distorção dos mesmos com uma perda considerável para
ambas as maneiras de interpretação... A menos que se prove convenientemente
que a estrutura da matéria sofre a intervenção direta da mente e consequentemente
da consciência que interpreta os eventos do mundo material, não se pode interpretar
a realidade sob o aspecto de estar sendo “gerada” a partir do indivíduo que a observe e
que com isso escolha os eventos que deverão fazer parte de sua história pessoal.
Esotericamente é justamente isto que acontece, mas não há nada que valide a idéia da
FQ vir ao encontro dessa maneira de interpretar. Juntar tudo num mesmo balaio, só
complica sem explicar nada, gerando situações incômodas... como a de um sujeito
qualquer alegar que precisou estudar Física Quântica para compreender de que forma os
feitiços e rituais mágicos funcionam e isso ser “prova” de sua “riqueza espiritual”...