CETICISMOABERTO

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#06 - 01 de junho de 2004

                              CETICISMOABERTO                           

"Eles vieram com uma Bíblia e sua religião, roubaram nossa terra,

esmagaram nosso espírito... e agora nos dizem

que devemos ser agradecidos ao 'Senhor' por sermos salvos."
 

Chefe Pontiac, Indígena Americano

 

 
 

PARABÓLICA 
 

O éter luminífero: Se você nunca ouviu falar do "éter luminífero", é porque
em 2005 terão se passado 100 anos desde que este conceito foi abandonado
pela ciência. Suas raízes remontam à Grécia Antiga, e durante séculos os cien-
tistas que aceitaram sua existência como lógica e necessária se desdobraram
em explicações para um pequeno detalhe: ninguém nunca detectou realmente
 
 
Avaliando os antidepressivos direto no cérebro: Um arquiteto de 44 anos
sofreu de impotência e distúrbios gastrointestinais enquanto tentava, por mais de
dois anos, descobrir qual o melhor remédio para tratar sua depressão. Mas seu
próprio cérebro poderia oferecer a resposta.
Atenção: esta página instala o spyware "Double Click. É necessário um anti-spy.
 
 
A máquina de crenças: O nosso cérebro e o nosso sistema nervoso constituem
uma máquina geradora de crenças, um sistema que evolui não para garantir a
verdade, a lógica e a razão, mas a sobrevivência. Pesquisas atrás de pesquisas
mostram que a imensa maioria da população acredita na realidade dos fenômenos
"ocultos", "paranormais" ou "sobrernaturais". E por que isso acontece? Por que é
que nesta época altamente científica e tecnológica a superstição e a irracionalidade
 
 

DICAS 

Ceticismo Filosófico: O livro reúne nove ensaios sobre o Ceticismo, abordando
filósofos desde a Antiguidade Grega até o século XX. Cada ensaio concentra-se
em um autor ou tópico específico. Reúne rigorosas e originais análises históricas
dirigidas ao especialista, porém com uma linguagem fluente e acessível ao leigo. 
Autor: Plínio Junqueira Smith. Editora E.P.U. Preço R$44,00 no site
http://www.epu.com.br/detalhes.asp?codigo=731
 
 

INTERZINE
 

Interzine conversa com Wellington Zangari, psicólogo, pós-graduado
em Psicanálise, Mestre em Ciências da Religião pela PUC-SP e Doutor em Psicologia
pelo Instituto de Psicologia da USP. Atualmente é pesquisador de experiências
psicológicas anômalas, em nível de pós-doutoramento.
 
É um dos coordenadores do portal www.pesquisapsi.com e do Inter Psi da PUC-SP
(www.pesquisapsi.com/interpsi). Membro Pleno da Parapsychological Association,
membro afiliado da Parapsychology Foundation, pesquisador do Laboratório de
Estudos em Psicologia Social da Religião e do Laboratório de Estudos e Pesquisas
dos Potenciais Humanos, ambos do Instituto de Psicologia da USP. 
 
Autor de livros e artigos publicados em português, espanhol e inglês, em revistas
especializadas em Pesquisa Psi. Ilusionista, pela Academia Brasileira de Arte Mágica,
ex-membro do Misdirection e do GEMA: Grupo de Estudos Mágicos.
 
Nossos leitores nos desculpem se desperdiçamos o Zangari, mas o assunto de nossa
entrevista é Mágica!!!
 
 
EZ: Em suas palestras, você apresenta números de ilusionismo. Qual o propósito
destas apresentações?
 
WZ: Sou mágico amador. Não cobro pelas apresentações de mágica, nem pelas
conferências em que incluo números de mágica. Assim, não exerço ilegalmente
a profissão de mágico, regulamentada por lei no Brasil. Apresento números de mágica
para dois públicos distintos: o público de leigos em Pesquisa Psi e para os pesquisadores
psi. Para os primeiros, uso números de mágica sempre no início de minhas conferências,
para demonstrar como é simples que sejamos enganados, como é simples que nossa
atenção seja desviada. Meu objetivo é que essas pessoas se choquem com a experiência
de serem iludidas, que despertem para que não sejam enganadas por charlatães, por
falsos profetas, por pseudoparanormais. Se estou fazendo uma apresentação para
pesquisadores de psi, meu objetivo é despertá-los para a necessidade de incluir
salva-guardas contra a fraude em seus estudos, sobretudo os de casos espontâneos,
como "poltergeist". Assim, o estudo de Artes Mágica é uma ferramenta metodológica
importante para quem se dedica ao estudo científico de psi. Afinal, a fraude é a
primeira hiopótese a ser excluída.
 
 
EZ: A máxima "um mágico não engana outro" é verdadeira?
 
WZ: Não! A cada vez que participo de um encontro de mágicos, sou surpreendido com
números que não consigo explicar. Os mágicos produzem "efeitos mágicos".  Um efeito
mágico é exatamente aquele que desafia a lógica. Quanto mais buscamos por uma
lógica convencional, mais nos afastamos de sua compreensão. Mas, ao mesmo tempo,
enquanto mágico, sei que por trás de um "efeito mágico", existe uma explicação técnica,
cuja lógica nem sempre ( de fato, quase nunca ) tem a ver com o que foi apresentado.
Tenho feito apresentações para mágicos, para pesquisadores psi e para céticos que
conhecem Arte Mágica e é freqüente que eles suspeitem de um princípio técnico, que
procurem testá-lo, como se eu fosse uma "cobaia", e que não consigam descobrir a
técnica que empreguei. Reconhecer que isso ocorre deve nos fazer aumentar ainda
mais a vigilância em torno daqueles que se dizem possuidores de "dons", de "poderes",
de "fenômenos paranormais". Nunca encontrei até hoje, depois de 28 anos de estudos, 
ninguém capaz de controlar tais alegadas capacidades.
 
 
EZ: Que tipos de truque você faz?
 
WZ: Basicamente, sou um Mentalista. O mentalismo é a especialidade da Arte Mágica
que tem por objetivo a reprodução de efeitos ditos parapsicológicos. Dentre os meus
números, incluo vários tipos de "leitura de pensamento", de "telepatia", de "clarividência"
e, principalmente, de "precognição". Nessa última modalidade, uso o próprio baralho Zener
(ou baralho ESP), ou baralhos convencionais para realizar os números. Outra classe de
efeitos são os de tipo físico, que imitam as alegações de psicocinesia. Nessa modalidade,
incluo o movimento de bússolas, a levitação de objetos, a interpenetração de corpos,
faço notas de reais se transformarem em notas de dólares e até como moedas!
Especificamente, os números que faço e que mais chamam a atenção da platéia são
a movimentação dos ponteiros dos relógios dos próprios assistentes e o entortamento
de metais, como talheres e pregos. Pessoalmente, o que mais gosto de executar é um
número simples, em que uso dois elásticos de dinheiro. O efeito é o seguinte: cada um
deles está preso pelos polegares e indicadores de cada mão, mas de maneira que estejam
como dois elos de uma corrente, fechados. De repente assopro e os elos se soltam,
mas continuam presos aos polegares e indicadores!
 
 
Uma vez, uma senhora me disse: você é um iluminado!
Mas não vou revelar a ninguém que você é um grande paranormal.
Afirmei que tudo era truque, mas não houve jeito.
 
 
 
EZ: Qual a reação da platéia ao ver um pesquisador psi dar um show de mágica?
 
WZ: Há três momentos identificáveis. O primeiro, quando o efeito é produzido: o do
espanto. O segundo, quando digo que o que fiz foram números de mágica: o da decepção
para muitos. E o terceiro, quando muitas pessoas simplesmente se recusam a acreditar
que o efeito foi produzido por uma técnica da Arte Mágica: o da decepção do pesquisor!
É claro que a maioria das pessoas compreende perfeitamente o objetivo e reconhece
a importância de termos os olhos sempre abertos contra o charlatanismo. Mas, para meu
espanto, há pessoas que preferem acreditar nas explicações menos lógicas. Uma vez, uma
educada senhora chamou-me ao final da conferência e me disse: "Muito bem, filho. Você
fez bem de não dizer a verdade para o público. Ele não está preparado para essa revolução
da consciência. Mas eu sei que você é um grande iluminado". Diante dessa declaração,
reafirmei se tratar de um "truque", mas não houve jeito. A simpática senhora, sorrindo
e como que cochichando me disse: "Sim, sim, sim, eu sei que é possível fazer desse jeito
também. Mas, não precisa se preocupar, não vou revelar a ninguém que você é um
verdadeiro paranormal".
 
 
EZ: Qual a relação que você faz entre mágica e "pensamento crítico"?
 
WZ: Aprender mágica exige que compreendamos que por trás do que desconhecemos
ou do que aparentemente é misterioso, como um número de mágica, existe uma
interpretação racional. Podemos nos resignar com a aparência e estaremos nos afastando
da verdade. Podemos oferecer uma intepretação mágica, supersticiosa, religiosa para um
efeito natural e, novamente, estaremos nos afastando da verdade. Essa postura deve
ser a mesma que temos em relação a qualquer fato cuja natureza nos seja desconhecida.
Ter uma atitude crítica é não aceitar nem a resignação, nem a explicação fácil e sem
demonstração. Aprendendo Arte Mágica somos instrumentalizados a desconfiar com
"conhecimento de causa": sei que esse fulano está dizendo que é paranormal, mas
conheço várias formas de fazer o que ele faz por meio de técnicas da Arte Mágica.
Obviamente, essa desconfiança não pode ser exagerada e se tornar impedimento de
observar algo novo, ou seja, não podemos transformar essa desconfiança em negação
apriorística. Pensar criticamente é não engolir qualquer alegação como se fosse verdadeira,
é uma defesa contra a "paranormofilia". Cunhei esse termo, horrível mas útil, para me referir
à tendência de certas pessoas a interpretarem tudo como algo "paranormal", tal qual
aquela senhora em minha conferência.
 
 
EZ: Em relação às crianças, você é favorável a que elas acreditem em mágica ou
os pais devem explicar que se trata de um truque, uma brincadeira?
 
WZ: Como psicólogo, sei que as crianças compreenderão qualquer elemento da realidade
de maneira mágica até mais ou menos os 5-7 anos de idade. Até esta idade, o ser
humano simplesmente não tem condições cognitivas e cerebrais para reconhecer
realidades qualitativamente mais abstratas, tendendo a oferecer interpretações
mágicas e antropomórficas. Mas também sei que é dever dos pais mostrar à criança os
aspectos da realidade que elas ainda não compreendem. Caso contrário, elas podem
jamais superar esse pensamento mágico, operando simultaneamente de maneira abstrata
para certas realidades e de maneira concreta para outras. Assim, os pais devem mostrar
à criança que um número de mágica tem um princípio natural, até mesmo ensinando
truques para ela. Com isso, a criança poderá se apropriar dessa concepção fundamental:
a de que há um processo natural por trás do que vemos, ainda que nos seja
desconhecido. A mágica deve ser encarada e transmitida no que ela de fato é:
um entretenimento maravilhoso, por trás do qual há muito de ciência e de arte.
 

Editado por Marcelo Druyan - Sugestões e dicas para bhzmarcelo@hotmail.com
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