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As Irmãs Fox – O Que os Céticos Não Contam
Vitor Moura
Este texto é oferecido como um ponto de vista diferente,
frisando o ceticismo aberto
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Em quase todos as fontes céticas, é dito que o
espiritualismo começou com uma fraude: a fraude das irmãs Fox. Podemos encontrar
tal versão repetida em diversos números da Skeptical Inquirer, bastando acessar
os artigos disponíveis no site
http://www.csicop.org/cgi-bin/search/search.cgi?q=fox+sisters
No artigo Talking to Heaven by James Van Praagh; Book review (Skeptical Inquirer
July 1998) é dito:
“Como muitos céticos sabem, o que foi fundado em 1848 era uma fraude.
Espiritualismo começou no estado de Nova Iorque com as batidas e alegações de
contato com espíritos por duas garotas adolescentes conhecidas como Irmãs Fox..
Assim que a performance das jovens garotes ganharam atenção internacional,
prontamente alegações similares por médiuns cruzaram o mundo.Somente quarenta
anos depois, com sua irmã Katie observando, Margareth Fox publicamente
demonstrou os truques que as estudantes haviam usado na pretensão de se
comunicar com um fantasma.”
No artigo APS Session Examines Pseudoscience; The New Paranatural Paradigm
(Skeptical Inquirer, July 2000) é dito :
“Começando com as irmãs Fox em 1848, todo o tipo de relatos de aparições,
fantasmas, batidas, mesas girantes, teleportação, levitação e a invocação dos
mortos nas sessões foram soterrados. Todos esses hoaxes descobriu-se não ser
nada mais notável ou misterioso do que do que bater de junções do dedo do pé, de
pés, de joelhos e de outros truques bobos.”
No artigo Paranatural Paradigm; Communicating with the Dead (Skeptical Inquirer
November 2000) é dito :
“Um comitê de doutores médicos na Universidade do Búfalo testou as irmãs Fox em
1851 e atribuiu suas batidas a rachar de seus juntas do dedo do pé ou do joelho
de encontro a um assoalho ou a uma armação da cama de madeira. Os médicos
fizeram uma experiência controlada colocando os pés das garotas em travesseiros,
e nada aconteceu. O grande físico Michael Faraday investigou as mesas girantes
(1852) descobriu que era devido à pressão exercida pelos dedos dos presentes (se
voluntariamente ou involuntariamente). O senhor Walter Crookes investigou os
médiuns mais poderosos daqueles dias, D. D. Home (1871) e Florence Cook (1873),
e pensou de que tinham habilidades especiais de mediunidade – os críticos
acreditam que foram trapaceados por ambos (Hall 1962, 1984)."
O autor deste artigo poderia citar mais, mas crê que a amostra seja suficiente.
Basicamente, os céticos usam unicamente a confissão de fraude de Margareth para
dizer que o Espiritualismo começou com uma fraude, mas se esquecem de dizer que
Margareth desmentiu a confissão e que a própria confissão possui erros crassos.
O último artigo cita algo de mais substancial: um teste na Universidade do
Búfalo feito em 1851. Analisemos cada uma dessas ‘provas’ de fraude, antes,
porém, contando um pouco mais da história das meninas e de Hydesville.
QUANDO COMEÇARAM AS BATIDAS?
Em primeiro lugar, é preciso dizer que os fenômenos que assombravam Hydesville
já haviam começado antes da chegada das meninas.
A mãe de Lucretia, sr.ª Ann Pulver, que mantinha relações com a família Bell,
relata que, em 1844, quando visitara a sr.ª Bell, indo fazer tricot em sua
companhia, ouvira desta uma queixa. Disse-lhe que se sentia mal e quase não
dormira à noite. Quando lhe perguntou qual a causa, a sr.ª Bell declarou que se
tratava de rumores inexplicáveis; parecera-lhe ter ouvido alguém a andar de um
quarto para o outro; acordou o marido e fê-lo levantar-se para trancar as
janelas. A princípio tentou afirmar à sr.ª Pulver que possivelmente se tratasse
de ratos. Posteriormente, confessou não saber qual a razão de tais rumores, para
ela inexplicáveis.
A jovem Lucretia Pulver também testemunhou os fenómenos insólitos observados
naquela casa. Eis o seu relato:
“Vivi naquela casa durante um inverno, com a família Bell. Trabalhava para ela
uma parte do dia, e o resto do tempo ia à escola ou bordava. Vivi assim cerca de
três meses. No fim desse período frequentemente ouvia batidas na cama e abaixo
dos pés da mesma. Ouvi uma porção de noites, pois dormia nesse quarto todo o
tempo que lá estive. Uma noite parece-me ter ouvido um homem andando pela
dispensa. Esta peça era separada do quarto pela escada. A senhorita Aurélia
Losey ficou comigo naquela noite; ela também ouviu o barulho e ambas ficámos
muito assustadas; levantámo-nos, fechámos as janelas e trancamos a porta. Parece
que alguém andava pela dispensa, na adega e até no porão, onde o barulho
cessava. Nessa ocasião não havia mais ninguém na casa, excepto o meu irmãozinho,
adormecido no mesmo quarto que nós. Isto foi cerca da meia-noite. Não tínhamos
dormido quando ouvimos o barulho. O sr. e a sr.ª Bell tinham ido a Loch Berlin,
onde ficariam até o dia seguinte”. (Doyle, A.C. - História do Espiritismo, São
Paulo, Pensamento, 1960, pp. 483-484).
Lucretia Pulver em outro testemunho, também diz:
“A Sra. Aurélia Losey ficou comigo naquela noite; ela, também, ouviu o barulho e
ambas ficamos muito assustadas; levantamo-nos e fechamos as janelas e trancamos
a porta. Parece que alguém andava pela despensa, na adega, e até no porão, onde
o barulho cessava.”
Os Bell terminaram por mudar-se daquela casa.
Em 1846, instalou-se ali a família Weekman: sr. Michael Weekman, sr.ª Hannah
Weekman e suas filhas. Alguns dias após se terem alojado na referida casa,
passaram a ser perturbados por ruídos insólitos: batidas na porta de entrada,
sem que ninguém visível o estivesse fazendo; passos de alguém andando na adega,
ou dentro de casa. O casal Weekman foi acordado por uma das suas filhas que
dormia no quarto onde se ouviam batidas. Eis como a sr.ª Hannah relatou este
episódio:
“Algumas noites depois, uma de nossas meninas, que dormia no quarto onde agora
são ouvidas as batidas, acordou-nos a todos a soluçar.O meu marido, eu e a
empregada, levantamo-nos imediatamente para ver o que se passava. Ela sentou-se
na cama, em pranto, e custou a verificar o que se passava. Disse ela que algo se
movimentava acima de sua cabeça e que ela sentia um frio sem saber o que era.
Disse havê-lo sentido sobre o corpo todo, mas que ficara mais alarmada ao
senti-lo sobre o rosto. Estava muito assustada. Isto passou-se entre meia-noite
e uma hora. Ela levantou-se e foi para nossa cama, mas custou muito a adormecer.
Só depois de muitos dias conseguimos que fosse dormir na sua cama. Tinha ela
então oito anos”. (Doyle, A.C. - História do Espiritismo, São Paulo, Pensamento,
1960, pp. 484-485).
Conan Doyle em seu livro “História do Espiritismo” cita o testemunho da
ex-inquilina Hannah Weeckman, do qual extraio o seguinte trecho:
“Meu marido, eu e a empregada nos levantamos imediatamente para ver o que se
passava. Ela sentou-se na cama em prantos e nós custávamos a verificar o que se
passava. Disse ela que algo se movimentava acima de sua cabeça e que sentia um
frio sem saber o que era. Disse havê-lo sentido sobre ela toda, mas que ficara
mais alarmada ao senti-lo sobre o rosto.”
A família Weekman, como se esperava, não permaneceu muito tempo naquela casa
sinistra. Em fins de 1847 deixou-a vaga, saindo de lá definitivamente.
Desse modo, atingimos a data de 11 de Dezembro de 1847, quando a referida casa
passou a ser ocupada pela família Fox
Fica assim provado então que as batidas não eram causadas inicialmente pelas
Fox.
ONDE NASCERAM AS FOX?
Ao contrário do que se julga no Brasil e no estrangeiro, as irmãs Fox não eram
norte-americanas.Os Arquivos Históricos da Cidade de Nova Iorque atestam que a
médium Margareth Fox nascera em Bath, uma vila próxima da cidade de Kingston, na
província de Ontário, no dia 7 de outubro de 1833. Era ela, pois, canadense como
seus irmãos (seis ao todo, contando David, o único varão). Os fenômenos
mediúnicos só começaram a se produzir alguns meses depois de chegarem à aldeia
de Hydesville. Margareth Fox tinha, então, catorze anos de idade e Katerine, a
mais nova dos irmãos, onze. A terceira irmã, de nome Leah, também depoente
importante instalou-se em Rochester, cidade nova na época e que dista uns trinta
quilômetros de Hydesville. Era ela vinte e três anos mais velha que Margareth e
lecionava piano.
O INÍCIO DO FENÔMENO COM AS FOX
Os primeiros ruídos eram espaçados e John Fox os atribuía a dois fatos – a casa
era de madeira e na adega havia ratos. Mas, na noite de 31 de março foram
ouvidos com maior intensidade por toda a casa e, no dizer da própria Sra. Fox,
“produziam um certo movimento nas camas e cadeiras, a ponto de notarmos quando
deitadas”. O pastor John Fox, acreditando que alguém estivesse a pilheriar
consigo, saiu pé ante pé e examinou a casa pelo lado de fora e, depois,
intrigado, os compartimentos – cantos e paredes. Tudo normal, mas os ruídos
prosseguiram e todos podiam ouvir, inclusive, passos. Como não era a primeira
vez que o fato acontecia (sem causar nenhum dano, aliás) a menina Kate, de onze
anos de idade, disse:
- Fazei como eu! Imitai-me!
E bateu um certo número de palmas. O Espírito fez soar na parede o mesmo número
de pancadas.
Estabelecera-se assim, a telegrafia espiritual A Sra. Fox, então, tendo ao lado
seu marido, pediu ao visitante dissesse a idade de cada um de seus filhos. O
resultado do teste espantou a todos.Batidas se fizeram ouvir, fazendo o Espírito
uma pausa entre uma idade e outra.
- É um ser humano quem conversa comigo? –insistiu a Sra. Fox.
Silêncio angustiante.
- Será, então, um Espírito?
Batidas fortes repercutiram por toda a casa.
- Se for o Espírito de um assassinado dê duas pancadas.
Duas pancadas foram dadas.
- O crime foi cometido nesta casa?
Novas pancadas ecoaram.
- Se eu chamar os vizinhos para que também escutem continuará a bater?
Resposta afirmativa. John Fox, rápido, foi buscar a Sra. Redfield, que morava
próximo. As batidas continuavam. A Sra. Redfield fez um novo teste; perguntou
que idade tinha ela e, surpresa, obteve do Espírito a resposta correta. Em
seguida, entrou na casa o casal Duesler e informações foram conseguidas através
de um código – a letra A correspondia a uma pancada, a B a duas, e assim por
diante.
O Espírito se chamava Charles B. Rosma; fora mascate; seu assassino chamava-se
Bell, antigo morador daquela casa; assassinara-o para roubar quinhentos dólares,
com uma faca de açougueiro, dando-lhe um golpe na garganta; o corpo fora levado
à adega e, na noite seguinte, enterrado, ali mesmo.
Aos poucos foi formada à porta da residência de John Fox uma fila com mais de
trezentas pessoas e o Espírito Charles Rosma, pacientemente, deu provas de sua
presença. No dia seguinte, as primeiras escavações foram feitas e descobriram-se
ossos e cabelos. E, longo tempo depois, encontrou-se um esqueleto humano ao lado
de uma lata de mascate.
O NOME DO MASCATE
Referente ao nome do mascate, Doyle assim aborda a questão:
“Há um ou dois pontos que merecem discussão. O primeiro é que um homem com um
nome tão notável como Charles B. Rosma jamais foi citado, apesar da publicidade
que o caso mereceu. Então a coisa teria tido uma enorme objeção, embora, com os
nossos conhecimentos atuais, possamos avaliar quanto é difícil nas mensagens ter
os nomes corretos. Aparentemente um nome é puramente convencional e, como tal,
difere muito de uma idéia.. Todo espírita praticante tem recebido mensagens
corretas, com os nomes trocados. É possível que o verdadeiro nome fosse Ross, ou
mesmo Rosner, e que esse erro tivesse possibilitado a identificação.”
De fato, encontramos na literatura sobre o assunto diversos casos em que os
espíritos não apresentam seus verdadeiros nomes para evitar constrangimentos à
família. Há ainda a possibilidade de Rosma não ter dado seu nome verdadeiro para
evitar que seu assassino fosse para a cadeia. Seja qual fosse o objetivo de sua
manifestação (talvez apenas que sua história não passasse em branco), não seria
vingança, porque à pergunta sobre se o assassino podia ser punido pela lei, se
podia ser levado ao Tribunal, nenhuma resposta foi dada.
Há mais problemas quanto à identificação do nome do mascate. Gabriel Dellanne,
em sua obra “O Espiritismo perante a Ciência”, diz que o nome do mascate era
Charles Ryan, no entanto o autor deste artigo já encontrou outros nomes para o
mascate, como Joseph Ryan e Charles Haynes.
Rene Caillié, Vice presidente da sociedade de estudos psicológicos de Paris, num
resumo feito da obra de Roustaing, em 1884, faz uma citação da obra de Eugene
Nus, Choses de l’autre monde, que informa que o nome do mascate era Charles
Rosna.
Uma abordagem sobre as fontes bibliográficas será apresentada na conclusão deste
artigo.
O CORINTHIAN HALL
A apresentação pública da mediunidade das irmãs Fox verificou-se no dia 14 de
novembro, vinte meses após a turbulenta noite em Hydesville. A sessão foi aberta
com um discurso do escritor W. Capron. Mas já se havia formado uma comissão para
desmascarar os “possíveis fenômenos”. O discurso inicial foi ouvido em silêncio,
mas quando os componentes da comissão proclamaram que “não puderam encontrar
nenhum processo pelo qual as foram as batidas produzidas” no soalho, portas e
paredes, teto, provocando uma forte vibração, o público rebelou-se. E exigiu
nova comissão, que foi formada pelos mais rebeldes.Dela fez parte o Dr.
Langworthy, a fim de examinar se as batidas eram produzidas pela
ventriloquia...O relatório favorável às Fox exaltou, ainda mais, os ânimos. E
foi constituída uma terceira comissão. Aventada a hipótese de que as médiuns
poderiam ocultar algo no corpo, Leah, - já uma mulher de trinta anos, e suas
duas irmãzinhas foram postas nuas e examinadas por três senhoras. Nada foi
encontrado, mas as batidas repercutiram, violentas, no chão e nas paredes. Nesse
dia até perguntas mentais formuladas pela comissão foram respondidas.
Alfred Russel Wallace escreveu sobre a pesquisa psíquica em sua época. Wallace
dispensa apresentações. No seu trabalho intitulado "A Defense of Modern
Spiritualism" ele apresenta os relatos sobre pesquisas com as irmãs Fox a que
ele teve acesso. Na página 154 ele cita textualmente os relatórios da
investigação no Corinthian Hall onde se lê:
“eles ouviram sons e falharam totalmente em descobrir sua origem. Eles provaram
que nenhum maquinário ou impostura havia sido usado; e suas questões, muitas
delas sendo mentais, foram corretamente respondidas.”
Se responder perguntas mentais feitas pela comissão não são fortes indícios da
existência de elementos paranormais, não sei o que seria.
No livro de Emma Hardinge, Modern American spiritualism: a twenty years' record
of the communion between earth and the world of spirits, encontramos, além do
fato acima descrito:
“Um do comitê colocou uma de suas mãos em cima dos pés das senhoras e a outra no
assoalho, e embora os pés não tivessem se movido houve uma vibração distinta no
assoalho. No pavimento e no chão os mesmos sons foram ouvidos.”
Fica provado, portanto, que as batidas não eram causadas pelos dedões dos pés.
A UNIVERSIDADE DE BÚFALO
Sobre este episódio, assim fala Conan Doyle na página 91 de seu livro “História
do Espiritismo”:
“De tempos em tempo foram feitas tentativas para expor os fenômenos. Em
fevereiro de 1851, o dr. Austin Flint, o dr. Charles A. Lee, e o dr. C. B.
Coventry, da Univerisdade de Buffalo, publicaram um trabalho (Capron: Modern
Spiritualism, etc. págs. 310-313) mostrando com satisfação que os ruídos
verificados em presença das Irmãs Fox eram causados por estalos das juntas dos
joelhos. Isto provocou uma resposta característica na imprensa, assinada por
Mrs. Fish e Margaret Fox, assim dirigida aos três autores:
“Como não desejamos ficar sob a imputação de impostoras, estamos dispostas a
submeter-nos a uma adequada e decente investigação, desde que possamos escolher
três senhores e três senhoras de nossa amizade, que esteja, presentes aos
trabalhos. Podemos assegurar ao público que ninguém está mais interessado na
descoberta da origem dessas misteriosas manifestações. Se elas podem ser
explicadas pelos princípios da anatomia ou de fisiologia, cabe ao mundo fazer a
sua investigação e que seja descoberta a mistificação. Como parece haver muito
interesse manifestado pelo público sobre esse assunto, quanto mais cedo for
convenientemente esclarecido, mais depressa a investigação será aceita pelas
abaixo-assinadas.
ANN L. FISH
MARGARETH FOX”
A investigação foi feita, mas os resultados foram negativos (ou seja, ao
contrário do que o artigo cético diz, não se descobriu a causa das batidas).
Numa nota em apêndice ao relatório do doutor, publicado no New York Tribune, o
editor Horace Greeley observa:
“Como foi noticiado em nossas colunas, os doutores começaram admitindo que a
origem das batidas deveria ser física e sua causa primeira uma volição das
senhoras referidas – ou em duas palavras, que essas senhoras eram “as impostoras
de Rochester”. Assim, eles apareceram neste caso como perseguidores numa
acusação e devem ter escolhido outras pessoas como jurados e repórteres de um
crime....É muito provável que tenhamos uma outra versão da história”.
Muitos testemunhos logo apareceram em favor das Irmãs Fox, de modo que o único
defeito da “exposição” do professor foi redobrar o interesse do público pelas
manifestações.”
É necessário ainda dizer que a 1ª investigação não foi feita com as Fox, e sim
com um paciente que conseguia estalar as juntas dos joelhos.
No livro já mencionado de Emma Hardinge, nas págs. 152 a 155, encontramos mais
detalhes referentes aos testes:, mas julgamos que o que já foi apresentado é
suficiente para mostrar que os testes da Universidade de Búfalo não comprovaram
fraude por parte das Fox, e nem conseguiram explicar os fenômenos.
OUTROS FENÔMENOS
A fenomenologia das Fox não se limitaram às batidas. Na página 162 do livro já
citado de Wallace, este volta a tratar dos estudos com Kate Fox. Ele relata uma
pesquisa com uma balança feita por Robert Dale Owen (filho do socialista Robert
Owen) que acusou o levantamento de uma mesa de 121 libras (se meus cálculos
estiverem corretos são 54,88 Kg aproximadamente, algo um tanto pesado para se
erguer estalando músculos da perna). Estando seguras pelos pés e pelos braços
pelos cavalheiros, este peso variou entre 60 e 134
libras. Este experimento é uma réplica de um que foi proposto por Faraday, cujos
trabalhos de eletromagnetismo costumam ser ensinados pelos físicos céticos
contemporâneos a nós.
A seguir ele relata os estudos do Sr. Livermore, que era um banqueiro cético de
Nova Ioque e que, com a presença de testemunhas, tendo feito controles rigorosos
e em quatro localidades distintas, relata a obtenção da materialização de sua
esposa falecida, o movimento de diversos objetos na sala, incluindo flores. (p.
164)
Do livro “Em Busca da Verdade Perdida no Tempo”, de Jorge Rizzini, extraio uma
das sessões realizadas por Livermore:
“Foi em Nova Iorque que Katerine Fox travou conhecimento com o banqueiro
Livermore. A médium tinha, então, vinte e cinco anos de idade. Sua mediunidade,
como a de suas irmãs, estava no apogeu e apresentava impressionantes fenômenos
ectoplásmicos. Livermore procurou-a pelo fato de que sua esposa, Estelle,
durante a agonia prometera que se existisse vida após a morte voltaria a vê-lo.
Era uma promessa vaga, pois, Livermore como Estelle eram materialistas. De
qualquer forma, Livermore foi procurar Katerine Fox, a conselho, aliás, do Dr.
John F. Gray, médico da falecida Estelle.
No espaço de quase seis anos fez Katerine Fox trezentas e oitenta e oito sessões
para Charles F. Livermore! Ele teve, de 23 de janeiro de 1861 a 2 de abril de
1866, as mais notáveis provas de identidade de sua esposa – materializações
parciais e totais de seu Espírito, além da escrita direta (sem contato) com a
letra de Estelle quando viva e em papéis anteriormente rubricados; mensagens em
francês e alemão corretos, línguas desconhecidas pela médium. Sessões em sua
própria casa, só estando presentes na sala ele e Katerine. Porta e janela
lacradas pelo próprio banqueiro.
Impossível dar uma idéia completa do que foram essas 388 sessões. Mas, citemos
uma, pondo em relevo esse detalhe importante – nem sempre Katerine Fox caía em
transe inconsciente e, pois, testemunhava, também, os acontecimentos ao lado do
banqueiro.
A princípio, Estelle materializou, lentamente, a cabeça, depois o corpo inteiro.
Mas ouçamos o próprio Livermore:
“ Após estar absolutamente seguro no que se referia a portas e janelas,
assentamo-nos e esperamos cerca de meia hora. Minha fé ia-se enfraquecendo,
quando fomos sobressaltados ouvindo tremenda pancada na pesada mesa central, de
acajaú, que, então, levantou-se e caiu. A porta foi violentamente abalada; as
janelas abriram-se e fecharam-se; e todos os móveis da sala pareceram mover-se.
As perguntas eram respondidas por fortes pancadas nas portas, nos vidros das
janelas e no teto, por toda a parte.”
“Uma substância luminosa lembrando a gaze (ectoplasma) levantou-se do solo por
detrás de nós, moveu-se pela sala e parou à nossa frente. A gaze luminosa tinha
a aparência de pano que se prendia ao pescoço. Tocou-me, afastou-se e
aproximou-se de novo. Reconheci um corpo oblongo, côncavo do lado voltado para
nós, sendo nessa cavidade a luz muito brilhante. Encarei-a, fixamente, mas não
tinha as feições de uma pessoa. Ela recuou e de novo se aproximou; pude, então,
distinguir um olho. Pela terceira vez ela moveu-se para longe, acompanhada por
uns sons mediúnicos, e quando veio para junto de mim sua luz era mais viva, a
gaze tinha mudado de forma, parecendo segura por mão de mulher, que com ela
escondia a parte inferior do rosto, deixando descoberta a parte superior. Era a
própria Estelle; eram seus olhos, suas feições, sua expressão...”
E Livermore acrescenta:
“A figura reapareceu muitas vezes, tornando-se o seu reconhecimento cada vez
mais perfeito. Depois sua cabeça apoiou-se na minha, caindo-lhe os cabelos sobre
minha face.”
Em uma das atas frisou o banqueiro:
“Segurei nesses cabelos que pelo tacto me pareceram idênticos aos humanos; mas,
depois de algum tempo, eles se dissolveram , nada me deixando na mão”. Nessas
sessões com Livermore aparecia, também, o Espírito Benjamim Franklin, a fim de
ajudar Estelle a materializar-se.”
Em outra sessão, é descrito o fenômeno de xenoglossia. Extraímos esse episódio
do livro de Ernesto Bozzano, que trata especificamente deste fenômeno:
“Referirei um só episódio do gênero, tomando-o às clássicas e sabidíssimas
experiências do banqueiro norte-americano F. Livermore, com a médium Kate Fox,
experiências em que a defunta esposa do experimentador se materializou e
escreveu repetidas vezes, entre outras coisas, longas mensagens ao marido, na
língua francesa. Advirto que, no episódio a que me reporto, o relator esqueceu
de repetir a sua habitual informação de que se trata de uma mensagem dada em
francês.
Livermore experimentava em seu próprio gabinete, quase sempre a sós com a
médium, cujas mãos ambas mantinha constantemente seguras pelas suas,
produzindo-se os fenômenos à claridade suficiente de globos luminosos, de origem
mediúnica.
A narrativa do episódio transcrevo-a do copioso resumo que dos relatos originais
de Livermore dez Epes Sargent, no livro: “Planchette, The Despair of Science”,
pág. 62. Refere Livermore:
Agosto, 18, de 1861. (8 horas da noite) – Presentes a médium e eu. Atmosfera
cálida e pesada. Como sempre, examinei cuidadosamente o aposento, fechei a porta
com duas voltas de fechadura, pus a chave no bolso e me dispus a inteirar-me de
tudo.
Após cerca de meia hora de tranqüila expectativa, vimos surgir do solo volumosa
luz esferoidal, envolta em véus, a qual, depois de se elevar ao nível das nossas
frontes, foi pousar sobre a mesa....
Atravessou-me a mente a idéia de que aquela reunião fora concertada com fins
especiais e que, portanto, eu não devia esperar manifestações da parte de minha
mulher. Mal me acudira ao cérebro esse pensamento, vi a luz elevar-se, tornar-se
brilhante, ao mesmo tempo que diante de mim aparecia uma cabeça coberta por uma
coifa branca, ornada, em volta, de fitas e rendas. Era uma cabeça destituída de
semblante, pelo que perguntei qual o significado daquela manifestação. Por meio
de pancadas, foi-me respondido: “Como quando estava enferma”. Então, compreendi!
A coifa que eu via era reprodução exata de outra, que minha mulher usou durante
a enfermidade que a extinguiu!....
Levara comigo algumas folhas de papel maiores que as usuais, diferentes em tudo
das que empregara anteriormente, e às quais apusera sinais particulares.
Coloquei-as sobre a mesa, donde alguns minutos depois foram tiradas, para
reaparecerem próximas do chão, a três ou quatro polegadas do tapete. Não me era
dado ver de modo preciso o que ocorria, porque a luz apenas iluminava
brilhantemente a superfície da folha de papel sobreposta às outras, irradiando
para os lados até três ou quatro polegadas de distância; ou, mais exatamente,
porque só a folha de papel formava centro de luz espirítica, medindo um pé de
diâmetro todo o espaço iluminado. De súbito, sobre aquela folha de papel pousou
uma mão imperfeitamente conformada, segurando entre os dedos a minha pequenina
lapiseira de prata, e entrou a mover-se horizontalmente por cima do papel, da
esquerda para a direita, à guisa de quem escreve. Quando chegava ao extremo de
uma linha, voltava atrás e principiava outra. Fomos exortados a não observar com
muita insistência o fenômeno, a faze-lo por poucos instantes cada vez, a fim de
não perturbarmos com o nosso olhar a força em ação. Como o fenômeno durou quase
uma hora, essa advertência não obstou às nossas observações. Apenas, durante
curto tempo, a mão que escrevia se mostrou normalmente conformada, reduzindo-se
depois a uma amálgama de substância escura, de proporções menores do que as de
uma mão comum. Continuava, todavia, a dirigir o lápis e, quando chegou à borda
inferior da folha de papel, virou-a e prosseguiu, escrevendo do outro lado, a
partir do alto. Terminada a manifestação, as folhas que eu fornecera, por mim
assinaladas, me foram entregues, cobertas, dos dois lados, de finíssima
caligrafia... Parece claro que, nas circunstâncias descritas, não havia
possibilidade de engano, desde que se atente em que às minhas mãos estavam
presas às duas mãos da médium; em que a porta fôra fechada a chave, achando-se
esta em meu bolso, e que eu tomara previamente todas as possíveis medidas de
precaução.
Como se vê, o banqueiro Livermore sabia premunir-se contra as possibilidades de
equívoco. Mas, de todas as medidas que tomou com esse escopo, uma há que vale
por si só para excluir qualquer sorte de fraude, a de ter constantemente ambas
as mãos da médium seguras pelas suas. Evidente se faz que, em tais condições, a
fraude é impossível, sobretudo se se considerar que ele experimentava em sua
casa e que os fenômenos se produziam a uma luz suficiente, as mais das vezes de
origem mediúnica, algumas, porém, de origem terrena, dada por uma vela de cera,
ou por uma lanterna de vidros opacos.
Farei notar que as medidas de controle acima enumeradas tiveram a confirma-las o
testemunho de quatro outros investigadores ocasionais, entre eles o Dr. Gray e o
céptico Sr. Grote.
Do ponto de vista em que nos colocamos, poder-se-ia objetar que a língua
francesa é muitíssimo e universalmente conhecida, para constituir boa prova de
“xenoglossia”. Julgo, porém, infundada essa objeção, porque, ignorando
totalmente a médium, como ignorava, a língua francesa (do que ninguém pode
duvidar, tendo em conta suas origens humildes numa aldeia norte-americana ), o
fenômeno poderá impressionar menos do que outro em língua chinesa, árabe ou
turca, mas, praticamente, tem o mesmo valor. Além disso, importa não esquecer
que , desta vez, não era a médium quem escrevia numa língua que ignorava, porém,
uma mão materializada, distante dela um metro, visível á claridade de uma luz,
além disso mal conformada e que, por fim, se reduziu a um pequeno amálgama de
substância fluídica, importante transformação fenomênica esta, por não poder ser
imitada fraudulentamente. Essas modalidades de exteriorização da mensagem, numa
língua que a médium ignorava, aumentam o valor teórico do fenômeno em si mesmo,
indicando de modo claro a sua gênese espirítica. “
Encontram-se descrições detalhadas das sessões que Robert Dale Owen assistiu com
as Fox (incluindo Leah Fox, cujo sobrenome de casada é Underhill) no livro
"Região em Litígio entre Este Mundo e o Outro", publicado pela FEB. Na página
314 encontra-se um relato de escrita direta que teve como médium Kate Fox. Na
página 331 ele descreve uma sessão de raps à luz de gás com Leah. Nas páginas
402-406 há um relato de materialização nas sessões da Sra. Underhill de um
espírito que conversa com os presentes.
Extraímos do livro de Rizzini algumas dessas sessões :
“Leah já era esposa do Dr. Daniel Underwill, magnata de seguros, em Wall Street.
Uma dessas experiências foi realizada na praia de Long Island Sound, quando a
médium, a pedido de Owen provocou batidas no interior de um enorme rochedo.
Conta Dale Owen em seu livro “Região em Litígio Entre Este Mundo e o Outro”
(pág. 288, edição da FEB):
“...e eu, buscando a parte mais baixa do rochedo, apliquei o ouvido contra o
solo e, dentro de poucos segundos, os golpes foram ouvidos, como vindos do
interior da própria substância da rocha, abaixo do meu ouvido. Busquei verificar
o fato pelo tacto, e colocando a mão no solo, a uma distância de poucos pés do
lugar em que se achava a Sra. Underwill, ouvi os ruídos e ao mesmo tempo senti,
a cada golpe, uma ligeira mas bem distinta vibração, ou estremecimento do
rochedo.”
Leah, como suas irmãs mais novas, durante a fenomenologia ficava totalmente
consciente, mesmo nas sessões de materialização. Era, a um só tempo, médium e
observadora.
Leia-se este relato do próprio Dale Owen:
“Depois de algum tempo, vi a figura (ectoplásmica) passar por detrás da Sra.
Underwill e conservar-se, por alguns minutos, junto de seu marido; em seguida,
veio colocar-se à minha esquerda. Pude ver o contorno da cabeça e da face, mas,
ainda como anteriormente, ela estava coberta com um véu que lhe não deixava
perceber as feições. Contudo, vi alguma coisa, não observada antes, semelhantes
a tranças de cabelos negros, caídos de um e outro lado da face, e o contorno mal
definido de um braço que por mais de uma vez se moveu para lançar para trás a
trança que caía para a frente, parecendo com isso chamar minha atenção.”
E prossegue o diplomata, sempre minucioso:
“Depois, a figura colocou-se atrás de mim. Eu estava inclinado sobre a mesa para
evitar que o Sr. Underwill ficasse em posição forçada para alcançar minhas mãos.
Senti beijarem-me os ombros, depois meus dois ombros foram simultaneamente
tocados, e, afinal, por cima das costas da cadeira, puxaram-me docentemente para
trás, comprimindo-me de encontro a uma forma que me pareceu material. Quase ao
mesmo tempo beijaram-me a mão. O Sr. Underwill disse, então: ‘Ah! Vós o estais
puxando para trás’. E a Sra. Underwill, um pouco incomodada, acrescentou: ‘Todos
são tocados, menos eu. Não quereis saber de mim?’ Apenas tinha pronunciado essas
palavras, quando assustada, deu um grito, pois que, inesperadamente, tinham-na
beijado na testa. Cessaram, então, as manifestações . Não mais se percebeu na
sala nenhum objeto luminoso, nenhum toque, nenhum ruído ou som de qualquer
espécie.”
Kate Fox, foi à Europa onde pôde ser estudada por William Crookes, S. C. Hall,
Crowell F. Varley, prof. Butlerof, Alexandre Aksakof e outros.
Extraímos uma experiência que Crookes fez com Kate Fox:
“Eu segurava ambas as mãos da médium numa das minhas enquanto seus pés estavam
sobre os meus. Havia papel sobre a mesa em nossa frente e eu tinha um lápis na
mão livre.
Uma luminosa mão desceu do alto da sala e, depois de oscilar perto de mim
durante alguns segundos, tomou o lápis de minha mão e escreveu rapidamente numa
folha de papel, largou o lápis e ergueu-se sobre as nossas cabeças,
dissolvendo-se gradativamente na escuridão” (DOYLE, 1926. p. 101)”
Outra, extraída do livro “Fatos Espíritas”, págs. 31-32:
“Durante vários meses, tive o prazer de em inúmeras ocasiões verificar os
fenômenos variados que se produziam em presença desta senhora, e foram esses
ruídos que especialmente estudei.
É geralmente necessário, com os outros médiuns, para uma sessão regular, que
todos fiquem sentados e em silêncio, mas com a Sra. Fox parece-lhe simplesmente
necessário colocar a mão sôbre qualquer parte, para que sons ruidosos aí se
façam ouvir, como que triplo choque, e algumas vezes, com bastante fôrça para
serem ouvidos através de vários aposentos.
Ouvi-os assim produzirem-se em uma árvore, num grande quadro de vidro, em um
arame esticado, numa membrana distendida, em um tamboril, sobre a cobertura de
uma carruagem, e no tablado de um teatro. Ainda mais, o contato imediato nem
sempre é necessário; ouvi esses ruídos saírem do soalho, das paredes, etc.,
quando a médium tinha as mãos e os pés ligados, quando estava em pé sobre uma
cadeira, quando se achava em uma balança suspensa no teto, quando estava
encerrada em uma gaiola de ferro, e quando em letargia numa poltrona. Ouvi-os
sobre os vidros de uma harmônica, senti-os sobre meus próprios ombros e sob as
minhas mãos. Ouvi-os sobre uma folha de papel segura entre os meus dedos, por
uma extremidade de fio passado num canto dessa folha.
Com pleno conhecimento das numerosas teorias que foram apresentadas antes,
sobretudo na América, para explicar esses sons, experimentei-os de todas as
maneiras que pude imaginar, até não mais ser possível furtar-me à convicção de
que eram bem reais e que não se produziam pela fraude ou por meios mecânicos.”
O Prof. Russo, Dr. Butlerof, da Universidade de São Petersburgo, teve seu relato
transcrito no trabalho de Conan Doyle.
“De tudo quanto me foi possível observar em presença de Mrs Jencken, sou levado
à conclusão de que os fenômenos peculiares a esse médium são de natureza
fortemente objetiva e convincente e que, penso, seriam suficientes para levar o
mais pronunciado céptico, desde que honesto, a rejeitar a ventriloquia, a ação
muscular e semelhantes explicações dos fenômenos.” (DOYLE, 1926. p. 103)
A CONFISSAO DE MARGARET
Algumas informações a esse respeito são possíveis de serem encontradas no livro
de Boaventura Kloppenburg, O Espiritismo no Brasil. Orientação para os
católicos. Petrópolis: Vozes, 1960, pp. 428 – 447. No site
http://www.catequisar.com.br/dw/par/pevaldir/Espirit98.doc foi conseguido algum
material do livro. Deve-se lembrar que o autor era um ferrenho opositor do
Espiritismo.
Eis a citação do jornal The World, de 22 de outubro de 1888, na reportagem sobre
a histórica sessão:
“Ontem à noite, a Academia de Música estava repleta de uma multidão de pessoas
que, havendo lido as confissões de Margareth Fox-Kane publicadas no World da
véspera, estavam ansiosas por vê-la expor o caráter fraudulento das chamadas
manifestações espiritas. Como sucedera na ocasião em que aquele invencível
feiticeiro da predestinação, Prof. Herrmann procurou provar, na mesma Academia,
que ele nada pedia de excessivo aos espíritos desencarnados, para que
executassem coisas aparentemente ocultas e sobrenaturais, a casa achava-se
completamente cheia de homens e mulheres declaradamente espíritas. Pessoas para
quem a evidência fornecida pelos sentidos parece ser de mínima importância.
Havendo elas firmemente esposado a crença de que Shakespeare, Milton e
Wellington, sem falar em São Paulo e os outros apóstolos, podem ser induzidos a
visitar este mundo para o benefício pecuniário dos "médiuns", consideram todas
as tentativas sadias de as desiludir dessa abominável idéia, como outros tantos
insultos pessoais...
No dia 21 de outubro, a Sra. Margareth Fox Kane, realizou pela primeira vez seu
intento de, com os próprios lábios, denunciar publicamente o espiritismo e seu
séquito de truques. Apresentou-se á Academia de Música em Nova York perante
numerosa e distinta assembléia e, sem reservas, demonstrou a falsidade de tudo
quanto no passado fizeram sob o disfarce de mediunidade espirita. Foi dura
provação. A grande tensão nervosa de que padecia tomou-lhe a mente altamente
excitada, e o grande número de espíritas presentes na casa tentava criar uma
perturbação, ou uma diversão desleal que teria por fim romper a força da
renúncia da Sra. Fox. Falharam, porém, completamente, graças ao caráter superior
que possuía a maioria dos ouvintes. o efeito moral dessa exibição não poderia
ter sido maior. A Sra. Kane manteve-se de pé sobre o palco; tremendo e possuída
de intensos sentimentos, fez a seguinte e extremamente solene abjuração do
espiritismo, enquanto a Sra. Catharine Fox Jencken assistia de um camarote
vizinho dando, por sua presença, inteiro assentimento a tudo que a irmã dizia...
Foi colocado diante dela um banco de madeira ou mesinha pousada sobre quatro
curtos pés e possuindo as propriedades de uma tábua de sons. Tirando o sapato, a
Sra. Fox Kane, colocou sobre a mesa o pé direito. Toda a platéia prendeu a
respiração, sendo recompensada por uma série de pequenas e fortes pancadas -
aqueles misteriosos sons que, por mais de quarenta anos, têm assustado e
atordoado milhares de pessoas neste país e na Europa. Uma comissão composta de
três médicos escolhidos entre a platéia, subiu ao palco e após haver-lhe
examinado o pé enquanto batia os "toques", concordou, sem hesitação, que o ruído
era produzido pela ação da primeira articulação do dedo grande do pé. Somente as
pessoas irremediavelmente possuídas de preconceitos e os fanáticos do
espiritismo poderiam obstinar-se contra a irresistível força dessa explicação e
exibição tão simples de como os toques espíritas são produzidos. A demonstração
foi perfeita e completa. E, se os "toques espíritas" encontrarem doravante
crédito nessa comunidade, pareceria prudente precaução da parte das autoridades,
começar sem demora e aumentar a capacidade dos asilos de alienados do Estado”.
Nada encontramos a respeito de batidas no teto, nas janelas, portas etc. Apenas
no livro de Conan Doyle, página 106, encontramos:
“Mais importante é a prova dada a um redator do Herald, em sessão particular,
que ele assim relata:
“Primeiro ouvi uma batida no solo, perto de meus pés, depois debaixo da mesa,
ante a qual estava sentado. Ela me levou à porta e ouvi o mesmo som se produzir
do outro lado. Então, quando ela se sentou ao piano, o instrumento vibrou mais
alto e as batidas ressoaram em sua caixa”.
Percebamos que isso foi dado em uma sessão particular, em que apenas o
jornalista “assistiu”. Porém, notamos algumas diferenças nos fenômenos.Margareth
Fox , nestes casos, vai até o objeto em que pretende que se ouçam as batidas,
quando, nos fenômenos produzidos para diversos cientistas, tal não era
necessário, ouvindo-se as batidas à distância. A reportagem saiu no dia 24 de
setembro de 1888, no Herald, da seguinte forma:
“Vou falar sobre o Espiritismo desde sua fundação.
Tenho intenção de fazer isto há muitos anos, mas nunca tinha decidido a
revelá-la.
Tenho horror daquilo que fui.
Muitas vezes eu disse a Lia, quando me mandava fazer uma sessão:
“Você vai fazer com que eu me condene”. Mas em seguida sufocava meus remorsos no
vinho.
Eu era honesta demais para ficar continuando como médium.
Por isso deixei de fazer isto em público.
Quando o Espiritismo começou, Katie e eu éramos apenas duas crianças.
Minha irmã fez de nós seu joguete.
Minha mãe era uma boba, uma fanática. Chamo-a assim porque ela não era
fraudulenta.
O Espiritismo de fato começou do nada.
Nossa irmã se servia de nós para suas exibições, e nos dava dinheiro.
Minha exploração do desconhecido não vai além do que um simples ser humano pode
fazer.
..............................
Tentei aproximar-me dos mortos na esperança de tirar deles alguma prova,
por menor que fosse, mas nada disto aconteceu.
Fui aos cemitérios de noite, sentei-me sobre os túmulos esperando que aqueles
espíritos viessem a mim.
Tentei conseguir um sinal.
Mas nada!
Não, não, os mortos não vão voltar, nem aqueles que desceram aos infernos.
Isto é o que diz a Bíblia Católica, e eu digo também. Os espíritos nunca vão
voltar.
Deus não deu esta ordem”.
A entrevista continua com uma demonstração das pancadas provocadas por ela, sob
a cadeira onde se sentava, no banco de um piano ao lado, e numa porta. Tudo
diante do repórter e com comentários de Margareth sobre o processo da fraude:
ela conseguia fazer tudo com as juntas do dedo maior do pé. Ela dizia que esta
tinha exercitado esta prática desde criança: “É preciso começar aos doze anos.
Aos treze já é um pouco tarde”.
No entanto, em uma carta de Kate para Mrs. Cottell, publicada no Light, de 1888,
página 619, encontramos:
“O empresário da exibição arranjou a Academia de Música, o maior auditório da
cidade de New York; ficou superlotado.
“Fizeram uma renda de mil e quinhentos dólares. Muitas vezes desejei ter ficado
com você e se tivesse meios agora voltaria para me livrar de tudo isso.
“.Agora penso que podia fazer dinheiro, provando que as batidas não são
produzidas pelos dedos dos pés Tanta gente me procura por causa da declaração de
Maggie que me recuso a recebe-los.
“Insistem em desmascarar a coisa, se puderem; mas certamente não o conseguirão.
“Maggie está realizando sessões públicas nas grandes cidades americanas, mas só
a vi uma vez desde que cheguei.”
Sobre materializações, disse Margareth:
“Em Londres estive, disfarçada, numa sessão particular de um homem rico.
“Vi uma chamada “materialização”.
“O efeito foi obtido por meio de papel luminoso cujo o brilho se refletia sobre
um refletor. A figura assim refletida era de uma mulher - praticamente um nu -
envolvida em gaze transparente. Apenas o rosto estava oculto. Era uma das
sessões a que são admitidos somente alguns amigos privilegiados, não “crentes”,
dos espíritas “crentes”. Há porém outras sessões a que são admitidos somente os
mais provados e fiéis; aí ocorrem as coisas mais vergonhosas, que rivalizam com
as saturnálias secretas dos antigos romanos. Não posso descrever estas coisas
porque não ousaria”.
Nada que se compare às materializações de Leah.
E, relembrando o que disse Margareth Fox em 20 de novembro de 1889 em entrevista
dada à imprensa de Nova York.:
“Aquelas acusações eram falsas em todas as minúcias. Não hesito em dize-lo...
(...) Nem todos os Hermrmans vivos serão capazes de reproduzir as maravilhas que
se produzem através de alguns médiuns. Pela habilidade manual e por meio de
espertezas podem escrever em papéis e lousas, mas mesmo assim não resistem a uma
investigação acurada. A materialização está acima de seu calibre mental e
desafio a quem quer que seja a produzir batidas nas condições em que as produzo.
Não há um ser humano na Terra que possa produzir as batidas do mesmo modo que
elas o são por meu intermédio” (Doyle, 1926. p. 108-109)
Analisando a declaração de fraude, notamos erros grosseiros:
"Minha irmã Kate e eu mesma éramos crianças muito jovens quando esta maldição
horrível começou. Eu tinha oito anos e era só um ano e meio mais velha que ela
(...) mas (Leah) veio logo depois para Hydesville, a pequena aldeia em Nova
Iorque central que era onde NASCEMOS E VIVEMOS." Acontece que a família Fox era
canadense e emigrou para os Estados Unidos, indo viver naquele vilarejo em 1847.
Jader Sampaio, em seu artigo artigo “As Irmãs Fox, Conan Doyle e o Espiritismo
Brasileiro”, diz:
“No texto de Rinn (1954) se vê algumas outras explicações aos fenômenos. Ela
dizia que os sons nas paredes do "cottage" de Hydesville vinham de maçãs que as
irmãs deixavam cair, enganando seus pais, e que os fenômenos de escrita direta
eram fraudados com um giz entre os dentes, enquanto os pesquisadores as retinham
pelas mãos. Convenhamos que estas explicações, face aos relatórios de pesquisas
realizados desde a demonstração em Rochester, são bastante insatisfatórias. Como
elas teriam produzidos os sons nos vidros, paredes e papéis distantes de seus
próprios corpos, estalando músculos? Como responderiam a perguntas mentais? Como
forneceram respostas corretas a perguntas que desconheciam, como o número de
conchas tomadas ao acaso de um montinho, por um de seus investigadores? Como
elas teriam burlado os cuidados dos cientistas que as pesquisaram? Nada disto
parece satisfatório, ainda que houvessem entremeado truques aos fenômenos, por
razões financeiras.”
CONCLUSÃO
O episódio das Irmãs Fox precisa ser melhor pesquisado e com fontes da época,
porque muito do que se tem afirmado sobre elas sofreu o efeito da oralidade. Há
algumas fontes citadas por Conan Doyle no História do Espiritismo que hoje não
temos acesso no Brasil. Há um livro escrito por Leah Fox (The Missing Link in
Modern Spiritualism, New York, 1885), um livro de memórias de Margareth Fox e
inúmeros livros escritos por autores do século XX que pesquisaram documentos
sobre elas e que não estão em língua portuguesa nem fazem parte do acervo de
nossas bibliotecas.
Isso, porém, deverá mudar em breve. A Edtora Madras Espírita conseguiu 1
exemplar da obra "Coisas do Outro Mundo" de Eugene Nus e já está traduzindo para
publicação em 2005, assim como outras obras importantes para o resgate da
memória desse período. Entre elas, obras de Valentin Tournier, Eugene Osty,
Pascal Forthuny, Deleuze, Bergasse e Cahaganet. Devo dizer que infelizmente não
foi utilizado para a feitura deste artigo o livro de Bárbara Weisberg , "Talking
to the Dead: Kate and Maggie Fox and the Rise of Spiritualism", ed. Harper,
lançado em 2004, que pode trazer novas luzes sobre estes episódios.
Coloco agora as palavras de meu amigo Jader Sampaio, que traduzem o pensamento
deste autor sobre o modo como os céticos vêem o caso das Irmãs Fox:
“Vemos que a casuística envolvendo as Irmãs Fox é extensa, está documentada e
calcada em testemunhas diferentes, em países diferentes, envolvendo fenômenos
diferentes. Alguns autores querem fazer crer que se trata de relatos anedóticos,
mas há muita reputação e descrição de testemunhas oculares envolvidas para que
esta interpretação possa ser sustentada. Além disso, porque entendem que a
observação controlada não é uma boa fonte para a construção do conhecimento (o
que é resultado de observação em situação controlada os céticos chamam de
anedótico...)? Penso que os céticos precisam estudar um pouco mais de
epistemologia, sem o que fica difícil conversar. Ainda assim, creio que o mais
importante das Fox seja ter despertado o interesse pelo estudo dos fenômenos
psíquicos. O maior problema do argumento dos céticos é recusar-se a conceder,
pelo menos, o benefício da dúvida, sem sequer terem realizado uma pesquisa sobre
o tema, sem terem revisto devidamente as fontes a favor e contrárias às Fox,
colocando-se em uma posição muito pouco séria de quem diz: o ônus da prova é de
quem defende, quando, em Direito, o ônus da prova é de quem acusa.”
Encerrando, gostaria de dizer que caso os céticos tenham fontes melhores que as
minhas, no caso das Irmãs Fox, eu gostaria imensamente de analisá-las,
especialmente se forem de sua época e não apenas de "oitiva". E creiam-me, que
estou pronto a mudar de opinião se tiver acesso a uma casuística melhor,
explicações melhores ou uma análise mais abrangente que a apresentada.
- - -
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Jáder Sampaio pelo envio do relatório completo de William Crookes
trazendo as pesquisas com Kate Fox, assim como a transcrição do relatório
publicado pelo Corinthians Hall e por outras informações concernentes ao caso.
BIBLIOGRAFIA
Doyle, A.C. - História do Espiritismo, São Paulo, Pensamento, 1960
Rizzini, Jorge - Em Busca da Verdade Perdida no Tempo, DPL, 2001
Hardinge, Emma. - Modern American spiritualism: a twenty years' record of the
communion between earth and the world of spirits, 1870.
Bozzano, Ernesto – Xenoglossia, FEB, 1939
Wallace, Afred Russel - A Defense of Modern Spiritualism
Sargent, Epes - “Planchette, The Despair of Science”
Kloppenburg, Boaventura, O Espiritismo no Brasil. Orientação para os católicos.
Petrópolis: Vozes, 1960, pp. 428 – 447
Owen, Robert Dale - Região em Litígio entre Este Mundo e o Outro, FEB
Crookes, William – Fatos Espíritas, FEB, 1996
Samapio, Jáder - As Irmãs Fox, Conan Doyle e o Espiritismo Brasileiro”
http://www.espirito.org.br/portal/artigos/fep/o-apelo-de-hydesville.html
http://www.catequisar.com.br/dw/par/pevaldir/Espirit98.doc
http://www.guia.heu.nom.br/hydesville.htm
http://www.sapiens.ya.com/numerologo/textos/espi.htm
Nota do editor CeticismoAberto
Confira também As Irmãs Fox -
Pancadas no Espiritualismo. O texto original de Moura citava integralmente
as fontes em inglês, acompanhando suas traduções. Na versão aqui, os excertos
originais em inglês foram removidos pelo editor, deixando apenas suas traduções.