|
| O Pistoleiro SolitárioKentaro Mori, editor CA |
 |
|
"O caminho que percorrem os ufólogos em busca da verdade é solitário. Mas a Ufologia vai continuar trilhando-o em direção a uma definição clara e precisa do Fenômeno UFO, contra aqueles que se opuserem a tal esforço. (...) os céticos não encontram tempo para efetuar pesquisas sérias sobre o assunto, mas conseguem tempo para publicar livros, revistas e artigos contrários ao fenômeno ufológico".
Não se assustem, o trecho acima não foi escrito por um líder fanático de algum culto ufológico. Ou pelo menos, tais rótulos não parecem se aplicar precisamente ao autor Paulo Werner, presidente do CIPFANI - um grupo de pesquisa ufológica que procura se guiar por uma metodologia científica, que é inclusive citada no mesmo texto, intitulado "Todos contra a ufologia". Este texto foi publicado no website do CIPFANI, e também em uma versão um pouco diferente na revista UFO de dezembro de 2002 (com o título "Ciência e religião contra a verdade ufológica").
O tom geral do texto, que espero que todos possam ler por ser uma manifestação de opinião relevante aos que se interessam pela ufologia, é igualar tanto grupos cristãos extremistas que vêem na ufologia uma manifestação do demônio quanto grupos céticos que classificam a ufologia como uma pseudociência que não merece atenção séria. "Hoje, em pleno século XXI, essas trevas parecem ganhar forças. Só que desta vez, a religião caminha ao lado da Ciência ortodoxa", escreve Werner. É a velha implicação de que vivemos uma nova Inquisição.
Um ponto deve estar claro: nós não estamos em uma nova Inquisição. O que Werner está fazendo é reclamar que existem grupos cristãos que dizem que OVNIs são demoníacos e expor sua insatisfação com a falta de interesse, e por vezes descarte que a ciência acadêmica faz com relação à ufologia. Seu texto não é uma expressão de coragem em meio à perseguição, mas sim uma crítica àqueles que negam a ufologia. E eles parecem ser, aliás, uma minoria em relação à maior parte da população.
Em outras palavras, simplesmente não estão "todos contra a ufologia". Hollywood tem sua simpatia com o potencial lucrativo da área e ironicamente no Brasil um palco que vem sendo até comum para ufólogos é um programa de televisão evangélico que aborda temas polêmicos ao vivo.
Argumentos? De quem?
Werner passa a expor argumentos com que discorda, apresentando logo em seguida suas respostas a eles. O grande problema é que não sabemos bem quem sustenta tais argumentos que são contrariados, e não sabemos se Werner está mesmo representando bem os argumentos da "ciência", ou mesmo da "ciência ortodoxa". Caberia citar fontes e referências para algo tão sério.
Como todos sabemos, a "Ciência" não existe como uma entidade viva à qual podemos pedir opinião. Ela é antes composta pela opinião por natureza díspar de diferentes cientistas em cada área.
Temos, logo de início, a afirmação "a Ciência nega o fenômeno UFO a priori, pelo simples argumento de que não há evidências de sua presença em nosso meio. E assim como na religião, não se admite a possibilidade de vida fora da Terra". Isso parece um tanto alienado. Em primeiro lugar, se a ciência nega o "fenômeno UFO" com o argumento de que não há evidências de sua presença, então não o nega a priori. E então, quem disse que a "Ciência" não admite a possibilidade de vida fora da Terra? Pode-se citar cientistas que defendam tal tese, mas também há muitos, e hoje mais do que nunca, que defendem abertamente o contrário. Não há hoje um consenso científico aberrante que não admita a possibilidade de vida fora da Terra.
"A Ciência se apóia na visão crítica simplista de que as pessoas comuns se enganam , e que a falta de conhecimento técnico descarta seus testemunhos". Aqui, a questão é novamente saber como Werner pode afirmar que a "Ciência" diz isto. Cientistas isolados podem cair na falácia de descartar a ufologia como um amontoado de testemunhos leigos, mas isso só revela a falta de conhecimento de tais cientistas, que não representam a palavra consensual da "Ciência".
Ao mesmo tempo, que existam testemunhos qualificados de OVNIs não prova que OVNIs reais existam. Infelizmente, evidência testemunhal pode ser boa em um tribunal, mas não serve per se para a aceitação científica da existência de um fenômeno físico desconhecido. Testemunhos são sim valiosos (e muito), e podem ser considerados cientificamente, mas apenas se houver evidência física que os corrobore, proporcional à extraordinariedade do fenômeno relacionado.
Para terminar as suas respostas, Paulo Werner nota que "as facções contrárias a Ufologia alegam que não existe sequer uma foto confiável de um disco voador, que os vídeos são duvidosos e que todas as evidências apresentadas pelos ufólogos carecem de sustentação científica". Sua resposta? Aconselho outra vez que todos leiam o texto original, mas ela é basicamente que "se houver apenas uma única exceção, (...) isso já não seria uma prova?"
Certamente! É claro que se houvesse apenas uma prova conclusiva ela seria uma prova conclusiva! Mas, por outro lado, apenas porque há milhares e milhares de indícios pouco confiáveis ou inconclusivos, isso não prova que pelo menos alguns deles devem ser conclusivos. Este tipo de irraciocínio é estranhamente muito difundido na ufologia. Contudo, como deveria ser evidente, milhões de indícios inconclusivos não levam a nenhuma resposta conclusiva. Duas meias-verdades não constituem uma verdade. Mas podem muito bem constituir uma mentira, ou no caso da ufologia, uma ilusão.
Werner também critica a falta de vontade de cientistas céticos de partir para a pesquisa de campo com relação à ufologia que criticam. Esta deve ser a mais apropriada crítica de seu texto. Entretanto, ele também exagera o ponto, e o ilustra de forma pouco apropriada.
No início de agosto de 2002, segundo relatos um grande meteoro teria "cruzado os céus de Pirapora e cidades vizinhas" em Minas Gerais. Segundo Werner, os astrônomos não deram importância aos relatos, mas é claro, foi o CIPFANI que foi corajosamente averiguar a questão, percorrendo "mais de 2.000km".
Astrônomos deveriam ter ido averiguar os relatos? Idealmente sim. Que não tenham ido é uma pena, mas astrônomos não ignoram veementemente todos relatos sobre quedas de meteoritos. O evento isolado de astrônomos terem ignorado o suposto meteorito que o CIPFANI foi investigar a rigor não prova nem demonstra muito no texto em questão.
Os Ardilosos CSICOPs
Finalmente, o texto termina com uma descrição grandemente distorcida do episódio entre a escritora Donna Bassett e o psiquiatra John Mack. Paulo Werner conta:
"O CSICOP contratou uma pessoa [Bassett] para simular que havia sido raptada por extraterrestres e criar uma história inverídica sobre a situação, levando Mack a divulgar seu caso como uma prova das abduções. Quando o ufólogo apresentava uma conferência em que mostrava casos de abduções que considerava legítimos, entre eles o da contratada do Csicop, foi desmascarado em pleno ritmo de sua palestra, de forma constrangedora e desumana".
É notável como tantas distorções podem estar contidas em tão poucas frases.
Primeiramente, se Werner conhece provas de que o CSICOP contratou Donna Bassett para simular que havia sido abduzida, eu pessoalmente estou ávido para vê-las. Ainda que o próprio Mack tenha sugerido que o culpado pelo episódio era Phillip Klass, ele não provou o ponto nem o declarou formalmente. Naturalmente, Klass ficou ofendido com a implicação, afirmando veementemente que o primeiro contato que teve com Bassett foi alguns meses antes, enquanto ela vinha se infiltrando no grupo de "abduzidos" de Mack há anos. A acusação de Werner contra o CSICOP é séria, e a menos que seja muito imprudente ele deve conhecer evidências que eu sinceramente desconheço.
Na verdade, quase um mês antes de Bassett ser confrontada com Mack, sua história de como teria enganado o psiquiatra de Harvard foi divulgada em matéria da revista TIME, onde Mack era duramente criticado. Se ela recebeu algum dinheiro com a ação, pode bem ter sido da revista TIME, embora eu não esteja certo disto.
Outro ponto importante: a palestra que Mack proferia era promovida pelo próprio CSICOP! Ainda mais, Bassett não se pronunciou durante a palestra de Mack, "desmascarando-o em pleno ritmo, de forma constrangedora e desumana", mas sim depois da palestra de Sharon Phillip, que por sua vez falou depois de Mack. E, é claro, se a história de Bassett já havia sido divulgada na revista TIME quase um mês antes, Mack não foi desmascarado na palestra de surpresa, em um plano rocambolesco de céticos. O que de fato houve na palestra foi o primeiro confronto público entre Mack e Bassett.
Uma descrição da conferência promovida pelo CSICOP onde Mack foi confrontado com Bassett pode ser encontrada no próprio website do CSICOP, que Werner indica como fonte. É de pensar se ele a leu. Lá, podemos inclusive ler a nota de que um membro da platéia notou que era eticamente questionável não avisar Mack de que Bassett estaria falando.
De fato, é eticamente questionável, e o CSICOP é realmente conhecido por promover conferências e anúncios à imprensa interessantes, por assim dizer. Mas o trabalho de Bassett não foi apenas um ardil destinado a "destruir a ufologia": é parte da tradição de jornalismo investigativo tão comum nos EUA, mas infelizmente não tanto aqui no Brasil.
Werner notou a forma "desumana" com que Mack foi confrontado, mas como é comum entre ufólogos, não parece se perguntar muito sobre o enorme dano causado a diversas pessoas caso abduções alienígenas realmente não estejam ocorrendo. Era justamente este o tom do artigo da TIME, e também o tom que céticos adotam ao criticar terapeutas de abdução.
O que Bassett demonstrou é que John Mack foi incapaz de desmascará-la. Ou seja, em sua mente excessivamente aberta, ele não foi capaz de descobrir que ela estava inventado todas suas histórias. Ela o fazia conscientemente, mas muitos podem fazê-lo de forma inconsciente. Se Mack é incapaz de descobrir uma pessoa que esteja inventando suas histórias de abdução, pode estar lhe fazendo um mal imenso ao incentivar a crença na realidade da abdução. O caso é que não podemos ter a mente excessivamente aberta se isso significa uma possibilidade grande de incentivar uma pessoa a acreditar em fantasias. Mesmo que houvessem verdadeiros abduzidos, que haja falsos abduzidos e eles não sejam trazidos de volta à realidade já é um dano considerável.
Todas as distorções que Werner propaga são muito provavelmente fruto de falta de informação sobre o episódio. Isto pode ser notado quando ele escreve que Mack divulgou o caso de Bassett como "prova das abduções". Isto não ocorreu. Mack, apesar de não ter descoberto que Bassett estava inventando histórias ainda que elas fossem espúrias (como o tão citado encontro com Kruschev e Kennedy em um disco voador), não utilizou o caso dela em livros ou palestras.
E então...
No começo desta crítica, citei um trecho do texto de Werner em que ele afirma que céticos não efetuam pesquisas sérias sobre a ufologia. Ele faz esta afirmação várias vezes. Em conjunto com sua descrição distorcida do episódio entre Bassett e Mack, isto deve demonstrar como ele desconhece completamente o que céticos fazem, defendem e argumentam.
No mesmo site do CSICOP que Werner indica, há diversos artigos on-line do Skeptical Inquirer onde estudiosos sérios forneceram importantes visões sobre a ufologia. Há os trabalhos de Susan Blackmore, Robert Baker, Joe Nickell, entre tantos outros. Também há arquivos do newsletter de Phil Klass, que se é o grande cético ufológico contemporâneo e talvez possa por vezes aplicar um ceticismo exagerado, não pode ser condenado como alguém que não estude a ufologia seriamente - a menos que o seja por algum crédulo insensato.
E o website CSICOP não é a única fonte de divulgação de estudos sérios realizados por céticos na ufologia. O periódico Magonia é há décadas o veículo maior de promoção da hipótese psicossocial, e trabalhos de Martin Kottmeyer preenchem esporadicamente as páginas do newsletter da REALL. E tudo isto é o que está disponível on-line, gratuitamente acessível a qualquer um, mesmo que não tenha a página de seu grupo ufológico na rede. Abordagens mais extensas sobre diversos temas podem ser encontradas em diversos livros.
O grande problema, não só na ufologia, como em muitas áreas nas fronteiras da ciência é a falta completa de entendimento entre "céticos" e "crédulos". No meio desta incompreensão mútua, opiniões que classifiquem "céticos" como agentes de má-fé e "crédulos" como corajosos pistoleiros solitários não ajudam muito.
- - -