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ETs nada fotogênicos

No Limite de Realidade

22 de julho de 2009 Comments (3) Views: 1790 Ceticismo, Destaques, Paranormal

A Lógica Jedi

por Kentaro Mori

Um mundo em que a paranormalidade fosse real seria completamente diferente daquele que conhecemos. E uma das capacidades paranormais mais contrárias à nossa lógica seguramente seria a precognição, a capacidade de prever o futuro. Se fosse realmente possível prever o futuro, nosso mundo poderia ser comparado a uma Galáxia distante, há muito tempo atrás, palco de uma história fantástica que conhecemos por Guerra nas Estrelas, ou Star Wars.
Star Wars tem a força de uma mitologia contemporânea, assunto para livros inteiros, mas o aspecto interessante na saga a este texto é especial: todo um universo mágico (ou paranormal) foi adaptado a um contexto futurista que ainda depende por vezes da tecnologia e, presume-se, da ciência. Star Wars não é ficção científica, é fantasia romanceada, mas há um esforço perceptível em atribuir certa lógica a este universo fantasioso-tecnológico em que é possível prever o futuro, usar telecinese e esperar que a ‘Força esteja do nosso lado’ ao mesmo tempo em que se viaja pelo hiperespaço para chegar a Estrelas da Morte movidas por reatores nucleares.
A incongruência mais aparente e curiosa em Star Wars é que em um mundo repleto de alta tecnologia, uma elite guerreira representada pelos cavaleiros Jedi usa espadas – ou melhor, sabres de luz – ao invés de armas avançadas, como uma pistola laser superpotente ou uma metralhadora inteligente. Os motivos para que isso seja assim são mais ligados à origem e produção dos filmes do que a alguma razão ficcional.
O nome ‘Jedi’ (lê-se, como todos sabem, ‘djedái’) é uma corruptela criada por George Lucas do termo japonês ‘Jidai Geki’ (lê-se ‘djidái gueki’), que eram romances sobre o Japão feudal que geralmente envolviam nobres samurais seguindo o bushidô, um rígido código moral. Muito da fantasia de Star Wars, principalmente os cavaleiros Jedi, é referência clara aos Jidai Geki e ao bushidô. Sabendo disto é revelador descobrir que no Japão real, ao contrário de em Star Wars, as armas de fogo de fato acabaram substituindo a espada. A espada continuaria parte importante da cultura japonesa, mas as armas de fogo eventualmente a tornaram obsoleta, como um outro filme de Lucas ilustrou: a impagável cena de Indiana Jones atirando em um habilidoso árabe manipulando uma espada.
Os Jedi usam espadas porque foram inspirados em samurais, porém entrando de cabeça na lógica do universo de Star Wars podemos encontrar uma razão muito interessante para que cavaleiros Jedi usem espadas ao invés de armas de fogo. Essa razão também explicaria como eles conseguem se desviar ou até rebater tiros de laser que viajam à velocidade luz.

Tudo isto ocorre porque os cavaleiros Jedi têm a capacidade de prever o futuro. Como podem prever o futuro, podem se desviar de tiros antes mesmo que eles sejam disparados, o que lhes dá tempo para calcular uma seqüência de movimentos que permita o desvio de diversos disparos.
Entender como a precognição torna o uso de espadas algo inevitável é um pouco mais complicado. Imagine que você queira matar um Jedi que, lembrando, pode prever o futuro. Como sabemos, atirar nele não seria muito eficaz já que ele saberá quando e onde o tiro será dado, e assim poderá se esquivar ou evitar a emboscada. Mesmo emboscadas elaboradas tornam-se algo um tanto difícil já que embora a precognição Jedi não seja perfeita, é razoavelmente capaz de deixá-lo alerta quanto a alguma ação ofensiva. Matar alguém que pode prever o futuro não é algo muito fácil.
Não seria impossível matar um Jedi através de uma emboscada. Usar a temida Estrela da Morte e explodir um planeta inteiro pode acabar dando conta do recado — "de repente sinto uma perturbação na Força". Mas se isso pode dar conta de um Jedi, fica claro que seria pouco prático fazer o mesmo em relação a centenas de cavaleiros espalhados por diversos planetas pela Galáxia. Fica a pergunta mórbida: qual a melhor forma de matar Jedis?
Você deve ter adivinhado: usando espadas, através de um combate corpo a corpo. Se o primeiro golpe que dermos pode ser previsto pelo nobre Jedi, o segundo golpe dependerá da reação dele, e assim sucessivamente. Um combate corpo-a-corpo, em que nossos ataques e defesas dependam diretamente dos ataques e defesas do oponente tornam a precognição praticamente inútil. Ela deixa de desempenhar um papel crucial para dar lugar à habilidade dos combatentes: quem for mais ágil e perspicaz eventualmente sucederá em vencer o oponente, por mais que este possa prever o futuro. É incrível, mas a ‘simples’ capacidade de prever o futuro, nem que seja o futuro imediato, torna obsoleta toda a lógica de combate que conhecemos e nos leva de volta à época feudal, onde a habilidade do guerreiro é o elemento mais importante em um combate. Na lógica Jedi onde a precognição é possível, armas brancas combinadas à habilidade são muito mais importantes que armas de fogo.
Esse é apenas um dos detalhes profundos que podemos imaginar de um mundo paranormal. Infinitos outros existem, e em conjunto não formam apenas detalhes, mas modificam completamente a justiça, a lógica e a realidade. Um mundo paranormal seria totalmente diferente do que conhecemos, e antes de acreditar em precognição, telecinese, leitura da mente e afins, pense bem se o mundo que surge com tais idéias realmente faz sentido – e, mais importante, se este mundo é o mundo que você pode ver e comprovar diante de si.

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3 Responses to A Lógica Jedi

  1. Tomás disse:

    nuuuuh muito bem pensado e elaborado, pirei só de tenta imaginar um universo assim, a riqueza de detalhes que você da no testo me faz imaginar uma porção de coisas, o conjunto total desses poderes da margem pra muitas outras coisas.
    engraçado é que a velocidade desse precog e o movimento do sabre tem que ser muito rapido, tipo em um “tiroteio” são milhares de tiros milhares de possibilidades que vão surgir, caralho!! quero ser um jedi quando crescer.

  2. leo disse:

    discordo totalmente, o manuseio de uma arma de fogo e bem mais fácil que o de uma arma branca (sabre)
    visto que você pode atirar de uma distância consideravel.
    e se dois inimigos atirarem ao mesmo tempo estando e pontos diferentes seria imposivel o jedi se defender visto que ele não poderia estar com o sabre em dois lugares ao mesmo tempo, muito menos se fosse um exêrcito como no filme.

  3. Luiz Fernando disse:

    Discordo sobre o argumento sobre a série de disparos ser mais previsível que o combate corpo a corpo.
    O contato visual com o Jedi já é suficiente para este se integrar ao sistema que gera o disparos, sendo portanto, pela argumentação que a pessoa não pode prever o futuro se ela exerce influência sobre ele, impossível prever os disparos.
    Interessante notar que se você considera que alguém pode prever um futuro do qual ela participa da construção a previsão não adianta nada.

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