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Encarando a Divisão: Apresentações do Racionalismo e do Oculto...

Moldes de Espíritos: um experimento prático

22 de julho de 2009 Comments (5) Views: 4310 Ceticismo, Destaques, Paranormal

As Irmãs Fox – Pancadas no Espiritualismo

Kentaro Mori

“O telégrafo de Deus superou completamente o de Morse” –
Reverendo Jervis, citado em Britten, 1870

Em 11 de dezembro de 1847 o pai, membro da Igreja Metodista, a mãe, e duas das filhas mais novas da família Fox, Margareth e Katherine, mudaram-se para uma casa em Hydesville, em Nova Iorque. A casa de madeira já seria tida como mal-assombrada, devido aos estranhos barulhos ouvidos e mesmo algumas aparições. Os inquilinos anteriores, a família Weekman, teriam se retirado da propriedade justamente por causa dos incômodos.
Pouco tempo depois que os Fox se estabeleceram os barulhos passaram a perturbá-los também até que em 31 de março de 1848 a filha Katherine pediu que o “demônio” causador dos barulhos repetisse as batidas que ela mesma produzira. Com a resposta inaugurava-se oficialmente o espiritualismo moderno, com o estabelecimento do “telégrafo espiritual”, através do qual perguntas verbais e mesmo mentais dos vivos podiam ser respondidas por uma série de pancadas em código por parte dos mortos.
Logo se descobriria que o “demônio” era na verdade o espírito do mascate “Charles B. Rosna”, que havia sido assassinado e enterrado no porão da casa anos antes. Apesar da revelação, buscas por toda a residência falharam em encontrar o corpo, embora cabelo e dentes tenham sido encontrados. Infelizmente, naquela época não revelavam muito. Mais relevante foi outro testemunho, de uma ex-moradora da casa e empregada doméstica, Lucretia Pulver, que confirmaria a história em grande extensão e detalhe identificando os assassinos como seus antigos patrões, o casal Bell.
Os fenômenos de comunicação com espíritos atraíram multidões e ficou claro que Margareth e Katherine Fox eram “médiuns”, através das quais era possível se comunicar com o além. Outros médiuns não tardariam em surgir, e até mesmo a irmã mais velha das garotas, Ann Leah, se revelaria uma também, particularmente dotada.
Uma série de investigações públicas por nada menos que três comitês diferentes tentaram desmascarar as Margareth e Katherine. Apesar de submetê-las a grande angústia, não obtiveram sucesso em suas intenções. As irmãs ultrapassaram tais provações, e então se dedicaram a turnês mediúnicas extensas, fazendo disso seu meio de vida. Margareth chegou a se converter ao catolicismo em 1858 e abandonar tais atividades, mas anos depois, em dificuldades financeiras, voltou à carreira de “médium profissional”. Katherine nunca abandonou a carreira mediúnica, à qual a irmã mais velha, Ann Leah, também aderira.
A vida das irmãs não foi muito feliz, e seu fim ilustrou tal. Em 1888, quarenta anos após os incidentes em Hydesville, conflitos entre Margareth, Katherine e Leah culminariam em uma série de escândalos públicos. Os filhos de Katherine Fox foram retirados de sua tutela por causa de seu alcoolismo, vício que também já afligia Margareth – ambas acusadas por Leah, a irmã mais velha.
Pouco depois, Margareth publicaria a confissão que tantos esperavam. Tudo não teria passado de truques simples elaborados por ela e Katherine, e o espiritualismo moderno estaria baseado em um evento fraudulento. O detalhe importante é que a confissão também acusava Leah como cúmplice nas fraudes e exploradora das somas de dinheiro amealhadas pelas irmãs mais novas.
Já Katherine não apenas não contestou a confissão de Margareth, como divulgou também sua confissão de mesmo teor. As batidas espirituais, não passariam de estalos dos dedos dos pés, entre muitos outros truques simples.
Contudo, apenas mais um ano depois Margareth voltaria atrás e publicaria uma retratação sobre sua confissão. Na confissão da confissão, explicava que a confissão de fraude teria sido feita apenas em troca de dinheiro, promovida por membros de religiões rivais e devido aos conflitos com Ann Leah. Katherine por sua vez nunca se retratou de sua confissão. De toda forma, o dano já estava feito. Em 1890 Ann Leah faleceria, seguida por Katherine em 1892 e Margareth em 1893. As três morreram como “médiuns”.
Em 1904, uma grande reviravolta, quando uma parede da adega da antiga casa de Hydesville ruiu e seria encontrado um esqueleto humano junto de uma caixa de mascate. A notícia, publicada no Boston Journal, passou a ser vista como comprovação das alegações originais das irmãs Fox.

“Rochester, NY, 22 Nov 1904: O esqueleto de um homem que se supõe ter causado pancadas primeiramente ouvidas pelas irmãs Fox em 1848 foi encontrado nas paredes da casa ocupada por elas, e as exime da única sombra de dúvida relativa à sua sinceridade na descoberta da comunicação de espíritos”.

Quando tudo parecia nebuloso e infame, ainda nos ecos do escândalo, a história voltava a seu começo e o velho mascate assassinado voltava à tona.
Ou pelo menos, é a lenda das irmãs Fox.
O Contexto
“Milhares de pessoas que são calorosos defensores da filosofia espiritual reconhecem que sua atenção foi inicialmente atraída ao tema por seu interesse no magnetismo”, escreveu Emma Hardinge Britten, em “Modern American spiritualism” (1870). A autora não se refere ao eletromagnetismo que conhecemos e acende nossas lâmpadas, mas ao chamado “magnetismo animal”. Inventado por Franz Anton Mesmer, o “magnetismo animal” é lembrado hoje apenas em resquícios como o verbo “mesmerizar”, relacionado talvez a seu único efeito real, a hipnose. Muito apropriadamente, pois em 1870 tal “magnetismo animal” já havia sido constatado há quase um século como inexistente.
É no contexto do “magnetismo animal” que surge o espiritualismo das irmãs Fox. Andrew Jackson Davis já se valia de tal magnetismo inexistente para seus contatos com espíritos anos antes, e os relatos das sessões mantidas pelas irmãs também envolviam inicialmente a “magnetização”.
As irmãs não foram assim as primeiras a alegar contatos com espíritos, e como se deve notar, não seriam nem mesmo as primeiras a manter supostos contatos com o além em sua casa de madeira em Hydesville. Igualmente, os “Poltergeist”, fantasmas barulhentos, já haviam feito suas batidas décadas antes na Europa. Os feitos e métodos das irmãs se conformavam plenamente aos moldes do mesmerismo a ponto de a rigor não manter qualquer diferença com este.
Exceto uma diferença, claro, que faria toda a diferença. Britten escreveria que “as características concretas e científicas do movimento espiritualista na América têm sua origem na primeira tentativa de telegrafia [espiritual]”, referindo-se ao caso. Isto é, a inauguração do espiritualismo moderno com o caso das irmãs Fox se centra na novidade da “telegrafia espiritual”.
A novidade, todavia, é apenas o adjetivo “espiritual”. “A primeira linha [elétrica de telégrafo] construída nos Estados Unidos foi colocada em operação em 1844, entre Washington e Baltimore. Em 1848 linhas foram construídas em toda direção”, escreveu Holton sobre a história do telégrafo. Lembre-se que a “telegrafia espiritual” das irmãs foi inventada em 1848. Se o ponto aqui não está claro, pode-se sublinhar um detalhe: a gigante agência de notícias “Associated Press” foi fundada no mesmo ano, 1848, graças ao telégrafo! O telégrafo de Morse, claro, o que funciona de fato.
Enquanto hoje a Associated Press conta com milhares de veículos de notícias, a própria “telegrafia espiritual” sairia de moda, mesmo sob o nome mais respeitável de “tiptologia”, e o movimento espiritualista que anunciava uma “nova era” falhou em sua própria profecia.
“’Babilônia caiu’ – ‘o mistério, mãe de todas as abominações’, foi massacrado, e o anjo da verdade e juízo soou a trombeta da vitória na grande expansão do Espiritualismo moderno”, anunciou Britten no fim do século XIX, quando o movimento ganhava força. Hoje, mais de um século depois, não ouvimos as trombetas.
Codinome Rosna
Ler as fontes de mais de um século sobre o espiritualismo requer diversos grãos de sal. Devemos acreditar na alegação de que a senhora Fox ficou com os cabelos brancos em apenas uma semana devido aos acontecimentos em Hydesville? Tal é sugerido por Nandor Fodor em 1934 (“An Encyclopaedia of Psychic Science”). Por outro lado, fontes céticas costumam ser demasiadamente sucintas, centrando-se nas confissões de 1888, proferidas entre grandes escândalos e desentendimentos.
Deixando os escândalos (e as confissões) de lado, o elemento central na gênese do caso das irmãs Fox seria sua alegação e posterior confirmação de que existia o corpo de um mascate enterrado em sua casa. Se a “telegrafia espiritual” inaugurou o espiritualismo moderno, foi essa a história transmitida em tal estranho meio de comunicação.
Lucretia Pulver, que serviu ao casal Bell, teria confirmado a história do mascate assassinado. Pulver se lembrou do mascate e de acontecimentos estranhos incriminando seu ex-patrão, com uma abismante série de detalhes. O detalhe mais relevante todavia é o de que se lembrou de tal apenas após a divulgação do caso das irmãs, anos após os supostos acontecimentos. O mesmo ocorre com relatos de que a família Weekman também teria feito contato com o mascate. Infelizmente, tais não podem ser consideradas como corroborações independentes.
O problema com tais relatos também reside no fato de que, confiando em uma duvidosa riqueza de detalhes em grande parte irrelevantes, espiritualistas acreditam saber mesmo o que o mascate vestia, quando e de que forma foi assassinado, mas não conhecem seu nome. E isto apesar do espírito ter fornecido um nome através do telégrafo espiritual. “Charles B. Rosna” (ou Rosma), entretanto, não seria nome verdadeiro do mascate. Por algum motivo o espírito teria escolhido não revelar seu nome, revelando ao invés um nome fictício. E sem avisar sobre tal.
Esta é uma “explicação” ad hoc que pode soar plausível aos crentes, que citariam uma série de outros casos onde supostos espíritos forneceriam nomes fictícios. Aos não-crentes, o argumento soa apenas como uma indicação da circularidade de tal sistema de crenças – o espírito original era real porque outros espíritos posteriores também falharam em fornecer um nome verdadeiro.
Ainda abordando de forma crítica o ponto, talvez a mais prosaica e óbvia informação específica verificável que o espírito poderia fornecer sobre sua história seria um nome real, através do qual poderia ser identificado. Como não o foi, os espiritualistas presumem, ad hoc, não que o espírito e a história são fantasias, mas que o nome é deliberadamente falso.
Os acusados do suposto assassinato, o casal Bell – cujo nome foi lançado na história por Lucretia Pulver, antiga servente dos mesmos – também não ficaram contentes com a história, mas tampouco foram incomodados pela polícia. O espírito do mascate contou que teria uma esposa e vários filhos, mas apesar da ampla divulgação de sua história, tal família também não veio à tona. A história permaneceu convenientemente inverificável, apesar de envolver o brutal assassinato de um mascate e a nada engenhosa ocultação de seu corpo na casa onde os assassinos moravam.
O encontro de um esqueleto em 1904 confirmando a história é nebulosa, e infelizmente, também inverificável. Não houve documentação apropriada do encontro de tão relevante evidência, dada ao acaso, como devemos acreditar, e contrariando a informação alegada do próprio espírito sobre onde estaria seu corpo – outro dado contornado ad hoc pelos crentes imaginando que o corpo foi enterrado no porão e depois movido.
Para completar toda a duvidosa história e suas supostas evidências, os alegados restos do mascate foram logo transportados e preservados como relíquia religiosa, mas não por muito, já que nos anos 50 um incêndio provocado por vândalos teria consumido a evidência.
Não há assim qualquer evidência satisfatória de que a história contada pelo espírito seja real, o que lança sérias dúvidas sobre se havia mesmo algum espírito. Por diversos meios se poderia ter chegado a confirmar com segurança a história do assassinato do mascate, mas de diversas formas, toda a evidência convenientemente se esvaiu. Outra vez, aos crentes isso não é problema, já que o papel do espírito seria chamar atenção ao fenômeno, e ater-se à literalidade ou não de sua história seria irrelevante. Aceite-se isto ad hoc.
Corinthian Hall
Se ficamos perdidos com relação à origem em si do espiritualismo, o que dizer da
s irmãs Fox? Médiuns por praticamente o resto de suas vidas, deveriam ter fornecido evidência extensa a respeito da autenticidade de suas comunicações com espíritos. Não é bem o caso.
Como nota Vitor Moura, em seu texto “As Irmãs Fox – O Que os Céticos Não Contam”, a melhor evidência da mediunidade das garotas parece ter sido resultado de três comitês de investigação sucessivos, que efetuaram diversas experiências com o fim declarado de desmascará-las. Todos envolveram apresentações ao público no Corinthian Hall em Rochester. Todos falharam em seus objetivos.
O primeiro comitê era composto de cinco pessoas, Nathaniel Clark, A. J. Combs, Edwin Jones, Adoniram Judson, e Daniel Marsh, todos “cidadãos altamente respeitáveis e responsáveis” da cidade. Todos admitiram que “os sons foram ouvidos, mas falharam completamente em descobrir os meios pelos quais poderiam ter sido gerados”.
O segundo comitê, liderado pelo conselheiro Frederick Whittlesey, composto por D. C. McCallum, William Fisher, o Dr. H. H. Langworthy e o juiz da cidade de Le Roy, A. P. Hascall, foi ainda mais rigoroso, efetuando experimentos no escritório de Whittlesey. Seu relato: “Os sons foram ouvidos e sua investigação exaustiva mostrou conclusivamente que não foram produzidos por maquinaria ou ventriloquismo, embora qual fosse o agente fomos incapazes de determinar”.
O terceiro comitê foi composto por céticos indignados com os insucessos dos dois primeiros comitês, segundo informa Britten. Um deles, Lewis Burtis, também é citado por Britten como dizendo que “as garotas não me terão no comitê nem por cem dólares”, uma quantia considerável na época. Outros integrantes do terceiro comitê incluíram L. Kenyon, William Fitzhugh e os Drs. Justin Gates e H.H. Langworthy (do segundo comitê).
Esse último comitê ainda contou com uma espécie de sub-comitê, composto de mulheres, que lidaram com as garotas despidas, para enorme desconforto das mesmas. Seu resultado: “Quando [as irmãs Fox] estavam sobre travesseiros, com um lenço amarrado em torno do fim de seus vestidos, firme em seus tornozelos, todas nós ouvimos as pancadas na parede e chão distintamente. Assinado: Sra. Stone, Sra J. Gates, Sra. M. P. Lawrence”.
Resultado não muito diferente do terceiro comitê, que também não atingiu seu objetivo de desmascarar as garotas. Apresentados assim, são fatos surpreendentes.
O que deve realmente surpreender o leitor contemporâneo é um pequeno detalhe: a investigação do primeiro comitê ocorreu no dia 15 de novembro; a do segundo comitê, no dia 16 de novembro; e a do terceiro comitê, no dia 17 de novembro. Todos do mesmo ano de 1849. Isto é, são três investigações conduzidas cada uma por um “comitê” diferente de cidadãos de fato respeitáveis, mas leigos, em apenas três dias sucessivos.
Some-se a isso o fato de que todas as investigações tiveram lugar em ambientes como uma outra casa de apresentações, casas ou escritórios dos cidadãos envolvidos ou associados – a última, por exemplo, teve lugar na casa de Justin Gates, e uma das integrantes do comitê de mulheres foi, claro, a esposa de Gates. Não só havia diversas outras pessoas presentes além dos integrantes dos comitês durante tais averiguações, como essas outras pessoas incluíam mesmo promotores e defensores dos supostos fenômenos das irmãs.
Britten menciona o dramático episódio onde Amy Post irrompeu no recinto onde as irmãs estavam sendo examinadas seminuas, ao ponto em que as irmãs teriam corrido aos prantos aos braços da senhora Post. Ao mesmo tempo em que pancadas foram ouvidas. Parece dramático e mesmo este autor pode se sensibilizar com a situação, o evento contudo é um exemplo do (des)controle que se tinha em tais exames. Amy Post era esposa de Isaac Post, o casal quaker que foi um dos principais, se não o principal responsável por promover e apoiar inicialmente as garotas.
Outros “detalhes” sobre as investigações: Isaac Post era um dos que cuidaram dos negócios nas apresentações. O Corinthian Hall seria o maior local de eventos em Rochester. Os três comitês consecutivos tiveram seus integrantes escolhidos entre os espectadores das apresentações. Lewis Burtis, mencionado como um cético integrante do terceiro comitê por Britten, se tornou figura relativamente destacada no movimento espiritualista de Rochester, abrigando uma (outra) médium em sua casa e testemunhando sobre a realidade do espiritualismo (como citado em… Britten!).
Embora não se possa descartar por completo as informações sobre tais investigações, é evidente que mais do que qualquer outra coisa, foram um show. Assim se entende por que houve três “investigações” de apenas um dia de duração por diferentes pessoas realizadas – e apresentadas – em três noites consecutivas. Foi um só show, e não três shows diferentes.
E foi o início da carreira mediúnica profissional das irmãs, que viveriam disto até suas trágicas mortes, em um negócio que logo envolveria sua irmã mais velha, Ann Leah, não apenas como empresária das irmãs, mas como médium também.
Mesmerizados
Não há prova de que as irmãs fraudaram todos os seus fenômenos. De fato, há apenas indícios circunstanciais de fraude. Ao mesmo tempo, nenhuma das três conseguiu produzir qualquer evidência satisfatória de que se comunicavam com espíritos. Em retrospecto, é desolador notar que crentes e céticos que lidaram com os “fenômenos” estavam tão presos ao contexto de seu tempo que não produziram nenhuma avaliação objetiva satisfatória. Em uma sociedade sexualmente opressiva, em profundas mudanças tecnológicas e científicas impulsionando revoluções sociais, jovens garotas se comunicando com os mortos parece ter sido um tema delicado demais.
Nesta situação, talvez a única utilidade póstuma do caso seja exatamente a de recapitular os eventos em seu contexto para uma olhada sobre a época. Desde a gênese das peripécias das irmãs envolvendo a história nunca confirmada de um mascate assassinado, e o elemento principal que as lançaria à história – a “telegrafia espiritual” – podendo ser interpretado sociologicamente como uma contraparte mística, relacionada ainda com o charlatanesco “magnetismo animal” de Mesmer, dos avanços reais e concretos da ciência e tecnologia ao fim do século XIX.
Enquanto a telegrafia elétrica real logo daria lugar a avanços sucessivos culminando hoje com a própria internet através da qual você, leitor, acompanha este longo texto, a “telegrafia espiritual” cairia em relativo desuso, e a comunicação com espíritos logo retornaria aos meios em que já era praticada milênios antes das irmãs Fox, com supostas “psicografias”, “canalizações” e “incorporações”. Raramente os espiritualistas de hoje passam horas ouvindo batidas e decodificando seus códigos letra por letra – Chico Xavier teria muita dificuldade em escrever centenas de livros dessa forma.
Atualmente, a chamada “Transcomunicação Instrumental” (TCI) parece uma legítima sucessora da “telegrafia espiritual”, em sua interpretação mística da tecnologia e ciência, mas mesmo a TCI não é central a qualquer grande religião. A proclamação do reverendo Jervis que introduz este texto, na linha de todo o entusiasmo ingênuo em torno do espiritualismo em fins do século XIX, estava simplesmente incorreta.
Todo o episódio das irmãs Fox resguarda ainda uma ironia suprema no cerne do que pode ser a interpretação mais sensata de tais eventos. O notável cientista Benjamin Franklin, em seu papel na descoberta e divulgação dos fenômenos reais da eletricidade, também teve parte, junto de Lavoisier, do médico Joseph-Ignace Guillotin e do astrônomo Jean Sylvain Bailly, no comitê francês que investigou e declarou a inexistência do “magnetismo animal” de Mesmer em 1784.
Isso não deve surpreender, a ado
rável ironia está no fato de que as irmãs Fox, em sua “telegrafia espiritual” através do mesmo “magnetismo animal” inexistente, quase cem anos depois, tenham revelado inúmeras mensagens do que seria o espírito de Benjamin Franklin, o próprio. Todas comunicações favoráveis à “telegrafia espiritual”, da “eletricidade espiritual” e ao movimento religioso então promissor, claro.
É incrível como a morte muda a vida das pessoas.
– – –

Referências
– Britten, E.H., “Modern American spiritualism: a twenty years’ record of the communion between earth and the world of spirits”, 1870, < http://www.hti.umich.edu/cgi/t/text/text-idx?c=moa;idno=ACM3377.0001.001>;
– Fodor, N., “An Encyclopaedia of Psychic Science”, 1934, < http://www.survivalafterdeath.org/mediums/foxsisters.htm>;
– Moura, V., “As Irmãs Fox”, 2004;
– Calvert, J. B., “The Electromagnetic Telegraph”, 2000, <http://www.du.edu/~jcalvert/tel/morse/morse.htm>.
Nota: O texto original foi revisado como resultado de discussão privada com Vitor Moura, a quem sou grato pelo que, espero, sejam melhorias neste trabalho, fornecido com a intenção tanto de informar aqueles interessados, como de motivar maior e melhor discussão sobre o assunto.

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5 Responses to As Irmãs Fox – Pancadas no Espiritualismo

  1. Haisen disse:

    O autor do texto acima poderia perder seu tempo e intelecto “mediano” pra escrever no seu diario.

  2. Fábio Nunes disse:

    Sou iniciante na doutrina espírita. Gostei muito do texto e me foi bastante útil como contra ponto aos livros de curso básico da doutrina espírita.
    De forma alguma minha fé foi abalada pois nunca acreditei muito em fenômenos físicos e sempre achei que toda vez que o espiritismo se meteu a usar a ciência para se afirmar os resultados foram desastrosos. Prefiro me ater a questões religiosas e filosóficas pois acredito ser impossível medir o imponderável.
    Mas voltando ao texto eu o achei bastante equilibrado, realmente é difícil de ver céticos exporem suas idéias de forma tão clara e justa na maioria das vezes os textos são tão ridículos analisando do ponto de vista da razão quanto os textos de alguns fanáticos religiosos.
    Parabéns e por favor façam também alguma pesquisa sobre as mesas girantes, pois se realmente aconteceram como dizem que aconteceu, por que não causaram uma verdadeira revolução mundial e por que não acontecem mais ? Alguns dirão – ” os espíritos elevados não se ocupam disso !”. Mas e os espíritos que não são tão elevados assim ?
    Mais uma vez parabém e lembrando que a troca de idéia é sempre saudável.

  3. […] em 1858 e abandonar tais atividades, mas anos depois, em dificuldades financeiras, voltou à carreira de “médium profissional”. Katherine nunca abandonou a carreira mediúnica, à qual a irmã […]

  4. Tatiana disse:

    O texto é bem redigido e demonstra uma pesquisa aprofundada dos eventos, no entanto, está coberta de um seletismo ensurdecedor, e as pessoas desavisadas ou iniciantes talvez não consigam filtrar os conteúdos aqui delineados. Certamente que devemos nos perguntar o contexto e o que acontecera, fazer perguntas e duvidar sempre para que possamos ter uma fé racionalizada, e não um mero “acreditar”. Contudo, devemos também termos em atenção às armadilhas da seletividade do texto.

    Aqui existe uma série de omissões, talvez propositada, de vários eventos:

    – Tanto Leah, quanto Margareth (filha) e Katherine (kate) viajaram para Inglaterra em meados de 1871 e foram submetidas a inúmeros estudos, uma a uma, entre eles realizados por um dos maiores cientistas (Crookes) da época que atestara a vericidade dos fenômenos, além de uma infinidade de outros testes que lá foram ministrados. (procure pelos jornais da época).

    – Omisso foi também foi o fato das mesas girantes além de ruídos, move-se para todos os lados, e de maneira não constante, inclusive sem qualquer força humana sendo utilizada sobre ela, o que um mero “estalar de dedos” não daria conta. Se realmente, a sua confissão de “fraude” fosse real, os estudos sobre elas tinham ali estagnados, e inúmeros cientistas tinham comprovado a sua falsidade. No entanto, o que aconteceu foi o contrário. Apesar da confissão, todos os estudos a que elas foram submetidas, digo, não foram apenas esses 3 iniciais, e nem se concentraram apenas no continente norte-americano, atestaram que existia algo inteligente do outro lado, ou apenas afirmavam que o fenômeno acontecera mas não sabiam explicar o acontecimento.

    – Ainda há outra questão: se realmente, duas meninas de 12 e 15 anos do interior dos EUA podem enganar todo um país, inclusive uma infinidade de pessoas renomadas, cientistas, professores de universidades de Harward, juízes do Tribunal Superior de Nova York com meros estalares de dedos e “truques baratos” tenho certeza que os EUA estavam perdidos em 1847 e ainda hoje estaria perdidos em consequência da ingenuidade de seus cidadãos. É só pegar as reportagens da época que uma a uma relata que as pessoas mais esclarecidas, participaram das reuniões públicas, e nenhuma foi capaz de desdizer o fenômeno, mesmo os cientístas. Muitos não souberam explicá-lo, mas nenhum deles conseguiram desdizê-las. Vejamos alguns:

    “Numa sessão realizada em Nova Iorque, em 1850, sentados ao redor de uma mesa, vemos o Rev. Griswold, o novelista Fenimore Cooper, o historiador J. Bancroft, o Rev. Dr. Hawks, os doutores J. W. Francis e Marcy, o poeta quaker Willis, o poeta Bryant, o general Lyman e o periodista Bigelow, do Evening Posto. Todos eles se manifestaram satisfeitos com a sessão, e declararam: “As maneiras e a conduta das jovens (isto é, das três irmãs Fox) são tais que tudo se inclina a favor delas.”

    “Em Janeiro de 1851, o jurista John Worth Edmonds, ex-senador, ex-juiz do Supremo Tribunal de Nova Iorque, um dos homens mais respeitados nos Estados Unidos, começou suas investigações no campo da fenomenologia espiritualista, e eis a narração de um fato que lhe foi dado presenciar a 23 de Abril do mesmo ano: “Fiz parte de um grupo de nove pessoas e nos assentamos em torno de uma mesa colocada no meio do quarto, sobre a qual se achava um lampião aceso. Um outro lampião permanecia em cima da lareira. Dentro em pouco a mesa foi elevada pelo menos a um pé do soalho, e sacudida para frente e para trás, com largo desembaraço. Alguns de nós tentamos retê-la, empregando toda a força de que dispúnhamos, mas em vão. Afastámo-nos todos para longe da mesa, e, à luz dos dois lampiões, vimos este pesado móvel de acaju suspenso no ar. ”

    “A divulgação dessas experiências com as mesas, e a seguir a conversão do juiz Edmonds, materialista que sempre rira da crença nos Espíritos, que sempre escarnecera de quem quer que fôsse que acreditasse manter relações com um mundo espiritual, pasmaram a todos os norte-americanos, aumentando ainda mais o interesse pelas manifestações inteligentes ultratumulares. Novos testemunhos, de pessoas de elevada consideração, como William Owens, Morrow, Gatchell, Kossuth (trata-se do célebre político e revolucionário húngaro Lajos Kossuth), Buchanan (certamente o Dr. José Rhodes Buchanan, precursor da Psicometria), etc., vieram corroborar a veracidade dos fenômenos.”

    “O jornal L’Univers extraiu do Courrier des États-Unis uma correspondência de 25 de Junho de 1852, datada de Saint-Louis, cidade situada à margem do rio Mississipi. Esta correspondência começa assim: “Passam-se aqui, e em grande parte da América, fatos aos quais a imprensa dá uma certa atenção … Se os fatos são o que pretendem ser, eles anunciam uma revolução religiosa e social, e são o índice de nova era cosmogônica. O contágio se faz de maneira inexplicável, sem que seja possível compreender-lhe a causa: é uma alucinação que se apodera de quase toda a gente. Falo dos fenômenos conhecidos pelo nome de manifestações espirituais, ou manifestações dos Espíritos do outro mundo. Sei que estas palavras atrairão um sorriso de piedade para os lábios daqueles que não sabem de que se trata; apesar de tudo, a loucura, se loucura há, se apodera dos CÉREBROS MAIS BEM CONSTITUÍDOS”

    “Continuando, o Courrier des États-Unis narrou um fato de ampla repercussão nos meios médicos, fato que passamos a resumir: As irmãs Fox compareceram ao anfiteatro da Escola de Medicina da Universidade de Missouri, diante de uma assembléia de 500 a 600 pessoas, submetendo-se a um comitê de investigação, que fiscalizava as experiências dirigidas pelo deão da Faculdade, sábio professor de Anatomia, célebre pelos seus conhecimentos médicos, e reputado pela sua argúcia e cepticismo. A reunião foi presidida pelo presidente da Câmara Municipal da cidade, bem conhecido pela sua oposição à nova doutrina. Todos acreditavam que o velho professor demoliria, enfim, o edifício inteiro do Espiritualismo Moderno. Mas, oh espanto! O famoso materialista, depois de dissecar os fenômenos mediúnicos, proclamou a sua crença na imortalidade da alma e declarou crer na presença dos Espíritos e na comunicação através de meios físicos. ”

    Por último, gostaria de colacionar a derradeira reportagem para não me alongar mais do que já estou o fazendo, no jornal L’Univers que assim concluíra:
    “Nos Estados Unidos, as irmãs Fox, e bem assim vários outros médiuns, recebiam freqüentes comunicações de Espíritos que revelavam serem aqueles fenômenos o prelúdio de uma renovação espiritual no Mundo. O sentido exato dessas revelações foi naqueles dias maliciosamente des-virtuado por interesses políticos e religiosos, e em pouco tempo se estabeleceu uma reação violenta, sendo os “espiritualistas”, arrolados como licenciosos, revolucionários e até criminosos. Começava o Espiritualismo Moderno a ser tido como um PERIGO SOCIAL, e “se não fora um grupo de homens íntegros e respeitados pela Nação”, os quais, declarando desassombradamente as suas convicções a favor da realidade e transcendência dos fenômenos, fizeram frente aos detratores, a história daquele país talvez se manchasse com a perseguição e matança de centenas de mártires espíritas”.

    Além dessas manifestações outras se seguiram, de forma que o texto é bastante intrigante, mas escorregadio. Interessante, contudo, para que realmente possamos analisar à fundo o conteúdo em que se desenrolara esse início, lembrando sempre que muitos outros fenômenos desses foram relatados antes da irmãs FOX.

    “As visões do sábio sueco Swedenborg, as profecias de Cagliostro, ou os fenômenos mediúnicos produzidos em 1840, na Alemanha, pelo médium inconsciente Gottlieben Dittus; a clariaudiência de Charles-Louis, do qual foram publicados, de 1839 a 1841, as retumbantes comunicações dos Espíritos obtidas desde 1840 por intermédio da sonâmbula Adele Maginot, sob a orientação de Monso Cahagnet, que editorou a partir de 1847 os “Arcanos da Vida Futura desvendados”; as notáveis manifestações medi únicas da famosa vidente de Prevorst, registradas pelo reputado Dr. Kerner, em 1829; os fenômenos com o pastor escocês Eduardo Irving; os extraordinários poderes mediúnicos de André Jackson Davis em 1847. Dezenas de outros nomes e fatos vinham confirmando, cada vez mais claramente, a verdade milenária da comunicação dos seres que partiram com os que ficaram”.

    A Sra. Emma Hardinge Britten, relata que na casa em que residiam os Weekmans, manifestações que continuaram após a saída do antigo dono e a entrada da Família Fox, em 11 de Dezembro de 1847. Ela, inclusive, como médium protagonizou um dos casos mais bem documentados de sua época, quando em transe afirmou que o Navio Pacific tinha naufragado no Oceano Atlântico e que todos os seus passageiros tinham sido mortos.
    Por conta desta revelação ela foi perseguida pela empresa proprietária da embarcação.
    Emma afirmou que suas declarações se baseavam em depoimentos de Espíritos desencarnados na tragédia. Por fim todas suas informações foram confirmadas, ganhando bastante notoriedade.

    Respondendo à pergunta ao colega acima: ” pois se realmente aconteceram como dizem que aconteceu, por que não causaram uma verdadeira revolução mundial e por que não acontecem mais ? Alguns dirão – ” os espíritos elevados não se ocupam disso !”. Mas e os espíritos que não são tão elevados assim ?”

    – Se estudares o contexo do nascimento do espiritísmo e mesmo antes, vais ver como tudo se procedeu. Primeiro, não causaram uma revolução mundial porque não era do interesse das elites nem dos centros religiosos visto que causaria uma mudança social, cultural e religiosa maior do que elas estavam prontas para aceitarem.
    Nos EUA, no entanto, fora uma revolução, mas que tb encontravam constantes barreiras nas existentes religiões, e seus adeptos eram até chamados de criminosos de forma indireta, pois eram pessoas bastante respeitáveis. Mas a doutrina era um “perigo social”. Chamo atenção para o fato da igreja não desdizer o fenômeno das irmãs FOX, na realidade ela só apontou que tudo aquilo era obra do “demônio”, e até mandou exorcizar as mesas que continuavam a se revirar céticas às bençãos dos padres. (É só procurar relatos da época nos jornais e se certificar de tudo quanto aqui foi relatado realizado de forma um tanto apressada, mas razoável).

    Só gostaria de agradecer pelo texto interessantíssimo, ríquissimo de detalhes, e que serve de bússola para que possamos sempre indagar e questionar o que lemos. Além disso, não devemos nos deter à apenas uma fonte, mas diversas, e só assim podemos acreditar racionalmente nas nossas convicções religiosas ou científico-filosóficas.

    Ainda referindo-se ao colega acima, os fenômenos espíritas ainda acontecem. No entanto, os inúmeros fenômenos aconteceram daquela forma nos EUA, Inglaterra e Paris, inclusive no Brasil para que pudessem ser vistos e notados. Se você ler o livro de Emma Hardinge Britten chamado Modern American Spiritualism vais ver que os fenômenos se desenrolaram em todas as partes do globo, e sao ilustrado em conteudos jornalisticos da época. E quanto a sua pergunta sobre “o porque não acontecem mais” é que o método evoluiu. É muito mais fácil falar diretamente ou escrever, do que utilizar-se de uma mesa daquelas, que hoje em dia é uma raridade, ou prender uma cesta a um lápis, como era feito antes, ou ainda ficar recitanto o alfabeto. A brincadeira do copo sobrevive para aqueles curiosos, e da prancheta também, e é conhecidíssimo seus relatos (apesar de não deterem conteúdo probatório entre ciclos de amigos, na falta de uma pesquisa séria).

    Uma revolução à nível mundial, como relata o amigo, é demorada, e necessita de mentes raciocinadas, e o mundo está longe disso. O espiritismo não se mete na ciência, ele é ciência. Inúmeras pesquisas estudam os fenômenos para que possamos compreendê-los, já que a filosofia adentra nesse campo, assim como a religião. É necessário estudá-los. Leia por exemplo, alguns dos estudos científicos realizados em Chico Xavier, e verás que nenhum deles desdizem a força psíquica do médium. Veja também quando ele foi posto em Tribunal por duas vezes.
    Muitos que não se põem a aceitar o que ele profere, aceita que existe algo que por ora não sabem explicar.

    Sempre que tivermos dúvidas, estudemos. E não só codificação e livros espíritas ou espiritualistas, estudemos outros mais específicos de outras áreas, lendo jornais e revistas, para não cairmos nas ciladas textuais.

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