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A Navalha de Occam

Sobre o Pseudo-ceticismo

9 de agosto de 2009 Comments (3) Views: 1736 Ceticismo, Destaques, Paranormal

FAQ (Perguntas Freqüentes) – Dicionário do Cético

Robert Todd Carrol, The Skeptic’s Dictionary
Versão em português: Dicionário do Cético 
 
P. Quem fez de você Deus? 

R. Suponho você queira dizer o que me dá o direito de questionar crenças de milhares de anos de idade mantidas por milhões de pessoas. Você pode achar arrogante e impróprio desafiar crenças apreciadas, especialmente uma vez que muitos daqueles que mantêm estas crenças são muito mais sábios e inteligentes que eu. A alternativa, como eu vejo a situação, é aceitar assuntos de fé sem pensar neles ou pensar e examinar as coisas criticamente só até que elas comecem a entrar em conflito com crenças estabelecidas, e nesse ponto assumir que não se sabe o que se está fazendo. Nenhuma alternativa me agrada. 
Eu tento entender as limitações da mente humana e fundar minhas crenças com base na melhor evidência disponível, usando os melhores métodos de investigação disponíveis, cuidadosamente considerando os melhores argumentos. Todas minhas crenças são provisórias embora eu as considere mais provavelmente verdadeiras que falsas. 
Eu não tenho nenhuma noção preconcebida sobre o que deveria ser verdadeiro ou falso nem começo com um credo e me determino a defendê-lo. Como todos os humanos, eu sou falível. Contudo, prefiro ter meus erros corrigidos em lugar de defendê-los eternamente.

P. Os céticos são céticos sobre o ceticismo? 

R. Esta pergunta é freqüentemente feita por aqueles que pensam similar à pergunta de Agostinho "Eu posso duvidar que esteja duvidando?". A resposta é "Não, se quem duvida é Agostinho ou Descartes, mas Sim se quem duvida é Glanvill ou Hume." (Leia History of Skepticism ou The High Road to Pyrrhonism de R.H. Popkin se você quiser examinar este assunto a fundo).

P. A ciência pode responder todas nossas perguntas? 

R. Não. A ciência só pode responder perguntas empíricas.

P. A ciência pode responder todas perguntas empíricas? 

R. Sim, mas muitas das respostas estarão erradas.

P. Por que você não é cético sobre a ciência? Você não questiona cientistas que fazem alegações questionáveis sobre o efeito estufa, buraco de ozônio, florestas tropicais, o Big Bang, evolução, vacinação, AIDS, aspartame, etc. Por quê? 

R. A ciência tem um conjunto de métodos públicos para investigar, debater, discutir e solucionar disputas empíricas. Estas disputas são lidadas melhor por cientistas na arena científica. Eu não ataco a pseudociência ou o charlatanismo simplesmente porque discordo de suas alegações. Eu discordo de suas metodologias não-científicas e anti-científicas e sua inabilidade de solucionar questões empíricas porque muito do que eles afirmam é metafísico, não empírico. Eu discordo com sua afirmação de que têm curas para qualquer coisa que o aflija quando sua única é auto-validação, insight, intuição, ou testemunhos de clientes satisfeitos. 
Há algumas pessoas que se intitulam céticos que se especializam em tomar partido tanto em questões controversas quanto relativamente não-controversas, por exemplo, o Skepticism.net de Brian e Elisabeth Carnell. Pessoalmente, eu penso que questões tais como o efeito estufa deveriam ser deixadas para que cientistas debatam. Posar críticas da teoria está bem para mim, mas elas deveriam ser posadas em uma página de ciência, não em uma página de ceticismo. Caso contrário, você poderia muito bem chamar de cético qualquer um que discorde de qualquer outra pessoa. Isto parece tolo, já que faz de todo o mundo cético, exceto aquelas pessoas que não têm nenhuma discordância com qualquer um, e elas estão mortas assim quem se importa com elas?

P. Todos os céticos são ateus? 

R. Não. Alguns céticos são ateus, alguns são agnósticos e alguns são teístas. Nesta consideração, céticos são como cientistas e jogadores de beisebol.

P. O ceticismo não é um tipo de religião com sua própria fé na ciência? 

R. Não. O ceticismo não é um conjunto de crenças nem envolve praticar qualquer ritual, defender qualquer modo particular de vida, ou adorar qualquer pessoa ou coisa. A convicção na ciência não está baseada na fé mas em evidência. Além disso, a convicção na ciência não é incondicional. Teorias científicas sempre são tentativas e sujeitas a modificação, diferente de dogmas religiosos. A ciência tenta excluir o erro, não perpetuá-lo desaprovando questionamentos a crenças, como fazem as religiões.

P. Por que você só critica religiões Nova Era e Orientais? Por que você não expõe fraudes como Joseph Smith (Mormonismo), Jesus Cristo e Maomé? 

R. As maiores religiões foram criticadas em detalhes por muitos estudiosos e não-estudiosos (defensores religiosos atacando outras religiões por não serem a "verdadeira" religião). Não há nenhuma falta de artigos críticos sobre as maiores religiões. Minhas entradas sobre o ateísmo, demônios, exorcismo [em português], , Deus e milagres [em português] terão que ser suficientes como uma crítica oblíqua das religiões principais. Além disso, há muitos sites na WWW mantidos por ex-mórmons, ex-católicos, ex-muçulmanos, etc., que criticam as maiores religiões. 
Por outro lado, as religiões de Orientais e Nova Era não são tão bem conhecidas, ou são inadequadamente conhecidas nos EUA Nem há muito material crítico disponível para uma pessoa investigando suas idéias principais. 
Eu posso fazer uma exceção a Joseph Smith, apenas porque sua história é uma americana, é relativamente recente e há dados históricos abundantes disponível sobre suas travessuras.

P. Por que você critica apenas a medicina "alternativa" [em português]? Por que você não tem entradas que são críticas das alegações, práticas e erros questionáveis da ciência médica, como vacinação ou circuncisão? 

R. Esperar que eu seja tão cético da ciência médica como eu sou da naturopatia, homeopatia, medicina chinesa tradicional, toque terapêutico, aromaterapia, etc., é irracional. Não é porque elas são falíveis que eu sou cético destas práticas de saúde "alternativas", mas porque elas são baseadas em suposições falsas ou questionáveis e geralmente não seguem métodos científicos para estabelecer convicções. Não segue de minha crítica de práticas de saúde "alternativas" que eu pensa que a medicina convencional não tenha falhas. Eu não critico práticas de saúde alternativas porque seus praticantes erram ou diagnosticam erroneamente. Eu as critico porque acredito que seus métodos são fundamentalmente infundados e incapa
zes de extirpar o erro. 
Além disso, os médicos "alternativos" freqüentemente não se importam se seus métodos são infundados porque enganam a si mesmo pensando que o que eles estão fazendo é justificado porque "funciona", i.e., eles vêem os resultados (preconceito de confirmação [em português]) e têm muitos clientes satisfeitos (a falácia pragmática). Estas tendências humanas fundamentais são comuns na pseudociência, mas são combatidas por cientistas ao requerer testes lógicos e científicos [em português] específicos de afirmações causais. 
Eu não acredito que a medicina convencional seja infalível. Eu criticaria a medicina convencional se fosse fundamentalmente falha, i.e., se fosse baseada em suposições metafísicas ou falsas ou questionáveis. Pode haver procedimentos específicos que a maioria dos doutores médicos segue ou recomenda que revelem ser prejudiciais ou inúteis. Não obstante, eu não rejeitaria toda a medicina por causa de erros de médicos. Seria tolo rejeitar a ciência por causa de erros de cientistas.

P. Por que você não tem entradas críticas de teorias literárias e políticas como o Marxismo, pós-modernismo,descontrucionismo? Há muita tolice sendo dita nestas áreas. 

R. Eu escolhi me restringir a alegações relacionadas ao oculto, sobrenatural, paranormal e pseudocientífico ou a fraudes e brincadeiras. Não vejo minha tarefa como criticar toda tolice que surgir à minha frente. Há os defensores e críticos em abundância na política e academia, sem mencionar as autoridades de domingo de Palookaville que debatem este tipo de materiais eternamente. Qualquer um interessado terá pouca dificuldade em encontrar material a favor e contra teorias sociais, políticas ou literárias.

P. Por que você não tem entradas sobre superstições e lendas urbanas? 

R. O Dicionário do Cético não é uma tentativa de localizar toda alegação falsa ou questionável, nem mesmo aquelas com aderência difundida. O oculto, o paranormal, o sobrenatural e o pseudocientífico definem mais ou menos os limites de minhas investigações aqui.

P. Em que os céticos acreditam? 

R. O ceticismo não é um conjunto de crenças, assim pode não haver muitas convicções mantidas por todos os céticos. Até mesmo se houvesse, tais convicções poderiam não revelar nada sobre o ceticismo, já que estas mesmas crenças podem ser mantidas por muitos que não sejam céticos.

P. Céticos são mais imorais que não-céticos? 

R. Depende do que você queira dizer por ‘imoral.’ Suponho que sim se você considera imoral duvidar das afirmações de pessoas como Uri Geller, Edgar Cayce, Sai Baba, Charles Berlitz, J.Z. Knight, Frederick Lenz, L. Ron Hubbard, Joel D. Wallach, Deepak Chopra ou Andrew Weil. Entretanto, eu não conheço qualquer estudo que mostre que céticos cometam mais assassinatos, estupros, roubos, ou molestem mais crianças que não-céticos.

P. Céticos acreditam que há uma razão para existir? 

R. Alguns sim. Alguns não. Eu acredito que qualquer propósito para a vida de uma pessoa é dado àquela vida por aquela pessoa. Em outras palavras, se você escolher fazer coisas significantes, sua vida é significante. Se você escolher viver uma existência sem sentido, então sua vida é sem sentido.

P. Por que você odeia a Amway? 

R. Eu não odeio a Amway. Mas ainda sou fascinado que a entrada sobre a Amway no Dicionário do Cético tem sido uma das mais populares em cinco anos de existência. Eu adicionei uma entrada em marketing multi-nível [em português]. Mas não vou fazer entradas separadas para outros esquemas de MMN. Eu criei o Skeptic’s Refuge para, em parte, expor fraudes na Internet, mas isso se mostrou uma idéia ridícula já que fraudes são como ervas daninhas: quanto mais você as combate, mais elas gostam e se proliferam. Até mesmo restringindo-me a fraudes com uma fundação paranormal, oculta, sobrenatural ou pseudocientífica provou ser uma tarefa que não posso acompanhar. Não que a Amway seja uma fraude, é claro. É um esquema de pirâmide legal.

P. Onde você pegou o ditado "A única coisa infinita é nossa capacidade de auto-enganação". 

R. Eu o inventei. É uma hipérbole mas eu gosto do sentimento que expressa. Ou talvez eu esteja sofrendo de criptoamnésia [em português].

P. Você acha que a lógica e a análise racional podem lhe ajudar a entender coisas como o amor ou a risada? 

R. Sim, em grande parte, mas como com qualquer coisa requerindo experiência, a perspectiva interna não é redutível à do observador externo. Sentimentos e humores podem ser estudados cientificamente, mas há um elemento subjetivo a toda experiência que transcende a ciência. Transcender a ciência não é o mesmo, porém, que transcender a natureza. Experiência subjetiva não transcende a natureza e pensar que porque algo não pode ser reduzido aos termos de um observador externo uma pessoa abriu a porta ao sobrenatural é uma ilusão em minha visão.

P. Céticos são tão negativos. Por que você não pode ser mais positivo

R. Ser negativo pode ser muito positivo. Deixe-me explicar. Há uma diferença entre ser niilista e ser negativo no senso de ser cauteloso e crítico antes de acreditar em uma alegação ou aceitar uma explicação para algo. Um niilista nega o valor de tudo. A mim, muitas pessoas religiosas são niilistas já que negam o valor de tudo neste mundo. Os líderes de religiões rejeitam freqüentemente família, reprodução, as alegrias do corpo, os prazeres da arte e da natureza. Muitos santos rejeitam este mundo e vivem como ermitões ou se unem a ordens monásticas, rejeitando a sociedade humana. Estes são os niilistas de verdade, aqueles que são negativos de um modo patológico. Pense sobre isto deste modo: você está sendo "negativo" quando diz para uma criança que não brinque na rua ou quando você critica um vizinho que vende pornografia a crianças? Ser crítico e cauteloso, rejeitando idéias, comportamentos e crenças é muitas vezes muito positivo em seus efeitos.

P. Céticos verdadeiros são agnósticos; você tem opiniões e crenças fortes. Como você pode se intitular um cético? 

R. É verdade que a palavra ‘cético’ deriva da palavra grega skeptikos (pensativo ou reflexivo), e um cético é freqüentemente tido como um questionador, alguém que cuidadosamente considera as coisas. E é verdade que o ceticismo filosófico [em português] como proposto pelos Pirronistas e Céticos Acadêmicos focalizava em fornecer modos de lançar dúvida em qualquer proposição. Sua preocupação principal parece ter sido demonstrar que não pode haver nenhuma certeza absoluta. Os mais radicais dos Céticos Filosóficos mantêm que uma pessoa não pode nem mesmo estar certa de que nada é certo. 
Porém, nada em particular se segue de aceitar que a
legações apodícticas são impossíveis de demonstrar. Por exemplo, não se segue que uma vez que nada é certo uma pessoa deveria suspender seu julgamento em todas as afirmações e não acreditar nada. Nem se segue que porque nada é certo uma pessoa deveria seguir os costumes e crenças de sua sociedade. Nem se segue que porque nada é certo qualquer crença é tão boa quanto qualquer outra crença. Nem se segue que porque nada é certo toda crença é um ato igual de fé irracional. Embora cada uma das inferências anteriores tenha sido feita por várias pessoas, nenhuma delas é uma inferência lógica válida da proposição nada é certo
Minha escolha de acreditar em algumas coisas e não acreditar em outras não é uma conseqüência direta de meu ceticismo filosófico. Eu aceito que nada é certo, mas a única coisa que parece se seguir disso é que nenhuma de minhas crenças é absolutamente certa, i.e., sem possibilidade de erro. Probabilidades são o melhor que nós podemos esperar e probabilidades parecem ser suficientes para a vida diária e a ciência. Aqueles que têm uma necessidade de certeza absoluta podem não aceitar isto mas eu acredito que sua rejeição da probabilidade como suficiente para propósitos humanos está baseada em sentimentos e emoções, não em pensamento. 
Eu espero que seja óbvio que por ‘probabilidade’ eu não quero dizer ‘probabilidade matemática.’ A probabilidade matemática de que o sol subirá no leste amanhã pode ser zero, mas a probabilidade na qual os humanos podem razoavelmente basear suas expectativas é muito, muito alta. Epistemologicamente falando, eu não posso dizer com certeza absoluta que o sol subirá no leste amanhã. Mas, se eu for dirigindo em direção ao leste pela manhã, eu levarei meu óculos de sol e não sentirei nem um pouco que estou agindo com base na fé ou que posso chegar da mesma maneira aonde quero ir ao me dirigir para o oeste. 
Finalmente, a palavra ‘cético’ é usada hoje para se referir seja a alguém que instintivamente ou habitualmente duvida, questiona ou discorda de afirmações ou conclusões geralmente aceitas ou alguém que duvida da existência de Deus e as alegações de revelação ou um cético filosófico, i.e., um que acredita que conhecimento absoluto é impossível e que a investigação deve ser um processo de duvidar para adquirir certeza aproximada ou relativa. Cada um destes significados é consistente com a prática de rejeitar sistematicamente como altamente improvável as alegações do oculto, sobrenatural, paranormal e pseudocientifico.

P. Céticos verdadeiros têm mente aberta; você tem a mente fechada a crenças no oculto, sobrenatural e paranormal. Como você pode se dizer um cético? 

Ter a mente aberta não significa que uma pessoa tem uma obrigação de examinar toda idéia bizarra [crackpot] ou afirmação feita. Eu gastei anos examinando alegações ocultas e sobrenaturais. Quando alguém diz que foi abduzida por aliens, mas não tem nenhuma evidência física da sua abdução, eu não sinto nenhuma necessidade de investigar o assunto mais adiante. Se sua única é que eles não podem se lembrar do que aconteceu a eles durante algumas horas ou dias–uma alegação comum de supostos abduzidos–então minha suspeita é que há uma explicação natural para a perda de memória deles. Por exemplo, eles estão mentindo porque não querem que ninguém saiba onde eles realmente estavam, ou eles desmaiaram por causas naturais ou auto-induzidas; eles então sonharam ou alucinaram. 
Quando alguém afirma ser Deus ou ouvir vozes que diz virem de Deus, eu assumo que ou esta pessoa está enganada ou é uma fraude. Eu tenho a mente fechada? Eu não acho assim. Porém, muitos anos atrás, quando eu ouvi falar pela primeira vez de OVNIs e abduções alienígenas, eu teria a mente fechada se não tivesse investigado os assuntos. Eu também estudei muitos casos de pessoas que afirmaram ser deuses ou reencarnações de pessoas mortas. Assim, quando um jovem no Texas que pensa que é um deus atira em agentes federais, isto nem me surpreender nem me instila qualquer desejo de investigar a alegação de divindade do homem. Eu tenho a mente fechada? Novamente, eu não acho assim. Uma vez que alguém estuda um assunto a fundo, ter a mente aberta significa você tem que deixar a porta aberta e deixar entrar qualquer idéia que passar por você. Sua única obrigação é não trancar a porta atrás de você. Se alguém alega ter partes de corpos ou de veículos alienígenas, por todos os meios vamos examinar os materiais. Se alguém está transformando água em vinho ou ressuscitando os mortos por um ato de desejo, eu serei o primeiro em reconsiderar minha opinião sobre divindades humanas. 
Uma pessoa de mente aberta que não tem experiência nem está bem-informada precisará estar disposta a investigar questões que uma pessoa experiente e informada não precisa buscar. Um pensador de mente aberta deve descobrir as coisas por si mesmo, mas uma vez que as encontre não se torna uma mente fechada simplesmente porque sua opinião é agora informada! Assim, da próxima vez você ouvir algum defensor de projeção astral, regressão de vidas passadas ou abduções alienígenas acusar um cético de ter a mente fechada, pense na possibilidade de que o cético não tenha a mente fechada. Talvez ele tenha chegado a uma crença informada.

P. Seus argumentos sempre são unilaterais. Você nunca dá argumentos a favor da PES, mágica, milagres, ou invenções que afirmam violar as leis da natureza. Por quê? Para ser justo, você não deveria fornecer os dois lados da questão? 

R. Se eu tivesse escrito um livro diferente, digamos um chamado Abordagem de um Pensador Crítico de Crenças Estranhas, meus argumentos seriam diferentes. Nesse caso, eu teria apresentado os melhores argumentos de qualquer lado em um assunto e teria deixado o leitor decidir qual argumento, se qualquer, aceitar. Mas eu não escrevi esse tipo de livro. Eu escrevi um livro que proporcionaria ao leitor os melhores argumentos céticos e referências para a melhor literatura cética sobre as alegações do oculto, sobrenatural, paranormal e pseudocientífico. Materiais não-céticos nestes assuntos são abundantes. Meu propósito é fornecer algum equilíbrio dentro um mundo editorial do contrário desequilibrado.

P. Para que serve o ceticismo? Realmente, que valor existe em ser cético? 

O ensaio de Carl Sagan no Kit de Detecção de Mentiras em O Mundo Assombrado pelos Demônios responde isto melhor. Eu penso que o ceticismo é muito valioso quando na busca e avaliação de informação. Recentemente, eu tenho pesquisado as doenças mentais, especialmente depressão e desordem bipolar. Um livro que estou lendo é de um psiquiatra, outro de um médico que não é nem psiquiatra nem um médico praticante. O psiquiatra é um investigador e médico ativo; o não-psiquiatra não fez um estágio depois de se formar na Harvard Medical School, mas foi para a Índia por vários anos em algum tipo de busca espiritual. O não-psiquiatra, Andrew Weil, é famoso; o psiquiatra não é. O não-psiquiatra tem seus próprios especiais na televisão pública, sua própria página na WWW e um par de best-sellers, incluindo um chamado Spontaneous Healing (Cura Espontânea). Há uma página dedicada à depressão no livro. O autor diz algo como "a única coisa que eu alguma vez vi funcionar para a depressão é" e então ele lista algumas vitaminas, minerais e aminoácidos, assim como exercício aeróbico. Ele não dá nenhuma razão porque estes remédios poderiam funcionar. O leitor tem que acreditar com base na fé que eles funcionam.  Por outro lado, o psiquiatra lista dúzias de desordens físicas cujos efeitos imitam os da depressão. Eu sou levado a acreditar que algumas pessoas poderiam parecer ser deprimidas por causa de uma deficiência de vitamina ou mineral ou por causa de falta de exercício. Eu também sou levado a acreditar que depressão real é um problema neuroquímico de complexidade extrema. O psiquiatra cita pesquisas e estudos de caso, e argumenta para apoiar seus pontos. 
Eu sou cético sobre a afirmação do Dr. Weil. Aceitá-la com base na fé o que ele diz poderia provar ser desastroso. Duvidar de alegações que poderiam provar ser prejudiciais parece ser uma boa razão para ser cético
Uma pessoa que conheço alega que está sendo seguida pelo FBI e a CIA. Ele afirma que placas de carro que começam com um 5 são ruins e que os motoristas de tais veículos estão por aí para nos pegar. Eu sou cético sobre estas afirmações porque esta pessoa é insignificante e é provável que não seja de nenhum interesse para qualquer agência do governo exceto talvez o IRS (Receita Federal). Ele não tem nenhuma explicação para como os homens maus têm todos placas que começam com o mesmo número. Eu não tenho nenhuma razão boa para acreditar nas alegações dele. Elas são mais provavelmente falsas e o resultado de ilusões causadas por um desequilíbrio na química de seu cérebro. Ser cético sobre as alegações dele me impede de aceitar falsidades e noções de delírio cujo valor é na melhor das hipóteses duvidoso.
Mas por que um ceticismo geral relativo a alegações sobrenaturais, ocultas ou paranormais? Basicamente pelas mesmas razões dadas acima: requerer evidência e argumentos para alegações, não as aceitando com base na fé, rejeitando noções de desvario por causa de sua verdade e valor prático duvidosos, distinguindo entre argumento e pesquisa competente e incompetente e aceitando como provável aquelas alegações que são apoiadas através de evidência sólida, parece claramente razoável e prático. 
Na realidade, eu acho assustador que qualquer um queira saber por que eu escolho não fundar minhas crenças em desejos, esperanças, falsidades, ilusões, fantasias, ficções e enganações. 
Além disso, o valor do ceticismo pode ser visto examinando a história. As Inquisições medievais e espanholas e o Holocausto foram o resultado de arrogância e dogma. Uma instituição religiosa ou política governada por céticos seria muito mais humanitária e saudável que governado por dogmatistas arrogantes. Tanto a tolerância quanto as metodologias científicas modernas emergiram do Empirismo britânico do século XVII que, em seu cerne, rejeitou o amor do Racionalista pela metafísica e demanda por certeza absoluta. Poucos de nós somos bem-servidos por políticos que proclamam, como o governador da Califórnia Pete Wilson fez, que tem "absolutamente certeza" que um homem cometeu os crimes de estupro e assassinato pelos quais ele foi condenado 16 anos atrás. Thomas Martin Thompson pode ser culpado de estupro e assassinato. Ele pode até mesmo merecer morrer. Mas ninguém, nem mesmo Pete Wilson, pode estar absolutamente certo de que Thompson cometeu esses crimes.

P. Descartes, com seu cogito ergo sum, não provou que pelo menos algumas coisas são absolutamente certas, por exemplo, que eu existo? 

R. Descartes pensou que havia provado que é absolutamente certo que Deus existe e um monte de outras coisas. Veja suas Meditations on First Philosophy. Muitas das afirmações que Descartes alegou serem absolutamente certas são chamadas afirmações analíticas: a verdade delas é uma questão de convenção e depende inteiramente de semântica ou sintaxe, não descoberta empírica. Outras afirmações que Descartes pensou serem absolutamente certas, como a de que "Deus existe", não nem absolutamente certas nem analíticas. "2+2=4" é verdade para certas definições de ‘2’, ‘+’ ‘=’ e ‘4’ e falso para outras definições, por exemplo, somando 2 pingos de chuva a 2 pingos de chuva não dá 4 pingos de chuva, e misturando 2 litros de água com 2 litros de álcool não rende 4 litros de líquido. Palavras ou sinais raramente têm significados independente de outras palavras e sinais. Se uma declaração é verdade ou não depende do que ela significa, e o que ela significa depende de seu contexto–especialmente o contexto de sua interconectividade com outras palavras ou sinais–e o pano de fundo contra o qual o significado das palavras e sinais é aprendido.

P. Como você responde a críticas do ceticismo como as de Robert Anton Wilson, que rotula os céticos como "racionalistas irracionais" e acusa os céticos de lançar uma "Nova Inquisição"? 

R. Primeiro, eu diria que Wilson não sabe a diferença entre um Cético filosófico [em português] e um cético comum. Secundariamente, eu concordaria com o que Carl Sagan escreveu em O Mundo Assombrado pelos Demônios: "nenhum cético compele convicção…. aqueles da Nova Era não estão… sendo chamados diante de tribunais criminais, nem chicoteados por ter visões, e eles certamente não estão sendo queimados" (Sagan pág. 301, em inglês). ter a mente aberta não deveria significar ser crédulo. Há pouca virtude em ser tão acrítico a ponto de considerar toda idéia igual a toda outra idéia. As pessoas razoáveis aprendem da experiência e distinguem idéias que falharam daquelas que passaram por testes empíricos rigorosos. Pessoas razoáveis não acreditam em coisas só porque elas são possivelmente verdade. Pessoas razoáveis distinguem idéias e noções prováveis das improváveis. Pessoas razoáveis confiam em teste impessoal como grupo de controle, estudos duplo cegos [em português], e aprenderam da experiência dos perigos de pensamento tendencioso, reforço comunitário [em português], preconceito de confirmação [em português], leitura fria [em português], e validação subjetiva [em português]. Uma pessoa não fica irracional ou um inquisidor ao criticar e desafiar alegações que são próximas de zero em probabilidade. A acusação é especialmente absurda em uma era onde um cético comum não é nem um pouco provável de ser um convidado de um programa popular de televisão quanto um canalizador [em português] ou um médium [em português]. Céticos certamente não são perseguidos, mas não são considerados entretenimento popular e não adquirem quase a mesma audiência que histórias Nova Era ou de OVNI adquirem. Os reais Inquisidores tiveram o apoio das pessoas, como também o apoio da Igreja. A maioria dos cientistas poderia ser cético da maioria das alegações paranormais e sobrenaturais, mas esse tipo de ceticismo não tem nenhum peso ou autoridade na Ciência. E, é triste dizer, a vasta maioria das pessoas parece simpatizante não dos céticos mas com aqueles qu
e nós criticamos. Se os céticos estão se ocupando de uma Inquisição é a Inquisição mais estranha imaginável, mantida como está por nenhuma autoridade central e conduzida por pessoas que as massas não reconhecem e ignorariam ou discordariam se reconhecessem.

P. Como você se levanta da cama pela manhã? Eu quero dizer, se você não tiver nenhuma fé, o que você pode esperar? Se você não pode rezar a Deus, como pode lidar com as tragédias da vida? Se não pode acreditar em fadas, fantasmas e coisas mágicas como cristais e sereias, como a vida pode ser interessante para você? A sua vida parece ser uma existência fria, sombria, triste, sem qualquer mágica. 

R. Suponho que poderia simplesmente ficar na cama e me iludir que na verdade estou de pé e fazendo coisas, que eu atirei um 64 em Pebble Beach, que eu descobri uma cura para o câncer, que meus pais ainda estão vivos em outra cidade e que eu intermediei a primeira paz de longa duração no Oriente Médio. Embora eu pudesse me iludir em acreditar que é possível que minhas ilusões realmente não fossem ilusões, eu faria minha vida assim "mágica"? Minha falsa esperança seria melhor que nenhuma esperança? Eu não penso assim. 
Eu encarei minha parte dos sofrimentos e dificuldades da vida, alguns deles quando eu era jovem e acreditava em Deus, mas a maioria deles quando eu era mais velho e um ateu. Não posso dizer que a crença em Deus fez isto de qualquer maneira mais fácil, muito menos que me deu esperança em um tempo de necessidade. Saber que outros sofreram mais que eu e que ninguém pode viver sem esperar uma quantidade justa de dor e sofrimento me dá mais consolo que a crença em Deus. Eu desejaria saber, se acreditasse em Deus, por que tal crueldade e miséria são permitidas. Não seria confortado pela noção de que é um mistério mas seguramente é por alguma razão boa. Por que tal idéia deveria me confortar? Se seu governo levou embora sua única criança e lhe disse que era por uma boa razão, isso iria confortar você? Se eu acreditasse que Deus não estava permitindo miséria excessiva por alguma razão boa, isto faria mais, não menos difícil para mim aceitar isto. 
Não há nada tedioso sobre uma vida sem fadas, coelhos da Páscoa, demônios, fantasmas, cristais mágicos, etc. A vida só é chata a pessoas chatas. É verdade, é difícil desfrutar os prazeres simples de um passeio no parque ou uma viagem para a praia quando seu melhor amigo acaba de ser assassinado. É impossível desfrutar um livro bom ou estudar um assunto novo a fundo para ampliar o conhecimento quando sua casa e todas suas posses mundanas há pouco foram destruídas pelo fogo. A alegria de viajar é extinguida se você é roubado. Você não pode controlar o assassino, o raio, o ladrão. Mas você pode ser capaz de controlar como você responde a eles. Você pode não ser capaz de superar a aflição sozinho, e ter uma companhia e uma família amorosa torna mais fácil de lidar com as tragédias da vida. Porém, eu tenho que dizer que não vi a evidência de que os teístas lidam com o sofrimento humano melhor que os ateus fazem. Como nós enfrentamos o sofrimento tem mais a ver com nosso caráter, nossa biologia e nossa sorte que com nossa crença ou descrença em magia ou poderes mais superiores.

R. T. Carroll – 31 de julho de 1997

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leitura adicional

Adams, James L. Conceptual Blockbusting: A Guide to Better Ideas 3rd ed. (Perseus Press, 1990).

Carroll, Robert Todd. Becoming a Critical Thinker – A Guide for the New Millennium (Boston: Pearson Custom Publishing, 2000).

De Camp, L. Sprague The Ancient Engineers (New York: Ballantine Books, 1977).

Gardner, Martin. Fads and Fallacies in the Name of Science (New York: Dover Publications, Inc., 1957).

Gilovich, Thomas. How We Know What Isn’t’ So: The Fallibility of Human Reason in Everyday Life (New York: The Free Press, 1993).

Gould, Stephen Jay. Hen’s Teeth and Horse’s Toes (New York: W.W. Norton & Company, 1983).

Popper, Karl R. The Logic of Scientific Discovery (New York: Harper Torchbooks, 1959).

Sagan, Carl. The Demon-Haunted World – Science as a Candle in the Dark (New York: Random House, 1995). Review.

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3 Responses to FAQ (Perguntas Freqüentes) – Dicionário do Cético

  1. José Luiz vieira disse:

    Acho muito difícil acreditar em Deus.Mas no fundo dá um imenso vazio,talvez por ser ensinado desde pequeno a acreditar.

  2. Júnior Felippe disse:

    Pô, que entrevistador chatinho.

  3. Edenn Lopes disse:

    sem fé é impossivel agradar a Deus. (porem Deus não esta preocupado se acreditam ou não em sua existencia! ele já era Deus antes de cada cérebro pensante! não faz diferença para ele se acreditam ou não, faz diferença para quem acredita, e como faz.)Obs. Deus acredita em você pelo simples fato: Ele te Criou. Salmo 139

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