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9 de agosto de 2009 Comments (2) Views: 1178 Ceticismo

A Navalha do Doutor Invencível

Luis Ruiz Noguez, tradução gentilmente autorizada [de MarcianitosVerdes]

Não se sabe a data exata de seu nascimento. Alguns acreditam que William Ockham (Guilherme de Occam) nasceu em uma localidade de Surrey chamada Ockham, ao sul de Londres, em 1280, mas outros opinam que foi em 1290 ou em 1295, e outros mais dão a data de 1300.

É pouco o que se conhece de sua infância. Muito jovem viajou a Londres e ingressou na Ordem Franciscana. Estudou lógica e foi ordenado subdiácono em 1306. Por volta de 1307 mudou-se a Oxford para estudar teologia, muito provavelmente com Duns Scoto (João Escoto, 1266-1308). De 1315 a 1319 daria aulas em Oxford e em Paris. É precisamente na França, e logo na Alemanha, aonde transcorreria a vida intelectual de Occam.

Na Idade Média o texto oficial de Teologia era a obra de Pedro Lombardo (1095-1160), Sentenças. Guilherme foi um encarnado crítico desta obra e isso lhe impediu de obter o título de Teologia em Oxford. Saiu da Universidade como “Inceptor” (principiante ou bacharel) e continuaria seus estudos em conventos da França. O reitor de Oxford, Jhon Lutterrell lhe acusou ante ao Papa João XXII de ter cometido “56 enganos”, mas durante anos, e graças a seu retiro a França, Occam continuaria sem nenhum sobressalto.

Em 1323 Lutterrell, ao não obter resposta, viaja a Avignon para falar com o Papa. Um ano depois João XXII ordena que Occam se mude para Avignon. Ali se abriu um processo para julgar suas obras que durou vários anos. A sentença foi ditada depois de três anos de deliberações, mas não satisfez a Lutterrell, quem pede maior dureza.

Durante o processo, mas independente dele, vai tomando força uma nova corrente dentro da ordem dos franciscanos: a chamada corrente “espiritual”. Estes franciscanos diziam que, já que Jesus e seus apóstolos não tinham tido propriedades, os religiosos tampouco deveriam tê-las e deviam viver na pobreza. Entre os líderes deste movimento estavam o próprio General da Ordem, Miguel de Cesena, e o frei Bonagracia. Guilherme de Occam rapidamente aderiu a esta corrente.
Não é difícil compreender que esta tese fosse declarada herética, pois afetava os interesses da Igreja. É então que em 1326, o Papa manda deter Cesena, Bonagracia e Occam. Os três escapariam em 26 de maio de 1328 para dirigir-se à Alemanha, aonde Luis IV da Baviera, quem já tinha sido excomungado em 1324, lhes daria asilo.

Foi este fato, e não suas críticas a Lombardo, o que faria que o Papa o excomungasse em 5 junho de 1328. Mesma sorte teriam seus companheiros, mas Cesena, além disso, é destituído de seu cargo, embora tivesse em seu poder o selo da Ordem Franciscana. Em 1329 Occam passa a residir no convento franciscano de Munique, cidade-corte do imperador. Aproveita sua estadia em Munique para criticar as bulas do Papa sobre a pobreza. Escreve Oito questões sobre a autoridade do Supremo Pontífice e Compêndio dos erros do Papa João XXII. Para Occam, João XXII é um anti-Papa e, além disso, herege.

Também defendia que a Igreja deveria ter uma função meramente espiritual, e portanto o imperador tinha primazia temporária sobre o Papa. Sustentava que deveria haver uma separação entre o poder Papal e o temporal, e que a fé e a razão também deveriam dissociar-se. Seguindo os ensinos de Escoto, opôs-se a Tomás de Aquino (que pretendia explicar a existência de Deus mediante raciocínios filosóficos). Para Occam não podia haver uma teologia racional, já que a existência de Deus e outros dogmas religiosos, como a imortalidade da alma, não podem ser demonstrados por meio da razão, já que se apóiam exclusivamente na fé.

João XXII morre em 1334, mas Occam não se reconcilia com o sucessor, Benedito XII. Continua escrevendo sobre Lógica e Filosofia, mas principalmente sobre Política e Teologia. Também seus companheiros morrem e ele fica como vigário da ordem franciscana sediciosa. Finalmente morre Luis da Baviera em 1347, quem tinha sido destituído um ano antes. Cansado e sem apoio, em 1348 entrega o selo da Ordem Franciscana e pede uma reconciliação ao Papa Clemente VI, quem o perdoa com a condição de que assine uma série de retratações, ignora-se se chegou a assiná-las já que a partir daí se perde seu rastro. Alguns pensam que morreu na epidemia da peste negra de 1349, mas para outros o Venerabilis Inceptor (Venerável Bacharel) ou Doctor Invincibilis (Doutor Invencível) morreu em 10 de abril de 1350 na cidade de Munique.

PENSAMENTO POLÍTICO

Occam pensava que todo o poder, político e religioso, provém de Deus. Aos homens só cabe escolher a seus governantes (políticos e religiosos). O Papa, ao ser eleito por um grupo de homens (os cardeais) e ao ser ele mesmo um homem, pode equivocar-se. Um cristão está submetido ao Papado, mas não ao Papa. De igual forma, nem o Papa deve estar submisso aos reis, nem estes ao Papa, já que seus poderes provêm de Deus e são independentes.

O Papa, ao ser o sucessor de São Pedro, é a cabeça da igreja e príncipe de todos os bispos e sua autoridade só alcança as questões religiosas e não as civis. Os reis, por sua vez, não têm jurisdição religiosa e sua autoridade é apenas civil. A Igreja e o Estado são independentes, embora possa haver coordenação e colaboração devido à sua comum origem divina, com o fim de procurar um bem para a comunidade.

PENSAMENTO FILOSÓFICO

Guilherme de Occam fundou o Nominalismo e também foi o responsável pelo Voluntarismo. O primeiro sustenta que todos os conceitos universais não são mais que palavras, e ao serem produtos da mente, são subjetivos. Não há nenhuma realidade que responda ao qualificativo de universal. O segundo se refere à Vontade onipotente de Deus, quer dizer, odiar a Deus poderia ser um ato bom, sempre e quando ele mesmo o prescrevesse (Deus potest praecipere quod voluntas creata odiat eum (…). Odire Deum potest esse actus rectum in via, puta si praecipiatur a Deo: ergo et in patria!). Não há um Bem e Mal naturais. Estes são apenas assim porque Deus o quis (foi sua vontade) e não o inverso. Isto leva à negação da existência de Deus, já que ao poder fazer algo absurdo, ele mesmo seria um absurdo

Segundo Occam, existem dois tipos de verdade:
a) Racional ou Filosófica. O homem capta esta verdade mediante a razão e a evidência dos raciocínios.
b) Teológica. O homem capta esta verdade mediante a fé, que se rege pela vontade.

PENSAMENTO CIENTÍFICO

Para Occam a Natureza sempre escolhe o caminho mais simples. Este era um pensamento comum entre vários escritores medievais, como Durand de Saint-Pourcain, um dominicano filósofo e teólogo falecido em 1332, e também se encontra enunciada na obra do Duns Scoto.

Mas De Occam dizia que a simplicidade não era um atributo do real mas sim devia ser o das teorias sobre o real. Para ele a melhor teoria era aquela que pode explicar o mesmo com menos elementos ou recursos. Em particular questionou a teoria do ímpeto dizendo que afirmar “um corpo se move devido a que adquire um ímpeto” era mais complicado que dizer simplesmente “um corpo se move”, já que a expressão “adquire um ímpeto” não dizia nada e portanto não adicionava nada novo (flatus vocis = palavra vazia).

O conceito de associar simplicidade com verdade não era novo no século XIV. De fato se encontra já na Física de Aristóteles, mas Occam o utiliza, por exemplo, para reinterpretar as idéias de casualidade do filósofo estagirita, afirmando que não se pode justificar uma causa universal por simples acumulação de casos individuais.

A FAMOSA NAVALHA

Esta busca da simplicidade e sensato é o que levou Occam a afiar sua navalha. A Navalha de Occam, o também chamado Princípio de parcimônia (no sentido de moderação) ou de economia, é uma das ferramentas mais potentes e eficazes da ciência moderna. Implica que no conjunto de teorias oferecidas para explicar um fato temos que preferir, em geral, a mais simples. A forma mais conhecida diz: “Entia non sunt multiplicanda praeter neccesittatem” (Não multiplicar os entes além do necessário). Mas Occam nunca a escreveu dessa forma. Em sua obra encontramos a idéia enunciada de diversas maneiras, por exemplo, quando nos comentários às Sentenças de Pedro Lombardo, afirma: “Nunquam ponenda est pluralitas sine necesitate” (Não se deve supor uma pluralidade sem motivo), ou “Pluralitas non est ponenda sine te necessite” (Não terá que supor uma pluralidade sem ser necessário). Também na expressão “Frustra fit per plura quod potest fieri per pauciora” (É vão fazer com muito o que se pode fazer com pouco); “Non sunt ponenda plura ubi sufficiunt pauciora”, ou “Quando propositio verificatur pro rebus, si duae res sufficiunt ad eius veritatem, superfluum est ponere tertiam”, o que quer dizer que quando uma afirmação pode ser verdadeira por duas razões, e estas são suficientes, é supérfluo supor uma terceira.

Uma redação mais moderna diz que: “As descrições devem ser mantidas as mais simples possíveis até o momento em que se demonstre que resultam inadequadas”.

O NOME DA ROSA

Vários autores assinalaram a influência que teve Occam na novela de Umberto Eco. Em efeito, o mesmo Eco informa em seu Postille a Il nomme della rosa, que pensou originalmente em William de Ockham para o personagem que finalmente se chamaria William de Baskerville. Sua origem franciscana e seus conhecimentos da filosofia natural o faziam o candidato ideal para resolver os crimes do monastério. De fato a trama ocorre em 1327, justo quando De Occam estava encarcerado em Avignon.

Em toda a novela há referências ao franciscano, como no primeiro dia (Vésperas), Baskerville diz a Adso que “não convém multiplicar as explicações e as causas enquanto não haja estrita necessidade”; ou quando menciona ser amigo de Guilherme de Occam.

SUA OBRA

A obra do Occam é bastante extensa, e cobre vários campos do conhecimento, como Filosofia, Lógica, Natureza e Teologia. Estão, por exemplo, seus estudos sobre a obra do Aristóteles: (In librum praedicamentorum; In duos libros Perihermeneias; In duos libros Elenchorum; Expositio super octo libros Physicorum).
As críticas aos livros de Lombardo (Ordinatio sobre o primeiro livro das Sentenças e Reportatio sobre os três livros restantes).

Também se ocupou do Porfirio em Expositio in artis logicae proemium et expositio in librum Porphyrii de praedicabilibus.

Terá que considerar também De Sacramento altaris; Scriptum in librum primum Sententiarum e Tractatus de praedestinatione et praescientia Dei.
Compendium logicae; Logicae tractatus minor e Tractatus logicae junto ao Elementarium logicae; Summa totius logicae e Logica maior são suas obras mais destacadas.

Finalmente há livros dedicados à Física: Quaestiones in octo libros physicorum; Quodlibetos e Quaestio Prima Principalis Prologi. E seus escritos nos quais se debate o problema da potestade Papal e civil e se criticam os erros e heresias dos Papas João XXII e Benedito XII, como Tractatus de successivis.

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REFERÊNCIAS
De Andres T., El nominalismo de Guillermo de Ockham como filosofía del lenguaje, Madrid, 1969.
Newman, J. R. The world of mathematics, Simon & Shuster, Nueva York, 1956.
Rábade S. Romeo, Guillermo de Ockham y la filosofía del siglo XlV, Madrid, 1966.
Shapiro H., Motion, time and place according to William of Ockham, Nueva York, 1957
Trueba Atienza Carmen, “Lógica filosófica medieval: San Anselmo y Guillermo de Occam”, Analogía, 11(1): 151-166, ene-jul, 1997.

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2 Responses to A Navalha do Doutor Invencível

  1. Macc disse:

    É impressionante como os da sociedade ocidental alienada distorcem a filosofia e o conhecimento. Occam iria se contorcer de tanto rir dos usos “navalhescos” de seus comentários. Esse texto biográfico “chupado de algum lugar”, é interessante, mas somente para quem “coleciona selos”, pois faz tudo menos o que interessa na ciência, discutir a validade da proposição lógica de William Ockham.
    Já que Occam nunca afirmou sequer: “Entia non sunt multiplicanda praeter neccesittatem” (Não multiplicar os entes além do necessário). Ou como afirma o texto, teria proferido: “Nunquam ponenda est pluralitas sine necesitate” (Não se deve supor uma pluralidade sem motivo), ou “Pluralitas non est ponenda sine te necessite” (Não terá que supor uma pluralidade sem ser necessário) – E também: “Frustra fit per plura quod potest fieri per pauciora” (É vão fazer com muito o que se pode fazer com pouco); “Non sunt ponenda plura ubi sufficiunt pauciora”, ou “Quando propositio verificatur pro rebus, si duae res sufficiunt ad eius veritatem, superfluum est ponere tertiam”, o que quer dizer que quando uma afirmação pode ser verdadeira por duas razões, e estas são suficientes, é supérfluo supor uma terceira.
    Bem, como isto virou “magicamente”: “A explicação mais simples é sempre a correta”? – eu já posso imaginar!
    De qualquer maneira, Occam fala de “necessidade” (o que é ou não necessário), do que é “supérfluo” ou não. Acontece que esse equacionamento baseado numa necessidade previa, “estas escolhas” são julgamentos de valor subjetivos, e não alguma fórmula “invencível” tirada da lógica cartesiana e objetiva.
    Para Occam essa epistemologia era coerente pois na Idade Média a maneira de se pensar ciência era de forma essencialista (a relação com o materialismo ainda era medida parcamente num Idealismo da época pitagórica). A teologia do aristotelismo era predominante, essa que considerava que todas as coisas existentes tenderam ao longo do tempo para a realização de suas formas ideais, que não existiam ainda em uma manifestação do mundo. Este movimento para o telos foi, portanto, a causa final de todas as mudanças que tiveram lugar no mundo, e neste sentido, toda a matéria era essencialmente ativa e o resultado de sua essencia.
    No mundo prático, as “necessidades” de Occam, a quantidade de dados suficiente para explicar um fenômeno, depende sempre de um valor teórico que se sobrepõe aos fatos, é sempre uma escolha muito pessoal do pesquisador. Acontece que na ciência moderna, tal subjetividade não pode ser invocada, pois não é a teoria que deve dar forma aos fatos, mas o contrário.
    Podemos ver isso claramente quando os “pseudocéticos” tiram da cartola a frase deturpada: “A explicação mais simples é sempre a correta”, e ai nos perguntamos: O que é mais simples? Mais simples para quem? Estas não são perguntas desimportantes, pois “o que é mais simples” irá depender do universo cognitivo de cada pesquisador e por isso algo subjetivo.
    Por fim, vemos aqui que o enunciado “infalível” de Occam é uma farça lógica dos modernos “pseudocéticos” e uma histórica perpetuada para os “burrocratas” da ciência de butiquim que esperam que suas explicações favoritas sejam as mais “simples”, assim como acreditam que fazendo isso, estão fazendo ciência objetiva – e não percebem que essa “navalha” já ta enferrujada faz tempo!

  2. carlos disse:

    nesse caso occam era mais ateu que crente pois tudo que este supunha ia de encontro ao teismo pois este não possui base lógica.

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