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As falhas de discriminação
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O
pensador crítico é aquele que sabe avaliar as coisas. Sabe distinguir e separar
noções. Muitas falácias e diversas falhas de raciocínio podem ser creditadas a
discriminações inadequadas. Vamos ver algumas delas.
Falha em
distinguir a idéia da pessoa
Quando alguém confunde atacar uma
idéia com atacar a pessoa que a propôs, surge o
Ad Hominem. Nesse caso, é importante reparar que
o foco de atenção deve ser sobre o argumento e
suas premissas, e não sobre o caráter ou
qualquer outra característica da pessoa que o
propôs. Observe que no decorrer deste livro
critiquei o trabalho de diversos autores, sendo
que ocasionalmente fui até mesmo duro nessas
críticas. Mas em nenhum momento critiquei os
autores em si, apenas
suas idéias. Nem sempre isto é bem recebido
e é comum receber uma acusação raivosa por se
estar fazendo isso. [crítica]
Em outros casos, pode ocorrer um efeito
diferente: considera-se correto um argumento não
baseado em suas premissas, mas sim em quem as
proferiu.
Este é
o caso da falácia Apelo à Autoridade, na qual se
pode usar a opinião de alguém notável, mas sem
especialidade no assunto em questão, como motivo
para se acreditar em uma argumentação.
crítica
Algumas pessoas podem
ficar melindradas e ofendidas quando
suas idéias são criticadas. É freqüente
que essas pessoas partam, a partir
disso, para a ofensa pessoal, pois
pensam que se alguém criticou a sua
idéia, está criticando a ela, pessoa.
Confundem a pessoa com suas idéias. Isto
está errado. Se fosse o contrário C ou
seja, se não pudéssemos criticar as
idéias, porque estaríamos ofendendo a
pessoa C, então nenhuma idéia poderia
ser criticada, já que todas as idéias
partem necessariamente de alguma pessoa.
Assim, não haveria pensamento crítico e
como conseqüência, ninguém se
preocuparia em discordar e apontar
eventuais falhas no pensamento dos
outros. Ficaríamos todos nós trancados
em nossa ignorância solitária. O ser
humano não cresceria através do debate e
C exagerando um pouquinho C estaríamos
todos caçando javalis com arco e flecha. |
Distinção
entre afirmação e evidência
É freqüente a confusão entre uma
afirmação ou opinião e uma evidência (fato).
Para sustentar argumentos, precisamos usar
evidências, e não afirmações ou opiniões.
Afirmações devem ser usadas no máximo como
conjecturas temporárias para demonstração de
um ponto secundário [absurdo],
mas não como o principal apoio de um argumento
que propomos como sólido. Uma outra falha de
distinção típica ocorre quando se confunde
explicação plausível com evidência. A
simples existência de uma possível explicação
não é uma evidência sólida o suficiente para
apoiar um argumento, a não ser que essa
explicação seja inquestionável ou altamente
provável.
Distinção
entre familiaridade e validade
Existe uma tendência em se considerar
coisas familiares como verdadeiras e coisas
desconhecidas C ou novas C como falsas. Nada
disto é justificável por si só. A falácia do
Apelo à Tradição se utiliza muito destas noções
erradas. É interessante que o oposto também é
falacioso: o Apelo ao Novo comete este erro de
distinção às avessas, ao achar que aquilo que é
novo é automaticamente melhor do que aquilo que
é velho (já vimos algo sobre isto no Capítulo
4).
absurdo
Uma afirmação sem
sustentação em evidências tem um uso
justificável quando estamos tentando
montar uma demonstração por redução ao
absurdo. Neste caso, supomos que a
afirmação seja verdadeira e dela
concluímos C através de um raciocínio
logicamente válido C alguma coisa que
possa ser rapidamente vista como
absurda. Isto colocará em dúvida as
premissas C e particularmente a
afirmação que se fez C, de forma a
desacreditá-la. |
Distinção
entre freqüentemente e sempre
Uma premissa que afirme que uma coisa
ocorre freqüentemente, não pode ser entendida
como dizendo que essa coisa ocorre sempre.
Essa confusão irá permitir a montagem de
argumentos inválidos, que usem proposições
categóricas muito mais fortes do que suas
premissas garantem. Da mesma forma, não se pode
confundir raro com nunca. Uma
situação pode ser rara mas isto não implica que
o evento nunca possa acontecer.
Distinção
entre crença e verdade
Uma crença é uma proposição que temos
em nossa mente, em geral de forma não
justificada. Tomada de forma isolada, essa
crença não pode ser interpretada como sendo uma
“verdade”. É, quando muito, uma suspeita, uma
hipótese, algo com o qual podemos iniciar nosso
processo de investigação. Suponha, por exemplo,
que você tenha entrado no prédio onde trabalha
de manhã cedo. Ao entrar, você viu que as nuvens
no céu estavam “carregadas” e cinzas. Você se
lembrará de que ontem foi a mesma coisa, e
choveu. É natural que conjecture que hoje também
possa chover durante o dia. Se não houver
janelas em seu escritório, você ficará com uma
crença em sua mente de que pode ter chovido.
Assim, logo antes de sair para o almoço, você
terá a crença de que choveu, mas não terá uma
“verdade”. Ao sair, se vir a calçada em frente
ao seu edifício toda molhada, poderá reforçar
sua idéia de que choveu. Mas ainda assim, não é
certeza, pois alguém pode ter lavado a calçada.
Ao ver carros estacionados na rua com os vidros
molhados, terá nova evidência de que pode ter
chovido, aumentando sua crença. Dessa forma, a
força daquilo que mantemos como hipótese em
nossa mente depende essencialmente dessas
evidências externas, e não daquilo que achamos
que pode ter ocorrido.
Distinção
entre inexplicado e
inexplicável
Esta é para os místicos: se um
fenômeno ainda não foi explicado pela ciência,
não dá para assumir que ele é inexplicável e,
portanto, pertencente a uma “outra realidade”
que não aquela com a qual lidamos diariamente.
Assim, se você presenciar um “guru” ou um
“místico” qualquer fazendo algo que você não tem
a menor idéia de como é feito C por exemplo,
entortando colheres “com o poder da mente” ou
coisas do gênero C, o simples fato de você se
espantar e de não dispor de nenhuma explicação
de como aquilo foi feito não é suficiente
para achar que aquela pessoa é realmente
“poderosa”. Bons mágicos vivem exatamente de
fazer truques inacreditáveis. [truques]
truques
Na realidade, a grande
maioria desses truques de salão C como
entortar colheres, adivinhar cartas
selecionadas ao acaso de um maço,
reproduzir desenhos dentro de envelopes
lacrados, verter perfume das mãos, etc.
C são tradicionalmente executados por
mágicos e ilusionistas há muito tempo.
Mas pelo fato de os mágicos serem
reticentes em revelar que truques usam C
afinal, isto afetaria o seu desempenho
profissional C, esses truques podem e
são costumeiramente empregados por
engana¬dores para proveito próprio,
quando afirmam possuir "poderes
paranormais". A diferença entre um
desses enganadores e um mágico
profissional é que este último é claro
em dizer que é apenas um truque e que
sua intenção é puramente o
entretenimento. Já os enganado¬res
afirmam possuir esses "poderes" que os
colocam em uma "categoria especial".
Realmente, são de uma categoria
especial: a dos enganadores e
manipuladores. |
Outras
características do pensador crítico
Depois de ver as falhas típicas de
discriminação, vamos ver agora uma série de
características que são úteis ao pensamento
crítico.
Mente
aberta, mas nem tanto
O pensador crítico precisa ter mente
aberta. Precisa ser capaz de ouvir e ponderar os
argumentos de quem lhe dirige a palavra. Precisa
ser caridoso com as propostas dos outros,
ouvindo-as com atenção e interpretando-as da
melhor forma possível. Mas isso tudo não deve
atravessar a linha do bom-senso, aquela a partir
da qual começa-se a tomar afirmações, opiniões e
crenças como legítimas representantes de
evidências e fatos. Considerar caridosamente os
argumentos dos oponentes pode requerer nossa
temporária adesão às premissas que eles
oferecem, para constatarmos a validade lógica do
que propõem. Mas isto não deve impedir, logo em
seguida, nossa análise crítica e imparcial
dessas premissas. Talvez esta frase consiga
capturar um pouco mais a idéia central desse
assunto:
“Eu nunca me proporia a morrer por minhas
crenças, pois posso estar errado”
Bertrand Russell
Disposição para avaliar todas as evidências
O pensador crítico não pode se restringir
à análise de apenas algumas evidências acerca de
um assunto qualquer. Ele precisa ter interesse
por todas elas, em especial por aquelas que
tenham potencial de refutar as suas
próprias crenças e hipóteses. A decisão final
será tão boa quanto nossa imparcialidade em
saber aferir não apenas as evidências que
suportam nossas idéias e crenças, mas também
aquelas que não suportam. Para isso, é
necessário contar com disposição para questionar
nossas próprias premissas. E isto implica também
em suspender o julgamento sobre aquilo
que temos em mãos caso constatemos não haver
evidências suficientes. A simples suspensão de
julgamento, entretanto, não é o final da
história: ela somente aponta para que direção
devemos caminhar para providenciar as
informações de que necessitamos. Também
relacionado a este tópico está a idéia de
evidências neutras, ou seja, aquelas que são
consistentes com nossa conclusão, mas também
consistentes com o
oposto do que concluímos. Neste caso, não
devemos usá-las para aumentar nossa crença
em nossa conclusão. Como exemplo, imagine que
você esteja atuando como consultor para discutir
o posicionamento de seu país em relação a uma
disputa comercial internacional. Chega a você a
informação de que o outro país ofereceu uma
pequena concessão na disputa. Essa concessão é
tal que pode ser interpretada tanto como uma
intenção de colaboração quanto como uma forma de
sedução consistente com uma futura traição. Essa
evidência, portanto, não pode ser interpretada
como significativa para a idéia de que o outro
país está cedendo, pois ela pode ser usada como
apoio para ambos os lados da questão.
Considerar explicações alternativas
Quando temos algum evento misterioso e
desconhecido à nossa frente, fica sedutor
postularmos uma hipótese “esotérica” para
explicá-lo. Se nos deixarmos levar pelo que
parece ser mais interessante no momento,
poderemos ficar à mercê do chamado
pensamento esperançoso (wishful thinking). O
pensador crítico não deve se contentar em achar
uma explicação plausível. A busca de outras
hipóteses mais coerentes C embora, talvez, menos
interessantes C pode nos fazer ver o evento
dentro de um contexto mais racional. Como
exemplo, é freqüente ficarmos alarmados com as
predições de escassez de combustível fóssil. Há
algum tempo, algumas predições catastrofistas
diziam que o petróleo não iria durar mais do que
a primeira década do Século XXI. Essas predições
precisam ser analisadas de forma racional. É
inquestionável que as reservas de petróleo são
finitas. Mas há um fator novo, que decorre de
nossa habilidade de extração e
potencialização de energia proveniente
desse tipo de recurso natural. Essa habilidade
tem crescido muito ultimamente, devido,
essencialmente, ao nosso maior conhecimento
tecnológico. Assim, embora estejamos certamente
consumindo muito petróleo, nossa capacidade de
extração de energia do petróleo tem
compensado, e em alguns casos, até mesmo
superado, o ritmo de decréscimo desse recurso.
Reavaliar
conclusões em face de novas evidências
Quando novos fatos e evidências são
trazidos a nossa frente, existe uma tentação
grande em distorcermos a interpretação dos fatos
para que eles caibam dentro da teoria que temos
cultivado. Ao pensar criticamente, devemos
avaliar até que ponto este procedimento não está
escondendo um outro lado da questão: podemos
estar errados. Hipóteses que refutem nossas
idéias originais têm que ser investigadas com
racionalidade e isenção. Em outras palavras,
aceite mudar de opinião quando necessário.
Mudar de idéia, nesses casos, não é sinal de
fraqueza, mas sim demonstração de que você está
interessado em se aproximar da verdade, e não de
“estar certo o tempo todo”.
Considerar os críticos da idéia
Praticamente toda idéia colocada por uma
pessoa tem um outro grupo de pessoas que pensam
de forma exatamente oposta. É extremamente
difícil encontrar questões que sejam
universalmente encaradas da mesma forma. Quem
está certo? Parece importante estarmos
preparados para argumentar e defender as nossas
idéias com racionalidade. Mas isso não significa
que devemos fechar nossos olhos a todos os
argumentos em contrário. Devemos, sim,
investigá-los e ponderá-los, até mesmo, como
vimos, para eventualmente reconsiderar nossa
opinião. Mas o ato de mudar de opinião requer
que a nova posição que adotemos seja
suficientemente poderosa para explicar de modo
convincente as mesmas evidências que
tínhamos em nosso caso anterior. Mudar de
opinião é algo que deve ocorrer quando a outra
argumentação consegue ir mais longe do
que a antiga. Assim, uma nova teoria tem que
explicar, além das novas evidências, todas as
antigas também.
Inversão
A inversão da
interpretação C tentar sustentar o
oposto do que a conclusão diz C é uma
das ótimas técnicas que o pensador
crítico deve manter em seu arsenal. Caso
essa inversão de interpretação seja
sustentável C não raro pelas próprias
premissas que sustentam o caso original
C então não há base racional para
concluir pelo argumento original. |
Procurar
por mecanismos causais plausíveis
A confusão ou mau estabelecimento de
relações de causa e efeito é um ponto que
precisa de muita atenção. Um dos importantes
princípios que aprendemos com estatística, já
mencionado em um outro capítulo, é a idéia de
que “Correlação não implica em causalidade”.
Como exemplo, diversas pesquisas apontam para
uma melhor situação geral de saúde nas pessoas
que trabalham, quando comparadas a pessoas que
não trabalham. Isto é fato, há estatísticas
demonstrando esse efeito. É fácil concluir,
apressadamente, que trabalhar seria bom para a
saúde. Isto seria equivalente a propor um
mecanismo causal, ou seja, trabalhar causaria
melhor disposição de saúde e é muito fácil
propor esta idéia em livros de “auto-ajuda”.
Entretanto, para afirmar isso é necessário mais
do que uma simples correlação. A forma mais
fácil de observar isso é inverter a
interpretação: são exatamente as pessoas mais
saudáveis que tem condições de ir ao trabalho C
ou condições de serem empregadas. [inversão]
Saúde
Um outro caso comum de
interpretação errônea tem ligação com as
afirmações de que as pessoas que vão à
igreja rezar tem melhor saúde.
Considerando que haja mesmo essa
correlação, é possível observar que,
também neste caso, a pessoa precisa
estar saudável para ir à igreja rezar.
Além disso, há o fator social: a pessoa
pode, durante esses eventos, ter um
contato humano que a faça estreitar suas
ligações com a comunidade local,
aumentando o seu círculo de amizades e
reduzindo os efeitos do estresse e da
depressão por solidão, tão comuns em
nossa sociedade. Conversar, sentir se
acolhido pela comunidade, receber a
atenção de outras pessoas, são todas
atividades que afetam positivamente a
todos nós. Assim, não é nem a igreja nem
o ato de rezar que parecem influenciar
diretamente a questão da saúde, mas sim
o tipo de socialização saudável que lá
ocorre, um procedimento que também pode
ser obtido em um clube, uma reunião de
amigos, um grupo de estudos, um coral ou
um curso de dança. |
Dessa forma, todo esse efeito C e a falsa
conclusão causal C não passam de artifício de
interpretação de uma correlação, não raro
associado a outras motivações. [saúde]
O pensador crítico precisa estar consciente de
que essa ligação pela correlação precisa de mais
substanciação para virar uma ligação causal
aceitável. Uma forma de procurar obter essa
substanciação seria através da elaboração de
hipóteses que pudessem explicar parte dessa
correlação. Uma forma racional de investigar
isso, por exemplo, seria propor que o sistema
imunológico das pessoas se torna mais debilitado
quando essas pessoas estão ociosas do que quando
estão trabalhando. Mas simplesmente criar essa
hipótese nada significa. É preciso, agora, criar
experimentos que possam confirmar ou refutar
essa hipótese, seguindo a estratégia de
investigação científica que mencionamos
rapidamente no capítulo 3.
Isto só é obtido com um estudo estatístico mais
rigoroso, que consiga estreitar mais o foco da
conclusão [aborto].
Aborto
Um estudo recente propôs
haver uma correlação entre o número de
abortos e o nível de criminalidade dos
adultos correspondentes. A hipótese é a
de que mulheres que obtêm o direito de
interromper sua gravidez ficam livres da
situação de terem que criar crianças não
desejadas, freqüentemente em um ambiente
de privação econômica, o que favoreceria
o desenvolvimento de adultos com
tendência maior a cometerem crimes
violentos. A hipótese, sozinha, não
teria substanciação suficiente.
Entretanto, um estudo de Adrian Reine e
outros estabeleceu um suporte maior para
essa hipótese (veja Raine et al. 1994).
No estudo, os autores encontraram uma
ligação entre a combinação de
complicações durante o nascimento e
rejeição maternal nessa fase, com o
comportamento violento dessas crianças
quando se tornaram adultos. As
complicações devidas ao nascimento podem
provocar danos cerebrais por falta de
oxigenação adequada. Mas esse fator,
isoladamente, não foi visto associado à
maior ocorrência de violência em
adultos. A rejeição pela mãe dos bebês
em fase inicial da vida também
favoreceria a hipótese de adultos
problemáti¬cos, mas verificou se que
isso também não está ligado,
isoladamente, à violência de adultos.
Entretanto, a combinação dos dois
fatores demonstrou haver uma ligação. De
4.269 partos de bebês masculinos, apenas
4.5% estavam nesse grupo C ou seja, as
duas condições presentes, rejeição
maternal e parto complicado. Entretanto,
esse grupo foi responsável por 18% dos
assassinatos, roubos a mão armada,
estupros e assaltos. Uma das medidas da
rejeição materna que o estudo
contabilizou foi a verificação de quais
mães gostariam de ter feito aborto.
Outro grupo obteve resultados similares,
conforme pode ser visto no artigo
Theory Ties Abortion to Crime Drop,
disponível em:
http://www.washingtonpost.com/wp
srv/WPlate/1999-08/10/0421-081099-idx.html
(agradeço mensagem do Dr. John Skoyles
do qual extraí algumas dessas
informações) |
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