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- A Navalha de Occam

Não se deve recorrer à
pluralidade sem necessidade.
William de Ockham, Quodlibeta, Livro V
(c. 1324)
William de Ockham
(Occam é a grafia latina), teólogo inglês do começo do século quatorze, é hoje,
na melhor das hipóteses, um ilustre desconhecido. Comparados com ele, Tomás de
Aquino e Duns Scotus são superstars e, no entanto, foram os pensamentos
de Occam que prefiguraram a modernidade.
Se existe uma coisa que alguns logo lembram é
a chamada "navalha de Occam", o instrumento lógico que ele brandia para despojar
uma tese de seus ornamentos absurdos. A máxima de Occam era que, quanto mais
simples uma explanação, melhor. A menos que seja necessário,
não introduza complexidades ou suposições em um argumento. Não só o resultado
será menos elegante e convincente, como também terá menos probabilidade de estar
correto.
Como veremos, uma das suposições que a navalha
de Occam dispensou foi a da existência de Deus. Não que ele não acreditasse que
Deus existe, é claro. Simplesmente, ele achava que você não poderia provar isso,
porque para fazê-lo teria que recorrer a argumentos bastante complexos (e
difíceis de acreditar). Os teólogos queriam uma prova científica
de Deus; mas o que Occam dizia, e que a maioria das pessoas eventualmente
aceitava, é que a ciência e a teologia têm objetos diferentes e requerem métodos
diferentes.
Na verdade, Occam não foi o primeiro a
empregar a navalha; e em parte alguma de sua obra vamos encontrar a conhecida
fórmula: "entidades não devem ser multiplicadas sem necessidade". Mas ele a usou
como desforra, principalmente em reação contra os métodos preponderantes da
teologia e da filosofia. Seu predecessor Aquino e outros "Escolásticos" -- nome
que ganharam por preferirem as palavras à experiência -- acalentaram a esperança
de tornar a teologia científica. Eles esperavam resolver as aparentes
contradições entre a ciência antiga e os ensinamentos das escrituras, e oferecer
explicações racionais ou provas dos conceitos teológicos (a existência de Deus,
por exemplo).
Uma etapa deste processo foi tratar conceitos
universais como "bom" ou "grande" (e mesmo universais terrestres, como "árvore"
ou "cachorro") como entidades reais, independentes. Se chamamos este olmo e
aquele carvalho, tanto um como o outro, de "árvores", então deve existir alguma
coisa real que eles compartilham (uma propriedade arborescente, uma
"arboridade", diríamos). Da mesma forma, se tanto Sócrates como Parmênides são
bons, é porque existe uma coisa que é a bondade, que ambos têm. Tal doutrina --
que é mais platônica que aristotélica -- é chamada de "realismo".
Occam achava que o realismo era simplesmente
um contra-senso, uma confusão de categorias elevada à ciência. É um erro,
pensava ele, tratar nomes como realidades em vez de descrições. (A
idéia de que nomes são apenas nomes é chamada de "nominalismo".) Se chamamos
tanto o olmo como o carvalho de "árvores", é porque determinamos o que faz com
que uma árvore seja uma árvore, não porque exista separadamente, na realidade,
uma "arboridade". Se todas as árvores de repente desaparecessem, não restaria
nenhuma "arboridade" para contar a estória, exceto como memória ou pura
abstração.
Occam usou a navalha para liquidar com os
universais da teoria do realismo, insistindo que uma explanação válida tem que
ser baseada em fatos simples e observáveis, suplementada por pura lógica.
Aceitar essas condições significa que não seremos capazes de provar
cientificamente a existência de Deus ou Sua bondade, ou quaisquer outros dogmas
da fé. Tal conclusão não o perturbou, de modo algum: ele achava que teologia era
uma coisa (matéria de revelação) e ciência, outra (matéria de descoberta). Esta
idéia levou um tempo para se firmar, como Galileu bem poderia contar a você, mas
a ciência e a religião terminaram seguindo seus próprios caminhos separados. Em
grande parte, é disso que o modernismo trata.
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