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Misticismo Quântico
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Que diria Heisenberg, ao saber
que seu famoso "princípio da incerteza" virou uma profícua "fonte da certeza"?
Que diria ele, ao descobrir que, de sua "física quântica", nasceu uma
"metafísica quântica"? Felizmente, para ele, a vida terminou em 1976, antes que
os místicos de plantão patrocinassem o maior arrastão da história e batessem,
sem cerimônia, a carteira da Ciência!
1. Quem bebeu minha sopa
primordial?
Outro dia, um amigo disse:
__ Onde há fogo, há fumaça! Por que tantas pessoas acreditariam em disco voador,
se não existissem discos voadores?
Respondi:
__ "Disco voador" é só uma explicação para uma experiência. Pessoas vêem objetos
que voam, ou parecem voar, e os explicam como discos voadores.
E ele, com ar de glória:
__ Eis o "x" da questão! Por que elas escolhem justamente a explicação disco
voador e não uma outra, qualquer?
Fui obrigado a discordar:
__ Não é uma escolha, exatamente. Pessoas "aceitam" a explicação disco-voador. E
estas pessoas só podem avistar um "disco voador" porque, antes da experiência,
alguém, em algum lugar e pela primeira vez, já havia explicado, com sucesso, que
"coisas voando pelo céu" são "discos voadores".
É curioso como o senso comum recorre, com freqüência, ao testemunho em
quantidade para validar determinada explicação: milhares de pessoas acreditam em
discos voadores; milhares de pessoas acreditam em experiências fora do corpo;
milhares de pessoas acreditam em reencarnação. Age como se a "verdade" pudesse
ser estabelecida por escrutínio e se esquece que a crença em determinado
fenômeno prova apenas, e só apenas, a existência da crença.
Mas o que faz com que pessoas expliquem coisas no céu como sendo discos
voadores? O que faz, afinal, que pessoas expliquem? A reposta é: o desejo de
explicar. Somos movidos pelo desejo de explicar e isso faz que com busquemos
explicações, reformulações da experiência na linguagem. Então, um belo dia,
alguém explicou que coisas pelo céu são discos voadores e esta explicação
replicou mundo à fora, até chegar aos ouvidos do meu amigo.
Explicações são vivas! Assim como nós, humanos, explicações passam por um
processo de seleção natural. Só as mais aptas sobrevivem. Com certeza, existiram
outras explicações para "coisas pelo céu" que, hoje, estão extintas. Vivemos,
pois, num mundo de explicações sobreviventes e bem adaptadas ao meio.
Independente de serem verdadeiras ou falsas, são explicações vencedoras. Por
isso, é dura a disputa entre Ciência, Filosofia, Religião e Senso Comum.
2. Vai uma teoria aí, madame?
Outro amigo meu, escreveu: "O objeto constitutivo de uma teoria científica é
explicar, e não, resguardar ou proteger qualquer princípio ou valor, ou obter
qualquer resultado desejado. Por exemplo, Einstein gerou a Teoria da
Relatividade como uma teoria no processo de explicar a simultaneidade como uma
experiência de coincidência de horários entre eventos separados no espaço,
somente à medida que ele permitiu que as noções clássicas de espaço, distância e
tempo fossem alteradas.
Se Einstein tentasse conservar as noções clássicas de espaço, distância e tempo,
ele não teria, de forma alguma, produzido a Teoria da Relatividade e não teria
gerado a teoria da simultaneidade de horários como uma teoria científica.
Einstein pode não ter descrito o que ele fez exatamente nestes termos, mas o
exame cuidadoso do que ele fez mostra que, operacionalmente, ele fez o que eu
descrevi.
Teorias filosóficas são geralmente produzidas com a intenção ou desejo de
fornecer um sistema de explicações para as experiências humanas que proteja
algumas crenças ou justifique certos tipos de ações no domínio de relações e
ações daqueles que as aceitam. Assim, por exemplo, o sistema filosófico que
Popper propôs envolve a crença na realidade objetiva, assim como em sua
inacessibilidade, e é construído em torno da conservação dessas crenças,
enquanto as mantém como princípios explicativos implícitos últimos".(1)
Embora eu não concorde com a crítica à Popper, meu amigo faz uma clara, e bela,
distinção entre Teoria Científica e Teoria Filosófica. Mas, se o objetivo de uma
Teoria Científica é explicar, quem ou o quê determina se esta explicação é
válida?
3. Vai Popper aí, madame?
Todo mundo já deve ter se perguntado: o que é Ciência? É uma pergunta tão fácil,
ou difícil, de responder quanto: o que é Beleza? Para determinarmos o que é
"científico" e o que é "belo" precisamos, antes de mais nada, estabelecer
critérios. Critérios de beleza são a base para se validar, ou não, uma pessoa,
um quadro ou um carro como belos. Uma beleza aqui, não é uma beleza ali. Isso
implica que a beleza é um "valor subjetivo"? Não, isso significa que a beleza é
uma "explicação particular", uma explicação que confirma o velho e surrado
ditado "a beleza está nos olhos de quem vê".
Em Ciência não é diferente. A Ciência é aquilo que os cientistas chamam de
Ciência. Nada mais. E cientifico é tudo quilo que atende a determinados
critérios de validação de explicações científicas. A Ciência é um clube, ou
melhor, vários clubes.
O critério de validação das explicações científicas em Popper é o conceito de
"falseabilidade". Uma teoria é científica se, e somente se, for falseável. Isso
significa que uma teoria é científica se permitir outras teorias alternativas à
ela própria. Deste ponto de vista podemos dizer que a Homeopatia é uma teoria
científica.
A Homeopatia explica que a diluição sucessiva e a dinamização em água
potencializam o princípio ativo de determinadas substâncias. Ao submeter-se ao
rigor da experiência, ela se prova falseável, pois permite que os resultados
alcançados pela aplicação de seus princípios possam, a rigor, ser explicados por
outras teorias.
Entretanto, não basta uma teoria ser científica, i.e, atender a determinados
critérios de validação de explicações científicas para ser uma teoria válida ou
verdadeira. Uma teoria verdadeira é aquela que mata a cobra e mostra o pau.
Ainda que, por petição de princípio, ela seja falseável; uma teoria verdadeira é
aquela que ainda não foi falseada, ainda não foi provada falsa. Já uma teoria
falsa é aquela que promete mas não cumpre. Além de falseável ela é ...falsa. E,
de acordo com a filosofia da ciência de Popper, uma teoria científica falsa é
uma ciência falsa, uma pseudociência. Deste ponto de vista, podemos dizer que a
Homeopatia é uma pseudociência.
Até hoje, todas as experiências realizadas por cientistas e instituições sérias
provaram que a Homeopatia não funciona e, quando parece funcionar, este sucesso
pode ser explicado por outras, e melhores, teorias.
4. Jesus curava os possessos.
A Bíblia não poupa palavras ao dizer que Jesus "curava" os possessos. Era a
possessão uma explicação válida para alguns tipos de doença? Epilepsia,
esquizofrenia, histerismo, etc? Jesus praticava alguma pseudociência? A resposta
é não. Se Jesus realmente curava, ele o fazia utilizando-se dos conhecimentos
científicos da época. Se fosse um "pseudocientista", a história seria outra e
Lázaro não teria morrido duas vezes. Jesus utilizava-se de uma ciência
particular, a ciência dos judeus do ano 30 E.C.
Embora a ciência da época de Jesus, assim como outras antes dela, misturasse
Religião com Ciência, a Religião era uma coadjuvante necessária e discreta.
Digamos que os ritos de exorcismo não interferiam na prescrição de ungüentos e
beberragens; e vice-versa.
Mas na Europa medieval e até o séc. XVII, a Religião era o chassi onde se
encaixavam as peças da sociedade. Diferente da judaísmo de Jesus, a Escolástica
ditava as regras do que era válido, ou não. Somente após a Revolução Científica,
a Religião perdeu seu status privilegiado, transformando-se, pouco a pouco, num
simples porta-luvas de carro. Nada contra a Religião. Porta-luvas são ótimos
para guardarem Bíblias, embora completamente incapazes de colocar o carro em
movimento.
A Física Quântica inaugurou uma nova fase na Ciência e na Filosofia, porque
trouxe para a linguagem uma série de novas explicações da realidade.
Curiosamente, as próprias explicações da Física Quântica têm um comportamento
... quântico. Se você pegar as explicações da física quântica e jogar no
liquidificador da Filosofia, saem respostas para tudo; mas se pegar estas
explicações e jogá-las no liquidificador da Ciência, saem novas perguntas.
Pseudociências têm o dom de se apropriarem dos jargões da Ciência para fazer
filosofia da pior espécie. Além de arrombarem a porta das teorias científica
válidas; dão-se ao luxo de um promíscuo casamento com a Religião e o Misticismo.
De tudo, retiram definições e conceitos de seu contexto original para aleijá-los
em outros contextos, onde teorias procuram provar uma premissa e, não, explicar
uma experiência.
Portanto, se já nos soava familiar a utilização, em livros pseudocientíficos, de
termos como "energia", "emanação", "transmissão", "força", "campo",
"magnetismo"; nossos ouvidos terão que se acostumar, agora, com a
pós-modernidade de "salto quântico", "colapso de onda", "universo holográfico",
"função de onda", "não-localidade" et caterva!
5. Um coelho na cartola.
O grande trunfo das pseudociências está em seus prepostos: os pseudocientistas.
Pseudocientistas são cientistas que não cresceram. São cientistas que elaboram,
e mantêm, Teorias Científicas falsas ou Teorias Filosóficas travestidas de
Científicas. Estes mecenas da enganação ostentam, com pompa, seus títulos
acadêmicos: são doutores em Física e Biologia; mestres em Letras ou Pedagogia.
Agem por petição de autoridade, como se o título lhes conferisse o dom de
revelar verdades a um séquito de basbaques encantados. "Fulano de tal" é Físico!
"Ciclano de tal" é Biólogo. Ora, se passar quinze anos dentro de uma
Universidade transformasse alguém em sábio, metade dos problemas da humanidade
já estariam resolvidos.
Não basta ser Doutor, é preciso ter nível de Doutor. Universidades ensinam o
caminho para a busca de explicações, mas pessoas, muitas vezes, preferem o
atalho das explicações fáceis, convenientes e lucrativas. E neste vai-e-vem de
Chapeuzinho do Diploma Vermelho, Mestres e Doutores viram ração de Lobo Místico,
enquanto Vovozinha morre de infarto, por omissão de socorro.
O Misticismo Quântico não é uma moda. Ele veio para ficar, ele já está! No
Misticismo Quântico, orações chegam aos céus porque se valem do princípio da
não-localidade. Telepatia e clarividência, idem. Demônios são a manifestação do
mal que habita um universo holográfico. Santos olham por todos, porque "tudo
está em tudo". E Deus, finalmente, pode jogar seus dados em paz, escondido no
horizonte de eventos de um grande Buraco Negro.
O físico americano P. W. Bridgman, talvez prevendo o samba do crioulo doido que
se seguiria à divulgação das explicações da física quântica, declarou: "O efeito
imediato do Princípio da Incerteza será abrir as portas a uma onda de pensamento
licencioso. Isso virá da recusa em aceitar no seu verdadeiro significado a
afirmação de que não faz sentido penetrar em uma escala muito mais profunda do
que a do elétron e apresentará a tese de que realmente há um domínio além dessa
escala, apenas que o homem, com suas presentes limitações, não está em condições
de penetrá-lo. A existência de um tal domínio será a base de uma orgia de
racionalizações. Ele será a substância da alma ... o princípio dos processos
vitais; e ele será o meio da comunicação telepática. Um grupo achará na falha da
lei física da causa e efeito a solução do antigo problema do livre-arbítrio,
enquanto, por outro lado, o ateu achará ali a justificativa para a sua convicção
de que o acaso domina o Universo" (2).
E até o tão em voga Henrique Fleming teve o cuidado de advertir, talvez em
defesa da malversação de sua próprias teorias, que "na análise das conseqüências
do Princípio da Incerteza, todo o cuidado é pouco. Por outro lado, o alcance
dessas idéias fundamentais é praticamente ilimitado, e cinqüenta anos de
convivência com o Princípio da Incerteza não foram suficientes para explorar
senão as suas conseqüências mais imediatas. O tempo, creio, revelará em
Heisenberg um de nossos mais profundos pensadores"(3).
____________________________
(1) Maturana R., Humberto in "Scientific and Philosophical Theories", publicado
na coletânea Die Gedankenwelt Sir Karl Poppers. Kritischer Rationalismus in
dialog, organizada por N. Leser, J. Seifert e K. Plitzner e publicada pela
Universitatsverlag Carl Winter, 1988, p.358-368.
(2) Fleming, Heinrique. O Princípio da Incerteza de Heisenberg.
http://www.ciencia-cultura.com/leitura/ciencia001.html. Copiado em 28/04/2004.
(3) Idem.