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Misticismo Quântico
Marcelo Druyan [@]

Que diria Heisenberg, ao saber que seu famoso "princípio da incerteza" virou uma profícua "fonte da certeza"? Que diria ele, ao descobrir que, de sua "física quântica", nasceu uma "metafísica quântica"? Felizmente, para ele, a vida terminou em 1976, antes que os místicos de plantão patrocinassem o maior arrastão da história e batessem, sem cerimônia, a carteira da Ciência!

1. Quem bebeu minha sopa primordial?

Outro dia, um amigo disse:
__ Onde há fogo, há fumaça! Por que tantas pessoas acreditariam em disco voador, se não existissem discos voadores?
Respondi:
__ "Disco voador" é só uma explicação para uma experiência. Pessoas vêem objetos que voam, ou parecem voar, e os explicam como discos voadores.
E ele, com ar de glória:
__ Eis o "x" da questão! Por que elas escolhem justamente a explicação disco voador e não uma outra, qualquer?
Fui obrigado a discordar:
__ Não é uma escolha, exatamente. Pessoas "aceitam" a explicação disco-voador. E estas pessoas só podem avistar um "disco voador" porque, antes da experiência, alguém, em algum lugar e pela primeira vez, já havia explicado, com sucesso, que "coisas voando pelo céu" são "discos voadores".

É curioso como o senso comum recorre, com freqüência, ao testemunho em quantidade para validar determinada explicação: milhares de pessoas acreditam em discos voadores; milhares de pessoas acreditam em experiências fora do corpo; milhares de pessoas acreditam em reencarnação. Age como se a "verdade" pudesse ser estabelecida por escrutínio e se esquece que a crença em determinado fenômeno prova apenas, e só apenas, a existência da crença.

Mas o que faz com que pessoas expliquem coisas no céu como sendo discos voadores? O que faz, afinal, que pessoas expliquem? A reposta é: o desejo de explicar. Somos movidos pelo desejo de explicar e isso faz que com busquemos explicações, reformulações da experiência na linguagem. Então, um belo dia, alguém explicou que coisas pelo céu são discos voadores e esta explicação replicou mundo à fora, até chegar aos ouvidos do meu amigo.

Explicações são vivas! Assim como nós, humanos, explicações passam por um processo de seleção natural. Só as mais aptas sobrevivem. Com certeza, existiram outras explicações para "coisas pelo céu" que, hoje, estão extintas. Vivemos, pois, num mundo de explicações sobreviventes e bem adaptadas ao meio. Independente de serem verdadeiras ou falsas, são explicações vencedoras. Por isso, é dura a disputa entre Ciência, Filosofia, Religião e Senso Comum.

2. Vai uma teoria aí, madame?

Outro amigo meu, escreveu: "O objeto constitutivo de uma teoria científica é explicar, e não, resguardar ou proteger qualquer princípio ou valor, ou obter qualquer resultado desejado. Por exemplo, Einstein gerou a Teoria da Relatividade como uma teoria no processo de explicar a simultaneidade como uma experiência de coincidência de horários entre eventos separados no espaço, somente à medida que ele permitiu que as noções clássicas de espaço, distância e tempo fossem alteradas.

Se Einstein tentasse conservar as noções clássicas de espaço, distância e tempo, ele não teria, de forma alguma, produzido a Teoria da Relatividade e não teria gerado a teoria da simultaneidade de horários como uma teoria científica. Einstein pode não ter descrito o que ele fez exatamente nestes termos, mas o exame cuidadoso do que ele fez mostra que, operacionalmente, ele fez o que eu descrevi.

Teorias filosóficas são geralmente produzidas com a intenção ou desejo de fornecer um sistema de explicações para as experiências humanas que proteja algumas crenças ou justifique certos tipos de ações no domínio de relações e ações daqueles que as aceitam. Assim, por exemplo, o sistema filosófico que Popper propôs envolve a crença na realidade objetiva, assim como em sua inacessibilidade, e é construído em torno da conservação dessas crenças, enquanto as mantém como princípios explicativos implícitos últimos".(1)

Embora eu não concorde com a crítica à Popper, meu amigo faz uma clara, e bela, distinção entre Teoria Científica e Teoria Filosófica. Mas, se o objetivo de uma Teoria Científica é explicar, quem ou o quê determina se esta explicação é válida?

3. Vai Popper aí, madame?

Todo mundo já deve ter se perguntado: o que é Ciência? É uma pergunta tão fácil, ou difícil, de responder quanto: o que é Beleza? Para determinarmos o que é "científico" e o que é "belo" precisamos, antes de mais nada, estabelecer critérios. Critérios de beleza são a base para se validar, ou não, uma pessoa, um quadro ou um carro como belos. Uma beleza aqui, não é uma beleza ali. Isso implica que a beleza é um "valor subjetivo"? Não, isso significa que a beleza é uma "explicação particular", uma explicação que confirma o velho e surrado ditado "a beleza está nos olhos de quem vê".

Em Ciência não é diferente. A Ciência é aquilo que os cientistas chamam de Ciência. Nada mais. E cientifico é tudo quilo que atende a determinados critérios de validação de explicações científicas. A Ciência é um clube, ou melhor, vários clubes.

O critério de validação das explicações científicas em Popper é o conceito de "falseabilidade". Uma teoria é científica se, e somente se, for falseável. Isso significa que uma teoria é científica se permitir outras teorias alternativas à ela própria. Deste ponto de vista podemos dizer que a Homeopatia é uma teoria científica.

A Homeopatia explica que a diluição sucessiva e a dinamização em água potencializam o princípio ativo de determinadas substâncias. Ao submeter-se ao rigor da experiência, ela se prova falseável, pois permite que os resultados alcançados pela aplicação de seus princípios possam, a rigor, ser explicados por outras teorias.

Entretanto, não basta uma teoria ser científica, i.e, atender a determinados critérios de validação de explicações científicas para ser uma teoria válida ou verdadeira. Uma teoria verdadeira é aquela que mata a cobra e mostra o pau. Ainda que, por petição de princípio, ela seja falseável; uma teoria verdadeira é aquela que ainda não foi falseada, ainda não foi provada falsa. Já uma teoria falsa é aquela que promete mas não cumpre. Além de falseável ela é ...falsa. E, de acordo com a filosofia da ciência de Popper, uma teoria científica falsa é uma ciência falsa, uma pseudociência. Deste ponto de vista, podemos dizer que a Homeopatia é uma pseudociência.

Até hoje, todas as experiências realizadas por cientistas e instituições sérias provaram que a Homeopatia não funciona e, quando parece funcionar, este sucesso pode ser explicado por outras, e melhores, teorias.

4. Jesus curava os possessos.

A Bíblia não poupa palavras ao dizer que Jesus "curava" os possessos. Era a possessão uma explicação válida para alguns tipos de doença? Epilepsia, esquizofrenia, histerismo, etc? Jesus praticava alguma pseudociência? A resposta é não. Se Jesus realmente curava, ele o fazia utilizando-se dos conhecimentos científicos da época. Se fosse um "pseudocientista", a história seria outra e Lázaro não teria morrido duas vezes. Jesus utilizava-se de uma ciência particular, a ciência dos judeus do ano 30 E.C.

Embora a ciência da época de Jesus, assim como outras antes dela, misturasse Religião com Ciência, a Religião era uma coadjuvante necessária e discreta. Digamos que os ritos de exorcismo não interferiam na prescrição de ungüentos e beberragens; e vice-versa.

Mas na Europa medieval e até o séc. XVII, a Religião era o chassi onde se encaixavam as peças da sociedade. Diferente da judaísmo de Jesus, a Escolástica ditava as regras do que era válido, ou não. Somente após a Revolução Científica, a Religião perdeu seu status privilegiado, transformando-se, pouco a pouco, num simples porta-luvas de carro. Nada contra a Religião. Porta-luvas são ótimos para guardarem Bíblias, embora completamente incapazes de colocar o carro em movimento.

A Física Quântica inaugurou uma nova fase na Ciência e na Filosofia, porque trouxe para a linguagem uma série de novas explicações da realidade. Curiosamente, as próprias explicações da Física Quântica têm um comportamento ... quântico. Se você pegar as explicações da física quântica e jogar no liquidificador da Filosofia, saem respostas para tudo; mas se pegar estas explicações e jogá-las no liquidificador da Ciência, saem novas perguntas.

Pseudociências têm o dom de se apropriarem dos jargões da Ciência para fazer filosofia da pior espécie. Além de arrombarem a porta das teorias científica válidas; dão-se ao luxo de um promíscuo casamento com a Religião e o Misticismo. De tudo, retiram definições e conceitos de seu contexto original para aleijá-los em outros contextos, onde teorias procuram provar uma premissa e, não, explicar uma experiência.

Portanto, se já nos soava familiar a utilização, em livros pseudocientíficos, de termos como "energia", "emanação", "transmissão", "força", "campo", "magnetismo"; nossos ouvidos terão que se acostumar, agora, com a pós-modernidade de "salto quântico", "colapso de onda", "universo holográfico", "função de onda", "não-localidade" et caterva!

5. Um coelho na cartola.

O grande trunfo das pseudociências está em seus prepostos: os pseudocientistas. Pseudocientistas são cientistas que não cresceram. São cientistas que elaboram, e mantêm, Teorias Científicas falsas ou Teorias Filosóficas travestidas de Científicas. Estes mecenas da enganação ostentam, com pompa, seus títulos acadêmicos: são doutores em Física e Biologia; mestres em Letras ou Pedagogia. Agem por petição de autoridade, como se o título lhes conferisse o dom de revelar verdades a um séquito de basbaques encantados. "Fulano de tal" é Físico! "Ciclano de tal" é Biólogo. Ora, se passar quinze anos dentro de uma Universidade transformasse alguém em sábio, metade dos problemas da humanidade já estariam resolvidos.

Não basta ser Doutor, é preciso ter nível de Doutor. Universidades ensinam o caminho para a busca de explicações, mas pessoas, muitas vezes, preferem o atalho das explicações fáceis, convenientes e lucrativas. E neste vai-e-vem de Chapeuzinho do Diploma Vermelho, Mestres e Doutores viram ração de Lobo Místico, enquanto Vovozinha morre de infarto, por omissão de socorro.

O Misticismo Quântico não é uma moda. Ele veio para ficar, ele já está! No Misticismo Quântico, orações chegam aos céus porque se valem do princípio da não-localidade. Telepatia e clarividência, idem. Demônios são a manifestação do mal que habita um universo holográfico. Santos olham por todos, porque "tudo está em tudo". E Deus, finalmente, pode jogar seus dados em paz, escondido no horizonte de eventos de um grande Buraco Negro.

O físico americano P. W. Bridgman, talvez prevendo o samba do crioulo doido que se seguiria à divulgação das explicações da física quântica, declarou: "O efeito imediato do Princípio da Incerteza será abrir as portas a uma onda de pensamento licencioso. Isso virá da recusa em aceitar no seu verdadeiro significado a afirmação de que não faz sentido penetrar em uma escala muito mais profunda do que a do elétron e apresentará a tese de que realmente há um domínio além dessa escala, apenas que o homem, com suas presentes limitações, não está em condições de penetrá-lo. A existência de um tal domínio será a base de uma orgia de racionalizações. Ele será a substância da alma ... o princípio dos processos vitais; e ele será o meio da comunicação telepática. Um grupo achará na falha da lei física da causa e efeito a solução do antigo problema do livre-arbítrio, enquanto, por outro lado, o ateu achará ali a justificativa para a sua convicção de que o acaso domina o Universo" (2).

E até o tão em voga Henrique Fleming teve o cuidado de advertir, talvez em defesa da malversação de sua próprias teorias, que "na análise das conseqüências do Princípio da Incerteza, todo o cuidado é pouco. Por outro lado, o alcance dessas idéias fundamentais é praticamente ilimitado, e cinqüenta anos de convivência com o Princípio da Incerteza não foram suficientes para explorar senão as suas conseqüências mais imediatas. O tempo, creio, revelará em Heisenberg um de nossos mais profundos pensadores"(3).

____________________________
(1) Maturana R., Humberto in "Scientific and Philosophical Theories", publicado na coletânea Die Gedankenwelt Sir Karl Poppers. Kritischer Rationalismus in dialog, organizada por N. Leser, J. Seifert e K. Plitzner e publicada pela Universitatsverlag Carl Winter, 1988, p.358-368.

(2) Fleming, Heinrique. O Princípio da Incerteza de Heisenberg. http://www.ciencia-cultura.com/leitura/ciencia001.html. Copiado em 28/04/2004.

(3) Idem.

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