- O Projeto Starchild, a "Criança das
Estrelas"
- Anatomia de uma pseudociência
Há
aproximadamente 60 ou 70 anos atrás, uma menina americana morando no México
descobriu os esqueletos de um adulto e uma criança aparentemente malformada em
uma caverna próxima à sua vila. A menina coletou os dois crânios e os guardou
por toda a vida, até sua morte recente. Pouco antes de morrer, ela passou os
crânios a um homem americano desconhecido que os manteve durante cinco anos. Os
crânios foram então passados a um casal americano que os possui até hoje.
Esta
é pelo menos a história que vem sendo contada sobre a assim chamada 'Starchild',
ou 'criança das estrelas'. Os crânios e a história contada são certamente
interessantes. É interessante especular sobre por que o adulto e a criança
morreram naquela caverna. Qual era a causa das malformações da criança? Eram
congênitas, adquiridas ou algo mais? Teriam sido a causa da morte dela? A mãe
morreu pela dor da criança perdida, ou foram ambos expulsos de sua aldeia?
Certamente, uma comovente história deve estar por trás dos restos de um adulto e
uma criança malformada achados lado a lado em uma caverna no México.
Há uma tendência, porém, de preencher tal especulação com a mitologia da
cultura local. E uma das mitologias prevalecentes de nosso tempo refere-se à
visitação de nosso planeta por pequenos aliens cinzas que estariam conduzindo um
projeto misterioso de abdução humana, talvez envolvendo um projeto de
hibridização. Não é surpresa portanto que aqueles que acreditam e popularizam
esta mitologia apegaram-se à história destes dois crânios e interpretaram os
detalhes de acordo com suas convicções.
Dois destes crédulos, Lloyd Pye e Mark Bean, montaram o que eles chamam de
Projeto Criança das Estrelas (The Starchild Project), e têm um extenso website
dedicado à sua investigação destes crânios (Pye e Bean, 1999). A investigação
deles é um exemplo típico de pseudociência, e eu examinarei a análise deles
citando as características pseudocientíficas presentes.
Aqui está um excerto da introdução do website:
Como informado por seu descobridor, o crânio "Criança das
Estrelas" é malformado de muitos modos cruciais. De fato, há pouco no crânio
que se compare a um humano normal. Ele realmente possui o mesmo número e
tipo de ossos cranianos, mas nenhum é amoldado ou está posicionado como nos
humanos. Também há outras semelhanças, incluindo certas extrusões e
contornos ósseos, ligamentos de músculo e aberturas para veias e artérias
que correspondem a humanos. Apesar dessas e outras conformidades
reconhecíveis, uma esmagadora maioria de comparações demonstra desvios da
norma humana.
Por vezes essas divergências são pequenas, mas na maioria das vezes elas são
enormes, a um grau que deveria ter produzido um monstro fetal incompatível
com a vida como nós a conhecemos. Ao invés, elas se combinam sutilmente para
formar um esboço craniano assustadoramente semelhante ao tipo alien cinzento
exemplificado na capa do livro de Whitley Streiber, "Communion".
Uma vez que o crânio "Criança das Estrelas" mostra tantos desvios da norma
humana, nós podemos seguramente esperar que o teste de DNA prove uma das
três coisas: (1) um puro alien tipo Cinzento; (2) um híbrido alien-humano;
ou (3) a mais bizarra deformidade humana desde o Homem Elefante.
Algumas características pseudocientíficas são
reconhecíveis no excerto anterior. Os autores claramente mostram seus
preconceitos de vários modos: usam citações assustadoras sobre a palavra
'malformado', chamam o crânio em questão de "Criança das Estrelas" (Starchild) e
têm preferência clara por uma explicação alienígena. Eles usam uma linguagem
forte para enfatizar as divergências do crânio, enquanto subestimam as
similaridades com a anatomia humana. Eles então partem para declarar que as
divergências se encaixam "sutilmente" com a imagem de um típico alien cinzento.
(Veja a alegada reconstrução forense do crânio reproduzido no início. Seria
curioso descobrir como eles sabem que os olhos eram completamente negros.)
Finalmente os confiantes autores predizem que a "Criança das Estrelas" ou é
um alien cinza, um híbrido alien-humano, ou "a mais bizarra deformidade humana
desde o Homem Elefante". Aqui eles estão prematuramente limitando o número de
hipóteses potenciais a duas hipóteses desejadas e uma caricaturização
tendenciosa. Eles estão tentando estabelecer por uso de linguagem forte que se a
criança for o resultado de uma malformação, é uma unicamente extrema e bizarra.
Esta é uma tentativa clara de fazer esta hipótese não desejada parecer menos
provável.
Agora que eles definiram a pergunta de uma forma limitada que lhes é
conveniente, eles continuam a descartar a indesejada hipótese alternativa. Eles
discutem as causas da deformidade, separando-as em duas categorias, infligidas e
naturais. Eles discutem então, corretamente, que a natureza das deformidades não
corresponde a qualquer prática conhecida de deformidade infligida, como
bandagens na cabeça. Eles erram quando descartam uma possível deformidade
natural.
Eles discutem que a criança não pode ter uma malformação genética (herdada)
por causa da simetria do crânio e da falta de fusão prematura das suturas
cranianas. Porém, eles descartam todas desordens genéticas nesta base, quando na
verdade há algumas desordens sem assimetria nem fechamento prematuro das suturas
cranianas. Eles discutem então que a criança não pode ter sofrido uma
malformação congênita (presente no nascimento, mas não necessariamente herdada)
porque a deformação é muito grande para que a criança sobrevivesse. Argumentam
que malformação congênita em três áreas do crânio principais geralmente produz
um feto inviável, enquanto a "Criança das Estrelas" exibe malformações em oito
regiões do crânio e sobreviveu durante pelo menos alguns anos (métodos de
cálculo de idade estimam que a criança tinha aproximadamente cinco anos quando
morreu). Porém, eles ignoram a possibilidade da que a criança tenha sofrido uma
desordem capaz de produzir vasta deformidade ao longo do crânio, sem causar
morte imediata.
Pye e Bean alegam que consultaram 50 peritos (que eles mantêm em sigilo) e
nenhum dos peritos pôde explicar adequadamente a aparência da "Criança das
Estrelas" com base em deformidade natural. Eles declaram que "nas mãos de
cientistas dedicados a enfiar peças quadradas nos buracos redondos do pensamento
convencional, a patologia pode explicar virtualmente qualquer desvio". Dado o
preconceito claro e profundo dos autores, porém, não é surpreendente que eles
tenham chegado a esta conclusão. Eles também demonstram a característica
pseudocientífica de descartar a ciência como mera protetora do status quo. O que
eles não fornecem é uma análise detalhada de qualquer deformidade particular
oferecida pelos peritos e por que a deformidade proposta não se ajustaria ao
crânio "Criança das Estrelas".
Os autores nunca consideram diretamente a hidrocefalia congênita como uma
possível explicação, embora eles a descartem junto com uma lista longa de
deformidades naturais. Hidrocefalia quer dizer literalmente "água no cérebro" e
resulta de um bloqueio no fluxo normal de fluido cérebro-espinhal (FCE) de onde
ele é produzido dentro do cérebro ao espaço que cerca o cérebro e a coluna
espinhal onde é reabsorvido. Como resultado do bloqueio, o fluido se acumula
dentro do cérebro, empurrando para fora o cérebro e o crânio. Uma vez que em
crianças pequenas os ossos do crânio ainda não se fundiram, o crânio fica livre
para aumentar e acomodar este acúmulo de fluido.
Se uma criança sofrer de hidrocefalia sem tratamento até a idade de quatro
ou cinco anos, seu crânio exibiria distorções em quase todas características.
Todos ossos, proeminências, buracos, e suturas estariam presentes, como elas
estão no crânio "Criança das Estrelas", mas estariam deformados e deslocados.
Isto é exatamente o que nós encontramos no crânio "Criança das Estrelas". A
hidrocefalia se acumula com o passar do tempo, assim uma criança com esta
desordem pode sobreviver vários anos, e sem tratamento (hoje a hidrocefalia é
tratável com uma cirurgia para drenar o fluido) provavelmente morreria com
alguns anos de idade. A grande cabeça bulbosa resultante seria vagamente
semelhante à imagem típica de um alien cinza.
Pye e Bean virtualmente ignoram esta
explicação mundana, e a descartam com bases
insatisfatórias. Eles também se estendem
longamente para interpretar o crânio de
acordo com sua hipótese claramente
preferida. Eles assim demonstram a
característica central da pseudociência.
E quanto à previsão confiante de que o teste
de DNA provaria que a criança era alien?
Bem, uma amostra de DNA foi tirada do crânio
e sujeita a análises de DNA desenhadas para
descobrir seqüências de DNA únicas aos
humanos (executadas pelo Dr. David Sweet,
Diretor da Agência de Odontologia Legal da
Universidade de British Columbia). O DNA do
crânio "Criança das Estrelas" foi descoberto
como possuidor tanto de um cromossomo X
quanto um Y. Isto é evidência conclusiva de
que a criança não só era humana (e um
menino), mas que ambos os pais deveriam ter
sido humanos também, já que cada um deve ter
contribuído com um dos cromossomos sexuais
humanos presentes.
Frente a tal evidência, seria razoável
esperar que se Pye e Bean fossem cientistas
genuínos eles abandonariam sua hipótese
alienígena. Porém, o website deles continua
a apoiar uma explicação alien à "Criança das
Estrelas", e isto é o que eles têm a dizer
sobre a evidência de DNA:
Outro conceito avançado que deve ser considerado é a
suposição razoável que um híbrido alien-humano poderia ter tanto DNA humano
quanto instruções genéticas aliens embutidas em sua formação, com ambos os
conjuntos de instruções ativos, complementares e cooperativos. Além disso,
ambos poderiam ser construídos de modos completamente diferentes, com o DNA
sendo a base da estrutura genética humana e ??? (base de silício,
nanotecnologia, etc.) sendo a base da estrutura alien. Indo um passo
adiante, tanto DNA quanto ??? poderiam estar presentes como conjuntos
completos -- a totalidade do DNA humano e a totalidade do código genético
alien, qualquer que seja -- e ambos os conjuntos estariam disponíveis para
referência ou reparo.
Pye e Bean executaram a clássica manobra pseudocientífica
de recuar frente a evidência contrária e partir para uma versão mais estranha e
bizarra de sua hipótese desejada. Se um conjunto completo de DNA humano estiver
presente, então todos os testes para humanidade serão positivos. O desconhecido
componente alien provavelmente nunca será detectável. Pye e Bean agora se
isolaram de qualquer chance de abandonar a hipótese desejada.
Dada a tendência dos pseudocientistas de abraçar a
cultura do estranho, e rejeitar padrões científicos, eu
não fui pego de surpresa ao descobrir que tanto Pye
quanto Bean já defenderam outras idéias
pseudocientíficas. Pye, por exemplo, publicou um livro
intitulado "Tudo o que você sabe está errado, Parte 1:
Origens Humanas" (Everything You Know is Wrong, Part I:
Human Origins) no qual ele diz explicar por que nós só
usamos 10% de nosso cérebro, por que a evolução
Darwiniana está errada, por que não há nenhum
antepassado fóssil humano, provas do Pé Grande e o Yeti,
e como os antigos Sumérios aprenderam tudo você sempre
quis saber sobre origens humanas de aliens espaciais.
(Pye, 1999) Pye promete "evidência forte e baseada em
fatos" para apoiar suas alegações.
Nós provavelmente nunca saberemos toda a história sobre
a "Criança das Estrelas", mas o que está claro é que
aliens não precisam ser invocados. A criança muito
provavelmente sofreu de hidrocefalia não tratada, uma
explicação mundana e simples para as anomalias vistas no
crânio. Testes de DNA confirmam, sem surpresa, a
ascendência humana da criança. Entretanto, é provável
que os verdadeiros crentes agarrem-se tenazmente a suas
hipóteses preferidas, e continuem a espalhar historinhas
sobre um programa de procriação alien-humano. A ciência
progride, enquanto a pseudociência permanece estagnada
em desejadas crenças predeterminadas.
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Referências