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8 de agosto de 2009 Comments (0) Views: 1259 Ciência, Destaques

Kammerer e o Sapo Parteiro

Kentaro Mori, publicado na revista Newton

Conta uma lenda japonesa que uma espécie de macaco sem cauda ficou assim porque, era uma vez, enganado por uma esperta raposa, tentou pescar nas águas de um rio congelado usando a própria cauda. Depois de esperar a noite inteira, sentiu finalmente um grande peso, mas ao puxar com toda a força, descobriu que era a sua cauda que havia congelado. Com o puxão, a cauda acabou caindo, e desde então todos seus descendentes já nascem sem cauda.

Na biologia, essa idéia folclórica de que o uso ou desuso de órgãos pode ser transmitido diretamente para as gerações seguintes acabou recebendo o nome de “herança das características adquiridas”, e incorporada pelo naturalista francês Jean Baptiste-Lamarck, foi a primeira proposta científica de evolução das espécies. Contudo, todas as tentativas de observar ou induzir diretamente tal herança falharam. Na década de 1880 o biólogo August Weismann cortou impiedosamente a cauda de 1.592 ratos ao longo de vinte e duas gerações – apenas para constatar que nenhum deles passou a nascer sem cauda, ou mesmo com uma mais curta. A lenda japonesa do macaco sem cauda ficava seriamente abalada.

Bem, para dizer a verdade, nem todas as tentativas falharam. No início do século vinte o biólogo austríaco Paul Kammerer afirmava ter comprovado experimentalmente o Lamarckismo, para a agitação da comunidade científica já inclinada em favor das idéias posteriores de Charles Darwin. Apesar de vistas com ceticismo pelos cientistas, as experiências de Kammerer foram saudadas com furor pela mídia – o The New York Times de junho de 1923 falava de seu sucesso “onde Darwin havia falhado”, e suas palestras na Europa e EUA eram vistas com muito entusiasmo.

Nascido em Viena em 1880, na época em que Weissman estava cortando caudas de ratos, na virada do século Paul Kammerer ingressou na Academia de Viena para estudar música. Mas acabou se graduando como biólogo, e no renomado Instituto de Biologia Experimental, não só se mostrou um exímio aquarianista como realizou experiências que o fariam mundialmente famoso. A que mais se tornou conhecida eventualmente levaria ao seu ocaso e à obliteração de seu nome da história da ciência, levando junto o pouco apoio científico que ainda existia ao Lamarckismo. Foram os experimentos realizados com o sapo parteiro.

A maioria dos sapos se acasala na água, mas o sapo parteiro – Alytes obstetricans, chamado assim porque o macho carrega os ovos da fêmea fertilizados por semanas – se acasala em terra firme. Kammerer resolveu forçá-los a acasalar na água, aumentando a temperatura do aquário, para observar o que ocorreria. Depois de muito esforço, relatou o notável resultado: os sapos desenvolveram protuberâncias nupciais. Essas pequenas protuberâncias escuras nas patas permitem que os machos se segurem melhor às fêmeas durante o acasalamento aquático. O mais importante contudo é que ele também relatou que os sapos descendentes passaram a já nascer com as protuberâncias. Como na lenda japonesa do macaco sem cauda, uma característica adquirida estaria sendo diretamente transmitida aos descendentes.

Com a Primeira Guerra Mundial e a falta de recursos, Kammerer teve que abandonar o Instituto, e depois da guerra, tudo que restou de sua mais famosa experiência foi um sapo parteiro conservado em álcool. Mas ele passou a fazer conferências pela Europa e EUA divulgando seus notáveis resultados.

Foi então que em 1926 veio a bomba: quando Gladwyn Noble do Museu Americano de História Natural verificou o espécime conservado de Kammerer, não encontrou nenhuma protuberância nupcial. Viu ao invés muita tinta nanquim dando a coloração à pata. Publicando a revelação na revista Nature, Kammerer era acusado de cometer o pior ato que um cientista poderia cometer, a fraude.

Na época, Kammerer havia sido convidado para a Universidade de Moscou e estava preparando sua viagem. Ao saber da revelação de Noble, escreveu uma carta de defesa à Academia de Ciências Soviética onde admitia a fraude, mas não confessava tê-la feito. Escreveu que desconfiava de quem era o responsável, sem dizer seu nome. Tragicamente, pouco depois cometeu suicídio, em parte também por outras razões, incluindo um desentendimento amoroso.

Depois da morte de Kammerer, o Lamarckismo foi efetivamente abandonado pela ciência ocidental, onde o Darwinismo e a genética alcançavam cada vez mais sucesso. Entretanto, na União Soviética a ‘herança das características adquiridas’ ainda seria promovida por um camponês chamado Trofim Lysenko, que prometeu a Josef Stálin multiplicar a produção de alimentos. Aqui também os resultados foram desastrosos, mas não apenas para uma pessoa: sem resultados, a biologia soviética acabou atrasada décadas em relação à biologia ocidental. Faltou-lhes um sapo parteiro com tinta nanquim.

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