A Ilusão de Design
7.setembro.2009 – Categorias: Ciência, Destaques / Tags: biologia, Dawkins, evolução
por Richard Dawkins
O mundo está dividido em coisas que parecem como se alguém lhes tivesse projetado (asas e rodas de carros, corações e televisores), e coisas que só aconteceram através do funcionamento involuntário da física (montanhas e rios, dunas de areia, e sistemas solares). O Monte Rushmore pertencia firmemente à segunda categoria até que o escultor Gutzon Borglum o trabalhasse, caindo na primeira. Charles Darwin foi em outra direção. Ele descobriu uma maneira na qual as desamparadas leis da física – as leis segundo as quais as coisas "simplesmente acontecem" – poderiam, na totalidade do tempo geológico, imitar um design proposital. A ilusão de design é tão bem sucedida que a maior parte dos americanos hoje (incluindo, significativamente, muitos americanos ricos e influentes) teimosamente se recusa a acreditar que é uma ilusão. Para essas pessoas, se um coração (ou um olho ou um flagelo bacteriano) parece arquitetado, isso é prova suficiente de que é projetado.
Não admira que Thomas Henry Huxley, "o buldogue de Darwin", ao ler A Origem das Espécies, disse sobre si mesmo: "Como fui estúpido em não ter pensado nisso antes." E Huxley era o menos estúpido dos homens. O fôlego e alcance da idéia de Darwin – amplamente documentado no campo, como Jonathan Weiner descreve em "Evolução em Ação" – aliam-se com sua audaz simplicidade. Pode-se escrevê-la em uma frase: sobrevivência não-aleatória de instruções hereditárias variando aleatoriamente para a formação de embriões. No entanto, dadas as possibilidades oferecidas pela grande quantidade de tempo, esse simples e pequeno algoritmo gera prodígios de complexidade, elegância, e diversidade de design aparente. O verdadeiro design, do tipo que vemos numa escultura, num avião a jato, ou num computador pessoal, acaba por ser uma manifestação de uma entidade – o cérebro humano – em que ela própria nunca foi projetada, mas é um produto desenvolvido pelo moinho de Darwin.
Paradoxalmente, a extrema simplicidade do que o filósofo Daniel C. Dennett chamou de a perigosa idéia de Darwin pode ser sua maior barreira a aceitação. As pessoas têm dificuldade em acreditar que um mecanismo tão simples possa chegar a resultados tão poderosos.
Os argumentos de criacionistas, incluindo aqueles criacionistas que camuflam as suas pretensões sob a frase politicamente desonesta "teoria do design inteligente", repetidamente regressam à mesma grande falácia. Algo parece projetado. Logo, foi projetado. Continuando meu paradoxo, há a idéia de que o ceticismo de quem muitas vezes recebe a idéia de Darwin idéia é uma medida da sua grandeza.
Parafraseando o geneticista do século 20 Ronald A. Fisher, a seleção natural é um mecanismo de geração de improbabilidade em uma enorme escala. Improvável é quase um sinônimo para inacreditável. Qualquer teoria que explica o que é altamente improvável está pedindo para ser negada por aqueles que não a compreendem.
No entanto, o altamente improvável existe no mundo real, e precisa ser explicado. Improbabilidade adaptativa – complexidade – é precisamente o problema da vida que qualquer teoria tem de resolver e que a seleção natural, a única que até então a ciência reconhece, resolve. Na verdade, é o design inteligente a maior vítima do argumento da improbabilidade. Qualquer entidade capaz de projetar deliberadamente uma criatura viva, para já não falar de um universo, teria de ser extremamente complexa por si própria.
Se, como o astrônomo dissidente Fred Hoyle acreditava erroneamente, a espontânea origem da vida é tão improvável quanto um furacão soprando um ferro velho tivesse a sorte de montar um Boeing 747, então um designer divino é o Boeing 747 final. A origem espontânea do designer, ex nihilo, teria de ser ainda mais improvável do que a mais complexa de sua alegada criações. A menos, claro, que ele tenha se baseado na seleção natural para fazer o seu trabalho! E, nesse caso, se poderia perguntar, ele precisa existir absolutamente?

A realização não-aleatória da seleção natural é a de domar o acaso. Minimizando a sorte, quebrando assim a improbabilidade em um grande número de pequenos passos – cada passo um tanto improvável, mas não tão ridiculamente improvável – a seleção natural aumenta paulatinamente a improbabilidade.
À medida que as gerações passam, o aumento leva a improbabilidade a se acumular a níveis que – na ausência do paulatino acréscimo – seria superior à credibilidade de todos os sensatos.
Muitas pessoas não percebem tais acréscimos cumulativos não-aleatórios. Elas acham que a seleção natural é uma teoria de azar, por isso não me admira que elas não acreditem nela! A batalha que nós biólogos enfrentamos, na nossa luta para convencer o público e os seus representantes eleitos, é que a evolução é um fato, soma-se à batalha para transmitir-lhes o poder da engrenagem de Darwin – o Relojoeiro Cego – impulsionando-lhes a escalada dos declives suaves do Monte Improvável.
O argumento mal empregado da improbabilidade não é o único usado pelos criacionistas. Eles são muito apreciadores de lacunas, tanto lacunas literais no registro fóssil quanto nas lacunas de sua compreensão daquilo que o darwinismo advoga. Em ambos os casos, a (falta de) lógica do argumento é a mesma. Alegam uma lacuna ou deficiência no cômputo Darwiniano. Em seguida, sem sequer averiguar se o design inteligente sofre da mesma deficiência, eles proclamarão vitória para a "teoria" rival. Este raciocínio não é o modo de se fazer ciência. Mas a ciência é precisamente aquilo que os "cientistas" criacionistas, apesar das ambições dos seus fanfarrões do design inteligente, não estão fazendo.
No caso de fósseis, como Donald R. Prothero documenta em "The Fossils Say Yes" [ver a versão impressa da Natural History, em que este artigo apareceu pela primeira vez], os biólogos de hoje são mais felizes do que Darwin foi por ter acesso à linda série da fase de transição: registros quase cinematográficos de mudanças evolutivas em ação. Nem todas as transições são tão comprovadas, é claro – daí as lacunas. Alguns pequenos animais simplesmente não fossilizam; seus filos são conhecidos somente a partir de espécimes modernos: a sua história é uma grande lacuna. As lacunas equivalentes para qualquer criacionista ou teoria do design inteligente seria a ausência de um registro cinematográfico de cada movimento de Deus na manhã que ele criou, por exemplo, as bactérias motoras flageladas. Não só faltam tais videoteipes divinos: há uma total ausência de provas de qualquer tipo de design inteligente.
Ausência de provas a favor não é prova contrária, claro. Provas positivas contra a evolução poderiam ser encontradas facilmente – se é que elas existem. O contemporâneo e rival de Fisher, J. B. S., Haldane, foi perguntado por um fanático popperiano o que falsificaria a evolução. Haldane respondeu, "Fósseis de coelhos no Pré-Cambriano." Nenhum fóssil do tipo foi encontrado, é claro, apesar de inúmeras pesquisas para espécies anacrônicas.
Existem outros entraves para a aceitação do darwinismo. Muitas pessoas não conseguem suportar a idéia que elas são primas não apenas dos chimpanzés e macacos, mas de céstodos, aranhas e de bactérias. A intragabilidade de uma proposição, no entanto, não tem qualquer influência sobre a sua veracidade. Eu, pessoalmente, acho a idéia de familiaridade com todas as espécies vivas bem agradável, mas nem a minha simpatia para com ela, nem o pavor de um criacionista, tem a menor influência sobre a sua veracidade.
O mesmo pode ser dito sobre objeções políticas ou morais ao Darwinismo. "Diga às crianças que elas não são nada mais que animais e elas se comportarão como animais". Eu não aceito por um momento sequer que a conclusão decorra da premissa. Mas mesmo que eu o fizesse, uma vez mais, uma conseqüência desagradável não pode comprometer a verdade de uma premissa. Alguns disseram que Hitler fundou sua filosofia política no darwinismo. Isso é um disparate: doutrinas de superioridade racial em nada decorrem da seleção natural, devidamente compreendida. No entanto, um bom caso poderia ser feito de que uma sociedade que corresse em linhas darwinistas seria uma sociedade muito desagradável para se viver. Mas, mais uma vez, o dissabor de uma proposição não tem qualquer influência sobre a sua veracidade.
Huxley, George C. Williams, e outros evolucionistas se opuseram ao darwinismo como uma doutrina política e moral tão apaixonadamente quanto defenderam a sua verdade científica. Considero-me entre eles. A Ciência precisa compreender a seleção natural como uma força na natureza, opondo-se a ela como uma força normativa na política. O próprio Darwin manifestou consternação perante a indiferença da seleção natural: "O que um livro como Devil’s Chaplain poderia escrever sobre as obras rudes, devastadoras, descuidadas e horrivelmente cruéis da natureza!".
Apesar do sucesso e da admiração que ele ganhou, e apesar da sua grande e amável família, a vida de Darwin não foi feliz. Preocupado com a deterioração genética em geral e os possíveis efeitos da endogamia mais perto de casa, como James Moore documenta em "Good Breeding" [ver edição de novembro da revista Natural History], e atormentado pela doença e luto, como a entrevista de Richard Milner com o psiquiatra Ralph Colp Jr. mostra em "Darwin’s Shrink", as façanhas de Darwin parecem mais impressionantes. Ele ainda encontrou tempo para distinguir-se como experimentador, especialmente com plantas. Os artigos de David Kohn e de Sheila Ann Dean ("The Miraculous Season" e "Bee Lines and Worm Burrows" [ver a edição de novembro da revista Natural History]) levam-me a pensar que, mesmo sem suas principais realizações teóricas, Darwin ganharia reconhecimento permanente como experimentador, embora um experimentador com o estilo de um amador cavalheiresco, que poderia não cair nas boas graças dos referees dos periódicos modernos.
Quanto às suas principais realizações teóricas, naturalmente, a nossa compreensão dos detalhes mudaram desde a época de Darwin. Esse foi o caso, especialmente, durante a síntese de Darwinismo com a genética digital Mendeliana. E, além da síntese, como Douglas J. Futuyma explica, em On Darwin’s Shoulders, [ver a edição de novembro da Natural History Magazine] e Sean B. Carroll detalha ainda mais para o excitante novo campo de "evo-devo", em "The Origins of Form", o Darwinismo revela-se uma florescente população de teorias, ele próprio em rápida mudança evolutiva.
Em todo o desenvolvimento da ciência há divergências. Mas cientistas – e aqui está o que separa os verdadeiros cientistas dos pseudocientistas da escola do design inteligente – sabem qual prova seria necessária para mudar de idéia. Uma coisa de que todos os verdadeiros cientistas estão de acordo é o fato da própria evolução. É um fato que somos primos de gorilas, cangurus, estrelas-do-mar e bactérias. Evolução é um fato tanto quanto o calor do sol. Não é uma teoria, e, por piedade, vamos parar de confundir os filosoficamente ingênuos chamando-a dessa forma. Evolução é um fato.
- – -
Artigo publicado originalmente na edição de novembro de 2005 da revista Natural History. Reproduzido em eSkeptic, traduzido por Vitor Moura Visoni através da Iniciativa Lúmen
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17 comentários em “A Ilusão de Design”
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8 setembro, 2009 às 11:54 am
Maravilhosamente “divino” srrsrsr
18 setembro, 2009 às 2:50 pm
É pena para o idiota falacioso do RD é que Deus é o autor das leis fisíco-quimícas que cria tudo.
Só lamento RD.
ri ri ri
20 setembro, 2009 às 12:00 pm
[...] A Ilusão de Design [...]
2 outubro, 2009 às 10:29 pm
Hehe engraçado alguem que tem um amigo imaginário acusar outras pessoas de idiotas.
3 outubro, 2009 às 9:16 pm
“Deus é o autor das leis físico-químicas que cria tudo”. hmm. Você leu na bíblia isso, Marcelo? Pois tenho certeza absoluta de que em livros de ciência não foi.
E bem legal a iniciativa de traduzir o artigo, embora eu tenha notado um ou outro problema: “o que falsificaria a evolução”, por exemplo. Creio que o correto seria ‘falsearia a evolução’, não? Mas valeu. Abs.
12 outubro, 2009 às 4:04 am
Pois é, não sei o que é pior, o cara ter um “amigo imaginario” ou rir desse jeito bobo “hi hi hi”..:-)
E depois de acreditar que “deus criou regras fisico-químicas”, só falta acreditar que duendes tem potes de ouro no fim do arco-iris e que chifres de unicórnios são mágicos.
Cai na real, Marcelo, quem criou as leis fisico-químicas foi o Monstro Espaguete Voador..:-)
24 outubro, 2009 às 12:31 am
É realmente triste o que há nos comentários acima. Pessoas que, independentemente de sua crença num criador ou não, mostram-se de mente fechada.
Ambas as atitudes tomadas aqui em relação ao fato do Design na natureza ser gerado pela seleção natural, seja a atéia ou a teísta, ignoram a possibilidade de haver algo, ou alguém por trás desse processo. Duas atitudes errôneas em relação ao método científico: um o subestima e investe em suas lacunas; outros tentam considerá-lo como onipotente, forma última de obter conhecimento.
É necessário saber qual o escopo da ciência: o mundo natural. Questões subjetivas, como religião, não lhe dizem respeito. Levá-la para além desse escopo é um erro, e colocá-la aquém também. Tanto um quanto outro tratamento está motivado tão somente por razões sentimentais, as MESMAS que geram todo tipo de crença, especialmente a religiosa (seja ela teísta, atéia, panteísta ou deísta). E a existência de um ente metafísico que coordena os processos do mundo natural (seja ele pessoal ou não) é uma das coisas fora do domínio da ciência, e que só é decidido por uma iniciativa pessoal, grosso modo, fé.
E esclarecendo uma coisa, não sou adepto da NOMA de Stephen Jay Gould. Estou dizendo que a metodologia científica não é válida para todas as áreas da vida, não os conceitos resultantes dessa metodologia. Estes, como qualquer outra experiência, modifica as concepções pessoais que vão se modificando.
24 outubro, 2009 às 7:26 pm
Rodrigo Ribeiro, parabéns pelo comentário!
27 outubro, 2009 às 8:32 am
Bom, Rodrigo Ribeiro, fui um dos que comentaram acima em resposta ao marcelo, que disse: “Deus é o autor das leis físico-químicas que cria tudo”. Acho que ao falar de “físico-químicas” estamos dentro do escopo da ciência, não? Ou devemos aí também respeitar a subjetividade das pessoas? Acho que se assim fosse o homem dificilmente teria chegado a lua.
E você, me permita repetir, também diz: “todo tipo de crença, especialmente a religiosa (seja ela teísta, atéia, panteísta ou deísta)”. Atéia? O ateísmo é uma religião? Isso é uma novidade tão grande pra mim que sou capaz de apostar um braço como você está completamente errado! É pra mim tão exótico como você dizer que pelo fato de não acreditar em fadas (por simples falta de evidências, deixo claro), eu pertenço a religião dos afeéricos! Nem sei se este termo já foi cunhado e sei também que o número de ateus é muito maior e mais incômodo, mas isso apenas pelo fato de que o número de pessoas que saem por aí dizendo que foram as fadas que criaram isso ou aquilo, é muito menor. E se alguém o fizesse, ainda falando de fadas, tal idéia não poderia ser atacada ou questionada? Por que não? As opiniões e tendências políticas de qualquer pessoa diariamente o são, as opções sexuais das pessoas o são (não é o que a grande maioria das religiões fazem?). Por que o privilégio das religiões? Até concordo que a ciência não explica tudo (ainda), mas então a solução é a fé? No quê, em deus, no saci pererê, na Batata suprema, no Monstro do Espaguete voador (será que o comentário do Homero também é triste?)? Ou alguém não pode ter uma fé sincera em todas essas coisas? Se admitir que não, lembre-se, você poderá estar desrespeitando a subjetividade das pessoas.
Permita-me, por favor: “seja a atéia ou a teísta, ignoram a possibilidade de haver algo, ou alguém por trás desse processo.” Concordo! Por isso mesmo é sempre bom questionar e pedir evidências de quem diz que sabe.
27 outubro, 2009 às 8:54 pm
Alessandro C. Cruz:
“Bom, Rodrigo Ribeiro, fui um dos que comentaram acima em resposta ao marcelo, que disse: “Deus é o autor das leis físico-químicas que cria tudo”. Acho que ao falar de “físico-químicas” estamos dentro do escopo da ciência, não? Ou devemos aí também respeitar a subjetividade das pessoas? Acho que se assim fosse o homem dificilmente teria chegado a lua.”
Não sei se percebeu, mas eu estive criticando ambas as posições que foram tomadas antes do meu comentário, que são duas faces de uma mesma moeda: colocar opiniões subjetivas num falso sustentáculo científico.
“E você, me permita repetir, também diz: “todo tipo de crença, especialmente a religiosa (seja ela teísta, atéia, panteísta ou deísta)”. Atéia? O ateísmo é uma religião? Isso é uma novidade tão grande pra mim que sou capaz de apostar um braço como você está completamente errado!”
Quero enquadrar o ateísmo como crença, não como religião. Igualmente ao deísmo, que também não é religião, mas é uma crença. As quatro posições que citei não estão sustentadas por nenhuma evidência científica, razões para alguém seguir uma delas são subjetivas, e isso é crença.
“E se alguém o fizesse, ainda falando de fadas, tal idéia não poderia ser atacada ou questionada? Por que não? As opiniões e tendências políticas de qualquer pessoa diariamente o são, as opções sexuais das pessoas o são (não é o que a grande maioria das religiões fazem?).”
A diferença está que para estas questões podemos apresentar evidências e pelo menos esboçar conclusões. No debate metafísico, não. Todas as discussões que se podem fazer nesse campo, tendem para a indecisão, e , no fim cada qual continua com sua crença, sustentada apenas por decisão pessoal.
“Por que o privilégio das religiões?”
E eu te pergunto: por que o privilégio do ateísmo? Por que ateus podem zombar de crenças alheias, chamando o teísmo de “ter um amigo imaginário”, se ele tem a mesma quantidade de evidência que outras crenças (zero)?
“Até concordo que a ciência não explica tudo (ainda), mas então a solução é a fé?”
Eu não estou dizendo que a ciência “ainda” não explica tudo. Estou dizendo que ela nunca explicará tudo, pois seu objetivo não é esse. O método científico diz respeito ao mundo natural, e não mete o bedelho além disso. Mesmo outros métodos de conhecimento, como a filosofia, nunca provarão tudo. Teremos sempre a dúvida ao nosso lado. É incômodo isso, mas devemos nos acostumar e admitir que algumas de nossas posições são somente sentimentais, ao invés de buscar dar ar científico à elas.
“Até concordo que a ciência não explica tudo (ainda), mas então a solução é a fé? No quê, em deus, no saci pererê, na Batata suprema, no Monstro do Espaguete voador (será que o comentário do Homero também é triste?)? Ou alguém não pode ter uma fé sincera em todas essas coisas? Se admitir que não, lembre-se, você poderá estar desrespeitando a subjetividade das pessoas.”
Todas elas tem todo o direito de crer nisso. Direito igual ao do seu ateísmo, pois nenhuma delas pode ser provada falsa ou verdadeira (talvez no caso do saci-pererê seja difernete, pois não estamos falando de um criador ou um ser metafísico, idem para as fadas que você cita acima. Aliás, nunca vi ninguém as responsabilizando pela criação de nada, ao inverso do que você diz).
28 outubro, 2009 às 3:39 am
Rodrigo Ribeiro:
“são duas faces de uma mesma moeda: colocar opiniões subjetivas num falso sustentáculo científico.” Bem, Rodrigo Ribeiro, pra começo penso que qualquer enunciado, argumento, tese por mais lógica e racional que seja estará sempre eivada de subjetividade. E não me recordo de ter me apoiado em nenhum sustentáculo científico. Não posso falar por todos os ateus, óbvio, mas minha ausência de crença em um deus é simplesmente por uma questão de evidências (ou falta delas). Creio (nisso sim!) que isso se aplica a tudo na vida. Claro que ninguém pode falar em certezas. A ciência mesmo não funciona com base em certezas; as teorias baseiam-se em evidências.
“Quero enquadrar o ateísmo como crença”. No que, por favor? Meu ateísmo, e suponho que o de qualquer pessoa, é justamente a falta de. Usei o argumento das fadas pra dizer isso, e desculpa se não me fiz entender. Também não creio em lobisomens, unicórnios, duendes etc, o quê, segundo seu argumento de que não havendo “nenhuma evidência científica”, as “razões para alguém seguir uma delas [ou não, já que você havia incluido os ateus] são subjetivas, e isso é uma crença.”, faz de mim um crente em muitas coisas, o que acho absurdo!
“A diferença esta que para estas questões podemos apresentar evidências e pelo menos esboçar conclusões.” Para questões políticas e sexuais??? Duvido muito!
“Eu te pergunto: por que o privilégio do ateísmo? Por que ateus podem zombar de crenças alheias”. Privilégio? Sinceramente não enxergo nenhum! E pra mim as pessoas, atéias ou não, podem, se assim o quiserem, debochar de qualquer coisa, inclusive das religiões! Foi por isso que te perguntei sobre o privilégio das religões, já que qualquer opinião contrária a elas é tida como um desrespeito.
“O metódo científico diz respeito ao mundo natural”. Qual o outro, o sobrenatural? Há várias seções nesse maravilhoso site que dão conta de que também não há nenhuma evidência (olha a palavrinha bonita novamente) dele!
“Mesmo outros métodos de conhecimento, como a filosofia”. Penso, como Bertrand Russel, grande matemático, que a filosofia não pode de modo algum andar apartada das ciências naturais, por risco de virar rabiscos herméticos de solitários.
“Todas elas tem o direito de crer nisso.” Jamais diria que não.
“pois nenhuma delas pode ser provada falsa(…)”. Claro, assim como não posso provar que não há um dragão invisível na minha garagem, recordando uma metáfora famosa de Carl Sagan. E depois não posso nem questionar ou fazer troça de quem vier a acreditar nele?
Abs.
29 outubro, 2009 às 7:44 pm
“No que, por favor? Meu ateísmo, e suponho que o de qualquer pessoa, é justamente a falta de.”
Volte a ler a definição de crença que eu havia dado antes:
‘As quatro posições que citei não estão sustentadas por nenhuma evidência científica, razões para alguém seguir uma delas são subjetivas, e isso é crença.’
Ao definir o ateísmo como “ausência de crença”, geralmente o objetivo é dar-lhe uma maquiagem racional, para mostrá-lo como superior a outras opções. Porém, isso não muda que ele ainda é uma posição completamente subjetiva, e não tem nenhum motivo objetivo para que alguém lhe escolha ao invés de outra. Não quero me estender muito nisso, pois provavelmente você moverá céus e terra para demonstrar que seu ateísmo é uma “falta de fé”. Só quero comentar uma declaração sua:
“faz de mim um crente em muitas coisas, o que acho absurdo!”
Você, eu e todos os outros somos crentes em muitas coisas, a maioria das vezes sem perceber. É impraticável não ter crença em algo.
“Qual o outro, o sobrenatural?”
Esse “sobrenatural”, que você usou de forma meio jocosa, é na realidade a área metafísica, que não necessariamente lida com milagres. Mas existem muitas outras coisas além do domínio da ciência, pois não são do mundo natural.
Primeiramente, eu posso citar a própria ciência. Consegues imaginar uma forma de provar o método científico cientificamente? E mesmo se alguém conseguir, isto será uma petição de princípio.
Depois, vamos para princípios lógicos, que não dependem do método científico, mas são indubitáveis.
Terceiro, enunciados matemáticos. Não há como provar cientificamente que 1+1=2, mas não há dúvidas que isso está correto.
Por fim, existem várias coisas de nosso cotidiano, que não podem ser submetidas ao método científico. Não se pode provar científicamente que algo é bom, belo, cheiroso, ruim ao paladar etc. Também não se pode provar cientificamente que uma pessoa ama ou odeia de fato outra.
“Penso, como Bertrand Russel, grande matemático, que a filosofia não pode de modo algum andar apartada das ciências naturais, por risco de virar rabiscos herméticos de solitários.”
Idem. Nenhum campo do conhecimento pode ser considerado isoladamente.
“Claro, assim como não posso provar que não há um dragão invisível na minha garagem, recordando uma metáfora famosa de Carl Sagan. E depois não posso nem questionar ou fazer troça de quem vier a acreditar nele?”
Você é tão livre para questionar quanto os outros estão livres para crer. Porém, ridicularizar, já é outra história. Todos merecem respeito.
30 outubro, 2009 às 10:04 am
Rodrigo Ribeiro:
“Ao definir o ateísmo como “ausência de crença”, geralmente o objetivo é dar-lhe uma maquiagem racional, para mostrá-lo como superior a outras opções. Porém, isso não muda que ele é uma posição completamente subjetiva, e não tem nenhum motivo objetivo para que alguém lhe escolha ao invés de outra.”
“provavelmente você moverá céus e terra para demonstrar que seu ateísmo é uma “falta de fé.’”
Não, Rodrigo Ribeiro, vou praticamente me limitar a dizer que não aceito o que você diz. Tentando ser o mais claro possível, não aceito que não enxergar o que dizem ser a roupa invisível do rei faz de mim um crente, vejam só, de que o rei está nu. E acho sim que é ser bem objetivo e racional dizer apenas isso: nuzinho, peladão. Ao invés de sair por aí dizendo que crê, por algum tipo de revelação que não se prova, que a tal roupa de fato existe e é azul ou verde ou cor de abóbora.
“é na realidade a aréa metafísica, que não necessariamente lida com milagres.”
Aceito e admito o valor da contemplação filosófica como um exame crítico de nossos conhecimentos, convicções, preconceitos, embora eu prefira valores práticos, com resultados, entender os mecanismos de um problema e propor ou apreciar soluções factíveis. E Bertrand Russel, voltando a ele, disse em algum lugar, acho que n’O valor da filosofia’, que assim que a filosofia adquire um conhecimento definido, vira ciência; e lembra que a obra principal de Newton se chama ‘Princípios matemáticos da filosofia natural’, o que também prova a sua importância!
“Por fim, existem várias coisas de nosso cotidiano, que não podem ser submetidas ao método científico.”
Concordo com isso. Mas repito o que disse Carl Sagan, e espero que de modo algum você entenda isso como algum tipo de ‘apelo à autoridade’, só o faço porque ele foi capaz de dizer melhor algo no qual eu acredito profundamente: “O método cietífico não é perfeito, é apenas o melhor que temos. Abandoná-lo, junto com seus protocolos céticos, é o caminho para uma idade das trevas.” E é muito fácil enxergarmos os benefícios da ciência em nossa vida cotidiana, não?
“Todos merecem respeito.”
Eu até concordo, embora saiba que polemistas de qualquer época ririam disso. Mas todas as idéias também merecem respeito? Nesse ponto eu fico com H. L. Mencken: “Até respeitaria essas opiniões, se eu não respeitasse muito mais as minhas.”
31 outubro, 2009 às 7:33 pm
“Não, Rodrigo Ribeiro, vou praticamente me limitar a dizer que não aceito o que você diz. Tentando ser o mais claro possível, não aceito que não enxergar o que dizem ser a roupa invisível do rei faz de mim um crente, vejam só, de que o rei está nu. E acho sim que é ser bem objetivo e racional dizer apenas isso: nuzinho, peladão. Ao invés de sair por aí dizendo que crê, por algum tipo de revelação que não se prova, que a tal roupa de fato existe e é azul ou verde ou cor de abóbora.”
Alessandro, estamos numa situação diferente da fábula infantil: aqui o rei está dentro de uma carruagem e não podemos verificar se ele tem roupa ou não. Você, ao dizer que o rei está nu, está sim exercendo uma crença, pois não pode verificá-la por meios objetivos.
“Concordo com isso. Mas repito o que disse Carl Sagan, e espero que de modo algum você entenda isso como algum tipo de ‘apelo à autoridade’, só o faço porque ele foi capaz de dizer melhor algo no qual eu acredito profundamente: “O método cietífico não é perfeito, é apenas o melhor que temos. Abandoná-lo, junto com seus protocolos céticos, é o caminho para uma idade das trevas.” E é muito fácil enxergarmos os benefícios da ciência em nossa vida cotidiana, não?”
É exatamente o que quero dizer com “(n)enhum campo do conhecimento pode ser considerado isoladamente.” A filosofia depende da ciência, ambas da matemática, e por aí vai. E nós necessitamos de todas.
“Eu até concordo, embora saiba que polemistas de qualquer época ririam disso.”
O que exatamente queres dizer com “polemista”?
“Mas todas as idéias também merecem respeito? Nesse ponto eu fico com H. L. Mencken: “Até respeitaria essas opiniões, se eu não respeitasse muito mais as minhas.””
Como eu já disse anteriormente, o respeito não envolve fim do questionamento, mas sim da ridicularização e atitudes afins.
31 outubro, 2009 às 10:11 pm
“aqui o rei está dentro de uma carruagem e não podemos verificar se ele tem roupa ou não.”
Uma carruagem invisível? E eu me rendo, Rodrigo. Você está falando de algo que eu definitivamente não alcanço.
“O que exatamente queres dizer com “polemista”?”
Bem, acho que o correto seria eu ter dito ‘polemistas famosos’. Figuras como o próprio Mencken, que eu citei, Voltaire, Samuel Johnson, Paulo Francis que não hesitavam em RIDICULARIZAR idéias e até mesmo, na maioria das vezes, os autores delas.
E foi um prazer conversar com você, Rodrigo. Um abraço.
3 novembro, 2009 às 1:05 am
Não adianta ficar chorando Deus é o autor de todas a Leis físico-químicas e dirigiu o processo de evolução ( se existe de fato essa bobagem ).
Resumindo mesmo que os panacas provassem que existe evolução Deus não teria como ser excluído de tal coisa e seria o autor da evolução usando sua onipotência e onisciência e onipresença.
Se isso os irrita eu só lamento por vocês serem tão ignorantes a ponto de imaginar que podem excluir Deus por pura birra.
Ou será que alguém pode OU QUER provar que a evolução exclui Deus ?
ri ri ri
13 novembro, 2009 às 3:00 pm
Eu acho demais o “Design Inteligente”. Tem algo mais inteligente que um algoritmo genético (evolucionário). Eu mesmo só projeto assim. È bem mais inteligente.
Huhahaha.
Adorava conversar com meus amigos céticos, mas eles estão ficando cada vez mais “religiosos”. Por favor, céticos não “fiquem religiosos” se não com quem eu vou conversar?