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Busca sem fim:
A história, as propostas e as
decepções das máquinas de movimento perpétuo
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Em 1999 o jornal Estado de
São Paulo reportava a aventura do povoado da Ilha das Canárias, Maranhão,
com o moto-contínuo – uma máquina que uma vez iniciada poderia funcionar para
sempre sem consumir qualquer combustível. Assolada pela escassez de energia
elétrica fornecida por apenas um gerador a diesel, a comunidade e a prefeitura
teriam chegado a investir 30 mil reais no projeto, e faltava pouco para que tudo
entrasse em funcionamento. Talvez você já esteja adivinhando o final que esta
história teve. Mas ela é apenas parte recente de uma longa busca.
O sonho é milenar: em um manuscrito em sânscrito original de 2.500 anos,
intitulado Siddhanta Ciromani, haveria descrições de diversos aparelhos
fantásticos, entre eles uma roda de movimento perpétuo. Esta descrição seria
melhor detalhada tempos depois no século XII pelo matemático indiano Bhaskara,
mais conhecido do estudante secundário devido à sua fórmula usada na resolução
de equações de segundo grau. Bhaskara descreveu uma roda provida de diversos
recipientes de mercúrio ao longo da extremidade. O princípio de funcionamento
era simples: fazer com que um lado da roda sempre estivesse mais pesado que o
outro, garantindo eternas revoluções.
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Roda desequilibrada
com recipientes de mercúrio de Bhaskara.
No lado direito o mercúrio está mais
distante do eixo, e esperava-se que a
roda girasse para sempre no sentido
horário. |
Desenho de Villard de
Honnecourt |
No século XIII, o mesmo
princípio apareceria na Europa. O francês
Villard de Honnecourt, comparado mesmo a
Leonardo da Vinci devido ao número e
diversidade de esboços técnicos que deixou,
desenhou uma variação da roda desequilibrada de
Bhaskara provida de um número ímpar de martelos
articulados. É o mais antigo diagrama conhecido
de um moto contínuo, a idéia possivelmente era
que sempre houvesse mais martelos de um lado da
roda.
Villard propôs que sua roda poderia ser
utilizada para realizar trabalho, desenhando-a
em meio a uma série de outros dispositivos de
tecnologia medieval, mas o certo é que
infelizmente nenhuma destas rodas
desequilibradas funciona. Bastava a seus
proponentes construí-las e constatar o fato, mas
mesmo que o tenham feito provavelmente
imaginaram que havia alguma imperfeição na
construção e não no princípio pelo qual pensavam
que elas deveriam funcionar.
O próprio Leonardo da Vinci abordou o
tema ao final do século XV. Seu comentário porém
era negativo: "Ó vocês que buscam o movimento
perpétuo, quantas quimeras vãs perseguiram? Vão
e tomem seu lugar com os alquimistas". Os
alquimistas procuravam transformar chumbo em
ouro através da pedra filosofal. É preciso
dizer, sem muito sucesso.

Leonardo da Vinci, ‘Estudos sobre a
impossibilidade do movimento perpétuo’
(Codex Forster II / 1495-1497)
Considerando que na época boa
parte dos princípios físicos da mecânica ainda
não havia sido constatada, da Vinci também
forneceu uma explicação perspicaz para a falha
na idéia de rodas desequilibradas, advertindo:
“Vocês podem tentar
provar a si mesmos que ao equipar tal roda
com muitos pesos, cada parte que se movesse
como resultado do giro iria subitamente
fazer outro peso cair, e que assim essa roda
permaneceria em movimento perpétuo. Mas ao
fazer isso estarão enganando a si mesmos...
Enquanto o peso está mais distante do centro
da roda, o giro se torna mais difícil,
embora a força motriz não deva variar”.
Em outras palavras, ele
argumentava que embora os pesos de uma roda
desequilibrada possam ficar mais distantes do
eixo e assim ganhar mais torque, na mesma medida
o momento de inércia da roda aumenta, anulando o
ganho. No final, a despeito das aparências e dos
muitos desenhos complexos que possam ser criados
para o mesmo princípio, todas estas rodas
desequilibradas já estão em equilíbrio e não
irão girar por si mesmas. A primeira proposta de
moto perpétuo se encontrava com a primeira
falha. Infelizmente, muitas outras aguardariam
os inventores.

Neste desenho, pode-se ver claramente que há
mais massa no lado esquerdo.
Mas a roda está mesmo desequilibrada? Sabemos
por experiência que não,
ela não irá girar sozinha. Embora haja o dobro
de massa, ela está à metade da distância
horizontal ao eixo em comparação com a massa no
outro lado.
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Rodas
(des)equilibradas e patentes de
invenções que não funcionam
Se já no século 15 Leonardo da Vinci
havia fornecido uma explicação
convincente para o não funcionamento do
princípio de rodas desequilibradas, e
mesmo que ninguém nunca tenha conseguido
fazer tais rodas funcionarem como motos
contínuos, isso não impediu que a idéia
reaparecesse ao longo do tempo e fosse
mesmo patenteada sob diversas formas.

O diagrama acima é
parte da patente obtida pelo mecânico
britânico
George Linton nada menos que em
1821. Adicionando braços articulados e
pesos móveis à antiga idéia de rodas
desequilibradas, a falha continua a
mesma: o sistema já está em equilíbrio.
Curiosamente, uma invenção não precisa
necessariamente funcionar para poder ser
patenteada, ainda que a profusão de
motos contínuos inúteis tenha levado o
escritório de patentes dos EUA a exigir
uma demonstração prática antes de dar
seguimento à patente dessas engenhocas.
Já outros escritórios, como o da
Inglaterra, exigem que se descarte de
antemão qualquer alegação de movimento
perpétuo.
Talvez mais curioso ainda, embora isso
tenha diminuído drasticamente o número
de patentes relacionadas a motos
contínuos, invenções espertamente
disfarçadas continuam sendo patenteadas.
Nos EUA, em 1973 Howard Johnson
conseguiu uma patente para um ‘Motor
Magnético Permanente’. Hoje, trinta
anos depois, você provavelmente está
lendo pela primeira vez a respeito de
Johnson e seu motor – que também não
funciona. |
À medida que a compreensão
dos princípios físicos da natureza aumentou, as
propostas de motos contínuos se sofisticaram.
Muitas recorriam a elementos que se dispunham a
resolver os problemas, mas acabavam apenas
levando a outras falhas. Um exemplo é a roda
desequilibrada de George Linton, patenteada em
1821 (ver box). Outra proposta é uma patente
obtida ainda mais tarde, em 1858, pelo
engenheiro francês Pierre Richard.

Note que o desenho, parte da
patente, representa mesmo um freio à esquerda
para impedir que a roda gire rápido demais! A
idéia continua sendo a da antiga roda
desequilibrada, mas é aplicada de forma
inovadora. A falha aqui é sutil: à primeira
vista parece que tudo que há é o peso das bolas
em apenas um dos lados da roda externa. Mas
todas as bolas estão ligadas umas às outras, e
no final o torque exercido pelo peso das bolas
na roda é anulado pelo torque em sentido
contrário puxado pela ligação entre elas. Esta é
outra roda desequilibrada que já está em
equilíbrio.
Novas descobertas científicas também levaram à
tradição de relacionar fenômenos ainda pouco
compreendidos a maravilhosos motos perpétuos. O
magnetismo foi o caso clássico, e enquanto se
estavam descobrindo as propriedades magnéticas
não demorou muito até o surgimento da proposta
de moto perpétuo atribuída ao padre jesuíta
Johannes Taisnerius.

Na proposta de Taisnerius, um
ímã fixo atrai uma pequena bola. Ela sobe por
uma rampa, mas quando chega perto do topo, cai
pelo buraco apenas para voltar até perto do chão
e ser outra vez atraída pela rampa. O magnetismo
parecia mágico, mas infelizmente não foi tanto a
ponto de fazer este dispositivo funcionar. Um
ímã suficientemente forte para atrair a bola
para cima na rampa não irá permitir que ela
retorne até o ponto inicial e suba outra vez na
rampa.
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Motos
errôneos
Todo moto perpétuo tem uma falha que
impede que funcione para sempre, mas ao
longo da história houve muitas propostas
com falhas que revelavam uma falta de
compreensão de diversas leis físicas.
Mesmo o gênio visionário e correto de da
Vinci ao condenar as rodas
desequilibradas convivia com as
limitações do conhecimento medieval.
Apesar de seu comentário sobre a busca
vã pelo movimento perpétuo, entre seus
diversos trabalhos podem ser encontrados
diversos desenhos de bombas d’água
movendo a si mesmas!

Leonardo da Vinci
Uma outra proposta
particularmente interessante de moto
perpétuo com uma falha derivada do
entendimento incorreto da hidráulica foi
a de Vittorio Zonca. Em 1607 ele
publicou a gravura de uma espécie de
sifão capaz de sugar água e mover um
moinho. Detalhe: a água era elevada em
altura.
 
Moinho de Vittorio Zonca e diagrama do
conceito físico errôneo por trás da
idéia
O dispositivo deveria
sugar água por um tubo estreito e
levá-la por um tubo mais grosso a uma
maior elevação, onde moveria as pás de
um moinho. O detalhe do tubo ser mais
grosso de um lado era crucial. Ao invés
de entender o princípio do sifão como
resultado da pressão atmosférica sobre a
água, que tende assim a se nivelar,
pensava-se que o sifão funcionava porque
havia mais água, e portanto mais peso no
tubo do lado que receberia a água.
Realmente, como o lado que recebe a água
de um sifão está a uma altura menor,
costuma ter mais água sobre si. Daí para
imaginar que bastava aumentar a grossura
do tubo para continuar tendo mais água
de um lado mesmo que estivesse a uma
altura maior parecia natural. Mas a
natureza infelizmente não funciona dessa
forma, e sifões ao fim só conseguem
levar água para elevações menores. |
Já no início do século XIX
algo que chamava a atenção era que todas as
tentativas de motos perpétuos ao longo de mais
de meio milênio haviam falhado. Esta constatação
influenciaria o surgimento de uma área da
ciência chamada
termodinâmica, no rastro da Revolução Industrial. Estudando inicialmente
as relações entre o calor e o trabalho (daí seu
nome), sua primeira questão foi muito prática:
qual a maior quantidade de trabalho que poderia
ser obtida a partir de uma determinada
quantidade de calor?
Para responder à pergunta, o jovem engenheiro
francês Nicolas Leonard Sadi Carnot
recorreu a um raciocínio simples e abrangente.
Um motor a vapor retirava calor de uma caldeira,
realizava trabalho e liberava o calor ao
ambiente. Mas e se houvesse um motor
perfeitamente reversível? Ligue-o ao contrário,
e ao receber trabalho ele retiraria calor do
ambiente e jogaria na caldeira. E tudo
exatamente na mesma quantidade que quando
funcionasse normalmente. Isto pode parecer
estranho, mas é apenas metade do raciocínio.
Na outra metade, Carnot argumentou que, caso
houvesse um motor ainda mais eficiente, então
bastaria ligar um ao outro para obter o moto
perpétuo. O motor de eficiência maior geraria
trabalho suficiente para fazer funcionar o motor
perfeitamente reversível, que devolveria
exatamente o calor transferido, e ainda sobraria
um pouco de trabalho para o que fosse. Como o
moto perpétuo é impossível, Carnot concluiu que
é impossível obter maior eficiência que a de um
motor perfeitamente reversível. Concluiu também
que todo calor capaz de realizar trabalho deve
ir de um local mais quente a um mais frio, pois
um motor capaz do contrário teria uma eficiência
maior.
Essas conclusões acabariam se convertendo em uma
das leis fundamentais da termodinâmica que
postulam a impossibilidade do moto perpétuo (ver
Box abaixo). E é assim que em um legítimo
raciocínio circular as inconvenientes pedras no
sapato dos inventores de motos perpétuos foram
criadas pressupondo que motos perpétuos são
impossíveis. “É um fato histórico que as leis
da termodinâmica foram originalmente propostas
para descrever o fato de que todas as tentativas
prévias de alcançar o movimento perpétuo tinham
falhado”, diz o professor Donald Simanek,
da Universidade Lock Haven da Pensilvânia.
Desde então muitas relações da termodinâmica
puderam encontrar uma base melhor na formulação
e avanço de outras áreas científicas, como a
estatística mecânica. O revés é que elas revelam
ser antes resultado de probabilidades do que
mandamentos que nunca poderão ser quebrados.
Isso é motivo de esperança para muitos, mas até
o momento não se conhece nenhum infrator das
leis da termodinâmica. Em 2000, o mesmo jornal
Estado dava conta de que o moto perpétuo da
Ilha das Canárias não havia funcionado.
Certamente não foi o último. A busca ainda não
chegou a um fim definitivo, e é muito provável
que nunca chegue a um.
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As Leis da
Termodinâmica
Começando com o estudo das relações
entre o calor e movimento, a
termodinâmica passou a abordar a energia
em todas suas transformações. Isso faz
desta uma das mais fundamentais áreas da
ciência, o que só dificulta imaginar que
possa estar errada. Suas três leis,
verificadas experimentalmente toda vez
que um moto perpétuo não funciona, são:
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Conservação de
energia: A energia não pode ser
criada ou destruída, apenas
transformada;
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Aumento da
entropia: A energia de um sistema
sempre tende a um estado de maior
desordem;
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Impossibilidade de atingir o zero
absoluto: Todos os processos tendem
a cessar perto do zero absoluto.
Muitos motos
perpétuos são classificados de acordo
com a lei da termodinâmica que violam,
geralmente a primeira ou a segunda. Em
conjunto, elas têm um caráter que pode
ser visto como um tanto negativo, e são
resumidas por alguns de forma
bem-humorada como (1) Você não pode
ganhar, (2) Você irá sempre
perder
e (3)
Você não pode sair do jogo. |