Se eu lhe mostrar uma imagem e
mudar algo nela, como abaixo, você verá a mudança imediatamente. Não há nenhum
problema, ela se destaca.
Mas se eu realizar a
mudança ao mesmo tempo em que introduzo um
leve piscar na tela, desta forma, então em
muitos casos você não perceberá a mudança.
Aqui está outro exemplo.
É muito interessante que
às vezes você pode estar olhando diretamente
para a mudança e ainda assim não vê-la.
Desta forma, se aqui eu lhe disser para que
olhe para o nariz do homem, você estará a
alguns pixels da mudança, mas provavelmente
não irá vê-la: é a barra no fundo indo para
cima e para baixo.
Aqui está outro exemplo:
Algumas mudanças são mais
fáceis de perceber que outras. Contudo,
mesmo uma mudança que ocupe uma grande
porção do campo visual pode não ser notada
se não fizer parte do que seria o tema da
imagem. Aqui por exemplo:
Você normalmente não
diria que a imagem é sobre... o reflexo no
lago. Mas assim que eu lhe falar sobre isso,
você verá a mudança. Enquanto isso, aqui:
você provavelmente
considerará que a imagem é sobre um copo de
leite, assim é fácil perceber que é isso que
está mudando, embora seja muito menor que o
reflexo no lago anteriormente.
Este fenômeno foi chamado de cegueira de
mudança e atraiu muita atenção nos últimos
anos. Há muitas variações do fenômeno. Eu
lhe mostrei o paradigma do relance
[flicker], mas o fenômeno também foi obtido
com movimentos do olho, piscadas, cortes de
filme e até mesmo em situações da vida real.
Uma variante particularmente interessante do
paradigma de cegueira de mudança é o
paradigma das manchas.
A razão por que isto é
interessante é que as manchas são
posicionadas de modo que não cobrem o local
da mudança. Dessa forma não se pode dizer
que a razão pela qual você não percebe a
mudança é porque ela é de alguma maneira
mascarada ou apagada por qualquer tipo de
sobreposição com o relance.
Está claro que há algo muito chocante sobre
todos estes experimentos: eles parecem
sugerir que nossas representações internas
do mundo externo, em vez de ser muito
detalhadas e ricas são na verdade bastante
pobres. Assim o que está acontecendo aqui?
Como podemos ter a impressão de riqueza no
mundo se não há nenhuma riqueza em nossas
cabeças?
Eu sugiro que uma solução possível seja a
idéia do que eu chamo o Mundo como Memória
Externa. A idéia é a de que para ter a
impressão de riqueza, não há realmente
nenhuma necessidade da riqueza estar em
nossas cabeças. O que tem que estar em
nossas cabeças são apenas os algoritmos ou
receitas para chegar à informação no mundo.
E nós temos tais algoritmos, na forma de
movimentos dos olhos ou mudanças no foco de
atenção. Se estivermos interessados em algum
detalhe do sentido visual, precisamos
simplesmente mover nossos olhos ou nossa
atenção àquele detalhe, e ele está
imediatamente disponível.
Em vez de armazenar toda a informação sobre
o mundo externo no cérebro, nós usamos o
mundo externo como um armazenamento de
memória externo. Assim, adquirimos a
impressão que estamos vendo tudo o
que há para ver no campo visual, porque se
nós pensarmos mesmo vagamente se estamos
mesmo vendo algo, viramos nosso olho (e
nossa atenção) para aquela coisa, e ela fica
disponível para ser processada.
Talvez você tenha brincado quando criança em
um jogo no qual alguém põe um objeto
doméstico como uma rolha, batata ou uma
gaita em uma bolsa, e você pôs sua mão
dentro da bolsa e tentou adivinhar o que o
objeto era.
No princípio você sente
esta ou aquela textura nas pontas de seus
dedos. Você não tem nenhuma idéia do que o
objeto é. Mas de repente você tem um tipo de
experiência "Arrá!". De repente você sente
que não está apenas tocando pedaços de
textura nas pontas dos dedos, mas está
segurando um objeto inteiro: é uma gaita. E
está TODA lá imediatamente, embora você
esteja na realidade tocando apenas algumas
partes dela. Não é apenas que você sabe
ser uma gaita inteira, você de fato sente
ser uma gaita inteira.
A
razão que você tem para sentir tocar a gaita
inteira é que você SABE que SE você
fosse mover seus dedos deste modo, então
você teria ESTA sensação, e se você os
movesse daquele modo, você teria AQUELA
sensação. Você se sente familiar com todas
as coisas que pode fazer com seus dedos
neste momento. É o conhecimento de se sentir
em casa com as coisas que você pode fazer, e
com as mudanças resultantes nas sensações
das pontas de seus dedos, que lhe dão a
impressão de ter a gaita inteira em sua mão.
Estendo-se ao domínio de visão, esta
analogia sugere como seria possível ter a
distinta sensação de ver objetos e cenas
inteiras, embora só uma parte minúscula da
cena esteja realmente disponível para
processamento visual em qualquer momento. A
impressão de ver tudo que há para ver
no campo visual é então um tipo de ilusão...
É algo parecido com a luz da geladeira.
A luz sempre parece estar ligada: você abre
a porta, e a luz está acesa. Você a fecha.
Você rapidamente abre a porta outra vez,
para conferir: é... a luz ainda está acesa.
Você tem a ilusão que a luz está acesa todo
o tempo, mas precisa continuar checando para
se convencer disto.
Deixe-me ir adiante para mostrar algumas das
conseqüências desta forma de pensar com
relação à percepção de cenas.
Esta imagem mostra o
caminho que o olho de um observador
percorreu enquanto buscava por grandes
mudanças que ocorriam toda vez que ele
piscava.
Aqui está um exemplo do caminho percorrido
pelos olhos em outra imagem.
Este caminho corresponde
a alguns segundos de exploração, e você
pensaria que uma vez que o observador estava
procurando uma mudança ativamente, ele daria
uma olhada na imagem de forma bastante
sistemática, cobrindo todos os elementos da
figura. Mas se você olhar para o que o
observador fez pelas próximas dezenas de
segundos, isto é o que você descobre.
Parece que o observador
está apenas caminhando em círculos. De fato
este tipo de comportamento é típico do que
as pessoas fazem quando olham para imagens.
Apenas um número bastante limitado de
posições é fixado diretamente pelos olhos, e
elas são fixadas repetidamente. Por que isto
ocorre?
Do ponto de vista do mundo como memória
externa que estou esboçando aqui, isto pode
ser explicado. Poderia ser que ver uma
imagem não é acumular informação em uma
representação interna, mas ao invés checar
se você tem acesso às coisas as quais a
imagem representa. Se você pensa que a
imagem é sobre um casal jantando, então ver
a figura envolve se certificar que as coisas
que você pensa que o quadro deve ser a
respeito estão realmente lá. O olho irá
então andar em círculos verificando.
Continuidade Em um resumo até agora, eu sugeri
a possibilidade de que a sensação que temos
de ver tudo no campo visual não requer que
tenhamos uma representação interna de tudo.
Basta ter acesso imediato à informação no
mundo externo, que age de forma similar a um
local de armazenamento externo de memória.
Mas você poderia argumentar que ainda há um
problema. Considere novamente a comparação
com a luz da geladeira. Quando eu olho para
o mundo, tenho uma impressão bem diferente
da que possuo com respeito à luz da
geladeira:
Eu preciso continuar abrindo a porta da
geladeira de surpresa, e ainda permanece um
pouco de dúvida sobre se a luz realmente
fica acesa o tempo todo. Eu acho
que está continuamente acesa, mas eu não a
vejo acesa continuamente. Isto difere do
mundo real, onde tenho a impressão de ver de
uma forma contínua. Por que isso ocorre?
Penso que a resposta tem a ver com duas
coisas. Eu chamo uma "corporeidade", e a
outra, "acessibilidade."
Corporeidade é o fato de que na visão, as
coisas que você faz para adquirir
informações estão muito intimamente
relacionadas com ações corporais mínimas ou
mesmo inconscientes: A mais leve
movimentação de um músculo ocular lhe
permite mudar de um ponto da cena a outro.
Um pequeno movimento da cabeça ou do corpo
modifica o que você vê.
Em virtude desta corporeidade, o mundo
externo está intimamente ligado a você,
quase como se fosse parte de seu próprio
corpo. Eu sugiro que isto torna a visão mais
real, mais percebida e contínua que a luz da
geladeira que não se move quando você se
move ao redor dela.
Agora me deixe falar sobre a acessibilidade.
Todos nós sabemos que se uma luz piscar
subitamente no campo visual, não podemos
evitar olhar imediatamente para ela. Isto
ocorre porque há mecanismos nas primeiras
fases do sistema visual projetados para
descobrir transições rápidas em luminância
local, os quais tomam a sua atenção sem
falha. Detectores de movimento são exemplos
de tais detectores transientes.
Poderia ser que esta acessibilidade de
eventos súbitos constitua um segundo fator
que contribua à sensação de presença
ininterrupta, e da continuidade da
estimulação visual. A acessibilidade faz
parecer como se tivéssemos "marcadores"
ininterruptos em tudo o que está ocorrendo
no campo visual, e nos dá a ilusão de ver as
coisas continuamente, porque se qualquer
coisa mudar nós somos imediatamente
informados.
Desenvolvimentos
Deixe-me voltar agora e fazer
algumas observações sobre o modo de pensar que esbocei aqui.
Sob o conceito padrão,
ver consiste em fazer uma representação
interna do mundo externo. Sob o novo
conceito, ver consiste em saber sobre as
coisas diferentes que você pode fazer, e
saber sobre as mudanças que estas coisas
produzirão em sua estimulação sensória.
Embora antinatural à primeira vista, este
novo conceito tem uma vantagem interessante:
Na neurociência hoje, um dos problemas que
as pessoas estão tentando solucionar é
entender como uma entidade física como um
cérebro pode dar origem a algo como a
sensação de ver, que é patentemente
não-física.
Algum mecanismo ainda desconhecido,
misterioso, possivelmente mesmo não-físico
tem que ser postulado para instilar a
experiência no cérebro. Mas sob este novo
conceito, o problema desaparece porque a
experiência simplesmente não está no
cérebro.
Ela está no fazer da exploração e no
conhecimento das coisas que mudarão enquanto
você explore. Em vez do papel do cérebro ser
gerar a experiência de ver, o papel
do cérebro se torna simplesmente o de gerar
a atividade exploratória que está por
trás do ato de ver, e de possuir o
conhecimento de possibilidades correntes
para a ação que está por trás do ato de ver.
Assim, o problema de encontrar um
mecanismo para gerar a experiência no
cérebro desaparece.
Mas ainda há uma objeção que pode estar
perturbando você. Você poderia dizer, OK,
ver é uma coisa que nós fazemos... eu vejo a
xícara vermelha quando estou continuando a
conferir se tenho acesso a ela pelos
relances de meus movimentos oculares. Mas e
quando estou de fato olhando diretamente
para a xícara vermelha? Eu tenho agora uma
estimulação vermelha em minha retina. Agora
seguramente deve haver algo que recebe a
estimulação vermelha em minha retina e me
faz experimentar a vermelhidão. Nós
parecemos estar de volta à situação de ter
que explicar como a ativação cerebral pode
gerar experiência.
Mas parece a mim que é possível escapar até
mesmo da dificuldade para a sensação bruta
de vermelhidão.
Considere olhar para um pedaço de papel
vermelho. Dependendo de como você vira o
papel de forma que a luz refletida seja a
luz solar amarelada, ou azulada do céu, ou a
incandescente avermelhada, o espectro da luz
sentido pelo olho é bastante diferente. Eu
sugiro que você vê o papel como vermelho
quando as leis que são obedecidas pelas
mudanças no espectro recebido forem típicas
de vermelhidão. Assim, vermelho não é um
padrão de excitação causado pela luz
recebida, mas um conhecimento sobre as leis
que a excitação obedece quando você move o
papel por aí.
Outro fato sobre o vermelho tem a ver com o
modo como o olho detecta a cor. Ao centro da
retina, a informação de cor está prontamente
disponível, sendo detectada por cones
sensíveis à luz de comprimentos de onda
longos, médios e curtos, simbolizados por
pontos coloridos na figura. Mas a densidade
dos cones diminui bastante rapidamente
enquanto nos afastamos do centro da retina,
de forma que a natureza da excitação neural
que surge de olhar diretamente para uma
superfície vermelha é bastante diferente
daquela obtida de olhar para a superfície
com a visão periférica. Aqui, há muitos mais
fotorreceptores em bastão, simbolizados
pelos pontos pretos, que não são sensíveis a
cores diferentes. Eu sugiro que a qualidade
do vermelho não é apenas a combinação
particular da estimulação de comprimentos de
onda longos, médios e curtos, mas também o
modo pelo qual a excitação muda enquanto
você move seu olho pelo objeto vermelho e
além.
Como a experiência de ver tudo, a
experiência de ver o vermelho é então também
um tipo de conhecimento: conhecimento de que
contingências apropriadas entre estimulação
sensória e ações motoras são atualmente
aplicáveis.
A noção de contingência sensoriomotora pode
ser generalizada para cobrir não apenas a
sensação de vermelho, mas, eu suspeito,
todos os aspectos da visão, tanto gerais
como particulares. Por exemplo, o fato de
que a imagem retinal essencialmente cessa
quando piscamos, ou muda de formas
obedientes a leis quando movemos nossos
olhos, ou tem um campo de fluxo maior ou
menor quando movermos nossas cabeças de um
lado para outro, são fatos sobre a visão em
geral.
Um fato que é mais específico,
característico de linhas retas, por exemplo,
é o fato de que quando você move seus olhos
ao longo delas, não muito acontece com a
estimulação sensória, enquanto que quando
você move seus olhos por elas, a estimulação
sensória muda mais drasticamente.
Em suma, a experiência de ver pode derivar
de estar familiarizado (no sentido de que se
está familiarizado com a experiência
prática) com uma grande variedade de
contingências sensoriomotoras relacionadas
com o modo como o aparato visual detecta o
ambiente. Poderia ser que nós sentimos que
estamos vendo neste momento, quando sabemos
(de um modo prático) que todas estas
contingências são atualmente aplicáveis. A
experiência de ver não seria assim gerada
pela ativação de um mecanismo cerebral.
Seria constituída pelo conhecimento de que
se você fizer certas coisas, certas coisas
acontecerão com a estimulação sensória.
Você não vê
sempre o que você está olhando
Estas idéias têm algumas
conseqüências interessantes.
Deixe-me voltar para a
experiência onde nós medimos movimentos
oculares enquanto as pessoas estavam
procurando mudanças em imagens.
Nós olhamos para a
probabilidade de descobrir a mudança como
uma função da posição do olho. Descobrimos,
como você poderia esperar, que quanto mais
distante o olho estava do local da mudança,
menor a probabilidade de descobrir a
mudança. Você pode ver isto do fato de que a
linha do gráfico cai rapidamente enquanto
vamos à direita, correspondendo a maiores
distâncias. Não se preocupe com o fato de
que há duas curvas, elas correspondem apenas
a dois tipos diferentes de mudanças que
usamos.
Mas uma coisa muito surpreendente é visível
neste gráfico. A probabilidade de detectar a
mudança quando você está olhando diretamente
para ela, no ponto mais à esquerda do
gráfico, é menor que 60%.
Isto é, em quase 50% dos casos quando o olho
estava olhando diretamente para a mudança,
ela não é vista!
Este fato é coerente com a abordagem que eu
venho propondo. De acordo com ela, quando
algo é projetado em sua retina, ou quando
seu sistema visual processa algo, isso não
significa necessariamente que você o vê. Ver
só acontece quando você estiver exercitando
seu domínio das contingências
sensoriomotoras associadas com aquela coisa,
algo como "manipulá-la" com seus olhos.
Quando eu olho para um objeto, posso estar
consciente de qualquer número de seus
aspectos: sua cor, sua identidade, seu plano
de fundo, sua posição, etc. Eu diria que só
o aspecto que estou conferindo no momento
está sendo visto de fato. Assim, os outros
aspectos, até mesmo se estiverem sendo
olhados diretamente, não serão vistos.
Figuras ambíguas e
competição de figuras e seus planos de fundo
de fato fornecem exemplos que ilustram isto.
Aqui, você pode estar se fixando no nariz
branco e não perceber o nariz preto, embora
ele esteja no mesmo local.
Um achado similar
bastante chocante foi relatado por Haines,
no Centro de Pesquisas Ames da NASA na
Califórnia. Ele fez pilotos de aviões
comerciais pousarem um 727 em um simulador
de vôo, usando um visor de certos
instrumentos no pára-brisas. Em algumas
aproximações de aterrissagem, Haines
subitamente sobrepôs uma pequena aeronave
estacionária bem no meio da pista. Ele
esperava que os pilotos abortassem suas
aproximações de aterrissagem imediatamente.
Mas dois entre oito pilotos simplesmente
pousaram tranquilamente passando sobre o
avião no caminho. Quando lhes foi mostrado
um vídeo do que haviam feito, os pilotos
ficaram chocados e incrédulos, e notaram que
talvez devessem abandonar o vôo comercial.
Aqui está outro exemplo:
você pode olhar durante minutos e ainda
pensar que diz
"A ilusão de enxergar". Mas na verdade diz:
"A ilusão de de enxergar".
Acima você confere ainda
outro exemplo onde você pode estar olhando
diretamente para a mudança e não vê-la. Esta
imagem está mudando. Exceto que está mudando
muito lentamente. A mudança é bastante
grande: veja se você descobri-la. Dan Simons
em Harvard também tem feito experiências com
mudanças lentas como essa.
O ponto é, ver é manipular mentalmente algum
aspecto da cena. Se nenhuma mudança visual
que chame a atenção leve seu olho ou sua
atenção para alguma área da imagem, você não
a verá, muito menos perceberá que mudou.
Estudos como estes fazem parte de uma
literatura crescente no que é chamado
cegueira de desatenção: Ulrich Neisser foi
um dos primeiros a pesquisar isto, mas Mack
e Rock publicaram há pouco um livro sobre a
questão. Dan Simons realizou recentemente
algumas belas experiências mostrando que seu
olho pode estar muito perto de alguma coisa
totalmente óbvia em uma imagem e ainda assim
não vê-la.
A energia de
nervo específica de Müller e substituição sensória
Agora eu gostaria de discutir
outra conseqüência do que venho dizendo, que diz respeito à qualidade das
diferentes modalidades sensórias.
Todos concordam que a natureza qualitativa de experiência em uma modalidade
sensória é bastante diferente da experiência em outra modalidade: ouvir é
bastante diferente de ver, que é uma sensação bastante diferente do paladar ou
do tato... A explicação para isto permaneceu problemática desde que Johannes
Müller ao término do século retrasado havia sugerido que caminhos neurais
diferentes poderiam ter o que ele chamou de "energias de nervo" diferentes.
Por outro lado uma abordagem natural e fundamentada do problema poderia estar
disponível se nós adotarmos a idéia de que ver é um tipo de conhecimento sobre o
que acontece quando você faz certas coisas. Dirigir um carro é uma sensação
diferente de dirigir um caminhão ou andar de bicicleta, porque envolve fazer
coisas diferentes. De forma similar, ver é uma sensação diferente de ouvir,
provar, tocar, porque também envolve fazer coisas diferentes.
Por exemplo, nós sabemos que estamos vendo quando sabemos que: se nós piscarmos,
a estimulação sensória muda drasticamente; se nós andarmos para frente, há um
campo de visão em expansão; se nós movermos nossos olhos, há um campo de visão
em translação; se nós bloquearmos nossos olhos com nossas mãos o campo visual é
obscurecido; por outro lado, se nós bloquearmos nossas orelhas com nossas mãos,
não muito acontece.
Por outro lado sabemos que estamos ouvindo se: quando piscamos ou movemos nossos
olhos não muito acontece; se nós andarmos para a frente a intensidade da
estimulação obedece uma lei inversa ao quadrado; se nós movemos nossa cabeça a
assincronia e o espectro da estimulação muda de certos modos característicos; se
bloqueamos nossos olhos com nossas mãos, não muito acontece; se bloquearmos
nossas orelhas com nossas mãos, a intensidade muda de um certo modo.
Graus de
sensação bruta Eu tenho sugerido que, ao
contrário de nossas intuições, a memória e a experiência visual poderiam ser de
fato uma só e o mesmo tipo de coisa: ambas envolvem formas conhecidas de chegar
à informação: em um caso a informação está no cérebro, no outro caso está no
mundo externo.
No caso de memória de verbos em latim, por exemplo, sei que posso recuperar a
conjugação de um verbo particular prestando atenção àquele verbo. Analogamente,
no caso de ver, sei que posso recuperar a informação sobre algum objeto na cena
prestando atenção nele.
A explicação para a diferença na qualidade da experiência que obtemos de nossa
memória para verbos em latim e a experiência que obtemos ao enxergar poderia ser
devida à quantidade de corporeidade e acessibilidade envolvidos.
A memória para verbos em latin não tem nenhuma corporeidade e nenhuma
acessibilidade: nenhuma corporeidade porque meus movimentos corporais não afetam
a disponibilidade de verbos em latim em minha memória; e nenhuma acessibilidade
porque mudanças em minha memória não chamam minha atenção -- por exemplo, se uma
palavra sumir de minha memória durante a noite nenhum sino irá tocar em minha
mente para me avisar.
Enxergar por outro lado envolve muita corporeidade e acessibilidade: o mais leve
movimento de um músculo do olho muda minha estimulação visual, e qualquer
mudança da estimulação chama a minha atenção.
Assim vemos que a memória e a visão estão situados em dois fins de um continuum
de corporeidade e acessibilidade. Como esperado então, a memória não tem nada do
que uma pessoa chamaria de "sensação bruta". A visão por outro lado tem muita
sensação bruta.
É interessante agora pensar sobre se há casos intermediários.
Considere a experiência de ser rico, por exemplo. Como a visão, a riqueza é uma
forma de conhecimento sobre acessibilidade. Contudo, tem mais corporeidade que a
memória de verbos em latim porque a riqueza consiste nas expectativas de que
quando eu fizer certas coisas com meu corpo, eu esperarei certos resultados. Por
exemplo, eu peço para o gerente do banco que me dê o dinheiro, e ele o faz.
Porém as coisas que você faz para obter os resultados são coisas que não estão
muito intimamente ligadas com o menor dos movimentos de seu corpo. Assim eu não
daria uma nota muito alta à corporeidade da riqueza.
A riqueza por outro lado não é nada "acessível": a menos que eu tenha um gerente
de banco ou contador particularmente consciencioso, quando minha conta estiver
se esvaziando ou o mercado estiver em baixa, nada irá me alertar deste fato.
Nenhum sino irá tocar em minha mente. Mas nós vemos que na escala de sensação
bruta, uma vez que tem um pouco de corporeidade, a riqueza tem notas mais altas
que os verbos em latim. Isto explica por que as pessoas dizem, às vezes: Eu me
sinto rico.
Considere agora dirigir um carro. Aqui a corporeidade é um pouco mais íntima que
com a riqueza: um pequeno movimento de meu pé no acelerador ou minha mão no
volante tem efeitos no carro e assim na estimulação sensória. Mas e sobre a
acessibilidade. É verdade que enquanto eu dirijo minha atenção pode ser
automaticamente levada a várias coisas acontecendo, mas nunca é atraída à
experiência de dirigir em si mesma. Assim eu diria que dirigir não tem nenhuma
acessibilidade. Comparando com a riqueza e a memória de verbos em latim, vemos
que por causa da corporeidade extra poderia haver um pouco mais de "sensação" em
dirigir. Eu penso novamente que isto corresponde às intuições das pessoas: há
algo como uma "sensação" de dirigir um carro.
Preciso dizer que acho muito promissor este uso dos conceitos de corporeidade e
acessibilidade para realizar uma classificação da quantidade de "sensação" que
um estado mental ou atividade possui. Acredito que pode haver um modo simples de
estender esta abordagem para incluir emoções e dor.
Conclusão Em conclusão então, a abordagem
que consiste em tomar a posição bastante contra-intuitiva de dizer que ver não é
algo contínuo, mas sim uma forma de conhecimento, como a memória, foi no
princípio dura de engolir.
Ela nos levou a postular que a impressão que temos de ver tudo no campo visual é
de fato um tipo de ilusão, gerada pela disponibilidade imediata, a um mero
movimento do olho ou da atenção, da informação visual.
Também nos levou a postular que a impressão de continuidade da visão também era
uma ilusão. Eu sugeri que os conceitos de corporeidade e acessibilidade poderiam
responder por que temos esta ilusão.
Agora esta abordagem parece bastante dura de engolir a princípio, mas tem
algumas vantagens muito interessantes.
A abordagem coloca a experiência no realizar da exploração, em lugar de no
cérebro. Desse modo nós escapamos do problema de ter que encontrar um mecanismo
cerebral que gere a experiência.
A abordagem explica de maneira fundamentada as diferenças nas qualidades
sensórias das diferentes formas dos sentidos. Não tive tempo de mencionar como
ela responde pela inefabilidade das sensações.
Finalmente, a abordagem fornece uma boa classificação da fenomenologia de certos
estados mentais como memória, riqueza e sensação.
- - -
* Baseado em
uma palestra de J.K. O'Regan de A. Noë na
ASSC Brussels