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Fractais: Uma nova visão da natureza
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Capítulo 1
Introdução: Vemos o mundo com nossos olhos ou com nossas
mentes?
Locke, no século XVII,
postulou (e reprovou) um idioma impossível no
qual cada coisa individual, cada pedra, cada
pássaro e cada ramo tivesse um nome próprio;
Funes projetou certa vez um idioma análogo, mas
o rejeitou por parecer-lhe demasiado geral,
demasiado ambíguo.(...) Este, não o esqueçamos,
era quase incapaz de idéias gerais, platônicas.
Não lhe custava compreender somente que o
símbolo genérico "cão" abrangesse tantos
indivíduos dispares de diversos tamanhos e
diversas formas; aborrecia-o que o cão das três
e quatorze (visto de perfil) tivesse o mesmo
nome que o cão das três e quatro (visto de
frente). (...) Tinha aprendido sem esforço o
inglês, o francês, o português, o latim.
Suspeito, entretanto, que não era muito capaz de
pensar. Pensar é esquecer diferenças, é
generalizar, abstrair. No abarrotado mundo de
Funes não havia senão pormenores, quase
imediatos.
-- "Funes, o Memorioso" (1956), Jorge Luis
Borges.
Eu
estava de férias e caminhava da praia para casa
com dois sobrinhos: Pedro, de oito anos e
Vitório, de seis. Não sei por que motivo (acho
que ele sabia que eu era professor), Pedro
perguntou: "Tio, o que são retas paralelas?"
Pego de surpresa com a pergunta, respondi meio
sem refletir: "Olha, Pedro, você está vendo a
grade daquela casa, como os ferros ficam um do
lado do outro, sem se encostar... são retas
paralelas". Os meninos observavam, enquanto
continuávamos andando. "E... hum... aquela outra
grade com as linhas deitadas... e os fios bem
esticados naquele poste... estão vendo? Ficam um
do lado do outro, não se encontram... são
paralelos... entendem? Os meninos acenaram com a
cabeça e, durante alguns quarteirões, brincamos
de reconhecer "retas paralelas": nas casas, nos
carros, nos desenhos das calçadas e até nos
desenhos em nossas roupas. Durante esse período,
eu expliquei que as "verdadeiras" retas
paralelas nunca terminam, são "infinitas",
sempre mantêm a mesma distância entre si e nunca
se encontram (ok, eu poderia ter falado de
geometrias não-euclidianas, mas não falei).
Pedro gostou da brincadeira,
e então disse: "Tio, dá mais uma "atividade" pra
gente!" Rindo desse vocabulário "escolar", me
veio uma idéia diabólica: "Hum... meninos...
estão vendo aquela árvore sem folhas, cheia de
raminhos... cada ramo se divide em ramos
menores, que têm mais raminhos... estão vendo? É
um... fractal!" Todas as explicações eram sempre
acompanhadas de muitos gestos, enquanto
continuávamos andando, e os meninos estavam
interessados, perguntavam e gesticulavam também.
"E aquele arbusto, no terreno
baldio... estão vendo? Ramos que se dividem em
raminhos, sempre. É um fractal. Mas essa
palmeira não é um fractal, nem as coisas muito
retas, feitas pelo homem..." Encontrei uma pena
de passarinho, examinamos de perto sua estrutura
ramificada. "A linha do horizonte
(montanhoso)... estão vendo? E aquela nuvem,
cheia de gominhos, cada gomo tem mais gomos em
cima... também é um fractal... entendem?" Os
meninos acenavam, riam, tentavam encontrar
"fractais" na rua... Começamos a brincar de
"reconhecer fractais", como havíamos feito com
as retas paralelas. A maioria dos exemplos que
eles encontrava eram de árvores e, é claro,
Pedro encontrava mais exemplos que Vitório, que
queria a todo custo acompanhar o primo mais
velho. Até que Vitório me surpreendeu... "Tio...
e isso aqui?" Me mostrava um pedaço de carvão
que tinha encontrado perto de um terreno baldio.
"As rachaduras... têm rachadurinhas... que têm
rachadurinhas... um monte! Não é um fractal?"
As trincas e fraturas no
carvão formavam um belo exemplo de padrão
fractal. Me surpreendi porque eu não havia dado
exemplos em pedras ou na forma de trincas.
Vitório, com apenas seis anos, não estava apenas
repetindo os exemplos que eu dava. Ele havia
aprendido a reconhecer padrões "fractais"
(objetos geométricos que eu só havia estudado na
pós-graduacão em Física) em novos contextos,
havia generalizado. Para ele, aprender a
reconhecer fractais era igualmente fácil (ou
igualmente difícil) que aprender o que eram
retas paralelas. E ele ainda nem sabia ler ou
somar! Foi nesse dia que decidi escrever este
livro.

Brócoli
chou Romanesco
Existem (pelo menos) dois
tipos bem distintos de aprendizagem:
aprendizagem por exemplos e aprendizagem por
definições. Eu não vou "definir" esses dois
tipos, mas um "exemplo" é a aprendizagem feita
por Pedro e Vitório. Após nossas brincadeiras,
eles certamente não sabiam definir "fractais"
(ou mesmo "retas paralelas"). Mas sabiam
reconhecer padrões, instâncias desses conceitos
geométricos. Exemplos parciais, limitados, como
toda aplicação de conceitos geométricos ao mundo
real (afinal, você nunca verá triângulos ou
círculos verdadeiros, mas apenas realizações
imperfeitas feitas com giz ou tinta e papel).
Dizem que educação é aquilo
que permanece depois que você esqueceu tudo o
que aprendeu na escola. O que é um círculo?
Lugar geométrico dos pontos eqüidistantes de um
ponto? Ou será que isso era a definição de
circunferência? Pois é, definições precisam ser
memorizadas e tendem a ser esquecidas se não são
usadas.
Você também pode ter uma
definição matemática de círculo, rigorosa até a
última letra, e ainda não ter intuição do que
seja um círculo. As definições são verbais, ou
escritas em símbolos matemáticos (que também são
um tipo de linguagem). Você pode inclusive saber
aplicá-la, relacioná-la com outros objetos
geométricos. Mas não foi assim que você aprendeu
inicialmente o que eram círculos. Alguém apontou
uma roda, ou a lua cheia, ou fez um desenho para
você. E isso você nunca esqueceu. A aprendizagem
por exemplos parece ser o método natural de
aprendizagem dos seres humanos. Ou, pelo menos,
o método necessário a formação intuitiva de um
conceito antes que a aprendizagem por definições
e regras possa se iniciar.
O reconhecimento de padrões e
a aprendizagem através de exemplos parecem ter
um caráter visual (ou, mais geralmente,
sensorial). A aprendizagem por definições e
regras (algoritmos) é verbal. A sua grande
utilidade é que, justamente por serem expressas
pela linguagem, as regras e definições podem ser
escritas, transmitidas e codificadas: "X é um A
se e somente se X possui a propriedade P".
Melhor ainda, podem ser colocadas em um programa
de computador, que poderá fazer o trabalho de
verificar se X é A por nós! Mas boas definições
são difíceis de conseguir, porque sempre existem
exceções, e casos limítrofes, ou então a
definição não captura todos os casos que se
deseja (certamente você deve ter ouvido falar
que o melhor jeito de embaraçar um adversário em
uma discussão é pedir que ele defina seus
termos). E muitos conceitos úteis, quem sabe a
maioria deles, talvez não sejam definíveis, são
nebulosos ou "fuzzy", não possuem bordas de
aplicação bem definidas. Como sentenciou um
crítico de cinema: "Eu não sei definir
pornografia, mas sei distinguir entre um filme
erótico e um pornográfico".
Conceitos geométricos são
muito mais importantes do que geralmente
supomos: afinal, ao contrário de outros
mamíferos, nosso principal sentido é a visão e a
maior parte de nossas metáforas são visuais. Ou
seja, além de sua utilidade prática e de sua
beleza estética, os conceitos geométricos também
invadem nossa linguagem cotidiana: falamos em
"traçar um paralelo", ir direto ao "ponto", ver
de um novo "ângulo", "sair pela tangente",
"círculo" de amizades, "esfera" de atuação,
"triângulo" amoroso, "plano" espiritual. É de se
esperar que, com o tempo, os conceitos da
geometria fractal também se difundam
culturalmente, produzindo novas metáforas
visuais, novas maneiras de ver o mundo.
Fractais não são feitos de
pontos, retas ou planos. São feitos de objetos
intermediários entre essas coisas e não possuem
comprimento, área ou volume. Isso parece não ser
intuitivo, mas os fractais são na verdade
extraordinariamente comuns. Não saber o que são
fractais é comparável a acreditar que só existem
números inteiros: 0, 1, 2, 3... e nada mais
entre eles. E assim como existem infinitos
números entre dois números inteiros, assim
também objetos parecidos com os fractais são
infinitamente mais comuns e encontráveis na
natureza que os objetos parecidos com círculos,
triângulos, quadrados, esferas, cubos ou
pirâmides...
O objetivo deste livro é
capacitar você, leitor, a reconhecer fractais,
suas propriedades e aplicações. Isso é feito
através de exemplos, e conforme os exemplos vão
se sedimentando, eu acrescento as definições.
Estas não pretendem ser matematicamente
rigorosas, mas sim permitir enxergar mais
amplamente, indo além dos exemplos. Se este
livro for bem sucedido, mais do que aprender um
tópico de matemática, você será capaz de ver o
mundo com novos olhos. Vai enxergar padrões
fractais onde antes parecia haver apenas itens
amorfos, sem relação entre si. Porque não vemos
o mundo com nossos olhos, mas com os conceitos
que habitam nossa mente, mesmo que estes não
estejam bem definidos e tenham sido aprendidos
através de exemplos. Mas cuidado, é uma viagem
sem volta! É impossível desaprender o que são
fractais, é como tentar desaprender o que é um
cão, uma árvore ou um círculo.
***
Capítulo 2 -
Dimensões Fractais
- Joãozinho, qual é o
comprimento da costa brasileira?
- Depende, professor...
- Mas como, Joãozinho, depende do quê?
- Depende do tamanho do meu barco...
O objetivo deste capítulo é
mostrar que Joãozinho está certo. O comprimento
do litoral depende de como ele é medido. Isto
acontece porque o litoral, ao contrário do que
você lê em muitos livros de geografia, não é uma
linha. Perguntar sobre seu comprimento não tem
sentido, é como perguntar qual a distância que
cabe dentro de uma jarra, em vez de perguntar
quantos litros cabem nela. Assim, dependendo de
como é medida, a costa de um país pode ter mil,
cinco mil ou dez mil quilômetros!
Vamos pensar na costa de um
continente ou de uma ilha como a fronteira que
separa a terra do mar. Ora, à primeira vista
parece claro, num mapa, que essa fronteira é uma
linha, ou seja, um objeto unidimensional que tem
um comprimento bem definido (ver Box 1)..
Afinal, o que mais poderia ser? (Bom, você já
sabe, ela poderia ser um fractal...)
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Figura 3.1 –
Construção da Curva de Koch |
Como é possível existir uma
"linha" que une dois pontos mas que não tem
comprimento bem definido? Para ver isso, comece
com uma linha simples, um segmento de reta como
o da Fig. 3.1. Imagine que no lado esquerdo está
a terra, e no lado direito está o mar. Essa
linha tem um comprimento bem definido, por
exemplo, três quilômetros. Agora, divida o
segmento em três partes iguais e substitua a
parte do meio por dois pedaços de igual tamanho,
formando uma entrada ou cavidade (acompanhe na
Fig. 3.1), que você pode pensar como
representando uma baía ou enseada no litoral.
Qual é o comprimento dessa nova linha? É fácil
ver que é simplesmente quatro quilômetros, pois
cada pedaço vale um quilômetro.
Vamos continuar, então. Em
cada segmento, proceda do mesmo modo: divida
cada segmento em três partes iguais e substitua
a do meio por dois segmentos de mesmo tamanho,
de modo que cada segmento original agora tem
quatro pedaços iguais. Qual é o novo
comprimento?
Bom, a linha total tem 16
pedacinhos, e cada um possui 1/3 (um terço) de
quilômetro (lembre-se que cada pedaço de 1 km
foi dividido por três). Logo, o comprimento deve
ser 16 vezes 1/3, ou seja, 16/3 = 5,333... km.
De novo, o comprimento aumentou, já que antes
era 4 km. Mas esse comprimento ainda é bem
definido, nenhuma surpresa até agora. O que
temos por enquanto é uma linha poligonal
composta por um certo número de segmentos de
reta, cada segmento com um comprimento bem
definido.
O segredo para se obter um
objeto fractal é continuar repetindo isso, sem
parar. Cada repetição do mesmo procedimento é
chamada de "iteração". A Fig. 3.1 dá uma idéia
do que acontece quando o número de iterações vai
aumentando. O resultado final é chamado de curva
de Koch. Isso porque os matemáticos têm mania de
chamar qualquer linha, mesmo uma linha reta ou
poligonal, de curva. E Niels Fabin Helge von
Koch (1870-1924), matemático sueco, foi quem
inventou essa curva em 1904. É claro que a gente
não consegue desenhar no papel uma curva de Koch
perfeita, pois os detalhes vão ficando cada vez
menores. Devemos fazer aqui um salto de
imaginação: imagine cada pedaço com sua
cavidade, e cada pedaço menor com sua cavidade
menor ainda, e assim por diante, sem parar, com
detalhes que não terminam nunca!
Note como o comprimento total
vai aumentando sempre. É fácil ver por quê. Cada
vez que você repete a formação da cavidade, o
comprimento é multiplicado por 4/3 (ou seja,
você fica com quatro novos pedaços, cada um com
um terço do comprimento original). Mas 4/3 =
1,333... é um número maior que 1. Se você
multiplica qualquer quantidade por um número
maior que 1, e multiplica de novo, e de novo,
sem parar, o resultado vai aumentando,
aumentando até... até quanto? Bem, o resultado
tende ao infinito! Se você não acredita nisso,
use sua calculadora: multiplique qualquer número
por 1,3, por exemplo, e continue multiplicando o
resultado por 1,3 para ver aonde ele vai parar.
E faça o mesmo usando algum número menor que 1,
por exemplo 0,9.
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Fig 3.2 – Floco de
Neve de Koch |
Isso quer dizer que o
comprimento da curva de Koch é infinito! E isso
acontece mesmo que a curva comece no ponto A e
termine no ponto B da Figura 3.1. Mas como
infinito não é um número normal, o comprimento
não é bem definido: metade da curva de Koch tem
o mesmo comprimento que ela inteira, pois ambos
são infinitos! Isso mostra a diferença entre uma
curva de Koch e um segmento de reta (ou mesmo
uma curva poligonal usual) entre A e B: podemos
dividir o segmento de reta em dois pedaços de
mesmo comprimento, e cada pedaço terá (claro!)
metade do comprimento do segmento total.
Outra observação
interessante: se fizermos uma curva de Koch
fechada, chamada de floco de neve de Koch (ver
Fig. 3.2), ela define uma figura plana que tem
uma área finita mas um perímetro infinito. Não é
a toa que quando Koch apresentou sua curva, os
outros matemáticos (e mesmo ele) a consideraram
um monstro, uma patologia matemática, uma
esquisitice que nunca teria aplicações na vida
real.
Bom, mas parece que a
Natureza é mais criativa e sutil que os
matemáticos: o que alguns geógrafos descobriram
mais tarde é que o litoral dos continentes e
ilhas é mais parecido com a curva de Koch do que
com uma linha suave ou poligonal (isso será
discutido melhor no próximo capítulo). Assim,
uma cavidade pode representar uma entrada do mar
na terra (dependendo do tamanho da cavidade,
chamamos de golfo, baía ou enseada) que por sua
vez tem suas pequenas baías, que tem suas
pequenas enseadas e assim por diante. Eu disse
parecido, mas não idêntico, porque o litoral é
irregular enquanto que a curva de Koch é um
fractal regular, como foi discutido no capítulo
1. Mas isso é fácil de resolver pois é possível
fazer curvas de Koch irregulares, por exemplo
escolhendo aleatoriamente qual dos três pedaços
deve ser substituído pela cavidade formada por
dois segmentos (ver Fig. 3.3).
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Figura 3.3 – Curva
de Koch Irregular |
A diferença mais importante
entre o litoral real e uma linha imaginária como
a curva de Koch é que chega um momento em que os
detalhes são tão pequenos (por exemplo, o espaço
entre duas rochas à beira-mar) que não tem mais
sentido perguntar onde começa a terra e onde
termina o mar. E isso sem falar em outras
complicações como as ondas e as marés, que fazem
com que a linha de separação entre terra e água
seja ainda mais mal definida, não é mesmo? Ou
seja, o litoral real é ainda mais complicado que
um fractal: seria melhor descrevê-lo como um
fractal que muda com o tempo... E mesmo isso
também é uma descrição incompleta, como toda
aplicação da matemática ao mundo real! Lembre-se
que o objetivo da ciência não é uma descrição
perfeita do mundo, mas uma descrição melhor que
as anteriores. Fazer ciência é como fazer mapas:
um mapa com erros é um mau guia, mas um mapa
muito detalhado pode ser menos útil que um mapa
que mostre apenas as coisas importantes do
terreno.
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Figura 3.4 –
Medindo a costa usando barcos |
Se a curva de Koch (e, de
certa forma, o litoral) não tem comprimento, se
ela não é um objeto unidimensional (uma linha),
o que ela é afinal? Intuitivamente ela parece
ocupar "mais espaço" do que uma linha, mas
certamente não é um objeto bidimensional que tem
uma área medida em metros quadrados. A curva de
Koch é mais que uma linha, porém menos que uma
superfície. De alguma forma, ela parece ter uma
dimensão entre um e dois, ou seja, uma dimensão
fracionária. Com efeito, é possível generalizar
a idéia de dimensão D além dos números inteiros.
Assim, a reta tem dimensão D = 1, o plano tem
dimensão D = 2 e a curva de Koch tem dimensão D
= 1,2618... (os pontinhos indicam que o número
continua). No final deste capítulo você verá
como este número é encontrado.
Em termos práticos, nós
gostaríamos de ter algum comprimento (nem que
seja para colocar em um livro de geografia e
dizer que o Brasil tem um litoral maior que o da
Argentina!). Poderíamos medir o tamanho de um
pedaço da costa contando quantos barcos
enfileirados cabem ao longo dela (Figura 3.4).
Esse não seria o "verdadeiro" comprimento, mas
seria um comprimento na prática, que vamos
chamar de "comprimento efetivo". Mas se os
barcos forem grandes, eles passariam por cima de
alguns detalhes. Com barcos menores, uma pequena
enseada na costa poderia ser melhor preenchida,
fazendo com que o comprimento efetivo
aumentasse. Assim, o comprimento efetivo da
costa dependeria do tamanho do barco usado para
medi-la... E se o seu livro de geografia diz que
a costa brasileira tem oito mil e tantos
quilômetros, bem... seria melhor perguntar como
o autor do livro mediu isso!
| Box 3.1: Geometria Euclidiana:
objetos com dimensões inteiras. A
geometria Euclidiana, que herdamos dos
gregos, trabalha com alguns conceitos
fundamentais tais como ponto, reta e
plano. Vamos relembrar algumas das
idéias básicas que usaremos ao longo
deste capítulo:
• Um ponto matemático não tem
dimensão, ou melhor, podemos dizer que
sua dimensão é nula, D = 0. Não podemos
medir um ponto. Assim, todos os pontos
têm o mesmo tamanho, todos são iguais.
• Uma linha (reta ou curva, não
importa) é unidimensional, ou seja, tem
dimensão D = 1. A grandeza que mede uma
linha é o seu comprimento, que vamos
chamar de C. Uma unidade de medida de
comprimento é, por exemplo, o metro (m).
• Uma figura plana (um quadrado ou
triângulo) é bidimensional, ou seja, D =
2. A grandeza que mede a superfície de
uma figura plana é a área A. Por
exemplo, a área de um terreno plano será
medida em metros quadrados (m2).
Mas note que a linha que define a figura
plana (a linha constituída pelos lados
da figura) tem dimensão D = 1. Essa
linha é chamada de perímetro. Assim, um
quadrado cujos lados têm 1 metro possui
uma área A = 1 m2 e um
perímetro cujo comprimento é C = 4 m.
• Um sólido geométrico, por exemplo
uma esfera, pirâmide ou cubo, é um
objeto tridimensional, D = 3. A grandeza
relacionada aos objetos tridimensionais
é o seu volume V. Uma unidade de volume
é o metro cúbico (m3). Outra
unidade é o litro, que equivale a um
metro cúbico dividido por mil. Note,
porém, que um sólido geométrico também
tem uma superfície que o envolve. Por
exemplo, se as arestas de um cubo tem um
metro, então seu volume será de 1 m3
e sua área superficial será de 6 m2
(pois o cubo tem seis faces quadradas).
• O que é importante notar nesses
exemplos é que quando expressamos as
unidades de área e volume como potências
de um comprimento L (no nosso caso, L =
metro), a dimensão D dessas grandezas
aparece no expoente. Ou seja, a grandeza
ou medida M que mede um objeto de D
dimensões terá unidades na forma LD.
Assim, a área (D = 2) será medida em
unidades de comprimento ao quadrado (L2)
e o volume (D = 3) será medido em
unidades de comprimento ao cubo (L3).
Note que isto também vale para D = 1,
pois o comprimento será medido em
unidades de L1 = L, e mesmo
para D = 0, se lembrarmos da convenção
matemática que L0 = 1, ou
seja, é um número puro, que não tem
dimensão.
• Os objetos fractais não terão
comprimento, área ou volume, mas terão
alguma outra medida, que chamaremos de MD
e que terá unidades na forma LD
onde D agora é um número não inteiro
(fracionário). Assim, comprimento (C = M1),
área (A = M2) e volume (V = M3)
são casos particulares da medida geral MD. |
Dimensões fractais
entre zero e um: o conjunto de Cantor
Na curva de Koch, três
segmentos davam lugar a quatro segmentos do
mesmo tamanho em cada iteração. Ou seja, o
processo de construção adicionava pedaços a um
objeto unidimensional (uma linha) gerando um
fractal com dimensão maior que um. Mas o que
acontece se, em cada iteração, retirarmos um
pedaço de cada segmento?
Vamos começar como antes:
pegue um segmento, divida-o em três partes
iguais e retire a do meio. Repita a operação com
os segmentos que restaram, depois repita de
novo, e de novo, e de novo... sem parar. A
Figura 3.5 dá uma idéia do que acontece.
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Figura 3.5 –
Conjunto de Cantor |
Se a linha fosse um objeto
físico, feita de átomos, e se você tirasse
pedaços a cada iteração, você iria acabar
possuindo um conjunto de átomos isolados no
final. Mas aqui estamos pensando numa linha
matemática, ou seja, uma linha ideal,
imaginária, perfeita, que não é feita de átomos.
Neste caso, você vai dividindo, dividindo, e
sempre continua tendo segmentos de reta mas
nunca pontos isolados. Além disso, o número
desses segmentos tende ao infinito. Logo, já
podemos suspeitar que nunca teremos um conjunto
com dimensão D = 0 (ou seja, um conjunto formado
apenas por pontos isolados).
Por outro lado, a soma total
dos comprimentos dos segmentos vai sempre
diminuindo. Como tiramos 1/3 de cada segmento,
depois de cada iteração sobram 2/3. Ou seja, a
cada iteração, o comprimento total é
multiplicado por 2/3 = 0,666..., que é um número
menor que um e... você já sabe, não importa o
número inicial, essa multiplicação repetida vai
levar o valor do comprimento para zero. Ou seja,
a soma do comprimento de todos os (infinitos!)
"segmentos" que restam é zero, e mesmo assim não
temos pontos isolados! Bom, mas então os
"segmentos" que restaram já não são realmente
segmentos de reta (porque segmentos de reta
sempre têm comprimento maior que zero!), eles se
tornaram outra coisa quando repetimos a operação
infinitas vezes! Esses "segmentos" se tornaram
fractais!
Essa outra coisa, que não é
nem um conjunto de pontos nem um conjunto de
segmentos de reta, é chamada de conjunto de
Cantor (o procedimento foi inventado pelo
matemático Georg Cantor, que viveu no século
XIX, era maníaco-depressivo e morreu em um asilo
após revolucionar a Matemática!). Pelos mesmos
métodos usados no caso da curva de Koch, podemos
encontrar que a dimensão do conjunto de Cantor é
D = 0,6309...
Outra coisa a notar é a
propriedade de auto-semelhança, já discutida no
capítulo 1. Um pedacinho pequeno do conjunto de
Cantor é semelhante ao conjunto todo. É por isso
que enfatizamos que o conjunto de Cantor não é
um constituído de pontos isolados ou de
segmentos de reta. O conjunto de Cantor é um
conjunto de... pequenos conjuntos de Cantor!
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Box 3.2:
Biografias: Cantor, Koch, Sierpinsky,
Menger e Haussdorf. |
Dimensões fractais
entre um e dois: O tapete de Sierpinsky
Já conhecemos bem um objeto
fractal com dimensão D tal que 1 < D < 2: a
curva de Koch. Ela foi obtida a partir de uma
linha, que é um objeto unidimensional,
adicionando-se segmentos em um processo de
iteração infinito para produzir um objeto com
dimensão maior que um. Note que o segredo para
criar um objeto fractal não é simplesmente
adicionar ou retirar pedaços, mas sim fazer isso
infinitas vezes!
Dá para suspeitar que também
poderíamos obter um fractal com dimensão entre
um e dois retirando-se pedaços de um objeto
bidimensional. Por exemplo, podemos começar com
um quadrado, dividindo-o em nove quadradinhos e
retirando-se o quadradinho central (ver Figura
3.6). Fazendo-se isso infinitas vezes, acabamos
obtendo o tapete de Sierpinsky. É um objeto
fractal de dimensão D = 1,8928...
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Figura 3.6 –
Tapete de Sierpinsky
D = 1,89... |
Em vez de um quadrado,
poderíamos ter começado com um triângulo,
dividindo o triângulo em quatro e retirando o
triângulo central (Fig.3.7). Neste caso, temos a
intuição de que ele é mais cheio de buracos que
o tapete quadrado, e que ele deveria ter uma
dimensão menor. Com efeito, sua dimensão fractal
é D = 1,5849... Guarde bem a imagem desse tapete
triangular, pois você o reconhecerá mais tarde
em lugares inesperados tais como... na
superfície de uma concha marinha (capítulo 6).
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Figura 3.7 –
Tapete de Sierpinsky triangular
D = 1,58... |
Como em cada iteração a área
é diminuída (por um fator 8/9 no caso do tapete
quadrado, e por um fator 3/4 no caso do
triangular), a área total desses tapetes, após
infinitas iterações, é zero. Ou seja, de novo
precisamos compreender que esses tapetes de
Sierpinsky não são feitos de pedacinhos que
possuem área, mas sim de pedaços que são eles
próprios pequenos tapetes de Sierpinsky que não
têm área.
Outra coisa curiosa é que se
você somar o perímetro de todos os buracos, ele
é infinito! Assim, ao contrário do floco de neve
de Koch, os tapetes de Sierpinsky possuem
fronteiras infinitas que envolvem uma área igual
a zero...
Dimensões fractais
entre dois e três: relevos fractais e esponjas
de Menger
Você já deve estar pegando o
jeito da coisa. Para obter um fractal com
dimensão maior que dois poderíamos pensar em
adicionar pedaços a um objeto bidimensional (por
exemplo, um quadrado) ou retirar pedaços de um
objeto tridimensional (por exemplo um cubo). Se
partirmos de uma figura plana, teremos um relevo
fractal com área infinita (Fig. 3.8), uma idéia
que será usada quando estudarmos o relevo
terrestre, os pulmões e intestinos.
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Fig. 3.8 – Relevo
Fractal |
Se partirmos de um sólido
geométrico, por exemplo um cubo, e retirarmos
pedaços, obteremos algo como a esponja de Menger
(Figura 3.9), que tem uma área superficial
infinita envolvendo um volume nulo.
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Figura 3.9 –
Esponja de Menger |
Todos esses fractais são
interessantes, mas são muito regulares,
simétricos e infinitamente detalhados. Na
Natureza, com mais freqüência, encontraremos
formas parecidas com fractais irregulares e que
possuem um limite para o nível de detalhes que
pode ser descrito por fractais. Neste capítulo
estudamos fractais regulares porque para estes é
mais fácil determinar sua dimensão fractal.
Como encontrar a
dimensão fractal de um objeto
Vimos que o comprimento C é a
medida adequada para objetos com dimensão D = 1.
Da mesma forma, a área A é a medida adequada
para objetos com D = 2 e o volume V é a medida
para objetos com D = 3. Ao entrar em contato com
os fractais, percebemos que essas medidas são
casos particulares de uma medida geral MD
que depende da dimensão D: M1 é o
comprimento, M2 é a área e M3
é o volume.
Também vimos que se um objeto
tem dimensão D então apenas a grandeza MD será
uma medida adequada de seu tamanho. Assim, se
perguntarmos qual a área de um quadrado,
estaremos fazendo uma pergunta interessante,
cuja resposta diz algo sobre o quadrado, pois
quadrados diferentes têm áreas diferentes. Mas
se perguntarmos qual o comprimento ou o volume
de um quadrado, estaremos fazendo uma pergunta
que não tem sentido. O volume de qualquer
quadrado é zero, e seu comprimento é infinito,
não importa o tamanho do quadrado (cuidado:
estou falando do quadrado enquanto figura plana;
os lados de um quadrado possuem comprimento bem
definido, pois são linhas unidimensionais).
Como se mede a área de uma
figura plana complicada, por exemplo a área da
figura abaixo?

Uma maneira de medir a área
de qualquer figura plana é contar quantos
quadradinhos são necessários para recobrir toda
figura. Suponha que você cobriu a figura com
quadradinhos de lado d, como feito abaixo

A área de cada quadradinho é
d2. Logo, se foram necessários N quadradinhos de
lado d para recobrir a figura, você pode dizer
que a área vale aproximadamente
A =
Nd2.
É claro que isso vai dar uma
área maior que a área verdadeira, porque alguns
pedaços dos quadradinhos ficaram para fora. Mas
se você usar quadradinhos cada vez menores, essa
medida vai dar um valor cada vez mais exato.
Isso fornece uma idéia para
se determinar a dimensão D de um objeto fractal.
Basta recobri-lo com pequenos "quadradinhos" de
lado d (usamos aspas porque na verdade, não são
quadradinhos mas "fractaizinhos"). O tamanho
total do objeto fractal será dado pela medida MD
= N dD (o número de "quadradinhos"
necessário para recobrir o fractal vezes o
"área" de cada "quadradinho"). A dimensão
fractal D é um valor especial tal que a medida
MD não é nem zero nem infinita.
Vamos ilustrar esse método
calculando a dimensão "fractal" de um quadrado.
Imagine que nós não soubéssemos que o quadrado é
uma figura bidimensional (ou seja, D = 2).
Começamos com um quadrado de lado L (acompanhe
na Fig. 3.10). Vamos fazer com que os nossos
quadradinhos, a cada iteração, tenham seu lado
dividido por dois. Chamaremos de n o número da
iteração. Assim, na primeira iteração (n = 1)
precisamos de 4 quadrados. Na segunda iteração
(n = 2), cada quadrado anterior é recoberto por
4 quadradinhos menores, ou seja, agora
precisamos de 16 quadradinhos. É fácil ver que
se chamarmos de N(n) o número de quadrados
necessários na iteração n, teremos que esse
número cresce com n na seguinte forma:
N(n) =
4n.
Agora precisamos saber qual é
a área de cada quadradinho na iteração n.
Supondo que não sabemos qual é a dimensão D do
quadrado, vamos escrever apenas que essa área é
proporcional ao lado elevado a alguma potência D
desconhecida, ou seja, A = dD.
Na primeira iteração, o lado
vale d = L/2. Na segunda, o lado é igual a L/4,
na terceira ele vale L/8 e assim por diante,
sempre dividindo-se por dois. Assim, na iteração
n teremos que o lado valerá L/2n.
Concluímos que a área de um quadradinho usado na
iteração de número n será dada por

Logo, a área total do
quadrado será dada pelo número de quadradinhos
N(n) vezes área de cada quadradinho A(n), ou
seja,

Podemos escrever essa fórmula
no seguinte modo, colocando-se tudo o que está
elevado à potência n dentro de um parêntesis,

Agora vem o ponto essencial:
queremos que essa medida de área faça sentido
quando usarmos um número n de iterações muito
grande (tendendo ao infinito). Não sabemos
quanto vale D, mas se o número 4/2D
for maior que um, a área total aumentaria sempre
conforme aumentamos n. E se 4/2D for
menor que um, a área total diminuiria quando
aumentamos n. Logo, a única possibilidade para
que a área total seja uma grandeza bem definida,
nem zero nem infinita, é que 4/2D =
1, pois sabemos que 1n vale sempre 1, não
importa o valor de n.
Mas a solução da equação 4/2D
= 1 é claramente D = 2. Assim, concluímos que o
quadrado precisa ser recoberto por quadradinhos
com dimensão D = 2, e sua área total é

Muito esforço para pouco
resultado! Já sabíamos há muito tempo que um
quadrado é um objeto com dimensão D = 2 e cuja
área é L2! Sim, mas agora podemos usar o mesmo
método do recobrimento para medir a dimensão de
um objeto fractal!
Vamos examinar uma espécie de
tapete de Sierpinsky feito de quadrados (Fig.
3.11). A cada iteração n, dividimos cada
quadrado em 4 quadradinhos menores e eliminamos
um deles (por exemplo, o do canto superior
esquerdo). Como cada quadrado sempre irá gerar
três novos quadrados, a cada iteração teremos
três vezes o numero anterior de quadrados, ou
seja, o número de quadradinhos será 1, 3, 9,
27... ou seja, N(n) = 3n. Agora, como
antes, o tapete será recoberto por
"quadradinhos" cuja medida é (L/2n)D
com D desconhecido, possivelmente fractal. A
medida total (que não chamaremos mais de área A,
mas sim de medida fractal MD) será

Como antes, essa medida só
será diferente de zero ou infinito caso a fração
seja igual a 1, ou seja, o numerador e o
denominador forem iguais,

Agora, qual a solução dessa
equação? Bom, se D fosse igual a 1, teríamos 3 =
2, ou seja, o lado direito é menor que o
esquerdo, o que não está certo. Se D fosse 2,
teríamos 3 = 4, que também não está certo, sendo
que desta vez o lado direito ficou maior que o
esquerdo. Logo, D deve ser um número entre 1 e
2, ou seja, D é fracionário. A dimensão D desse
objeto é fractal!
Tudo bem, mas quanto vale D
exatamente? Bom, eu poderia dizer que para
resolver a equação 2D = 3 você
precisa usar logaritmos (ou seja, aquela coisa
chata que cai no vestibular, todo mundo decora e
que ninguém sabe para que serve...). Mas como
este livro foi feito para ser lido mesmo por
leitores que não sabem ou não se lembram dos
logaritimos, precisamos de algo mais
inteligente, não?
Pois bem, faça assim: pegue
uma calculadora que faz o cálculo de potências
(serve aquela calculadora virtual que todo
computador têm, no modo científico) e eleve 2 a
algum expoente entre 1 e 2 (por exemplo, D =
1,5). Ora, 21,5 é igual a 2,8284...
que é quase 3, mas ainda é muito pouco. Bom,
então tente um valor de D maior, digamos D =
1,7. Agora, temos que 21,7 =
3,2490... Hum! Maior que três, erramos o alvo,
parece que aumentamos D demais! Lembre-se,
precisamos obter exatamente três para que a
equação 2D = 3 seja satisfeita.
Assim, vamos tentar agora D = 1,6. Dessa vez
obtemos 21,6 = 3,03143... Opa,
chegamos perto! Mas ainda um pouco acima, que
tal usar D um pouco menor, digamos D = 1,58?
Continuando assim, subindo e
descendo o valor de D até obter um número mais
perto de 3,0000... você acabará obtendo que o
valor de D deve ser próximo de 1,585. O valor é
aproximadamente (os pontinhos indicam que existe
um número infinito de decimais).

Confirme isso usando sua
calculadora. (Idéia: já que agora você sabe para
que eles servem, que tal aprender logaritmos?
Veja o Box 3). Ora, essa é a mesma dimensão D do
tapete de Sierpinsky triangular que vimos antes.
Sim, claro! Naquele caso dividimos um triângulo
em quatro partes iguais e eliminamos uma parte
em cada passo, um processo muito parecido com o
que fizemos agora com o quadrado. Mesmo
visualmente, esses dois fractais são parecidos,
não?
Para finalizar: esse método
de determinar a dimensão fractal D é chamado de
"método do recobrimento" e pode ser usado para
todos os outros fractais, mesmo para os fractais
irregulares (com pequenas adaptações). E a
dimensão fractal determinada deste modo é
chamada de Dimensão de Hausdorff, em homenagem
ao matemático Felix Haussdorff (1858-1942) que
primeiro introduziu essa idéia.
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Box 3.3:
Calculando a dimensão fractal exatamente
Nos nossos exemplos,
quando você calcula a dimensão fractal
pelo método do recobrimento, você sempre
chega a uma equação do tipo:

Para obter o valor de
D você precisa isolá-lo. Para isso,
usamos a propriedade de que o logaritmo
de um produto de números é igual à soma
de seus logaritmos:

Esta propriedade que
transforma produtos em somas foi a
grande motivação para se definir os
logaritmos. Isso vale qualquer que seja
o numero de fatores, ou seja:

Mas AD = A.A...A com
o fator A se repetindo D vezes, se D for
um número inteiro. Assim,

Mas esta propriedade
("a queda do expoente") na verdade vale
também quando D é um número real. Usando
isso na equação (*), ou seja, tirando o
logaritmo dos dois lados, temos

Note que estamos
usando a notação em que Log é o
logaritmo na base 10, apenas para que
você possa usar sua calculadora. Mas
todas essas propriedades valem para
logaritmos em qualquer base.
No exemplo do tapete
de Sierpinsky, temos A = 2 e C = 3.
Portanto, isolando D, temos:

ou seja, D = 1,585
aproximadamente.
Um caminho mais curto
é reconhecer que a equação AD
= C equivale à própria definição de
logaritmo: D é o logaritmo de C na base
A, ou seja, D = LogA (C).
Usando a propriedade que conecta
logaritmos na base A com logaritmos na
base 10 temos: LogA (C) = Log
(C) / Log (A), obtemos o mesmo resultado
anterior. Para mais detalhes sobre
logaritmos e sua história veja
http://en.wikipedia.org/wiki/Logarithm |
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