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O Universo é Matrix?
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O tabuleiro de xadrez é o mundo; as peças são
os fenômenos do Universo; as regras do jogo são o que chamamos de Leis da
Natureza. O jogador no outro lado está oculto a nós.
Thomas H. Huxley, 1868
E se tudo o
que você vê for apenas uma simulação de computador? O filme
Matrix provoca a idéia, com a ajuda de surpreendentes efeitos visuais –
criados justamente por computadores, e que parecem incrivelmente reais. Na
produção da seqüência, Matrix Reloaded, o supervisor de efeitos especiais John
Gaeta comentou que as imagens geradas por sua equipe são tão impressionantes que
“talvez nossa tecnologia se torne a verdadeira Matrix, e nós tenhamos
inadvertidamente liberado o frasco de coisa verde no planeta”.
Mas o que deve intrigar mesmo é que existem propostas científicas sérias de que
todo o Universo, incluindo nós mesmos, seja em essência o resultado de um grande
computador. Já em fins dos anos 60, o alemão Konrad Zuse sugeria que todo o
Universo estaria tendo lugar nas entranhas lógicas de um computador. Zuse não
era um maluco qualquer: ele construiu os primeiros computadores eletromecânicos
programáveis do mundo, desenvolveu a primeira linguagem de computador de
alto-nível, e, entre tantas outras coisas, criou o primeiro programa de xadrez
em um computador. O que não deixa de ser curioso, dada a metáfora do naturalista
do século XIX Thomas Huxley que introduz este artigo.
A sugestão de Zuse fazia referência ao tipo de computador em particular que
estaria ‘rodando’ nosso Universo, denominado
autômato celular. O conceito deste tipo de computador foi criado por
outro grande pioneiro, o matemático húngaro John von Neumann, nos anos 40 – a
propósito, como uma base da idéia de sistemas lógicos que fossem
auto-reprodutores e que imitassem assim a própria vida.

Tela do programa Life32, baseado no 'Game of Life' original de John
Conway. |
Para entender basicamente o que são
autômatos celulares, e eles são um tanto diferentes do computador a que estamos
acostumados, começamos com a metáfora de xadrez de Huxley. Jogue fora as peças,
e fique apenas com o tabuleiro. Cada casa do tabuleiro é uma célula, e cada uma
destas células pode ser branca ou preta. Agora, a cor destas células não depende
mais do padrão monótono e fixo do xadrez, mas pode mudar de acordo com regras
simples implementadas dentro de cada uma delas. Estas regras são executadas em
todas as células simultaneamente, toda vez que um relógio bate. O tabuleiro é
agora um autômato celular.
Cada célula deste autômato pode, por exemplo, ter o seguinte conjunto de regras:
se houver três células imediatamente vizinhas brancas, ela deve ficar ou
continuar branca. Se houver duas células vizinhas brancas, sua cor não deve
mudar. Se houver menos de duas ou mais de três vizinhas brancas, deve ficar ou
continuar preta. E isso é tudo. Se você leu essas regras, o que deve ter sido um
tanto chato, pelo menos deve ter percebido que elas são muito simples. Mas a
partir delas, executadas em cada célula de nosso autômato, uma ordem incrível de
complexidade pode surgir.
Isso foi demonstrado de forma bela por um programa de computador que se tornou
uma febre nos anos 70: o
Game of Life de John Conway. Usando exatamente as regras descritas
acima, cada célula branca estava ‘viva’, e as pretas, ‘mortas’. Em uma época que
hoje já parece remota, onde o tempo dos computadores era caríssimo, horas e
horas foram gastas por pesquisadores fascinados observando como uma ordem
inesperada surgia: quadrados piscando, triângulos andando e flechas zunindo,
tudo em padrões complexos mudando, a cada batida do relógio.
E resulta que mesmo um autômato celular de
regras simples como o
Game of Life de Conway pode funcionar como um computador universal: isto
é, representando informação como células brancas ou pretas, e dispondo diversas
outras células de forma determinada, este simples jogo de computador pode em
tese simular qualquer computador imaginável, dando seus resultados como um
determinado padrão de células.
A capacidade de computação universal de autômatos celulares simples nos leva de
volta às especulações de que o Universo seja um computador. Essa especulação
fantástica deriva essencialmente de uma suposição: a de que o Universo seja
discreto, em outras palavras, que seja em essência digital.
O mundo pode parecer contínuo, analógico em muitos aspectos: basta olhar para o
arco-íris que parece variar suas cores continuamente. Mas apenas parece: a luz é
composta de partículas discretas chamadas fótons. No mundo do infinitamente
pequeno, regido pelas leis da física quântica, o infinitamente pequeno pode
simplesmente não existir: as ações se dariam em pacotes, de forma discreta, em
quanta. Até mesmo o tempo e o espaço não seriam contínuos: existiria uma
quantidade mínima de tempo e espaço passível de ser medida, e possivelmente, de
acontecer em nosso Universo. E um Universo em que tempo e espaço ocorrem aos
pulsos é justamente o universo dos autômatos celulares.

O padrão de pigmentação em conchas pode ser reproduzido por autômatos
celulares com regras definidas. Para Wolfram, isto evidencia processos de
computação já ocorrendo na natureza. |
“Nossa tese é de que algum modelo de
autômato celular pode, em efeito, ser programado para funcionar como a Física
[do Universo]”, diz Edward Fredkin, da Universidade de Boston. Fredkin já
foi diretor do laboratório de ciência de computação do M.I.T., e tem sido um dos
mais notáveis promotores do Universo como um computador. Sua ‘Mecânica Digital’
explicaria mesmo os mais incompreensíveis aspectos da mecânica quântica.
Contudo, o mais novo e ardoroso defensor
desta abordagem é Stephen Wolfram, criador de um dos mais usados softwares de
computação técnica do mundo. Wolfram ficou milionário, e dedicou os últimos anos
a uma busca obstinada – e em grande parte obscura – para demonstrar que
autômatos celulares podem responder por toda a complexidade que enxergamos no
mundo.
No ano passado, Wolfram finalmente lançou o livro A New Kind of Science
(Um Novo Tipo de Ciência), um tomo volumoso repleto de gravuras, complementado
por programas de computador de demonstração. Tornou-se brevemente um
best-seller, um feito notável considerando as mais de 1.000 páginas e o tema
hermético, mas não agradou muito à comunidade científica. Wolfram é acusado de
não reconhecer plenamente o trabalho de outros cientistas nas teorias e idéias
que expõe, de não apresentar idéias realmente novas, além de tentar levar todas
elas longe demais sem a base necessária. “Não é novo, e não é ciência”,
escreveu o crítico David Drysdale.
O livro de Wolfram e, é claro, o filme Matrix, divulgam cada vez mais a idéia de
que o Universo seja um computador. Por trás dessa divulgação ampla, os seus
criadores, de Zuse a Fredkin, ofereceram uma hipótese séria e tantalizante.
Talvez, perguntar ‘o que é Matrix?’ seja no final das contas a mesma
pergunta fundamental feita pela ciência: o que é o Universo?
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Quarenta e dois
Edward Fredkin está procurando pelo carro no estacionamento, quando seu
filho diz: “Eu sei exatamente onde o carro está!”. Surpreso, ele
pergunta “onde?”. Ao que ouve “O carro está no Universo”. Caso o
Universo seja um computador funcionando em algum lugar, nós podemos
estar igualmente certos de que onde quer seja, não é neste Universo:
como Fredkin chama, o lugar onde nosso Universo estaria é o
Outro.
Podemos saber pouco sobre o Outro. Uma vez que contém algo que é
responsável por nosso Universo, e como nosso Universo pode criar
computadores universais, então o
Outro é certamente capaz de produzir computadores universais.
Além disso, se as leis físicas que conhecemos são resultado de regras em
um autômato celular, podem existir muitas outras regras, muitos outros
universos. E todos eles podem estar contidos no
Outro, que por sua vez pode ter leis físicas imponderáveis a nós.
Estudar nosso Universo não diz muito mais do que isso sobre o
Outro.
Entretanto, não resistimos imaginar por que ele estaria ‘rodando’ nosso
Universo. Em um de seus melhores contos, o escritor de ficção científica
Isaac Asimov escreveu sobre “A Última Pergunta”: como evitar o
destino de nosso Universo em expansão, a morte térmica. O ano é 2061, e
como não poderia deixar de ser, a pergunta é feita a um computador.
Depois de um breve silêncio, o computador informa: “Dados
insuficientes para uma resposta”. E ao longo de centenas bilhões de
anos, a humanidade se expande pelo Universo e se funde com seus
computadores – sempre para descobrir que a última pergunta ainda não
pode ser respondida. Ao fim, quando todo o Universo é englobado pelo
Computador, quando o caos já reina, ele finalmente chega a uma resposta.
Mas já não há ninguém para conhecê-la exceto ele mesmo. A resposta deve
ser dada então por demonstração, e a entropia do Universo será
revertida. E o Computador diz: “Que se faça a luz!”. E houve luz.
Ficção à parte, se nosso Universo é apenas um dentre muitos que podem
ocorrer no
Outro, talvez não exista um Criador, ou melhor, um
Programador. Como nota Jürgen Schmidhuber, do Instituto Dalle Molle
de Estudos em Inteligência Artificial na Suíça, em nosso
Universo-computador uma xícara de chá não só seria resultado de
cálculos, como estaria efetuando cálculos para existir. O que ela
computa? Provavelmente nada muito interessante, mas se ela é um
computador efetuando um cálculo qualquer, nosso próprio Universo poderia
estar tendo lugar no
Outro como algo tão desinteressante quanto uma xícara de chá é
para nós.
Aos que ficarem desanimados com a idéia, podemos voltar à ficção
científica. Em ‘O Mochileiro das Galáxias’, Douglas Adams conta
que fomos criados para computar a resposta da
Grande Questão da Vida, do Universo e Tudo. A resposta? 42.
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Leia mais
- A Filosofia Digital
de Edward Fredkin
(em inglês)
- Fredkin, Wolfram & God
-
A Hipótese de Zuse
(em inglês)
- Life32 -
versão freeware para Windows(r) do
Game of Life
-
Cellular Automata - Uma excelente introdução a autômatos celulares
-
The World According to Wolfram
- Resenha do livro de Wolfram
Nota
Apesar do que possa parecer, este não é um plágio do artigo 'Matrix: A
realidade é uma ilusão?' de Rafael Kenski, publicado em maio de 2003 na revista
SuperInteressante. Todo este artigo foi escrito no começo de abril de 2003
para um outro projeto, mas teve que ser descartado justamente por causa da
(realmente embasbacante) semelhança com o artigo publicado em maio na revista
SI. Não sei se implantes alienígenas em meu cérebro transmitiram este artigo
para a mente de Kenski, provavelmente um alienígena reptiliano disfarçado entre
nós. Contudo, para que este trabalho (embora semelhante, também diferente) não
seja totalmente perdido, fica então aqui para os visitantes de CA, espero que
apreciem apesar de fugir um pouco da temática de ufologia e paranormal.