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“Onde estão todos?”
Um relato sobre a Questão de Fermi
Eric M. Jones
Relatório do Los Alamos National Laboratory
número LA-10311-MS, março de 1985
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A famosa
pergunta de Fermi, agora central aos debates sobre a prevalência de civilizações
extraterrestres, surgiu durante uma conversa em um almoço com Emil Konopinski,
Edward Teller e Herbert York no verão de 1950. Os companheiros de Fermi nesse
dia forneceram seus relatos do incidente.
Parte do
debate atual sobre a existência e prevalência de
extraterrestres se relaciona com a viagem e
colonização interestelar [1-3]. Em 1975, Michael
Hart argumentou que a viagem interestelar seria
praticável a uma civilização tecnologicamente
avançada e que uma migração preencheria a
Galáxia em alguns milhões de anos [4]. Uma vez
que esse intervalo é pequeno comparado com a
idade da Galáxia, ele concluiu então que a
ausência de colonos ou evidência de seus
projetos de engenharia no Sistema Solar
significava que os extraterrestres não existem.
Newman, Sagan e Shklovski [2,5] lembram-se
de uma lenda científica que diz que Enrico Fermi
fez a pergunta, “onde eles estão?” durante uma
visita a Los Alamos na Segunda Guerra Mundial ou
logo depois. A pergunta de Fermi foi mencionada
em diversas outras publicações recentes, mas a
base histórica para a atribuição não foi
estabelecida. Graças à excelente memória de Hans
Mark, que tinha ouvido a história recontada em
Los Alamos no início dos anos 50, nós sabemos
agora que Fermi de fato fez o comentário durante
uma conversa em um almoço por volta de 1950.
Seus companheiros eram Emil Konopinski, Edward
Teller e Herbert York. Todos os três forneceram
relatos do incidente.
Nós começamos com Konopinski: “Eu tenho
somente lembranças fragmentadas da ocasião...
tenho uma memória razoavelmente clara de como a
discussão sobre extraterrestres começou enquanto
Enrico, Edward, Herb York e eu estávamos
caminhando para almoçar em Fuller Lodge.
Quando me juntei ao grupo, descobri que
estavam discutindo sobre a evidência de discos
voadores. Isso trouxe imediatamente à minha
mente um cartum que tinha visto recentemente no
New Yorker, explicando por que as latas
de lixo públicas estavam desaparecendo das ruas
da cidade de Nova Iorque. Os jornais da cidade
estavam agitados com isso. O cartum mostrava o
que era evidentemente um disco voador parado ao
fundo e, indo em direção dele, “homenzinhos
verdes” (dotados com antenas) carregando as
latas de lixo. Mais divertido foi o comentário
de Fermi, de que essa era uma teoria muito
razoável já que esclarecia dois fenômenos
separados: os relatos de discos voadores assim
como o desaparecimento das latas de lixo.
Seguiu-se uma discussão a respeito de se os
discos poderiam de algum modo exceder a
velocidade da luz.”

Teller recorda: “Minha memória do evento
envolvendo Fermi... é clara, mas somente
parcial. Para começar, eu estava lá no
incidente. Acredito que ocorreu logo após o fim
da guerra em uma visita de Fermi ao Laboratório,
que muito possivelmente deve ter sido durante um
verão.
Eu recordo ter andado com Fermi e outros ao
Fuller Lodge para o almoço. Enquanto estávamos
andando, houve uma conversa que acredito ter
sido muito breve e superficial em um assunto
apenas vagamente conectado com a viagem
espacial. Tenho uma vaga lembrança, que pode não
ser acurada, de que falamos sobre discos
voadores e a conclusão óbvia de que discos
voadores não são reais. Lembro também que Fermi
levantou explicitamente a pergunta, e penso que
dirigida a mim, “Edward, o que você pensa? Quão
provável é que dentro dos próximos dez anos nós
teremos evidência clara de um objeto material
movendo-se mais rápido do que a luz?” Lembro que
minha resposta foi 10-6... Fermi disse, “Isso é
muito baixo. A probabilidade é mais como dez por
cento” (o valor bem conhecido para um milagre de
Fermi.)”
Konopinski diz que não se recorda dos
valores numéricos, “exceto que eles mudaram
rapidamente enquanto Edward e Fermi lançavam
argumentos um ao outro”.
Teller continua: “A conversa, de acordo com
minha memória, estava conectada somente
vagamente com Astronáutica na idéia de que
discos voadores poderiam ser explicados por
seres extraterrestres (aqui eu acredito que os
comentários foram puramente negativos), em parte
porque exceder a velocidade da luz tornaria a
viagem interestelar um tanto mais real.
Nós falamos então sobre outras coisas de
que não me lembro e talvez aproximadamente oito
de nós sentaram-se juntos para o almoço”.
Konopinski e York estão razoavelmente certos de
que havia somente quatro pessoas.
“Foi depois que nós estávamos na mesa do
refeitório”, Konopinski recorda, “que Fermi
surpreendeu-nos com a pergunta “mas onde estão
todos?” Foi sua maneira de fazer a pergunta que
arrancou risadas de nós”.
York, que não recorda a conversa preliminar
na caminhada ao Fuller Lodge, lembra sim que
“virtualmente do nada Fermi disse, “vocês nunca
se perguntam onde estão todos?” De algum modo...
todos sabíamos que ele falava de
extraterrestres".
Teller se lembra da pergunta da mesma
maneira. “A discussão não tinha relação com
astronomia ou seres extraterrestres. Penso que
era algum tópico mundano. Então, no meio desta
conversa, Fermi saiu-se com a pergunta
completamente inesperada “onde estão todos?”...
O resultado de sua pergunta foram risadas
generalizadas por causa do estranho fato de que
apesar da pergunta de Fermi ter vindo do nada,
todos ao redor da mesa pareciam compreender
prontamente que ele falava sobre vida
extraterrestre”.
“Eu não acredito que muito veio desta
conversa, exceto talvez uma declaração de que as
distâncias ao local mais próximo de seres vivos
podem ser muito grandes e que, de fato, tanto
quanto concerne nossa galáxia, nós estamos
vivendo em algum lugar remoto, muito distante da
área metropolitana do centro galáctico.”
York acredita que Fermi era um tanto mais
expansivo e que “continuou com uma série de
cálculos sobre a probabilidade de planetas como
a Terra, a probabilidade de vida dada uma Terra,
a probabilidade de seres humanos dada a vida, a
ascensão e duração provável da alta tecnologia,
e assim por diante. Concluiu com base em tais
cálculos que deveríamos ter sido visitados há
muito tempo e várias vezes. Como eu me lembro,
ele seguiu para concluir que a razão pela qual
não tínhamos sido visitados poderia ser que o
vôo interestelar é impossível, ou, se fosse
possível, sempre era julgado como não valendo o
esforço, ou a civilização tecnológica não
duraria o suficiente para que aconteça.” York
confessou não estar muito certo sobre estas
últimas observações.
Em resumo, Fermi de fato fez a pergunta, e
talvez sem surpresa, as questões debatidas ainda
hoje foram parte da discussão. Certamente, a
linha de argumento de que York se recorda
tornou-se familiar uma década mais tarde como a
equação de Drake-Greenbank [6.7].
Um ponto final: a data da conversa. York é
o mais claro com relação à data. “A conversa
ocorreu seja no verão de 1950, 1951 ou 1952,
muito provavelmente 1951, e aconteceu... quando
eu visitava o LASL devido aos testes Greenhouse
- especificamente, a explosão George”. O teste
George ocorreu em 8 de maio de 1951, sugerindo a
data de 1950. A correspondência restante do
tempo indica que Fermi era um visitante anual no
verão durante os anos em questão. Infelizmente,
registros de presença e viagem para aqueles anos
foram destruídos. Entretanto, nós temos a
evidência do cartum que Konopinski menciona.
Desenhado por Alan Dunn, foi publicado na edição
de 20 de maio de 1950 do New Yorker. Parece
completamente provável que o incidente da
pergunta de Fermi ocorreu no verão de 1950.
Eu sou grato a Hans Mark e aos três
participantes sobreviventes por seus relatos.
Estes relatos, junto com minhas cartas, são
reproduzidos nas seguintes páginas.
Fac-símiles das cartas:
-
Jones a Teller (13/07/1984)
- Teller a Jones -
página
1,
página 2 (13/08/1984)
- Jones
a York (04/09/1984)
- York
a Jones (11/09/194)
- Jones
a Konopinski (24/09/1984)
-
Konopinski a Jones (17/10/1984)
-
Konopinski a Jones (01/02/1985)
- - -
Referências
[1]. M.H. Hart e B.
Zuckerman (eds.), Extraterrestrials: Where Are
They? (Pergamon Press Inc., New York, 1982),
p.182.
[2]. W.T. Newman e C. Sagan,
Icarus 46, 293-327 (1981).
[3]. E.M. Jones, Icarus 46,
328-336 (1981).
[4]. M.H. Hart, Quarterly
Journal of the Royal Astronomical Society 16,
128-135 (1975).
[5]. I.S. Shklovski e C.
Sagan, Intelligent Life in the Universe
(Holden-Day, Inc, San Francisco, 1968), p.448.
[6]. W. Sullivan, We Are Not
Alone (McGraw-Hill Book Co., New York, 1964).
[7]. F.D. Drake, "The Radio
Search for Intelligent Extraterrestrial Life,"
em Current Aspects of Exobiology, G. Mamikunian
e M.H. Briggs (eds.), Jet Propulsion Laboratory
technical report 32-428 (1965), pp. 323-346.