MENU

Pânico! É a Guerra dos Mundos!

O Projeto Starchild, a "Criança das Estrelas"

9 de agosto de 2009 Comments (0) Views: 878 Ceticismo, Destaques, Fortianismo

Não havia necessidade…

por Fernando Gouveia, original em Secret’área

Definitivamente, Karol Wojtyla já não se encontra apto para o cargo que exerce. Se dúvidas havia, elas foram dissipadas no passado dia 13, na sequência da torpe "revelação" (1) (em versão Pilgrim’s Digest) do suposto conteúdo da terceira parte do "segredo" de Fátima.

Escusado será dizer que tenho Fátima como uma mistificação da Igreja Católica e do Estado Novo. (2) Até posso nem questionar que Lúcia tenha visto algo (o que não quer dizer que houvesse algo para ser visto — as crianças têm uma imaginação fertilíssima…), mas a "mensagem" de Fátima foi primordialmente moldada pela hierarquia católica portuguesa do pós-28 de Maio de 1926, (3) como forma de denegrir a anticlerical Primeira República e, depois, como arma de arremesso anticomunista. Isso mesmo se deduz de certos elementos espúrios tardiamente acrescentados à mitologia das "aparições" de Fátima, quando o culto perdera já a sua raiz popular e se tornara uma construção eclesiástica. Estes elementos, que não fazem parte da mensagem original, apareceram pela primeira vez nas "memórias" de Lúcia, começadas a publicar na década de 40, numa altura em que a "vidente" era já uma freira em regime de clausura (forçada?).

O caso do "Anjo de Portugal" é paradigmático: com o intuito de trazer legitimação divina ao golpe de 28 de Maio de 1926, foi enxertado na cronologia de Fátima um anjo, que teria aparecido aos pastorinhos a prognosticar o retorno do país aos "rectos caminhos cristãos"; essa aparição teria ocorrido em 1916 (dez anos antes do golpe — os números redondos agradam ao Senhor). Só não se compreende a surpresa das crianças aquando da primeira aparição da Virgem: para quem privara no ano anterior com uma emanação divina, este tipo de hierofania deveria ter-se tornado o pão nosso de cada dia…

Outro exemplo ilustrativo é a necessidade de "conversão da Rússia", que constitui a segunda parte do segredo e seria a maior profecia dos tempos modernos, tivesse sido revelada em 1917 e não em 1941: «A Guerra [de 1914–18] vai acabar. Mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI [Papa de 1922 a 1939] começará outra pior.» (4) Mensagem mais clara não há: a Virgem foi ao pormenor de indicar o nome adoptado por aquele que seria Papa nas vésperas da — imprevisível em 1917 — Segunda Guerra Mundial! Mudam-se os tempos, mudam-se as revelações: o relativismo finemilenar só nos concedeu um "terceiro segredo" a obrigar a uma interpretação por parte da Congregação da Doutrina da Fé, nome moderno e politicamente correcto do Santo Ofício. (Espera-se best-seller.)

O chamado terceiro segredo foi uma das grandes fontes de fascínio de Fátima, sequioso como é o povo de revelações divinas que, de alguma forma, amenizem a incerteza que viver, esperar o futuro, é. O seu carácter secreto garantia-lhe ainda uma outra vantagem: como ninguém sabia do que se tratava, cada circunstância presente ou cuja ocorrência parecesse iminente podia ser transformada no objecto do oráculo mariano; estávamos perante o perfeito "segredo-camaleão", o joker do baralho político-teológico, que a cada momento podia assumir o valor mais conveniente. (5)

A 13 de Maio último João Paulo II desperdiçou esse joker: no final da cerimónia, o desalento era evidente entre aqueles que se tinham apercebido que aquilo era a terceira parte do segredo; só muito a custo o Padre Vaz Pinto conseguia esconder a sua atrapalhação, e José Rodrigues dos Santos tentava, como um malabarista sem talento, tornar o momento da revelação em algo empolgante e histórico. Mas esta deu para tirar algumas ilações que não são de desprezar, embora, por outro lado, não constituam novidade; são antes confirmações.

A primeira ilação é que o rebanho de Deus é agora um pouco mais exigente. Está claro que o povo esperava mais: esperava revelações sobre o futuro, não sobre o passado, que esse toda a gente conhece. (6) Infelizmente, esta desilusão com o terceiro segredo não dará frutos de maior monta: a vasta maioria dos crentes continuará, cegamente, a sê-lo, refugiando-se num de dois expedientes possíveis (ou ambos): «Eles ainda não revelaram tudo…», (7) ou «Estas coisas é melhor a gente não aprofundar muito…». (8) E, depois, o tempo fará o seu trabalho e o facto de a profecia ter sido feita a posteriori cairá no esquecimento ou será relativizado. (Não devemos menosprezar o desejo das massas de acreditarem em algo.)

A segunda ilação é a de que a hierarquia da Igreja Católica não tem os pés assentes na Terra. Um segredo tão mal "alinhavado" só pode provir de uma estrutura desfasada do mundo a que, apesar de tudo, pertence, e para mais habituada a ser seguida por uma multidão acrítica. Só assim se entende que queiram que se acredite que o Vaticano tinha há décadas uma profecia vaticinando a ruína do bloco soviético e que não usou esse trunfo. A explicação "esfarrapada" que o Padre Vaz Pinto adiantou (que a Igreja Católica manteve o segredo para não influir no curso da História) só pode fazer rir: por um lado, desde a fundação da União Soviética que o Vaticano se desdobrou em esforços para deter o "terror vermelho"; por outro lado, para que servem as profecias se não for para alterar o curso ("errado") da História?

A terceira ilação é o facto de se confirmar o delírio místico-mariano em que vive o Papa: João Paulo II acredita ter um elo especial com a Virgem Maria, em particular com Nossa Senhora de Fátima. (9) Freud e a idade explicam, mas mesmo assim o Sumo Pontífice deveria ter resistido à tentação de se associar desta forma às aparições — cair no pecado de orgulho (10) nesta idade pode revelar-se erro irremissível.

Não havia necessidade…

***

Notas:
(1) Palavras como "revelação", "mensagem", "segredo" e "vidente" não são para serem levadas a sério. Porém, para evitar a proliferação de aspas, estas apenas se utilizam na primeira vez que tais palavras surgem, sendo omitidas posteriormente. [voltar ao texto]
(2) Construída sobre um substrato de crenças populares. (Cf. Moisés Espírito Santo, Os Mouros Fatimidas e as Aparições de Fátima, Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 1995.) [voltar ao texto]
(3) A Igreja Católica Portuguesa deu pela primeira vez crédito às aparições de Fátima em 1927, dez anos após os acontecimentos da Cova da Iria. Por essa razão, muito se falou da seriedade de tal tomada de posição, nada precipitada; mas é mais plausível que a Igreja estivesse apenas à espera de um ambiente político mais favorável, o que ocorreu com o golpe de estado de 1926. [voltar ao texto]
(4) Citado na Visão n.º 375, de 18 a 24 de Maio de 2000. [voltar ao texto]
(5) Os exemplos abundam, quase sempre de cariz escatológico: fim do mundo, holocausto nuclear, terceira guerra mundial. O fim do comunismo era também dos favoritos, tendo em conta a segunda parte do segredo. [voltar ao texto]
(6) O que só mostra o desconhecimento que os crentes têm da cronologia fatimiana: conforme dito anteriormente, todas as anteriores revelações foram feitas a poster
iori
; "profecias" destas nunca falham. [voltar ao texto]
(7) «Afinal havia outro», a versão portuguesa da teoria da conspiração. [voltar ao texto]
(8) Como concluiu, constrangida, uma familiar minha, com quem discuti estas questões. Efectivamente: Fátima não resiste à reflexão crítica. [voltar ao texto]
(9) Esta ideia não é inédita entre os Papas: teve-a pelo menos Pio XII, convicção "corroborada" pelo facto de ter sido consagrado bispo exactamente a 13 de Maio de 1917. (Cf. John Cornwell, O Papa de Hitler, Terramar, 2000.) [voltar ao texto]
(10) Depois de um Rei-Sol, eis que nos surge um Papa-Sol: «O Terceiro Segredo sou eu!», conforme resumiu muito bem Cáceres Monteiro (Visão n.º 375). [voltar ao texto]

Tags: , , , , , , ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *