MENU

Os Gnomos de Symmonds

O Pássaro de Saqqara

15 de agosto de 2009 Comments (3) Views: 2217 Ceticismo, Fortianismo

Ressonância de Schumann: Quando o holismo se tornou reducionista

Mário Barbatti, publicado em Defenestrando Idéias, 12/04/2004

1. Ressonâncias de Boff

Recebi há alguns dias um texto de Leonardo Boff a respeito de uma tal de Ressonância de Schumann. O texto fora publicado originalmente no Jornal do Brasil, em 05/mar/2004. Confesso que até então nunca havia ouvido nada sobre esta tal ressonância, mas Boff a apresentava como uma daquelas panacéias magníficas capaz de explicar os mais variados fenômenos naturais e sociais. O suficiente para despertar a minha curiosidade.

Em seu parágrafo mais contundente, Boff afirma:

"Por milhares de anos as batidas do coração da Terra tinham essa freqüência de pulsações e a vida se desenrolava em relativo equilíbrio ecológico. Ocorre que a partir dos anos 80 e de forma mais acentuada a partir dos anos 90 a freqüência passou de 7,83 para 11 e para 13 hertz por segundo. O coração da Terra disparou. Coincidentemente desequilíbrios ecológicos se fizeram sentir: perturbações climáticas, maior atividade dos vulcões, crescimento de tensões e conflitos no mundo e aumento geral de comportamentos desviantes nas pessoas, entre outros. Devido a aceleração geral, a jornada de 24 horas, na verdade, é somente de 16 horas. Portanto, a percepção de que tudo está passando rápido demais não é ilusória, mas teria base real neste transtorno da ressonância Schumann."

O leitor cético já percebe de imediato que há coisa demais neste caminhão e vale a pena tentar descobrir um pouco mais sobre o assunto.

Uma pesquisa por "ressonância de Schumann" ou "Schumann resonance" no Google, revela centenas de endereços em português e, claro, dezenas de milhares de outros em inglês. A maior parte das páginas que visitei reforçam a idéia de Boff de que as alterações na tal Ressonância é a responsável pelas dissonâncias em nosso mundo. Encontrei explicações sobre tudo, das mudanças climáticas globais aos atentados terroristas. Descobri até que por módicos 249,95 dólares, pode-se comprar um simulador de ressonância de Schumann para toda a casa, ou um para carregar no bolso ($ 169,99). Curiosamente, entre as páginas em português, boa parte delas apenas comentava o artigo de Boff.

Repita a pesquisa no Scirus (www.scirus.com), que é uma ferramenta de busca mais restrita às páginas de instituições científicas, e ainda encontramos duas mil respostas. Mas agora o foco muda. A maior parte das páginas parece discutir questões geofísicas do planeta.

Então, vamos olhar no Web of Science. Para usar esta ferramenta é necessário estar conectado a partir de uma instituição que assine o serviço. O Web of Science retorna somente artigos publicados em revistas científicas indexadas. Agora temos apenas 47 respostas. Destas, apenas duas mencionam alguma correlação entre a ressonância de Schumann e o ser humano, referindo-se a dois artigos do cientista ambiental Neil Cherry em obscuras revistas.

O fato de haver tão poucas referências qualificadas a respeito da suposta influência da ressonância de Schumann sobre os seres humanso, também é uma boa indicação de há algo errado.

Mas afinal, o que são estas tais ressonâncias?

2. Um pouco de física

A radiação solar e outras fontes cósmicas quando atingem nosso planeta, colidem com as moléculas das camadas superiores da atmosfera. Estas moléculas excitadas com a energia da colisão, perdem um ou mais elétrons e adquirem uma carga elétrica total diferente de zero. Esta camada de moléculas ionizadas, com o óbvio nome de ionosfera, tem cerca de 500 km de espessura e fica a cerca de 50 km de altitude.

Entre a superfície onde estamos e a ionosfera há uma diferença de potencial de 50 mil Volts. De forma simplificada, o planeta assemelha-se a um capacitor esférico. Uma das placas é a superfície, essencialmente metálica, da Terra. A outra, a ionosfera. Entre as duas está uma grossa camada isolante (dielétrica) de ar. A radiação eletromagnética permanece presa entre estas duas placas propagando-se ao redor do  planeta como ondas. Num regime estacionário, que ocorre quando não se espera variação abruptas de campos eletromagnéticos, estas ondas vibram com uma certa freqüência de ressonância, que é a chamada ressonância de Schumann.

Como a circunferência da Terra é de 40 mil km, as ondas eletromagnéticas, que se propagam a 300 mil km/s, podem dar 7,5 voltas no planeta em apenas um segundo. Isto estabelece o valor básico para a freqüência de ressonância em 7,5 Hz.

As medições  mostram que a freqüência fundamental de Schumann tem um valor de 7,8 Hz, bem próximo ao que grosseiramente estimamos acima. Mas a radiação eletromagnética também apresenta outros picos de ressonância em 14, 20, 26, 33, 39 e 45 Hz. Assim o mais adequado seria falar de ressonâncias de Schumann.

A figura abaixo mostra os três primeiros picos de ressonância medidos pelo pessoal do Departamento de Ciências Físicas da Universidade de Oulu, Finlândia.

Ressonância de Schumann

Fora de escala, a figura ilustra as ondas eletromagnéticas estacionárias vibrando entre a superfície do planeta e a ionosfera.

Frequências de Schumann

Os três primeiros picos de ressonância Schumann em 7,8, 14 e 20 Hz. O pico em 17 Hz não é uma ressonância de Schumann, mas sim devido às estradas de ferro suecas!

Mas o gráfico acima, com medidas tomadas em 1993, também mostra que há algo errado com o argumento de Boff: as freqüências de Schumann não mudaram a partir de 1980! O pico fundamental de 7,8 Hz continua lá, e não em 11 ou 13 Hz, como ele afirma no texto.

De fato, ao longo dos anos, as frequências oscilam levemente (menos de 0,3 Hz) em torno da média devido à radiação de microondas do Sol, como mostra esta longa série de medidas feitas no Northern California Earthquake Data Center, entre 1995 e 2003:

Variação da ressonância de Schumann

Variação da freqüência fundamental de Schumann ao longo dos anos.

3. O mundo anda tão complicado

Então, agora a gente já sabe mais ou menos o que são as ressonâncias de Schumann. Sabemos que elas existem e podem ser previstas e medidas. Sabemos que elas variam ao longo dos anos, mas apenas levemente, oscilando em torno da média.

Mas e quanto todo aquele argumento sobre a influência delas sobre o cérebro humano? E será que os ataques de 11/set foram culpa destas forças cósmicas?

Mesmo que as freqüências houvessem se alterado como dito por Boff, elas ainda seriam um improvável sujeito para explicar tão variados fenômenos humanos e naturais. Diante da complexidade do mundo, um dos cuidados que devemos ter é o de olhar muito, muito criticamente para qualquer hipótese que tente abarcar tudo em uma única causa.

Boff parece mais um ansioso por uma explicação fácil para o mundo. Algo que a gente possa pegar e dizer: se isto vai mal é por culpa daquilo. Mas na pressa ele perdeu o senso crítico. Possivelmente ouviu de segunda-mão sobre as ressonâncias, abraçou a nova verdade e a divulgou. Custaria muito pouco que ele antes fizesse alguma pesquisa, confirmasse suas fontes, e não apenas as reproduzisse. A certa altura ele afirma:

Empiricamente fêz-se a constatação que não podemos ser saudáveis fora desta freqüência biológica natural. Sempre que os astronautas, em razão das viagens espaciais, ficavam fora da ressonância Schumann, adoeciam. Mas submetidos à ação de um "simulador Schumann" recuperavam o equilíbrio e a saúde. 

Não é necessário ser um cientista para ir até o site da Nasa e fazer uma consulta sobre esta afirmação tão surpreendente. Ao constatar que não há uma uma única palavra sobre o assunto, Boff poderia desconfiar que esta informação sobre "simulador Schumann" não era muito confiável.

Curiosamente é até possível que as freqüências de Schumann tenham algum efeito sobre os seres vivos. Afinal, somos produtos de bilhões de anos de evolução, nos quais os ambientes terrestres exerceram forças fundamentais. Mas entre afirmar, em geral, que certo fator pode ter uma influência, e afirmar que ele é o responsável por todas as mazelas humanas, vai uma distância considerável.

Seguindo a lógica de Boff, a bandidagem carioca, antes efeito de décadas de políticas públicas mal-feitas, pode agora ser perdoada como apenas conseqüência das variações cósmicas naturais!

E o que parece mais provável, que as alterações climáticas globais sejam provocadas pelo excesso de emissão de gases estufa, ou por desvios de um sutil campo eletromagnético? E os ataques terroristas, seria mais razoável creditá-los a estas forças elétricas moduladoras do cérebro, do que à profunda instabilidade político-social criada no Oriente Médio desde o fim do regime colonial? As indústrias bélica e de petróleo norte-americanas só têm a agradecer a todos divulgadores da ressonância de Schumann.

– – –

Tags: , , ,

3 Responses to Ressonância de Schumann: Quando o holismo se tornou reducionista

  1. Orlando Monteiro disse:

    Acredito muito na teoria da ressonância e que a frequência está diretamente relacionada com os efeitos naturais e com relação a biologia humana, pois como foi comentado fazemos parte de um todo.
    Quanto ao equipamento encontrado aqui mesmo no Brasil é possível encontra-lo e um valor muito mais baixo. Para o ambiente custa R$ 99,00 e para uso no bolso a partir de R$ 35,00, pois se trata de um produto natural, extraido de um mineral, onde ele reequilibra seus sistema biológico e fortalecendo-os.

    • Humberto disse:

      Prezado Orlando
      Eu tambem acredito nessa teoria, a pessar de so ter lido agora recentemente . Poderia me informar aonde esse equipamento e encontrado no brasil ou em outro lugar
      Obrigado pela atenção
      Humberto

  2. José Luiz Maia disse:

    Há uma grande controvérsia na “ressonância de Schumann” evidentemente que Schumann não credibilizou a suposta redução do dia para 16 horas…Creio que veio de fundamentos holisticos essa “teoria de redução horária”
    Em contrapartida existem sim as ondas hertezianas que trafegam através de moléculas de ar, moléculas de chuvas. Isso é um fato! Mas pensando bem quem ganharia com essa bombastica teoria de aumento da frequência ao longo dos anos?
    Sabemos que existe o projeto HAARP, firme e atuante no Alasca. Centenas de antenas apontadas para gerarem uma falsa camada ionosférica sobreposta à própria ionosfera. Acreditem se quiser, os EUA tem feito misérias com essas experiências. Pois eles conseguem manipular a temperatura em qualquer lugar do mundo, causando “desastres naturais”, tempestades e até mesmo furacões. Se pesquisarem no youtube, encontrarão centenas de vídeos, com filmagens, depoimentos de cientistas e até mesmo de quem esteve envolvido com o projeto. Um caso a pensar foi o “terremoto” na china em 2008; no local onde ocorreu o suposto terremoto, o céu ficou multicolorido(filmagem oficial)pesquisadores unamimamente apontaram uma grande concentração de irradiação eletromagnética (PROVOCADA) no local. Existem dezenas de casos confirmados extra oficiais evidentemente, mas comprovados por especialistas quando estudados caso a caso. O aquecimento global (farsa) já fora comprovado pelos maiores cientistas!…Pesquisem tambem o que poderia estar por tras desse “aquecimento” que atribuem a mim e a você a culpa.
    No Brasil…chuva e furacões (não previstos pela metereologia) no sul, onde fica o nosso celeiro. Na Amazonia seca com toneladas de peixes mortos (sem chuva) As duas maiores cidades do país, assoladas por temporais e apagões (com direito de profetada e tudo do nazi fascista Obama) Sinceramente se você achar que isso tudo é mera coincidência…Misericordia!!!
    Na Venezuela não chove a meses. Seria por causa da postura do Hugo chaves em relação ao EUA?
    Em Honduras…houve um terremoto. Justamente onde o Lula, protege o deposto pres à gosto dos EUA? Um terremoto iria bem para desestabilizar o gov suplente?
    Coincidências…coincidências…alguns diriam assim “teoria da conpiração”…mas lembrmonos que “CONSPIRAÇÃO NÃO É TEORIA”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *