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O Chupacabras ou o Frankenstein da mídia
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Na
Idade Média todo bom europeu acreditava em
bruxas. De fato aqueles que eram incrédulos
corriam o risco de serem queimados na fogueira
como hereges. No século passado a literatura
gótica disseminou o mito do vampiro. Mito que
germinou em uma época e em um público de escassa
cultura. Com a chegada do cinema a história dos
vampiros se vulgarizou e isso fez com que
perdesse parte de seu misticismo. As pessoas,
pelo menos no México, deixaram de acreditar
nessas histórias quando viam El Santo ou o Blue
Demon lutar com uns vampiros ridículos e
risíveis. Em outras partes do mundo perdeu-se o
medo dos vampiros quando se soube que existia
uma enfermidade, a protoporfiria, cujos sintomas
podiam explicar o vampirismo. Também se soube
que o Drácula histórico, Vlad Tepes, embora
tivesse um afã desmedido pelos empalamentos, não
possuía incisivos pontiagudos e muito menos
sugava o sangue de suas vítimas.
Considero que na atualidade apenas poucas
pessoas seguem acreditando na existência de um
conde da Transilvânia que pelas noites, com a
ajuda de sua capa, voa até uma jovem donzela
para lhe sugar o sangue através de suas duas
presas hiperdesenvolvidas. O problema é que o
vampiro real, o animal, embora esteja munido
dessas presas, não as usa como canudos para
chupar sangue; sua utilidade é produzir uma
ferida através da qual emanará o sangue que
posteriormente lamberão. Só algumas víboras,
como a cascavel, possuem presas ocas, mas estas
tampouco são usadas como canudos para sugar. Sua
função é injetar o veneno com o qual paralisam a
suas vítimas.
Se o mito dos vampiros é considerado atualmente
só isso, podemos dizer que se trata de um mito
em decadência. No caso dos OVNIs não ocorre o
mesmo. Nas décadas de 50, 60 e 70, a percentagem
de pessoas que acreditava nos OVNIs, segundo
algumas pesquisas Gallup, era próxima a 20%.
Hoje cresceu graças à influência dos meios de
comunicação, e é muito provável que seja
superior a 50%.
A GÊNESE DO CHUPACABRAS
A origem deste novo mito não se encontra, como
muitos disseram, na pequena ilha de Porto Rico.
Teremos que remontar ao estado do Colorado, mais
precisamente a Alamosa, aonde em 1967 apareceu
mutilado o famoso cavalo que passou à literatura
ufológica com o nome de Snippy. Como deste caso
nos ocuparemos em outro artigo, saltaremos até a
década de 1970. Durante esses anos em vários
estados da União Americana se deram diversos
casos de animais mutilados, especialmente gado,
por supostas entidades extraterrestres.

O cavalo "Snippy", 1967
Desde os primeiros
relatos que se estudaram cientificamente se
pôde encontrar uma explicação racional a
este fenômeno. Esta explicação nunca foi
tomada em conta pelos meios de comunicação,
especialmente pelas revistas ufológicas.
Vejamos alguns dos primeiros estudos.
A senhora Nancy H. Owen, antropóloga do
Departamento de Antropologia da Universidade
de Arkansas, em Fayetteville, recebeu em
1978 uma subvenção da Arkansas Endowment for
the Humanities (AEH) para levar a cabo um
estudo sobre as mutilações que se produziam
no Arkansas. Seu estudo se limitou ao
condado de Benton. A AEH solicitou
publicamente ao governador de Arkansas a
criação de uma comissão investigadora, e o
governador pediu que fora o pessoal da
Universidade de Arkansas quem fizesse o
estudo. Algumas de suas descobertas foram:
- Pelo menos em um
caso, as análises feitas por um
toxicólogo funcionário do estado de uma
amostra de líquido pericardial
(serosidade segregada pelo pericárdio),
denuncia a presença de mezcalina, uma
droga alucinógena extraída do peyotl ou
peyote, planta cactácea de origem
mexicana. Na página 196 de seu
relatório, Kenneth M. Rommel havia
notado a presença de hippies acampando
no setor concernente a este caso.
- Descobriu-se que um policial
falsificou os relatos para tornar mais
enigmáticos os acontecimentos.
-
Os veterinários do estado jamais fizeram
menção a lesões de caráter cirúrgico em
seus relatos de autópsia. Só os
boiadeiros mencionavam esses “cortes
cirúrgicos”.
O Dr. James R.
Stewart, sociólogo do Department of Social
Behavior da Universidade do Dakota do Sul,
no Colorado, fez em 1975 um estudo sobre as
mutilações de gado produzidas nesse estado
em 1974. Atualizou-o em abril de 1980, para
ser publicado no relatório de Kenneth
Rommel. Stewart disse que só dois
veterinários se envolveram no estudo das
mutilações.
Dentre os primeiros estudos e necrópsias
realizados nestes animais se constatou que
as mortes tinham sido devidas a coiotes
(Canis latrans). O patologista que fez as
autópsias informou que estes animais são
capazes de fazer cortes limpos e nítidos
como os que faria uma faca afiada. Em outro
caso o veterinário informou que a morte foi
devida a uma raposa avermelhada (Vulpes
fulva).
No relatório da Universidade do Dakota do
Sul, página 247, encontramos a carta de um
diretor do laboratório de ciência animal
dependente da universidade, que diz:
“Em cada caso, pudemos
estabelecer que as partes faltantes
foram levadas por animais predadores…
Somos conscientes que em nenhum caso
pudemos demonstrar que as partes
faltantes tivessem sido tiradas por um
ser humano… É certo que o animal
predador, quando rasga ou tira uma pele,
deixa as bordas muito similares às que
poderiam ter sido feitas por um
instrumento cirúrgico… Em todos os
casos pudemos estabelecer a evidência de
que os animais predadores tinham relação
com os restos faltantes de animais
mortos de alguma causa natural...”
Rommel
utilizou os informes de Owen e Stewart e
publicou um relatório de 279 páginas. Nele
fala dos necrófagos, animais que se
alimentam de carniça. Na página 34, por
exemplo, menciona o caso de um corvo
observado em Manitoba, Canadá, que
despedaçou um réptil e lhe tirou o fígado
“de uma maneira extremamente prolixa, sem
tocar o resto. Só a pele estava furada na
região do fígado. Como este corvo fez um
trabalho de cirurgia com tanta precisão, é
um mistério”.
Rommel chega à conclusão de que tudo tem uma
causa natural, sejam predadores, atividade
humana (seitas, hippies, fraudadores, etc.),
mortes dos animais por causas naturais e
abusos da publicidade nos meios de
comunicação que criaram uma histeria no
público.
Em um artigo do ufólogo francês Jean Sider,
traduzido pelos ufólogos argentinos José
Luis Di Rosa e Graciela Iliev, encontramos
mais informação a respeito. Vejamos só três
exemplos:
Em 1983 se deu uma série de mutilações em
cavalos. Os animais eram sempre machos, aos
que lhes tinham talhado o pênis, com
abundância de sangue. Tratavam-se de atos
cometidos por um maníaco sexual que tinha
sido visto por várias pessoas correndo atrás
de um alazão com uma faca na mão.
Os cientistas da Universidade de Brookins
afirmaram que os animais predadores eram os
únicos culpados das mutilações.
O Colégio de Medicina Veterinária da
Universidade do Colorado, de Fort Collins,
realizou 19 autópsias entre julho de 1975 a
janeiro de 1976. Nove casos foram atribuídos
à ação de um instrumento cortante e os dez
restantes concerniam a animais mortos por
causas naturais.
Do anterior podemos concluir que as tão
famosas mutilações de animais que ocorreram
(e seguem ocorrendo) nos Estados Unidos têm
uma explicação natural.
Agora bem, a relação com os OVNIs e este
fenômeno foi quase exclusivamente
circunscrito ao território dos Estados
Unidos. Conhecem-se muito poucos casos em
outros lugares do mundo, e só Porto Rico,
estado livre associado, não apresentou
nenhum caso de mutilação de animais. Mas
isto logo se remediaria. Os porto-riquenhos
não eram cidadãos americanos de segunda e
também eles tinham o direito de ter seus
animais mutilados.
O VAMPIRO DE MOCA
E isso ocorreu pela primeira vez em 25 de
fevereiro de 1975 no povoado de Moca. Foi o
jornal El Vocero quem difundiu amplamente os
casos e batizou o predador com o nome de "O
Vampiro de Moca”. Surge então a crença
popular de que são “morcegos vampiro” os
causadores das mortes dos animais. Em todos
os casos há certos padrões:
- As feridas parecem
ser produzidas por uma espécie de punção
ou instrumento cortante, que destrói a
seu passo os órgãos vitais. No caso das
aves tem um diâmetro ao redor de 6,4
milímetros, e no das cabras de mais de
25,4 milímetros.
- A localização
da ferida variava, embora em sua maioria
estivesse no pescoço ou peito do animal.
- Todos os casos ocorreram de noite,
preferivelmente em horas da madrugada.
Os membros da Comissão
de Agricultura do Senado e o Comando da
Polícia especularam que o causador fosse um
ser humano desequilibrado ou uma seita
satânica.
Sobre esta última hipótese o mesmo Allen
Hynek escreveu:
“A imprensa especulou
que os OVNIs são de alguma forma
responsáveis pelas mutilações de gado
que estiveram acontecendo em algumas
áreas dos Estados Unidos. Não existe
nenhum relato documentado em que a
observação de um OVNI esteja diretamente
conectada com uma mutilação de gado.
Investigou-se o problema e através de um
relatório governamental confidencial,
descobriu-se que um “culto satânico” é
responsável por algumas das mutilações.
O relatório deve permanecer
confidencial, já que não se realizaram
prisões em todos os casos e as fontes de
informação devem ser protegidas. Deveria
fazer-se notar que, freqüentemente, em
cabeças de gado que se disse que tinham
sido “mutiladas” se descobriu, depois da
autópsia, que tinham morrido por causas
naturais e foram vítimas de outros
animais predadores”.
O Vampiro de Moca não
voltou a fazer das suas a não ser até quase
vinte anos depois. Em dezembro de 1994 se
receberam os primeiros relatos do povoado de
Orocovis e Corozal, no centro da ilha de
Porto Rico, e posteriormente em Canovanas
(costa norte), Fajardo e Gurabo (leste) e
Alaranjado (centro). Também foi visto em
Lajas e Bellavista no Ponce.
Nesta ocasião os jornalistas utilizaram um
nome com maior penetração na população:
Chupacabras. Era a primeira vez que se
utilizava tal apelativo. E o êxito não se
fez esperar, logo todos na ilha falavam
desse “animal”.
Não obstante nos primeiros relatos as
testemunhas não ficavam de acordo com a
descrição. Falava-se de criaturas com
estaturas que iam de 0,90 a 1,80 metros. Os
braços eram descritos como largas pinças de
caranguejo, ou braços pequenos com mãos
palmadas de três dedos. Alguns diziam que a
cabeça era redonda, mas outros afirmavam que
era alargada, em forma de pêra. De acordo
com algumas testemunhas as pernas do ser
eram parecidas com as dos répteis, mas
outros afirmavam que se pareciam mais às das
cabras. O Chupacabras tinha os olhos grandes
e vermelhos, e uma espécie de escamas
pontiagudas em suas costas que parecem
membranas que trocam de cor do azul ao
verde, vermelho, púrpura, etc. Outros lhe
tinham visto o corpo completamente coberto
de pêlo negro.
Tampouco havia concordância na forma de se
mover. Dizia-se que era capaz de correr
muito rapidamente e subir árvores e saltar
mais de 6 metros. E por outro lado se
afirmava que tinha as patas atrofiadas; e
era incapaz de caminhar, muito menos de
correr, por isso se deslocava voando.
Logo, conforme foi passando o tempo e o povo
do Porto Rico foi conhecendo mais descrições
do Chupacabras, os jornalistas publicaram
alguns esboços e estes foram tomados como
modelo para futuros testemunhos. Uma vez
postas de acordo, todas as descrições a
partir daí foram as mesmas. Isto mesmo está
ocorrendo no México, como se verá mais
adiante.
O sensacionalismo se
apoderou dos meios de comunicação:
- Disseram que haviam
capturado dois espécimes do Chupacabras,
nos dias 6 e 7 de novembro de 1995. Um
deles no povoado de São Lorenzo e o
outro no Parque Nacional El Yunque.
Ambos estavam vivos e se supõe que foram
levados aos Estados Unidos por pessoal
militar perfeitamente treinado.
-
Os periódicos de Porto Rico lançaram a
teoria de que os Chupacabras eram
extraterrestres que tinham criado o
vírus da AIDS para destruir a raça
humana e conquistar o planeta Terra.
- Afirmou-se que se tratava de
manipulações genéticas altamente
sofisticadas.

ENIGMA!
Um dos casos mais sensacionais foi o do
policial que em 1 de outubro de 1995
disparou sobre um Chupacabras que voava
sobre Campo Rico em Canovanas. Dois dias
depois se viu, talvez, o mesmo ser quando
saltava sobre uma cerca fabricada com malha
ciclônica. Os fatos ocorreram às 9:00 da
noite, e na cerca e em uma árvore próximos
se encontraram rastros de sangue que foram
enviados a um laboratório.
Na análise se descobriu que se tratava de
sangue humano tipo A com Rh positivo. O
sangue estava contaminado com detritos ou
restos fecais que continham bactérias E.
Coli, vermes e outros parasitas, além de
células vegetais. Era mais que provável que
se tratasse dos restos deixados por um ilhéu
com uma forte infecção intestinal.
- As feridas deixadas nos animais eram
pequenos furos de 6,4 a 12,8 milímetros de
diâmetro, que se apresentavam às vezes em
pares ou em formação triangular sobre os
pescoços e mandíbulas das vítimas. Pareciam
feitos com pica-gelos ou com outra
ferramenta de furo cortante.
As autoridades médicas também deram sua
opinião. O Diretor da Divisão de Serviços
Veterinários do Departamento de Agricultura
de Porto Rico, o senhor Héctor García
declarou que:
“Podem ser cães já que
as pequenas punções que se observam nos
pescoços das vítimas são similares às
produzidas pela mordida dos cães”.
Outro veterinário,
Angel Luis Santana, da Clínica Veterinária
Gardenville, em San Juan, informou que:
“Podem ser seres
humanos que pertencem a seitas
religiosas. Também poderiam ser animais
ou até tipos que desejam brincar com a
credibilidade das pessoas”.
As teorias que se
embaralharam foram do ataque de matilhas de
cães selvagens, mandris ou animais exóticos
introduzidos ilegalmente à ilha, até ritos
relacionados com a santeria, um culto de
origem africana que inclui o sacrifício de
diversos animais até sangrá-los.
A este respeito terá que se fazer notar que
a área do Caribe é o berço de diversas
religiões, como a santeria, a macumba, o
vodu, o candomblé, etc., todas elas
relacionadas com sacrifícios de animais,
principalmente cabras. Não é difícil
imaginar que os primeiros casos se podem
assimilar a este tipo de ritos e que
posteriormente, devido à psicose gerada
pelos meios de comunicação, qualquer suposta
“anomalia” entre os animais (ataques de
predadores, mortes naturais, brincadeiras
macabras, revanches e vinganças, etc.) fosse
atribuída ao chupacabras. Quem sabe?
O fato é que até esse momento o fenômeno
Chupacabras era unicamente local de Porto
Rico. Entretanto isso não ia durar muito. Em
finais de 1995 o programa sensacionalista
Inside Edition, da televisão americana,
realizou uma reportagem sobre o Chupacabras.
Os jornalistas americanos riram e trataram
de ridicularizar a situação. Não obstante
pouco depois outros programas fizeram suas
próprias investigações: Hard Copy,
Encounters, Ocurrió Asi e Primer Impacto.
Não era de se estranhar que pouco depois que
os programas fossem transmitidos da Flórida,
se apresentassem os primeiros relatos do
Chupacabras na América continental,
precisamente na Flórida. Logo os relatos se
estenderiam a outros países do continente:
Venezuela, Guatemala, Colômbia, Honduras,
Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Estados
Unidos e finalmente o México.
O que têm em comum estes países? Todos eles
têm costas no Mar do Caribe, precisamente
aonde se encontra localizada a ilha de Porto
Rico. Todos eles têm um forte intercâmbio
cultural, comercial e turístico com a ilha.
E a todos estes países chega o sinal desses
programas sensacionalistas. Por que não se
relataram Chupacabras em El Salvador ou no
Belize? Talvez porque o primeiro país só tem
costas no Pacífico e no segundo exista a
barreira do idioma.
Embora não tenha sido o ufólogo Jorge J.
Martín quem inventou o mito do chupacabras,
sim foi ele quem mais o difundiu não só no
Porto Rico, mas também em diversas partes do
mundo. Martín é bem conhecido por
impulsionar diversas fraudes ufológicas como
a de Majestic 12, as fotografias trucadas de
Amaury Ribera, o pássaro serpente de Gurabo,
as fotografias do extraterrestre mumificado,
etc.
ORIGEM ETIMOLÓGICA?
Existe uma origem etimológica na palavra
chupacabras?
Alguns fazem remontar sua origem a tempos
bíblicos. Falam que este animal já foi
descrito no Apocalipse de São João. Em
realidade nesse livro não se menciona nada
sobre o assunto, como tampouco no resto da
Bíblia. Entretanto, no livro de Isaías (na
parte apocalíptica do mesmo) menciona-se um
monstro feminino chamado Lilith, que em
algumas versões da Bíblia se traduziu como
Chotacabras em espanhol (note, não é
Chupacabras). Em efeito Isaías descreve o
fim da velha ordem e a chegada de um mundo
novo e ideal. Em Isaías 34.11 se diz:
“Apropriar-se-ão dela
(da Terra) o pelicano e o ouriço, a
coruja (Lilith ou o Chotacabras) e o
corvo morarão nela; e se estenderá sobre
ela cordel de destruição, e níveis de
assolamento”.
A palavra hebraica que
se traduz aqui como coruja é Lilith e é o
nome que se dava ao monstro da noite. Esta
palavra também se traduz como “fantasma que
espanta de noite” e “chotacabras”. Deriva-se
de Lilitu, nome que se dava na mitologia
babilônica, que por sua vez provém da
palavra semítica para a “noite”.
A escuridão sempre assustou o homem, quem em
sua imaginação a povoou de seres monstruosos
e de ruídos estranhos. O homem moderno
esqueceu um pouco todo este medo pelas
sombras noturnas devido ao uso da luz
artificial. Embora nem todos esqueçam seus
velhos atavismos: temos por exemplo os
ufólogos que seguem encontrando monstros na
noite.
Lilith, na tradição rabínica, foi a primeira
esposa de Adão, muito antes que Eva fosse
criada. Adão não pôde suportar Lilith porque
esta era muito ardilosa (ou talvez ela não
pôde suportá-lo porque era muito
aborrecido), e esse foi o motivo de sua
separação. Ela se transformou em um demônio
da noite que, de acordo com certas lendas,
aliou-se com a serpente para fazer Adão e
Eva pecar.
Isaías, capítulo 34, versículo 14, diz:
“As feras do deserto
se encontrarão com as hienas, e a cabra
selvagem gritará a seu companheiro; a
coruja também terá ali morada, e achará
para si repouso”.
Chotacabras é o nome
comum que se dá a diversas aves da família
caprimúlgido, da ordem caprimulgiformes. O
chotacabras cinza (Caprimulgus europaeus)
mede 25 centímetros e apresenta uma
coloração parda e manchada de cinza que lhe
permite camuflar-se perfeitamente no
terreno; tem o bico muito curto, mas pode
abrir muito as fauces. Durante o dia
permanece posado nos ramos na direção
destas; desdobra sua atividade durante a
noite perseguindo mariposas noturnas; não
constrói nenhuma classe de ninho, e deposita
os ovos no chão. São encontrados em diversas
partes da América, inclusive em Porto Rico.
O chotacabras pardo (Caprimulgus
rupicollis), um pouco maior, apresenta um
colar avermelhado no pescoço e é de
distribuição mais meridional. Caracteriza-se
por apresentar a abertura bocal muito larga,
olhos grandes, pés de reduzido tamanho e
cauda larga. A plumagem é muito abundante,
com colorações miméticas. Em geral são
noturnos e possuem grande manobrabilidade
quando perseguem suas presas. A plumagem
suave das asas lhes permite um vôo
silencioso.

Uma antiga lenda
indica que o chotacabras mamava o leite das
cabras. Uma versão da origem desta lenda diz
que o chotacabras pode abrir a boca de
maneira tão ampla que poderia mamar das
úberes das vacas e cabras. Outra, talvez a
mais acertada, afirma que o nome se deve a
que o animal produz um som similar ao de uma
cabra mamando. De fato a palavra choto ou
chota é dada à cria da cabra enquanto mama.
Trata-se de um termo onomatopéico do som que
estes animais produzem ao mamar.
Os jornalistas porto-riquenhos não se
complicaram com todas estas etimologias e
simplesmente trocaram o “chota” por “chupa”,
e daí nasceu o Chupacabras.
Há um detalhe mais. O pássaro serpente de
Gurabo, de que falamos mais acima, foi outra
das fraudes que J. J. Martín impulsionou. Em
suas revistas publicou uma fotografia do
animal. A fotografia representa nem mais nem
menos um chotacabras cinza, e a descrição
que a testemunha que o encontrou fornece
também se ajusta a de um chotacabras. O
único detalhe que não concorda com a
morfologia deste animal são as duas “presas”
tipo víbora de cascavel que, muito
provavelmente como se disse, são um par de
esporões de galo incrustados na boca do
animal.

No México, em especial
no Sudeste, também existem velhas tradições
de animais mitológicos noturnos que
poderíamos aparentar com a lenda do
Chotacabras. Está, por exemplo, o Kakasbal
que voava de noite alimentando-se dos
animais. O Uay Cen, que era o nagual de um
bruxo que tomava a forma de um felino
pequeno e se introduzia pelas noites nas
casas para extrair o sangue dos que estavam
dormindo. E o Huaychivo das lendas maias.

A CHEGADA DO CHUPACABRAS AO MÉXICO
Depois que os noticiários sensacionalistas
dos Estados Unidos noticiaram a aparição do
Chupacabras na Flórida, fazendo mais caso à
imaginação que à realidade, no México, com a
falta de outras notícias, Jacobo Zabludovski
transmite os primeiros informes do “animal”
(os casos da Flórida). Esse seria o
detonante da onda mexicana de Chupacabras. O
jornalista de 24 Horas conhecia a tendência
dos mexicanos pela fascinação misteriosa dos
mitos. Tinha apostado nela e ganhou.
Logo o Chupacabras ocupou maiores espaços
nos meios de difusão e nas conversas de café
que os tema críticos, como o das carteiras
vencidas.
A presença da estranha criatura se inicia em
fevereiro, em Tijuana, onde começaram a
aparecer novilhos e cabras massacrados no
interior de seus currais, como se seus
corpos tivessem sido cortados com um facão e
com dois ou três pequenos buracos no
pescoço.
Dos 32 estados que formam a República
Mexicana, surgiram relatos em 19, atacando a
humanos, vacas, novilhos, cães, gatos,
porcos, galinhas e pombas. Baja California
Norte, Coahuila, Chiapas, Chihuahua,
Distrito Federal, Durango, Estado de México,
Hidalgo, Jalisco, Michoacán, Nayarit, Nuevo
León, Puebla, Querétaro, Sinaloa, Sonora,
Tabasco, Tamaulipas e Veracruz. Até este
momento, sexta-feira 17 de maio de 1996,
contabilizei um total de: 692 novilhos, 168
galinhas, 104 cabras, 102 pombas, 36
néscios, 10 porcos, 8 vacas, 8 gatos, 8
coelhos e 2 cães. Quer dizer, 1138 animais,
sendo as cabras apenas 9% do total, enquanto
que os novilhos cobrem quase 61%, por isso o
monstro devia se chamar Chupanovilhos em
lugar de Chupacabras.
No México está acontecendo o mesmo que
ocorreu originalmente em Porto Rico. Como
ninguém sabe como é um Chupacabras, as
descrições das testemunhas são
contraditórias entre si. Isto não ocorreria
caso se tratasse de um ser real e não do que
é: um mito. Algumas das características
relatadas são:
- Altura:
descreve-se um ser de 40, 50 (rancho La
Chocona) 60, 70, 100 (caso Teodora
Ayala), 130, 150, 160 e 180 centímetros.
Embora estes dados possam se dever ao
Chupacabras em seus diferentes estágios
de desenvolvimento, duvido muito que
bebês chupacabritos (40, 50 e 60
centímetros de altura) andem por aí
fazendo das suas.
- Cabeça:
alguns dizem que é triangular, outros a
viram em forma de pêra, e outros
redonda.
- Face: disseram que tinha
face de canguru, mas outras testemunhas
viram um bico comprido e afiado (Teodora
Ayala), o que não coincide com o focinho
curto mas pontiagudo, ou com a tromba de
30 centímetros de comprimento que também
se relatou.
- Presas: a
maioria reporta duas, mas há alguns
testemunhos de três presas. Foram
descritas como curtas, compridas,
afiadas e tubulares.
-
Orelhas: Aqui é onde há mais
discrepâncias. Há relatos do Chupacabras
com pequenas orelhas alargadas e
dispostas para cima, e outros em que se
diz que em lugar de orelhas tem duas
fossas.
- Olhos: alguns são redondos.
Outros estão mais de acordo com os
cánones ufológicos e mostram olhos
rasgados com uma tonalidade alaranjada e
avermelhada.
- Patas: As
amostras de estuque que se obtiveram no
caso Ayala mostram um ‘rastro que é
parecido com o talão de um ser humano,
mas com três dedos como garras de águia’
(sic). Em outro caso lhe viram patas
curtas em forma de rã. As patas são
pequenas, por isso caminha curvado, ou
grandes, o que lhe permite dar grandes
saltos.
-
Braços: Possui extremidades
superiores atrofiadas e pregadas ao
torso, cuja constituição se semelha a
uma membrana que se estende entre seus
flancos, o que lhe daria a aparência de
um morcego. Entretanto outras
testemunhas dizem que essa é sua
aparência (a do morcego), mas sem asas.
Há outros que lhe viram umas aletas nas
costas, quer dizer, os braços não formam
parte da membrana alar.
- Mãos:
O que podiam ser as mãos foram
qualificadas como pequenas garras.
- Pele: A pele está coberta de
pêlo curto, segundo uns, mas o velador
do rancho La Chocona, Víctor Manuel
Samoaya, disse ter visto uma “pessoa”
com meio metro de estatura totalmente
albina e nua. Finalmente outras
testemunhas dizem que seu corpo está
coberto por pêlo muito comprido.
- Cor: Albino, Cinza ou Negro.
Para não errar se disse que, como os
camaleões, sua pele troca de cor em
tonalidades que vão do negro e azul ao
vermelho e violeta.
- Vôo:
Emite um forte zumbido ao voar e seu vôo
é grácil e veloz. O que se contrapõe com
a declaração de uma testemunha “Sua
forma de voar é muito torpe”.
Como vemos não existe
uma descrição comum, quer dizer, as supostas
testemunhas estão descrevendo o que sua
imaginação lhes dita. Predizemos que, agora
que já se publicaram vários desenhos do
Chupacabras, as descrições vão se assemelhar
mais.
AS EXPLICAÇÕES
Efetivamente se deram as explicações mais
descabeladas, misturadas com hipóteses
racionais. Vejamos algumas delas.
Disseram que é uma espécie de morcego
gigante, outros o descrevem como um
camundongo de grandes orelhas, o focinho
comprido e presas muito afiadas. Mas o
professor Rogelio Sosa Pérez, investigador
do Centro de Ciências de Sinaloa, descarta
que o chamado chupacabras seja um morcego
gigante, já que estes animais habitam a
América Central e se alimentam de frutas.
O doutor Ramiro Ramírez Necochea,
vice-presidente da Federação Nacional de
Médicos Veterinários Zootecnistas do México,
A.C., apóia essa conclusão e explica qual
foi, provavelmente a origem desta hipótese.
“Existe um vídeo
realizado sobre a necrópsia de um ataque
de um chupacabras a uma novilha. A
análise foi realizada por uma pediatra
de Puebla, que inclusive ilustrou seu
vídeo com imagens de morcegos e do filme
Jurasic Park, o que inclina mais as
pessoas para a magia”.
Estes pseudocientistas
(a pediatra) são aos que mais acodem os
ufólogos para que avalizem suas idéias
irracionais. Mas os investigadores do
insólito não se deram por vencidos e
disseram:
“Talvez não se trate
de um morcego normal, mas pode ser o
resultado de algum experimento de
laboratório, da metamorfose de um
simples morcego que depois de ter se
alimentado com águas poluídas, pelas
diversas substâncias químicas que jogam
nas drenagens, tenha aumentado seu
tamanho”.
A anterior é uma
versão modificada do mito dos gigantescos
lagartos e crocodilos que, supõe-se, habitam
os esgotos da cidade de Nova Iorque.
A hipótese das mutações não se limita a
morcegos. Mencionou-se que possivelmente
seja o produto de alguma mutação genética
celular ou o resultado de algum experimento
científico maluco que escapou de um
laboratório dos Estados Unidos.
“Provavelmente é um pterodáctilo que
retornou à vida por manipulações como as que
vimos em Jurasic Park” (sic).
Para outros se trata de um mascote de
extraterrestres que, por esquecimento ou
maldade, abandonaram-no na Terra. Há quem
assegure que são os mesmos extraterrestres
que tripulam os OVNIs. E, talvez, a mais
descabelada de todas as explicações:
trata-se do espírito do alienígena morto em
Roswell, que está penando porque não lhe
permitiram morrer em paz já que foi objeto
de uma autópsia e seus restos se encontram
congelados em um hangar da Base Aérea de
Wright Patterson.
Também se mencionou aos seguidores do
satanismo. De fato a Diretora do Zoológico
do Chapultepec, Maria Elena Hoyos, sugeriu
esta hipótese já que, disse, tratava-se de
“uma ação humana evidente”.
Embora não possamos descartar que alguns
casos se devam a este tipo de rituais, não
acreditamos que em todos tenham intervindo
os satanistas. Não obstante isto não implica
que não sejam outros humanos os que estão
realizando algumas destas matanças. E neste
caso poderíamos mencionar pregadores de
peças, ufólogos criadores de “evidências”
que apóiem a existência de extraterrestres,
tipos que matam os animais por vinganças,
revanches ou simples maldade ou loucura,
etc.
O anterior não é desatinado já que o mesmo
doutor David Berron, patologista do
Zoológico do Chapultepec disse que “as
feridas facilmente poderiam ser provocadas
por qualquer objeto cortante circular. Neste
caso um picador de gelo”. É óbvio que nenhum
chupacabras portaria um picador de gelo.
Pelo menos deveriam trazer a pistola laser
regulamentar de todo bom extraterrestre que
se aprecie.
Alguns dos animais foram atacados por gente
que sabia um pouco de anatomia. Poderiam ser
desde açougueiros até médicos veterinários.
Chegou-se a esta conclusão já que certos
animais apresentam um orifício que penetra
os músculos e tecidos dos maxilares até
chegar diretamente ao cerebelo, causando uma
morte instantânea. Isto denota um certo grau
de conhecimentos.
Os 18 novilhos de Cuauhtlinchán, Estado do
México, foram enviados a veterinários da
Universidade Nacional Autônoma do México e à
Universidade de Chapingo, com feridas no
pescoço de 7 centímetros de profundidade.
Em outros casos se fala de feridas de 4 a 8
centímetros de diâmetro no pescoço. Como por
exemplo as 4 ovelhas e algumas galinhas que
se encontraram no rancho La Gloria, em Agua
Prieta, Sonora.
Mas o que talvez esteja melhor encaminhado
na pista correta seja o doutor Fernando
Gual, chefe de serviços veterinários do
mesmo zoológico, quem disse que “não há um
padrão similar”. Efetivamente, nem todos os
animais foram mutilados por seres humanos,
há os que morreram por causas naturais ou
foram atacados por animais predadores.
Como exemplo de causas naturais temos o caso
da vaca prenhe, de 600 quilogramas de peso,
do rancho de Los Higareda, em Michoacán.
Disseram que foi atacada pelo chupacabras. A
delegada municipal, Josefina González
Carabez, depois de ordenar uma investigação,
disse que o animal foi vítima de sua torpeza
pelo estado de gravidez: a vaca havia caído
de um barranco e morrido pelos golpes
produzidos pela queda.

PREDADORES
De acordo com os veterinários que realizaram
algumas necrópsias nas cabras e novilhos,
concluiu-se que as mortes se deveram ao
ataque de um animal feroz, possivelmente um
jaguar ou puma.
Por exemplo, o senhor Jesus Espinoza
Ramírez, técnico da SAGAR, disse que os
novilhos do rancho San Antonio Los Sauces,
em Chiapas, morreram devido ao ataque de uma
matilha de cães. Rafael González, chefe
desse departamento, apoiou a explicação e
acrescentou que já se apresentaram pelo
menos dois casos similares nos últimos
quinze meses, um no rancho La Chocona e
outro no município de Osumacinta.
O presidente da Associação de Ovicultores de
Chiapas, Ernesto Sánchez Yannini, assinalou
que nos 20 anos que dedicou ao gado jamais
tinha visto morrerem tantos animais em um
ataque, embora não descarte a idéia de que
uma matilha tenha sido a causadora. Sánchez
Yannini apontou que quando estes animais são
atacados ou acossados, não emitem nenhum
som, e por isso são roubados com facilidade.
Isto explicaria o suposto mistério adicional
de que ninguém escute o balido das cabras e
ovelhas ao serem atacadas. No caso de La
Chocona se disse que ninguém tinha escutado
os latidos dos cães, nem os balidos das
ovelhas.
O velador do rancho, Víctor Manuel Samoaya,
disse ter visto uma pessoa como de meio
metro de estatura totalmente albina e nua.
No rancho La Remolacha, localizado a 5
quilômetros de Los Mochis, Sinaloa, foram
encontrados degolados 14 novilhos, e não 40
como disseram alguns ufólogos. Manuel
Rodríguez, dono do rancho, declarou:
“Não sei se foi obra
de extraterrestres ou do diabo, o certo
é que os animais amanheceram com o
pescoço perfurado e as pessoas estão
assustadas”.
“Dizem que foram
cães, eu tenho dez e estes jamais teriam
atacado aos novilhos. Além disso na
noite do ataque se ouviu muita latideira
(sic) e uivos, mas o capataz não viu
ninguém”.
Quer dizer, os cães
guardiães sim fizeram seu trabalho: ladraram
avisando da presença de algo à espreita.
Isto desmente também o mito de que os cães
ficam mudos e não fazem escândalo.
Antonio Moreno, vizinho de La Remolacha,
disse que se trata de um mutante “produto de
experimentos gringos. Talvez injetaram em um
morcego uma substância para que crescesse e
depois o mandassem à Lua; e não é apenas um
mas sim vários animais”.
O médico veterinário Feliciano García
Carrillo, chefe do Programa de Saúde da
SAGAR, enviou o também médico veterinário
Sergio Reséndiz Torres, de Zamora,
Michoacán, para que investigasse a morte de
8 novilhos encontrados mortos no povoado do
Guáscuaro, município de Tingüindin, a 40
minutos de Zamora.
“Bom –comentou García
Carrillo-, nos dias passados nos
informaram de um ataque a oito novilhos.
E na medida em que nos inteiramos,
acudimos a um médico veterinário
especialista em saúde animal e assim que
encontrou animais que estavam
moribundos, solicitou os dados do
proprietário. O senhor tem
aproximadamente 33 novilhos e lhe
amanheceram 8 mortos e alguns feridos,
que aparentemente foram atacados por
algum predador como um cão ou um pouco
parecido”.
Tratava-se do caso do
senhor José Linares Sandoval. Reséndiz
Torres descobriu que a mordida se devia a um
animal canino (coiote ou cão) e esclareceu:
“Os animais mortos
tinham todo o seu sangue, com uma ferida
à altura da jugular normalmente sangram
por si só e não encontramos rastros de
que estivessem chupados, não há um
animal que beba tal quantidade de sangue
como a que tem um novilho que é de seis
a oito litros, é muito difícil, teria
que ser um animal tão grande que todo
mundo o veria e mais se forem vários
novilhos. Bom, a quem lhe cabe tal
quantidade de sangue? Não está chupando
sangue, simplesmente os atacou e os
mordeu, e o ataque foi severo, e o
proprietário não se deu conta, bom, não
esteve pendente”.
Além disso,
encontraram-se rastros “como de cães”.
O que aconteceu para que os animais
aparecessem totalmente sangrados, sem um
“pingo” de sangue? Ao que parece também é um
mito. De todos os relatos que conheço em que
intervieram veterinários ou os mesmos
fizeram uma autópsia, não há um só em que se
afirme que os animais estavam secos, sem
sangue. Só a pediatra de Puebla, que fez um
arremedo de necrópsia, sem ter nem idéia,
foi a única que afirmou que o animal estava
seco de sangue.
O diretor do zoológico de Culiacán, o médico
veterinário Humberto Iriarte, investigou a
morte de 24 animais naquele estado. Não
encontrou nenhum indício de extração de
sangue. Os animais foram mortos por “um
ataque de uma matilha de cães ferais”
(animais domésticos que retornaram à vida
silvestre).
“Os ataques de cães são muito comuns; as
pessoas sabem. Mas eles mesmos não têm o que
comer, muito menos para dar aos cães, que
não sendo raivosos não suportam a fome. Os
cães por sua natureza atacam a animais que
são muito calmos e inofensivos”.
Em tempo de seca, como o que agora
padecemos, os animais silvestres, famintos,
baixam até as rancherias. Inclusive há cães,
dos chamados guias de ruas, que se unem em
matilhas e atacam ou matam aos novilhos,
como fazem os coiotes. Os mapaches também
podem atacar às galinhas, por exemplo.
No relatório do doutor Iriarte ao governo do
Estado se indica que:
1. Os ataques dos
animais foram realizados por cães ferais
e não raivosos, como manifestaram
algumas autoridades.
2. Os corpos
dos animais mortos tinham sangue (um
morcego só pode absorver 17 mililitros
de sangue).
3. Os habitantes do
município tiveram má disposição para
atender aos animais moribundos e os
deixaram falecer.
4. Uma semana
antes, os animais do lugar tinham
sofrido outro ataque de cães que não foi
denunciado às autoridades.
5. Os
habitantes passam por uma difícil crise
econômica, além disso participam de
brigas constantes por rixas antigas
entre eles mesmos, situação que torna
factível algum tipo de vingança.
María Elena Hoyos,
diretora do zoológico de Chapultepec também
recordou que em 1985 o mesmo zoológico
sofreu um ataque de cães ferais, os quais
mataram aves e outros animais pequenos.
Tratava-se de uma matilha de cães que
sobrevivia com os desperdícios que os
visitantes jogam ao bosque. Quando, em
setembro e nos meses sucessivos o zoológico
foi fechado para remodelação, diminuiu a
afluência de visitantes. Os cães ficaram sem
comer e não tiveram alternativa a não ser
atacar os animais encerrados em suas jaulas.
O subsecretário de Agricultura, Romárico
Arroyo declarou que se tratavam de simples
coiotes ou animais predadores que, devido à
seca, procuram qualquer mecanismo para
saciar sua fome.
O funcionário particularizou que em todos os
casos relatados, especialistas da Secretaria
de Agricultura, Gado e Desenvolvimento Rural
(SAGDR) coincidem em que se trata de ataques
de animais depredadores, como lobos e
coiotes.
A OPINIÃO DO DOUTOR RAMIRO RAMÍREZ
NECOCHEA
O doutor Ramiro Ramírez Necochea, de quem já
falamos mais acima, fez diversas observações
muito acertadas. Reproduzimo-las aqui
integralmente por seu interesse neste
assunto. Segundo o doutor Ramírez grande
parte dos casos se devem a animais
predadores selvagens.
“Esses animais estão
vivendo uma tremenda urgência de
alimento. Temos dois anos de intensa
seca e embora ainda não saiba de que
forma possam ter se alterado os
ecossistemas, penso que estes animais
estão se aproximando das populações para
alimentar-se, e que desde a aparição do
chupacabras, tudo é atribuído a ele”.
“Eu realizei em Sonora, há duas semanas,
uma análise de uma vaca, que as pessoas
juravam ter sido vítima do chupacabras.
Entretanto, o animal tinha morrido por
uma infecção nos intestinos, causada
pela pouca disponibilidade de alimento.
Além disso, apresentava marcados rastros
de navalhadas em sua pele e, contrário
do que se poderia pensar, havia presença
de sangue”.
Efetivamente as
mudanças radicais no hábitat, como são o
incremento da temperatura e a prolongação
das secas sazonais são os causadores e uma
migração de animais como pumas, cães,
raposas, coiotes, etc., quem em busca de
mantimentos se transladam às rancherias e
atacam os animais de curral. A seca ameaça
converter a estiagem em um desastre para a
agricultura e a pecuária.
Alguns ufólogos expuseram a seguinte
questão: por que antes, em temporada de
seca, não se davam este tipo de fenômenos? A
resposta é óbvia: sim se davam, mas poucos
tomavam importância e ninguém os atribuía a
seres extraterrestres ou ao chupacabras, já
que estavam conscientes de que se deviam a
processos naturais. Hoje o chupacabras se
converteu em um produto da confusão, do
sensacionalismo com que se pretende explorar
a capacidade de assombro dos incautos. Tudo
é atribuído a este mítico ser.
Como dado adicional diremos que em 1973 o
Fish and Wildlife Service dos Estados Unidos
publicou um estudo em que proporcionava as
médias estatísticas anuais de perdas de
vacas, novilhos, cabras, porcos, cavalos,
etc., devidas a ataques por predadores.
Curiosamente faz uma análise comparativa com
a situação no México. Segundo esse estudo,
nesse então, anualmente o México perdia em
média um total de 30.000 cabeças de gado.
Quer dizer, 2.500 cabeças por mês. Se a
tendência for a mesma para este ano de 1996,
a quantidade de mortes relatadas
(supostamente devidas ao chupacabras, 1.138)
não cobre nem a metade deste dado. O
anterior quer dizer ou que os predadores
habituais desapareceram em sua totalidade
deixando o trabalho sujo ao chupacabras
(algo que logicamente não é verdade); ou que
agora os predadores naturais do gado se
encarregam de ocultar os restos de suas
vítimas, enquanto o chupacabras as deixa à
intempérie (o que também é uma tolice); ou
não existe o chupacabras e diminuiu
significativamente o número de carnívoros em
nosso território (o que pode ser uma penosa
realidade de nosso desmoronamento
ecológico).
Outra análise nesse sentido, devida ao
doutor Ramírez, mostra-nos a verdade do
mito. O doutor Ramírez fez o cálculo do
sangue que deve ter ingerido o chupacabras.
Tomando em conta o fator de 60 mililitros de
sangue por cada quilograma de peso de
animal, chega à quantidade de 81 litros de
sangue tão somente em um dia.
“Para que o
chupacabras possa ingerir essa
quantidade de sangue se deve supor que
se trata de um animal que pesa mais de
duas toneladas. Para que possa
deslocar-se pelos ares suas asas
deveriam medir 2 quilômetros, mas nisso
estamos possivelmente equivocados,
porque ninguém o viu, não é assim?”
“Entretanto, cabe outra possibilidade.
Talvez se tratem de vários chupacabras,
um por cada Estado da República. Isso
quer dizer que estamos invadidos por um
enxame deles e já se teria apanhado
algum, coisa que não aconteceu”.
“Por outro lado, se forem muitos
chupacabras, de aproximadamente 25
quilogramas de peso cada um deles,
necessitamos 80 animais deste tipo em
todo o país para que possam causar
tantos ataques. É incrível que ninguém
tenha podido apanhar algum”.
Sua lógica é
contundente mas temo que nada servirá para a
mente do ufólogo médio. Para eles tudo é
misterioso, estranho e não tem explicação
racional.
O único ufólogo que fez uma declaração
razoável foi o senhor Pedro Ferriz
Santacruz, o que não é de se estranhar já
que tem anos nestes assuntos e seu nível
cultural está muito acima daqueles que agora
desejam tomar seu lugar. Dom Pedro disse:
“Que evidências
existem, quem viu ao chupacabras, por
que não há fotografias, onde estão as
vítimas, no que sustentam a hipótese,
por que não se dirige com seriedade este
assunto?”
O professor em
sociologia pela Universidade
Ibero-americana, Mauricio Saez disse que o
conceito chupacabras é muito acertado,
porque esse vocábulo se conecta diretamente
com diferentes linguagens que utiliza a
sociedade.
“Chupa é uma palavra
de fácil identificação com a linguagem
dos contos, com a linguagem que
utilizamos para falar de vampiros e
também quando queremos expressar outras
formas de falar: é metafórico. Dizer que
chupa, é como dizer que rouba. A
‘chupacabramania’ é uma forma social de
espoliação que explora o imaginário
popular”.

Indicou que a difusão
que se deu nos meios a este termo “não é
gratuita; é uma maneira de induzir à
população a que construa um inimigo banal
que pague pelas penúrias pelas quais passa o
povo. Não quero dizer que é uma estratégia
deliberada do governo, embora não o
duvidaria”.
O uso do fenômeno OVNI
como fator de distração popular foi estudado
em outras partes da América. Está na
Argentina, Uruguai e Brasil com uma rica
casuística ufológica durante a época das
ditaduras. Também o México, nos melhores
anos do PRI, teve suas ondas OVNI que bem
podiam estar apoiadas pelos meios de
propaganda do governo. Nossos governantes
nos podem manipular a tal grau que nos
permitem nos ver como estúpidos. É uma coisa
patética: somos muito manipuláveis. Não é
preciso mais do que ver as reações às
declarações de Maussán, por exemplo, que
promovem a cultura do medo e propiciam
condutas equivocadas, como a matança de
morcegos e de mamíferos.
No caso particular do chupacabras seu enorme
êxito no México obedece a uma reação das
pessoas diante da aguda crise econômica,
política e social que aflige ao país. O
conto popular diz que em nosso país só há
duas alternativas: ou se é bode ou se é
pendejo. Sob esta óptica ser um macho caibro
resulta ser uma adulação: é o todo-poderoso
dono do harém. Alguém mais capitalista que
pode xingar ao macho caibro ou é um ser de
outro planeta ou é o próprio sistema do qual
somos vítimas: o governo, o narcotráfico, a
crise, os Estados Unidos… Daí a identificar
ao chupacabras com os políticos (Carlos
Salinas de Gortari). Desde aí também o
tributo pago aos narcotraficantes em forma
de corridos, e os mesmos corridos compostos
para o chupacabras. Indubitavelmente os
Estados Unidos também têm a culpa: o
chupacabras é produto de experimentos
secretos. Finalmente o chupacabras é tão
capitalista como a crise: não pode ser
morto, como não pudemos trocar o sistema que
tanto nos empobreceu.

Fechamos este artigo
com uma reflexão do doutor Ramírez.
“O preocupante neste
momento é que a população seja enganada
e que cheguem a contaminar também as
mentes pensantes do país”.
- - -
Dívida de
agradecimento
Desejo fazer público meu agradecimento ao
ufólogo argentino José Luis Di Rosa por todo
o material que pôs a minha disposição para a
realização deste trabalho.
* Tradução
editada autorizada de artigos publicados na
revista mexicana Contacto Ovni
números 21 e 22, outubro de 1996, e
reproduzidos na íntegra em
Marcianitos Verdes. O autor, Luis
Ruiz Noguez, explica e introduz seu texto
originalmente:
“Há alguns dias os
editores desta revista solicitaram minha
opinião sobre o tema tão em moda e
polêmico do chupacabras. Escrever um
artigo sobre um tema que não é minha
especialidade (embora tampouco da
especialidade de ninguém, até o
momento), há muito pouco tempo de
haver-se desatado a “onda” de
avistamentos do chupacabras, e sem ter
tempo de analisar e refletir sobre o
assunto, em definitiva não é minha forma
de operar. Em geral não é a de nenhum
cético ou crítico do fenômeno OVNI. Em
princípio me neguei a dar minha opinião
de forma tão precipitada. Além das
razões já expostas havia outras: o tema
não me parecia interessante (tão somente
uma "serpente do verão", como se conhece
no jargão jornalístico mexicano), e
porque estava envolvido em outros
projetos ufológicos de maior
importância. Não obstante o tema se
converteu em um lugar comum de toda
conversa de mesa. Era a moda e a fofoca
de todos os dias. Periódicos, revistas,
rádio e televisão se ocuparam de
difundir dia e noite notícias sobre o
fenômeno. O problema era que a maioria
destas notícias eram de cunho
sensacionalista e em lugar de informar
estavam criando uma psicose na população
mexicana. Não podíamos ficar de braços
cruzados, precisávamos proporcionar um
pouco de prudência (se é que podíamos
achá-la) em tudo isso”.
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