|
|
Ressonância de Schumann
Quando o holismo se tornou reducionista
|
 |
1.
Ressonâncias de Boff
Recebi
há alguns dias um texto de Leonardo Boff a
respeito de uma tal de Ressonância de
Schumann. O texto fora publicado
originalmente no Jornal do Brasil, em
05/mar/2004. Confesso que até então nunca
havia ouvido nada sobre esta tal
ressonância, mas Boff a apresentava como uma
daquelas panacéias magníficas capaz de
explicar os mais variados fenômenos naturais
e sociais. O suficiente para despertar a
minha curiosidade.
Em seu
parágrafo mais contundente, Boff afirma:
"Por
milhares de anos as batidas do coração
da Terra tinham essa freqüência de
pulsações e a vida se desenrolava em
relativo equilíbrio ecológico. Ocorre
que a partir dos anos 80 e de forma mais
acentuada a partir dos anos 90 a
freqüência passou de 7,83 para 11 e para
13 hertz por segundo. O coração da Terra
disparou. Coincidentemente
desequilíbrios ecológicos se fizeram
sentir: perturbações climáticas, maior
atividade dos vulcões, crescimento de
tensões e conflitos no mundo e aumento
geral de comportamentos desviantes nas
pessoas, entre outros. Devido a
aceleração geral, a jornada de 24 horas,
na verdade, é somente de 16 horas.
Portanto, a percepção de que tudo está
passando rápido demais não é ilusória,
mas teria base real neste transtorno da
ressonância Schumann."
O leitor
cético já percebe de imediato que há coisa
demais neste caminhão e vale a pena tentar
descobrir um pouco mais sobre o assunto.
Uma pesquisa
por "ressonância de Schumann" ou "Schumann
resonance" no Google, revela centenas
de endereços em português e, claro, dezenas
de milhares de outros em inglês. A maior
parte das páginas que visitei reforçam a
idéia de Boff de que as alterações na tal
Ressonância é a responsável pelas
dissonâncias em nosso mundo. Encontrei
explicações sobre tudo, das mudanças
climáticas globais aos atentados
terroristas. Descobri até que por módicos
249,95 dólares, pode-se
comprar um simulador de
ressonância de Schumann para toda a casa, ou
um para carregar no bolso ($ 169,99).
Curiosamente, entre as páginas em português,
boa parte delas apenas comentava o artigo de
Boff.
Repita a
pesquisa no Scirus (www.scirus.com),
que é uma ferramenta de busca mais restrita
às páginas de instituições científicas, e
ainda encontramos duas mil respostas. Mas
agora o foco muda. A maior parte das páginas
parece discutir questões geofísicas do
planeta.
Então, vamos
olhar no
Web of Science. Para usar esta
ferramenta é necessário estar conectado a
partir de uma instituição que assine o
serviço. O Web of Science retorna somente
artigos publicados em revistas científicas
indexadas. Agora temos apenas 47 respostas.
Destas, apenas duas mencionam alguma
correlação entre a ressonância de Schumann e
o ser humano, referindo-se a dois artigos do
cientista ambiental Neil Cherry em obscuras
revistas.
O fato de
haver tão poucas referências qualificadas a
respeito da suposta influência da
ressonância de Schumann sobre os seres
humanso, também é uma boa indicação de há
algo errado.
Mas afinal, o
que são estas tais ressonâncias?
2. Um pouco de
física
A radiação
solar e outras fontes cósmicas quando
atingem nosso planeta, colidem com as
moléculas das camadas superiores da
atmosfera. Estas moléculas excitadas com a
energia da colisão, perdem um ou mais
elétrons e adquirem uma carga elétrica total
diferente de zero. Esta camada de moléculas
ionizadas, com o óbvio nome de ionosfera,
tem cerca de 500 km de espessura e fica a
cerca de 50 km de altitude.
Entre a
superfície onde estamos e a ionosfera há uma
diferença de potencial de 50 mil Volts. De
forma simplificada, o planeta assemelha-se a
um capacitor esférico. Uma das placas é a
superfície, essencialmente metálica, da
Terra. A outra, a ionosfera. Entre as duas
está uma grossa camada isolante (dielétrica)
de ar. A radiação eletromagnética permanece
presa entre estas duas placas propagando-se
ao redor do planeta como ondas. Num
regime estacionário, que ocorre quando não
se espera variação abruptas de campos
eletromagnéticos, estas ondas vibram com uma
certa freqüência de ressonância, que é a
chamada ressonância de Schumann.
|
Como a
circunferência da Terra é de 40 mil
km, as ondas eletromagnéticas, que
se propagam a 300 mil km/s, podem
dar 7,5 voltas no planeta em apenas
um segundo. Isto estabelece o valor
básico para a freqüência de
ressonância em 7,5 Hz.
As
medições mostram que a
freqüência fundamental de Schumann
tem um valor de 7,8 Hz, bem próximo
ao que grosseiramente estimamos
acima. Mas a radiação
eletromagnética também apresenta
outros picos de ressonância em 14,
20, 26, 33, 39 e 45 Hz. Assim o mais
adequado seria falar de ressonâncias
de Schumann.
A
figura abaixo mostra os três
primeiros picos de ressonância
medidos pelo pessoal do
Departamento de Ciências Físicas
da Universidade de Oulu, Finlândia. |

Fora
de escala, a figura ilustra as ondas
eletromagnéticas estacionárias
vibrando entre a superfície do
planeta e a ionosfera. |
|

Os
três primeiros picos de
ressonância Schumann em 7,8, 14
e 20 Hz. O pico em 17 Hz não é
uma ressonância de Schumann, mas
sim devido às estradas de ferro
suecas!
|
Mas o gráfico
acima, com medidas tomadas em 1993, também
mostra que há algo errado com o argumento de
Boff: as freqüências de Schumann não mudaram
a partir de 1980! O pico fundamental de 7,8
Hz continua lá, e não em 11 ou 13 Hz, como
ele afirma no texto.
De fato, ao
longo dos anos, as frequências oscilam
levemente (menos de 0,3 Hz) em torno da
média devido à radiação de microondas do
Sol, como mostra esta longa série de medidas
feitas no
Northern California Earthquake Data Center,
entre 1995 e 2003:
|

Variação da freqüência fundamental
de Schumann ao longo dos anos. |
3. O mundo
anda tão complicado
Então, agora a
gente já sabe mais ou menos o que são as
ressonâncias de Schumann. Sabemos que elas
existem e podem ser previstas e medidas.
Sabemos que elas variam ao longo dos anos,
mas apenas levemente, oscilando em torno da
média.
Mas e quanto
todo aquele argumento sobre a influência
delas sobre o cérebro humano? E será que os
ataques de 11/set foram culpa destas forças
cósmicas?
Mesmo que as
freqüências houvessem se alterado como dito
por Boff, elas ainda seriam um improvável
sujeito para explicar tão variados fenômenos
humanos e naturais. Diante da complexidade
do mundo, um dos cuidados que devemos ter é
o de olhar muito, muito criticamente para
qualquer hipótese que tente abarcar tudo em
uma única causa.
Boff parece
mais um ansioso por uma explicação fácil
para o mundo. Algo que a gente possa pegar e
dizer: se isto vai mal é por culpa
daquilo. Mas na pressa ele perdeu o
senso crítico. Possivelmente ouviu de
segunda-mão sobre as ressonâncias, abraçou a
nova verdade e a divulgou. Custaria muito
pouco que ele antes fizesse alguma pesquisa,
confirmasse suas fontes, e não apenas as
reproduzisse. A certa altura ele afirma:
Empiricamente fêz-se a constatação que
não podemos ser saudáveis fora desta
freqüência biológica natural. Sempre que
os astronautas, em razão das viagens
espaciais, ficavam fora da ressonância
Schumann, adoeciam. Mas submetidos à
ação de um "simulador Schumann"
recuperavam o equilíbrio e a saúde.
Não é
necessário ser um cientista para ir até o
site da Nasa e fazer uma consulta sobre esta
afirmação tão surpreendente. Ao constatar
que não há uma uma única palavra sobre o
assunto, Boff poderia desconfiar que esta
informação sobre "simulador Schumann" não
era muito confiável.
Curiosamente é
até possível que as freqüências de Schumann
tenham algum efeito sobre os seres vivos.
Afinal, somos produtos de bilhões de anos de
evolução, nos quais os ambientes terrestres
exerceram forças fundamentais. Mas entre
afirmar, em geral, que certo fator pode ter
uma influência, e afirmar que ele é o
responsável por todas as mazelas humanas,
vai uma distância considerável.
Seguindo a
lógica de Boff, a bandidagem carioca, antes
efeito de décadas de políticas públicas
mal-feitas, pode agora ser perdoada como
apenas conseqüência das variações cósmicas
naturais!
E o que parece
mais provável, que as alterações climáticas
globais sejam provocadas pelo excesso de
emissão de gases estufa, ou por desvios de
um sutil campo eletromagnético? E os ataques
terroristas, seria mais razoável creditá-los
a estas forças elétricas moduladoras do
cérebro, do que à profunda instabilidade
político-social criada no Oriente Médio
desde o fim do regime colonial? As
indústrias bélica e de petróleo
norte-americanas só têm a agradecer a todos
divulgadores da ressonância de Schumann.
- - -