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| Moldes em parafina: materialização de espíritos? |
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A febre espiritualista contava com muitos feitos de espíritos durante sessões mediúnicas, e as mais impressionantes certamente deveriam ser as 'materializações'. E dentre as materializações, as que permanecem gerando questionamentos até hoje são os moldes de parafina.
Em algum ponto, alguém teve a idéia genial de que, enquanto o espírito estava materializado, poderia colocar alguma parte de seu corpo em contato com parafina derretida, que ao se solidificar formaria um molde permanente mesmo que o espírito acabasse se desmaterializando. Mais do que isso, como alguns moldes, por exemplo o de uma mão, teriam partes mais estreitas como o pulso, então apenas um espírito poderia originá-los. Como se repetiu à exaustão, é impossível a uma pessoa retirar a mão de um molde de parafina sem danificá-lo, somente um espírito se materializando e depois se desmaterializando com a mão dentro da parafina poderia criar moldes dessa natureza. O problema seria similar ao de retirar um navio pronto de dentro de uma garrafa.
Ao lado você confere uma cópia em gesso criada a partir de um molde de parafina mediúnico. O nível de detalhamento é notável, a disposição intercalada dos dedos intrigante e o pulso é de fato um tanto mais estreito. Será mesmo que apenas um espírito poderia criar algo assim? Essa é então a mão de um espírito?
Além de parecer uma evidência física interessante por si mesma, o fenômeno teria sido analisado por diversos pesquisadores, entre eles Gustave Geley. As investigações de Geley feitas com o médium Franek Kluski foram divulgadas mesmo na Scientific American, que na época era parte relevante da discussão dos feitos mediúnicos. Contudo, nenhum destes investigadores conseguiu fornecer uma explicação convencional para os moldes de parafina mais perfeitos. Mais do que isso, alguns declararam que de fato a única conclusão a que podiam chegar é que de fato foram espíritos a ter criado os moldes, que constituíam assim uma das maiores provas físicas de sua existência.
A realidade é muito irônica e ingrata com tais investigadores. Apesar de diversas explicações complexas terem sido propostas para reproduzir os moldes de parafina, incluindo:
- luvas de borracha reproduzindo de forma perfeita uma mão sendo infladas e desinfladas;
- moldes de mãos cuidadosamente esculpidos feitos em material solúvel que, depois de formar o molde em parafina, eram dissolvidos;
- mãos inchadas com torniquetes formando moldes e depois desinchadas, permitindo sua retirada;
A única explicação racional convincente é a mais simples, segundo Maximo Polidoro e Luigi Garlaschelli. Em um artigo publicado no Journal of the Society for Psychical Research, eles citam uma explicação já apontada por M.H. Coleman pouco antes como plenamente satisfatória. E ela é...
Simplesmente colocar a mão diretamente na parafina e retirar o molde com cuidado. Ao contrário do muito repetido, o molde não irá se quebrar: a parafina ainda não completamente solidificada é surpreendentemente flexível. Abaixo você pode ver a comparação de uma mão supostamente mediúnica, à esquerda, ao lado de uma criada por um molde de Polidoro e Garlaschelli, produzido colocando a mão em parafina derretida e retirando o molde cuidadosamente.
Não há diferenças significativas, se alguma coisa a mão dos pesquisadores italianos é mais perfeita. Clique na imagem para ir à página de seu trabalho com a reprodução de mais fotos de mãos em gesso a partir de moldes de parafina produzidos pelos dois investigadores italianos.
Há mais um ponto nesta história. Como se não bastasse que todos os investigadores do passado tenham deixado passar que da forma mais simples possível os enigmáticos moldes de parafina poderiam ser feitos, a história ainda parece tripudiar sobre eles. Isto porque moldes de mãos em parafinas se tornaram hoje uma atração para crianças!
Ao lado você vê uma "wax hand", uma mão de parafina que pode ser feita em estandes ou em carrinhos em parques por alguns minutos e dólares. Clicando na imagem você vai à página que aluga o carrinho apropriado para que as mãos de parafina sejam feitas. No carrinho, não há nada de mais: apenas parafina mantida derretida por resistências e termostatos.
Pede-se que a pessoa coloque a mão na parafina alguma vezes, e depois retire com cuidado o molde. Qualquer pessoa pode fazer isto, como se vê ao lado, no carrinho vendido por outra empresa. Uma busca por wax hands no Google revela a extensão com que esta atividade está espalhada.
E é assim que a história acaba sendo ingrata e até mesmo humilhante com aqueles que, no passado, atraveram-se a proferir conclusões precipitadas em favor de fenômenos inexplicados. Como disse Michael Shermer, o inexplicado não é necessariamente inexplicável.
Um ponto a favor deles: até mesmo Harry Houdini parece ter sido enganado, e se não declarou que os moldes em parafina eram prova de espíritos, também não parece ter conseguido reproduzi-los.
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Para saber mais:
- Moldes de Espíritos: um experimento prático - o trabalho simples e esclarecedor de Polidoro e Garlaschelli.
- Paraffin Wax Gloves - A página da The International Survivalist Society da qual a foto de uma das mãos mediúnicas obtidas por Geley e ainda preservadas no International Metapsychic Institute mostrada aqui foi retirada.
- Mão de parafina - Uma outra página com foto de pior qualidade de um dos moldes em parafina de Kluski.
- O Trabalho dos Mortos - Parte do livro "O Trabalho dos Mortos", disponível on-line com diversas fotos. Publicado no Brasil em 1921 pela Federação Espírita Brasileira, praticamente contemporâneo às investigações de Geley com Kluski, também apresenta fotos interessantes de mãos, pés e mesmo máscaras de parafina. Alguns são grosseiros, provavelmente feitos moldando a parafina diretamente ou usando luvas comuns. Quanto às flores de parafina, uma parece bem delicada, e suas pétalas finas podem ter sido feitas simplesmente raspando lascas de parafina sólida (um processo semelhante é usado para se fazer flores de sabonete). Este link foi gentilmente indicado a mim por Vitor Moura.
- Luvas de parafina - Excerto de "História do Espiritismo", de Arthur Conan Doyle, descreve as investigações de Geley e outros com mais detalhe. Este trecho também foi gentilmente enviado a mim por Vitor Moura.