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Quando os milagres falham

Bino, é um disco voador!

9 de fevereiro de 2008 Comments (7) Views: 1286 Ceticismo, Ufologia

O Mundo de Walson


Em resumo: um sujeito que se diz chamar “John Lenard Walson” diz que inventou uma engenhoca capaz de estender a resolução ótica de seu telescópio amador, indo “quase ao limite de difração”. Walson diz então que não só pôde assim filmar a Estação Espacial Internacional, mas que descobriu que diversas “estrelas” no céu seriam em verdade gigantescos objetos de formas artificiais, ainda maiores que a já enorme Estação Espacial que todos conhecemos. O que seriam? “Máquinas misteriores no Espaço Exterior: Operações Secretas, Star Wars ou Extraterrestres? Ou todas as alternativas?”.

Leia mais no Mundo Gump, mas sugiro que o faça apenas se tiver tempo para perder. Porque é apenas mais um embuste, e um nada engenhoso.

O nome do sujeito não é Walson. Os vídeos e imagens que vem divulgando são apenas uma prévia de seu projeto de vender um documentário sobre o tema, mas as negociações com outros vendedores de mistérios de mentirinha não deram muito certo. Você pode ver a lavagem pública de roupa suja entre ele e seus ex-sócios aqui (em inglês). Mas isso não é tudo, claro.

Walson também mostra vídeos de outras pessoas como se fossem seus. Isso inclui a filmagem de um “orb” e mesmo as de helicópteros militares que, muito sutilmente, ficam sobrevoando sua casa para intimidá-lo. Os vídeos que Walson plagiou são originais de Abby (“Bambi”) Parker. Mais detalhes sobre Walson copiando vídeos de outras pessoas e afirmando serem seus você vê aqui.

Ou não. Aparentemente, Abby Parker seria o próprio Walson. Ou não. Walson seria o marido de Parker. Ou não. Walson teria uma mulher muito doente, que não seria Parker. Ou não. Há uma enorme confusão e uma série de invenções e distrações criadas em todo o imbróglio. Alguns falam que Walson teria problemas psiquiátricos. De toda forma, se os vídeos de “Parker” forem mesmo de “Walson”, marido ou múltipla personalidade, os helicópteros militares não seriam nenhum mistério.

Apesar dele (ou dela?) alegar que o estavam atormentando no conforto de sua casa, e que ele não morava perto de uma base aérea militar, uma verificação na placa de uma van nas filmagens indicou que estava registrada… próxima de uma base militar. Bom, talvez além de mandar helicópteros atazanar “Walson”, os malignos militares tenham enviado uma van, civil, de uma imobiliária, registrada com residência próxima de uma base aérea, para estacionar ao redor de sua casa. Ou talvez os vídeos tenham sido capturados ao redor de uma base área. Seja como for, por isso e por se negar constantemente a fornecer detalhes de seu equipamento, e mesmo o a posição e hora exata nos céus em que tomou suas filmagens, o porta-voz de Walson (ou o próprio Walson) foi banido do fórum ATS, um fórum muito distante de ser cético na ufologia.

Não contente com tudo isto, Walson também filmou um astrônomo sem seu consentimento, e editou sua “entrevista” para que ela parecesse apoiar suas imagens. O astrônomo, consternado, denunciou a fraude e o mau uso de seu nome.

Mas enfim. Nada dessas sapecas confusões de um camarada muito doido seria relevante se as filmagens de Walson fossem autênticas. Mas conhecimentos básicos de física e astronomia são suficientes para saber que não são. Walson diz usar um telescópio de oito polegadas. Diz que as máquinas gigantes no espaço estão “fixas” no céu. Não, não em órbita estacionária, “fixas”, porque se moveriam também junto com estrelas. Mas se o fizessem, não estariam em órbita terrestre. De fato, nada disso faz sentido, e Walson realmente não sabe o que está dizendo. Só deixa claro que não deve partilhar seus métodos, nem mesmo a posição exata dos objetos que filma.

Fotografar satélites e mesmo a Estação Espacial Internacional é bem possível, contudo. Confira este artigo no New York Times sobre entusiastas da área, que fotografam objetos reais em órbita. Confira também esta foto, autêntica, da ISS:

Clique na imagem para mais, no site oficial da ESA. Agora, compare com o que seria a ISS filmada por Walson:

A imagem de Walson parece mais bem definida, mas a capturada comumente por astrônomos amadores por todo o mundo não é muito pior. Se houvesse de fato objetos muitas vezes maiores que a ISS em órbita da Terra, tais entusiastas os teriam descoberto muito antes. A verdade é que mesmo a imagem que Walson apresenta como sendo a ISS é uma fraude.

Conhecimentos sobre a logística e as dificuldades envolvidas em lançar grandes objetos em órbita também seriam suficientes para descartar a idéia de máquinas humanas gigantescas no espaço, mas infelizmente muitos não têm idéia das severas limitações que programas espaciais por todo o mundo passam, e do regresso em capacidade de carga que se teve com o fim dos foguetes Saturno V. Estejam certos: se houvesse um foguete tão ou mais potente que o Saturno V lançando projetos secretos em órbita, isso seria percebido.

Entretanto, o mais claramente absurdo em toda esta história é que Walson passou a dizer que conseguiu capturar sons dos objetos no espaço, usando uma antena parabólica. Mesmo diante de alegações assim, veículos sensacionalistas continuaram, como alguns ainda continuam, promovendo este festival de absurdos. Se nem mesmo gravar sons do espaço com uma mini-parabólica é capaz de acender alertas, têm-se sérios problemas.

Mas se não são realmente vídeos de objetos gigantes em órbita, o que são? Como “Walson” criou seus vídeos? Há várias possibilidades, mas um sujeito já conseguiu reproduzir de forma praticamente idêntica os vídeos de Walson. Sem “beirar os llimites de difração”, na verdade, sem filmar o céu. O membro do fórum ATS “waveguide3” diz ter reproduzido os efeitos de Walson filmando modelos com papel alumínio iluminados a uma distância de algumas centenas de metros, distorcidos com espelhos e vidros. E ele não só diz, ele cumpre: confira seus três vídeos aqui, intitulados “S.L.O.W.” (uma paródia dos vídeos “F.A.S.T.”).

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7 Responses to O Mundo de Walson

  1. Philipe disse:

    Opa, valeu pelo link aí. Vou colocar um link no final do meu post mandando pra cá. Assim a galera vai ver que o cara é mais um fajutador para nossa coleção.
    Só não considerei correto afirmar que ler a história do maluco no Mundo Gump só seja interessante se a pessoa “tiver tempo a perder”. Mesmo que seja uma fraude com o intuito de enriquecer com a credulidade alheia, é importante conhecer os dois lados da moeda. É importante saber quais são as alegações do cara, até para poder contradizê-las corretamente.
    Quanto mais dados houver sobre os fraudadores, mais chances de expor suas reais intenções.

  2. Mori disse:

    Beleza, Philipe. Relendo agora, acho que também ficou um tom de que ler o Mundo Gump seria perda de tempo. Não era essa minha intenção ao escrever a nota (se fosse teria indicado uma outra publicação especializada…).

    Mas com relação à história de Walson em particular, sim penso que seja perda de tempo. Quem se interessa mesmo por ufologia, pode conferir como um estudo de caso a respeito de fraude, como você notou é verdade, mas para o público em geral a história é perda de tempo e só desinforma mais.

    Há coisas sérias que devem ser lidas antes, e não são perda de tempo.

  3. sartori disse:

    uma camera na mão….. e nada na cabeça….

  4. J Carlos disse:

    Quando eu vi essas imagens pela primeira vez eu confesso que fiquei um pouco tentado a acreditar, mas por querer que algo significativo aconteça do que por qualquer outra coisa. Bom, dias depois eu fiquei surpreso ao ver uma imagem da ISS e do ônibus espacial “atravessando” o diâmetro . Essa imagem foi exibida na CNN. Bom, eu mesmo já tentei, com sucesso, acompanhar alguns satélites artificiais com meu telescópio meia-boca. Não é tão difícil. Mas eu duvido que alguém consiga fazer uma imagem dessas com um zoom poderoso como esse que o senhor John “Lero-lero” Walson diz ter conseguido. Parabéns pelo site. Enquanto uns bebem, outros pensam.

    p.s: Apesar de acreditar na existência de outros mundos habitados, dispenso as “descobertas” da ufologia “caça-níqueis”.

  5. J Carlos disse:

    Errata: “atravessando” o diâmetro / “atravessando” o disco solar. Agradeço se o comentário for corrigido.

  6. […] casos mais banais, vimos tampas (ou discos voadores) transportados em uma rodovia, exploramos o Mundo de Walson e perguntamos quem construiu as […]

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