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Abduzidos

Notas sobre a Visão de Ezequiel

6 de julho de 2009 Comments (0) Views: 1747 Ceticismo, Ciência, Destaques, Ufologia

Os OVNIs de Vórtice

Kentaro Mori

Uma água-viva gigante flutuando no ar? As especulações de ufólogos em torno desta fotografia são praticamente tão fantásticas. Mas a verdade pode ser ainda mais. O caso se deu em uma gelada manhã de domingo em 17 de novembro de 1974, quando o senhor Laursen saiu para caminhar com seu cachorro perto do lago Nørre Sø em Viborg, Dinamarca. Ele gostava de observar pássaros perto do lago, para o que havia levado sua câmera fotográfica colorida de 35 mm. Repentinamente viu um enorme objeto no ar, pegou sua câmera e logo conseguiu tirar uma foto. Olhou então ao redor procurando por outras pessoas que pudessem corroborar o incrível objeto que havia fotografado, mas não encontrou ninguém. Quando virou sua face de volta o objeto voador já havia desaparecido. A imagem capturada no filme Kodacolor, no entanto, já iria constituir uma das mais curiosas evidências físicas de OVNIs. Em 1979 o caso foi divulgado na revista UFO-Kontakt, onde uma análise pelo major húngaro reformado Colman VonKevieczky declarava que o objeto era uma “típica” nave extraterrestre discóide envolta em névoa. Diversas outras publicações ufológicas pelo mundo ainda iriam afirmar ao longo dos anos que seria o flagrante de um disco voador se camuflando como uma insuspeita nuvem. Talvez porque existiriam “importantes bases da OTAN” na área. E este não seria o primeiro caso do gênero.

Fort Belvoir, EUA, 1957. O soldado “X” (de identidade preservada) estava em um prédio na seção de engenharia do Fort Belvoir, base militar em Virgínia, também no período da manhã. Alguém do lado de fora chamou as pessoas para observar um curioso objeto no ar. O soldado X e várias outras testemunhas saíram a tempo de ver um objeto negro em forma de anel se aproximando ao norte. Ele se apressou para o carro onde pegou sua câmera Brownie 127, com a qual conseguiu tirar uma notável série de seis fotografias em preto e branco. Entre a segunda e a terceira, o OVNI negro começou a ser cercado por uma fumaça branca, que acabou por envolvê-lo completamente ao final da série de fotos. Em 1967 as fotos foram finalmente divulgadas em uma revista popular, que apresentava o OVNI em formato de anel como um completo mistério. Seria outro disco voador flagrado camuflando-se como uma nuvem? De fato, ambos os casos foram solucionados. E, antes de mais nada, não envolvem qualquer fraude.

Simulação de bomba atômica
Em resposta à divulgação das fotos do OVNI em Fort Belvoir, um estudante da Universidade de Wisconsin relatou ter presenciado nuvens de fumaça fruto de explosões que seriam iguais ao OVNI negro em formato de anel. A inusitada explicação não foi levada a sério pelos investigadores da Força Aérea. Eles a consideraram melhor quando o sargento-major A.M. Wagner do Fort Belvoir prontamente identificou as fotos, sem que ninguém lhe sugerisse, como nuvens de fumaça produzidas por “demonstrações de simulações de bomba atômica” que eram realizadas com freqüência para oficiais e cadetes visitantes.
Tais simulações de explosões atômicas produziam o cogumelo de fumaça característico e eram realizadas dispondo gasolina, diesel, TNT e fósforo branco em um círculo e detonando-os. A bola de fogo resultante subia em um formato de cogumelo, sendo o topo um anel de vórtice de fumaça estável – como todo ‘cogumelo de fumaça’ – que dependendo das condições da explosão e do tempo podia continuar subindo estável como um anel de fumaça negro e coeso, separando-se da coluna de fumaça abaixo. Neste caso, com o tempo o fósforo produziria uma fumaça branca que acabaria envolvendo o anel de fumaça negra produzida pela explosão do diesel, precisamente como registrado nas fotografias do soldado X. Wagner também mostrou um mapa da base, indicando o local onde tais explosões eram realizadas, e ficava claro que o OVNI fotografado pelo soldado X poderia ter partido do local.
O relatório oficial da Força Aérea americana sobre OVNIs, o ‘relatório Condon’, concluiu que o anel negro se ‘camuflando’ em nuvem no Fort Belvoir era assim apenas um anel de fumaça, produzido por simulações de explosões atômicas. Seriam basicamente iguais aos singelos anéis de fumaça que fumantes podem criar no ar por diversão – que por acaso também são anéis de vórtice, guardadas as devidas proporções.

Anéis de vórtice
Se anéis de fumaça resultado de ‘simulações de bombas atômicas’ não parecem uma explicação muito convincente ao OVNI de Fort Belvoir, cabe notar que tais ‘simulações’ – ou mesmo fumantes – não são a única forma pela qual anéis de vórtice estáveis podem se formar. Em uma outra foto acima você confere um pequeno anel de fumaça produzido pelo disparo de um canhão, e mais relevante, abaixo pode ver duas imagens de um anel de fumaça produzido pela explosão de bombas em um show aéreo realizado em 2002 na cidade de Brownsville, EUA. A semelhança com o OVNI do Fort Belvoir é clara.


Tampouco anéis de fumaça são exclusivamente artificiais. Uma fonte particularmente abundante de anéis de vórtice enormes e quase perfeitos é o monte Etna, na Itália, um dos vulcões mais ativos do mundo. Seus canais secundários expelem fumaça, que por vezes assumem justamente a configuração de anéis de vórtice. A visão lembra auréolas angelicais, mas é outra vez ‘apenas’ fumaça.




Naturalmente, não é realmente ‘apenas’ fumaça. É um vórtice toroidal (em forma de ‘donut’) de fumaça. A fumaça está girando em torno de si mesma em um anel, o que gera diferenças de pressão internas garantindo coesão. A física por trás dos vórtices toróides é em verdade muito complexa, porém mesmo sem entendê-la qualquer pessoa que tenha visto anéis de fumaça produzidos por fumantes pode notar que eles podem se manter no ar por muito mais tempo do que se esperaria de ‘simples’ fumaça.

Vórtices toroidais também não são gerados apenas em explosões. Há brinquedos à venda capazes de disparar vórtices toroidais de fumaça perfumada com cheiro de cereja, nada perigosos. E, como se não fosse o bastante, um dos mais famosos outdoors do século XX, criado na época da segunda guerra mundial nos EUA para não consumir a energia elétrica racionada mas ainda assim chamar atenção, foi o de uma marca de cigarros que criava anéis de fumaça de um metro e meio de tamanho em plena esquina da Broadway com a 44th Street, em Nova Iorque.

Viborg
E voltamos assim à fotografia que inicia este artigo. Não parece tanto um anel, poderia assim ser explicado como um vórtice toroidal? Em 1993, o artista Ned Kahn, que inclui entre suas criações interativas um mini-tornado de 3 metros de altura no World Financial Center em Nova Iorque, criou a obra “Anéis de Nuvem”, que você pode conferir ao lado. Pressionando um tambor, uma nuvem de fumaça de formato inusitado sai do orifício central. Uma rápida olhada na nuvem deve provocar um imediato dejá vù.
O anel de nuvem de Kahn também é um vórtice toroidal estável subindo lentamente pelo ar, e tanto em sua forma discóide superior como nas formas mais soltas abaixo é uma reprodução exata do OVNI fotografado em Viborg naquela gelada manhã de 1974, salvo as devidas proporções. Resta apenas saber de onde veio o vórtice de fumaça dinamarquês.
Ole Henningsen, do grupo de investigação SUFOI (Scandinavian UFO Information), investigou o caso a fundo e, entrevistando a testemunha que tirou a fotografia, pôde determinar o local e a direção onde ela foi tomada. E descobriu que por pouco a fotografia do homem de negócios não capturou a usina de aquecimento de Houlkærvænget que está logo abaixo, à direita de onde o OVNI-nuvem foi fotografado. A liberação dessas nuvens de fumaça características não seria incomum quando as caldeiras do centro de aquecimento eram limpas. A intrigante fotografia de Viborg está plenamente explicada, e tem realmente pouco a ver com bases da OTAN ou naves alienígenas se camuflando como nuvens.


Acima: Comparação entre o quadro completo da fotografia do OVNI de Viborg, com uma fotografia posterior tomada no mesmo local e direção, com um enquadramento mais amplo, pelo investigador Ole Henningsen. No canto inferior direito pode-se ver a usina de aquecimento da qual o OVNI de vórtice deve ter partido. A usina é retratada também na fotografia ao lado. Todas as três fotografias, © SUFOI Picture Library/www.ufo.dk

OVNIs de vórtice
Fort Belvoir e Viborg por sua vez não têm o monopólio sobre os OVNIs de vórtice, que são mais comuns do que se imagina. Já apresentamos os vórtices produzidos pelos canais secundários do monte Etna, em explosões, por brinquedos, em exposições de arte interativa e mesmo em anúncios publicitários, mas cabe listar rapidamente dois outros casos, que talvez agora possam ser mais facilmente entendidos.
Chile, 1997 – Os espectadores de um show da Força Aérea do Chile em Pucón viram muito mais do que acrobacias do grupo “Los Halcones” na tarde do dia 28 de fevereiro. Um anel esbranquiçado pairando no ar surgiu e foi testemunhado por muitos e mesmo registrado em vídeo por um canal de TV local. Muito se disse sobre o OVNI. No entanto, Carlos Ruminot Núñez, controlador de tráfego aéreo e piloto privado, esclarece o caso ao investigador chileno Diego Zúñiga:
“Posso assegurar que o objeto avistado corresponde a um ‘anel de vórtice’, produzido pela compressão de uma coluna de fumaça devido à tração da hélice de um dos Extra 300 na apresentação acrobática. Esta coluna de fumaça, ao ser comprimida, explode até as margens, com pequenos “cogumelos”, os quais se desprendem dela. Um deles, ao ser atravessado por uma “flecha de ar”, forma um anel (vortex ring), cuja substância (fumaça), gira em torno de seu próprio eixo. Enquanto mantenha sua rotação, manterá a forma circular. O deslocamento e o tempo que mantém esta forma circular dependerão da direção e intensidade do vento.”

EUA, 2003 – Durante a chuva veio o raio. E depois do raio, surgiu um anel negro de fumaça, que parecia um círculo quase perfeito no ar. Tudo ocorreu em 8 de julho, na cidade de San Antonio, Texas. Chuck Fehlis e Kimberly Montoya conseguiram capturar imagens do anel de fumaça, que gradual e lentamente se desfez no ar. Especialistas do National Weather Service pensaram inicialmente que o anel fotografado por Fehlis seria um efeito de halo, mas logo descobriram que era de fato um anel de vórtice. O relâmpago atingiu um transformador, que em sua explosão gerou ainda outro vórtice toroidal de fumaça.
Há muitos OVNIs de vórtice pelo mundo, que periodicamente continuam a levar ufólogos às mais selvagens especulações. A fascinante verdade é que nenhum destes OVNIs virou fumaça no ar. Sempre foram.
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Agradecimentos
A elaboração deste artigo contou com a gentil ajuda de Diego Zúñiga Contreras, Ole Henningsen, Ned Kahn, Alejandro Agostinelli, Reinaldo Stabolito e Josef Prado, aos quais devo meus sinceros agradecimentos.
Notas e referências
– O caso do OVNI de Viborg é plenamente esclarecido no trabalho de Ole Henningsen, ‘Airy Spaceship over Viborg‘, SUFOI Newsletter N.15, 32-37, http://www.sufoi.dk
– O caso do OVNI do Fort Belvoir é parte do “Relatório Condon”, caso 50, disponível on-line graças aos esforços dos National Capital Area Skeptics.
– As fotografias de explosões e anéis de fumaça do show de Brownsville, EUA, foram retiradas de Explosive Ordnance Detachment.
– As fotografias de anéis de fumaça do Monte Etna foram retiradas da página Tom Pfeiffer.
– “Pistolas” de anéis de fumaça perfumada podem ser adquiridas através da página da Zero Toys, que ainda possui páginas em inglês com mais detalhes sobre vórtices toroidais.
– O trabalho de Ned Kahn, incluindo “Anéis de Nuvem” (Cloud Rings), pode ser conferido em seu website.
– O anel de fumaça surgido em julho de 2003 em San Antonio, Texas, EUA, foi divulgado em notícias locais. Dois websites com a notícia são o canal de TV local WOAI e o jornal local San Antonio Express-News.
E por fim, este artigo não estaria completo sem que recomendasse que cada leitor procure criar seus próprios vórtices toroidais.

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