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6 de julho de 2009 Comments (0) Views: 649 Ceticismo, Ufologia

Uma Guerra de Palavras

por Mark A. Raimer, publicado em A Review of General Semantics
(Concord: ISGS, vol 56, no 1, Spring 1999, p53-9, ISSN 0014-164X)

"A história humana torna-se cada vez mais uma corrida entre a educação e a catástrofe." – H.G. Wells, The Outline of History
"Nós tentamos analisar os mais estupendos fenômenos enquanto desconsideramos peculiaridades estruturais das linguagens…" – Alfred Korzybski, Science and Sanity
UFOs existem?
A maioria das pessoas que lê sobre UFOs quer essa pergunta respondida. Sabendo disso, escritores sobre o tema dos UFOs freqüentemente dedicam um livro inteiro, ou séries de livros, tentando provar quaisquer respostas que desejem. Para que aqueles exigindo uma resposta clara deste autor não se sintam enganados, eu darei uma da forma mais precisa e concisa que posso. Felizmente para o leitor com deficiência de atenção, isto requerirá apenas alguns parágrafos. Em primeiro lugar, para responder a questão: Sim, UFOs existem. Eu digo isso com tanta certeza porque eu os vi centenas de vezes enquanto dirigia para o supermercado, dava uma volta ou apenas olhava para as estrelas. De fato, eu me arrisco a dizer que qualquer pessoa que afirme jamais ter visto um UFO se encaixa em uma das condições:
a. mentiu,
b. perdeu sua visão,
c. passou a vida inteira embaixo de uma pedra,
d. confundiu-se sobre a definição do termo UFO.
No começo dos anos 50, o capitão Edward Ruppelt, chefe do Projeto de investigação Blue Book da Força Aérea Americana, cunhou o termo UFO (Unidentified Flying Object, ou Objeto Voador Não-Identificado) e seu oposto necessário IFO (Identified Flying Object, ou Objeto Voador Identificado). [ver Clark, Jerome. The UFO Book: Encyclopedia of the Extraterrestrial (New York: Visible Ink Press, 1998).] Nós podemos considerar a aspiração primária da ufologia – um neologismo denotando investigação de UFOs – como uma tentativa de reclassficiar de forma acurada os UFOs como IFOs.
[N. do T.: UFOs são traduzidos ao português como OVNIs e IFOs como OVIs. Por motivos que devem ficar claros ao longo do texto, esta tradução não será feita aqui.]
Quando você dirige na estrada a 100Km/h e perifericamente vê uma mancha preta, você teve uma experiência UFO por definição. Se você se dispuser a olhar para trás e examinar o objeto/evento percebido em questão, você acaba de se tornar uma espécie de ufologista. Em sua investigação, você pode reconhecer a mancha preta como um membro da espécie de pássaro C. brachyrhynchos. Tendo assim identificado um corvo, você transformou um UFO em um IFO. As pessoas vêem UFOs (e UNFOs, unidentified non-flying objects ou objetos não-voadores não-identificados) de forma freqüente, e de forma acurada os transformam em IFOs (ou INFOs) provavelmente na maioria das vezes.
Neste ponto, eu apostaria que o leitor identificou um problema com o termo UFO. De forma simples, o problema origina-se de uma equivalência entre UFOs e espaçonaves de outros mundos. Esta generalização semanticamente errônea do termo causou muita controvérsia e confusão desnecessárias ao longo dos anos (Nós voltaremos a isso em um momento.)
Outro problema, talvez mais crítico, existe na ufologia que deriva do uso amplo do termo Objeto Voador Não-Identificado em primeiro lugar. Eu me refiro ao fato de que objeto voador implica em qualidades que não descrevem acuradamente as características de muitos avistamentos documentados. De acordo com a definição fornecidas pelo meu dicionário Merriam-Webster and American Heritage, "objeto voador" significa uma entidade material que propele a si mesma através do ar através de algum meio mecânico. Parece absurdo resumir todos os dados de coisas não identificadas no ar em tal definição tão limitada e elementar.
Para evitar a atribuição inacurada de qualidades, eu introduzo o termo UAP (um acrônimo, pronunciado no inglês como "you-app"), que significa Unidentified Aerial Phenomenon (Fenômeno Aéreo Não-Identificado). Como UFO, ele também gera uma contraparte, IAP (pronunciado "eye-app", denotando Identified Aerial Phenomenon). Eu acho que esses termos generalizam a maioria dos avistamentos relatados bem melhor que os termos UFO e IFO. Eu digo isso, primeiro, porque a palavra aéreo não denota necessariamente auto-propulsão, mecanismos ou um operador. Mas importante, a palavra fenômeno tanto em física quanto em filosofia significa uma ocorrência perceptível pelos sentidos. Este uso não faz julgamentos ontológicos da fisicalidade desde o início. POr exemplo, a filosofia Kantiana define a palavra fenômeno como a aparência de algo à mente como oposto a sua existência objetiva, independente da mente. (Eu também penso que a palavra fenômenos incorpora uma abordagem da ciência moderna por sua implicação com a perspectiva, como oposto à noção arcaica de "objetividade verdadeira" no sentido pré-quântico de "objetos sólidos existentes independente de um observador.")
Para ilustrar a utilidade de UAP sobre UFO, eu vou usar o caso curioso de luzes enigmáticas relatadas no céu sobre Greifswald, (então) Alemanha Oriental em 1990. [ver UFOs: The Best Evidence Ever Caught on Video (J. Frakes, host. Broadcast in U.S. on Fox television network, July 1997).] De acordo com algumas fontes, dúzias, se não centenas de empregados alemães e russos em uma usina nuclear testemunharam a formação de bolas luminosas que flutuaram sobre o local restrito por mais de uma hora. Pelo menos uma pessoa produziu uma fita de vídeo das luzes dançantes, e em um segmento do vídeo nós vemos uma das bolas se juntar a outra no meio do ar.
Quando nós vemos um comportamento "ilusório" como esse, nos sentimos compelidos a perguntar se o fenômeno teve alguma massa física, uma massa concreta. Para a argumentação, vamos assumir que o fenômeno realmente ocorreu e que a filmagem de Greifswald não representa uma fraude gerada em computador. Assim, nós devemos procurar por uma explicação como a demonstração de holografia hi-tech. Como a maioria das pessoas sabe, projeções holográficas não constituem objetos sólidos ou envolve uma mecânica de vôo como o empuxo aerodinâmico gerado pela curvatura de uma asa. Entretanto, o termo UAP (fenômeno aéreo não-identificado) funciona muito bem ao incorporar tais possibilidades "etéreas". Similarmente, fenômenos aéreos identificados (IAP) descreve a holografia em geral tão precisamente quanto incorpora possibilidades fenomenológicas documentadas como relâmpagos globulares (kugelblitz, do alemão), descargas corona, nuvens de bário vaporizado, alucinação, etc. (Note que o termo IFO não se ajusta nestes casos). Quatrocentos anos antes que o vídeo de Greifswald, em Nuremberg, muitos habitantes relataram ter visto formações de esferas iluminadas, cilindros e discos sobre a cidade. [ver Nuremberg Broadsheet, 1561. Reproduced in Carl Jung’s Flying Saucers: A Modern Myth of Things Seen in the Skies (Princeton University Press, 2nd printing, 1991).] Usando até mesmo os mais extremos modelos disponíveis aos ufologistas – incluindo várias teorias psicológicas, teológicas ou extraterrestres/extradimensionais marginais – para explicar estes eventos, UAP se aplica muito melhor que UFO. Além de sua descrição mais precisa, o termo evita a forte bagagem cultural ligada a UFO, que por sua associação inicial com origens "paranormais", seja verdadeiras ou não depois de análises conclusivas, leva a um campo de trabalho estreito e inflexível para a pesquisa honesta e científica. Um investigador pode se beneficiar grandemente pelo uso do termo UAP, eu acho, simplesmente porque ele não tem as conot
ações culturais de UFO. Nós podemos ver essa aculturação (ou "ocultoração") do termo UFO de forma clara na resposta do arcebispo polonês Jozef Miroslaw Zycinskis em uma conferência do Vaticano à pergunta de um repórter relativa ao interesse por UFOs. O arcebispo desmereceu a ufologia como indicativa da ‘falta de inteligência de nossa era’. [ver Simpson, Victor L. "Pope defends Church Central Truths." Associated Press, 15 October 1998.] Muitos na ciência e academia mainstream (popular) parecem concordar com a afirmação do arcebispo. O físico Bruce Maccabee, por exemplo, nota a realidade do ridículo que existe para aqueles na comunidade científica que investigam anomalias aéreas, igualando a empreitada a ‘suicídio profissional’. [ver Dr. Maccabee’s online reply to New York Post editors’ criticism of the recent ufological study conducted by the Society for Scientific Exploration (SSE). Paul Flatin do Kyodo News Service (29 Junho de 1998) escreveu: "Apesar da abundância de relatos de UFOs nos últimos 50 anos, a comunidade científica mostrou pouco interesse pelo tema devido à falta de financiamento para apoiar uma pesquisa e a percepção de que o campo não é respeitável, o relatório [SSE] afirmou."]
Por muito tempo os cientistas faziam cara feia a relatos de inúmeras testemunhas de fenômenos luminosos vistos durante terremotos em vários países. Peritos atribuíram todo tipo de explicações aos avistamentos, de fraude à alucinação. Foi necessário que um time de cientistas em Idu, Japão observasse acidentalmente estranhas luzes em primeira mão antes que elas se tornassem uma ocorrência aceita.
Até então, apesar da abundância de relatos de testemunhas, havia alguma dúvida sobre a realidade desse longos flashes de relâmpago, bolas de fogo, raios que se espalha, bastões de luz e cortinas de cor e intensidade variantes… Explicações ordinárias para fenômeno(s) deste tipo – relâmpagos em tempestades, a emoção das próprias testemunhas… puderam ser refutadas uma após a outra em Idu, e as manifestações luminosas atribuídas ao terremoto. [de Tazieff, Haroun. When the Earth Trembles. (New York: Harcourt, Brace & World, Inc., 1966).] 
A ciência parece repleta de misteriosos fenômenos aéreos, incluindo as luzes terrestres em Idu, as observações mais recentes de "duendes luminosos" (lightining sprites) e numerosos outros desconhecidos até hoje. Tendo isto em mente, eu penso que a miopia mental da Ortodoxia Científica relativa a "UFOs" representa um exemplo muito melhor de falta de inteligência que a investigação de fenômenos até agora não identificados.
Se nós apenas pudéssemos internalizar o conceito de UAP sobre o de UFO… Minha pesquisa até agora indica que o uso do termo "unidentified aerial phenomenon" data tão cedo quanto 22 de março de 1949, como descrito em um memorando do Comando Aéreo Estratégico dos EUA ao diretor do FBI (liberado pelo FOIA, 1977). [Nota do tradutor: Isso significa que o termo é anterior à própria criação do termo UFO em 1952]. O leitor deve notar que embora eu tenha defendido o uso inicial do termo UAP sobre UFO, eu não prescrevi a substituição total. Eu digo isso por duas razões: 1. UFO tem décadas de força cultural (como um diretor estadual da MUFON brincou comigo uma vez, "nós não vamos mudar nosso nome para MUAPN!"), e 2. a despeito de suas impropriedades neuro-semânticas inerentes, UFO tem seu lugar no estudo especializado de bizarrices ontológicas. POr exemplo, em seu clássico Anatomy of a Phenomenon (Chicago: Henry Regnery Co., 1965), o Dr Jacques Vallee escreveu: "O fenômeno UFO deve ser achado entre relatos de objetos, luzes, seres ou efeitos físicos que são considerados pelas testemunhas como anomalias por causa de sua aparência ou comportamento." [ver o livro de Vallee Confrontations: A Scientists Search for Alien Contact (New York: Ballantine Books, 1990, p208-19) para mais sobre definições e sistemas de classificação na ufologia.] Como Vallee, Clark, Randles e outros veteranos da ufologia documentaram extensivamente, muitos casos de "UFO" não envolvem qualquer fenômeno aéreo!
Para englobar esses tipos de caso "Fortianos", eu introduzo uma mudança do convencional UFO (um acrônimo, em maiúsculas) para ufo (pronunciado "you-foe"). [ver "Mytho-Ufology" na ediácão Winter-Spring 2000 da Rhesus Monkey Magazine para um exemplo de uso da palavra ufo.] A razão para esta mudança deriva de fatores lingüísticos e semânticos relativos ao termo. Como o professor Steven Pinker do MIT atentou recentemente [em Words and Rules (New York: Basic Books, 1999, p28)], UFO evoluiu através de décadas de uso para uma palavra confiável. ENtão por que não tratá-la como tal? Ë claro, nós não pronunciamos VCR como "vecers" ou POWs (acrônimo de Prisioners Of War) como uma onomatopéia em quadrinhos, então por que mudar a pronunciação de UFOs ("Iu-Efe-Ous")? EM resumo, o termo UFO já não mais permanece sinônimo de sua raiz, não mais opera como um "verdadeiro" acrônimo. (Isto explica o resultado confuso de pesquisas de opinião que fazem perguntas como "você acredita em UFOs" ou "você acha que o governo sabe mais sobre UFOs do que divulga ao público"). Assim, mudar o acrônimo morto e uma palavra base o divorcia de seu sentido antigo de acordo com interpretações modernas de múltiplas ordens.
Desde a publicação original deste ensaio (na edição de Primavera de 1999 de ETC: A Review of General Semantics (Concord, CA: International Society for General Semantics, Vol56 No1, p53-9)] minha prescrição do uso geral da palavra ufo tem apenas encontrado oponentes, curiosamente, entre alguns ufologistas (e alguns escritores do "paranormal"). Já que algumas das descrições escritas sobre mim afirmam o contrário, sinto que devo declarar oficialmente que – embora eu tenha feito bastante trabalho entrevistando, pesquisando, escrevendo, etc. em seu campo de estudo, eu não me considero um "ufologista" (ou qualquer outro tipo de "ologista" nesse tema). Parece, entretanto, irônico notar que os poucos "ufologistas" que responderam com desdém à minha alteração verbal de UFO para ufo referem a si mesmos como ufologistas (lê-se como uma palavra, ufologistas) em suas ligações e cartas para mim, sem que nenhum chamasse a si mesmo de UFO-logista ("Ú-Éfe-O-logista"). Entenderam a piada?
O dr. Jacques Vallee comentou, com grande desapontamento, que a ufologia parece ter ‘escorregado de volta à sua infância’. [ver relatório na edição de November-December 1995 da UFO Magazine, "Jacques Vallee Issues Warning to UFO Researchers."] Talvez a reintrodução do termo "técnico" Unidentified Aerial Phenomenon e minha prescrição da palavra ufo ajudam a garantir que este campo de investigação evite regressos e inimizades acadêmicas desnecessárias. Como Tenesse Williams disse uma vez: "É uma questão não respondida, mas vamos continuar acreditando na dignidade e importância da questão."
Nós podemos usar toda a ajuda que podemos obter de um campo de investigação científica cujo tema permanece – para emprestar uma frase – no ar.
* Mark A. Raimer é escritor, pesquisador e editor-chefe da Rhesus Monkey Magazine (http://www.rhesusmonkey.com). Ele aceita todos questionamentos, comentários, reclamações, correções e problemas via e-mail: [email protected]

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