- por Peter Rogerson, publicado em Magonia, n.17 em out/1984

Para entender o papel que a ETH [Hipótese Extraterrestre] desempenhou – e ainda desempenha – na ufologia, é necessário examinar primeiro um pouco da história ufológica.
Quando, em fins de 1947 ou inÃcio de 1948, seções do exército americano e a mÃdia decidiram que certos casos de OVNI apontavam para a existência de máquinas voadoras com caracterÃsticas incomuns, a idéia de inteligência extraterrestre havia recebido apenas tratamento intelectual limitado. A noção de vida em sistemas solares distantes tinha pouca credibilidade cientÃfica. Realmente, para uma geração sob a influência da "teoria de colisão" de formação planetária, grande ceticismo havia sido expresso mesmo sobre a existência de outros sistemas solares. (1) Este conceito só seria superado por uma reavivada hipótese nebular de formação planetária.
Havia uma fonte potente de imagem cultural sobre extraterrestres em vastas quantidades de ficção cientÃfica publicada nas revistas populares durante a "idade dourada" da ficção cientÃfica de 1929 a 1939. Os participantes aliens nessas histórias eram normalmente só pessoas de uma forma diferente, com motivações humanas (freqüentemente hostis). A influência desta literatura nas mentes jovens e tecnológicas era grande. Não pode ter havido nenhuma cidade pequena na América onde não havia pelo menos um fã de ficção cientÃfica: isto iria prover uma audiência para a idéia de visitação alienÃgena – contudo deve ser levado em conta que a maioria do fandom de ficção cientÃfica era hostil à ufologia.
Porém, havia alguma especulação cientÃfica sobre extraterrestres, em grande parte especulação sobre marcianos. As idéias de Percival Lowell sobre Marte tiveram ampla circulação. Ele especulou que Marte era um planeta mais antigo cujos habitantes estavam morrendo como resultado de seca, e tinham construÃdo uma grande rede de canais para adiar o fim. Estas idéias ganharam grande circulação através dos trabalhos de H.G. Wells, Edgar Rice Burroughs e outros. Em 1947 "aliens" significavam "marcianos". Devemos lembrar que a radiodifusão de Orson Welles de "Guerra dos Mundos" ainda estava fresca nas mentes americanas. (2)
Tanto civis quanto militares começaram a desejar saber sobre marcianos assistindo explosões nucleares e vindo a Terra para investigar. Donald Keyhoe em seu pioneiro artigo na revista True (3) e livros subseqüentes (4) expandiu sobre o tema de marcianos com uma tecnologia vários séculos além da Terra.
Embora estes marcianos pudessem ter sido super-abelhas, como foi sugerido pelo escritor e mÃstico Gerald Heard, (5) eles invariavelmente foram designados com motivações humanas. A tecnologia concedida aos ETs era similarmente assumida como apenas um pouco mais avançada que a nossa, embora freqüentemente baseada em teorias sobre o éter, anti-gravidade e similares, que já eram muito obsoletas, (6) e nunca mantiveram qualquer correspondência com conceitos aceitos da fÃsica. Ao longo dos anos 50 a especulação na literatura ufológica sobre ETs raramente passou do estágio de ficção espacial, e era freqüentemente muito deficiente em imaginação quando comparada com até mesmo a pior ficção cientÃfica.
Tendo sido concedidos atributos, motivações e habilidades humanas, os aliens foram assimilados a outras ameaças militares. Nunca qualquer senso de real de algo alienÃgena a nós passou pelas mentes da maioria dos ufologistas.
A aceitação geral da teoria nebular de origem planetária e o desenvolvimento da tecnologia espacial conduziu a um interesse cientÃfico crescente na idéia de vida extraterrestre e comunicação com inteligências em outros lugares no universo; um interesse que culminou no Projeto Ozma. Durante os anos sessenta um fluxo constante de livros com tÃtulos como "Nós não Estamos Sós", "Vida Inteligente no Espaço", etc., foram publicados. O leitor que esperasse uma discussão filosófica séria da natureza de inteligências não-humanas era comumente desapontado, uma vez que tais livros normalmente seguiam um padrão fixo. CapÃtulos sobre a evolução do sistema solar e da vida conduziam a capÃtulos sobre radioastronomia, o "único método racional" de comunicação com ETs.
Talvez não seja coincidência que a excitação destes livros tenha ocorrido ao mesmo tempo que o auge de Hermann Kahn, o Peace Corps, e o culto da grande revolução tecnológica branca. Uma fé implÃcita na habilidade da ciência e tecnologia para superar todos os problemas e uma convicção de que os valores e realizações da civilização ocidental eram universais penetrou estes livros. A suposição subjacente poderia ser expressa: "Nós somos sujeitos tão inteligentes, é natural que aliens avançados devam ser como nós" e, como sugeriu um cÃnico, fossem provavelmente educados na Sorbonne ou no MIT!
Assim enquanto os ufologistas tinham visto os ETs como apenas outra comunidade de invasores ou exploradores, os ufólatras tinham visto eles como outra comunidade de gurus e missionários, e os exobiologistas tinham visto eles como outra comunidade de cientistas. Todos os viram como pessoas.
A um nÃvel popular tais atitudes antropomórficas persistem. Alguns anos atrás alguns engenheiros americanos apresentaram um documento no qual eles argumentaram seriamente que a informação fornecida por abduzidos sob regressão hipnótica poderia fornecer pistas sobre o desenho e propulsão de astronaves alienÃgenas. (7) Hangares de aeronave são segundo boatos cheios de discos voadores acidentados, e noções ingênuas ainda persistem de investigar OVNIs com dispositivos eletrônicos de fabricação caseira, telescópios de brinquedo e jogos de quÃmica.
Não obstante, parece aparente que a ETH como uma explicação dos não-identificados ORIGINAIS (máquinas voadoras ostensivas de alto desempenho) nunca sobreviveu realmente ao abandono da hipótese "marciana". Com o desenvolvimento da viagem espacial humana tornou-se claro que Ruppelt estava muito errado quando predisse em 1956 que "dentro de alguns anos haverá uma resposta comprovada". (8) Além disso, ufologistas acreditavam que haviam descoberto evidência de que o fenômeno OVNI era tão antigo quanto os registros escritos, se não mais antigo, e possuÃa todo o tipo de aspectos secundários curiosos. As histórias de aeróstatos de 1897 eram a estrada que conduziu muitos ufologistas americanos para a ETH. Um papel semelhante foi feito na Inglaterra pelas histórias de Revivificação Galesas de 1904/5. A idéia pé-no-chão [nuts-and-bolts] de astronaves extraterrestres não só não podia acomodar estes dados novos, mas também envolveu a noção não muito plausÃvel que a ciência do século vinte conhecia tudo que havia para saber sobre o universo.
Encarados com estas conclusões muitos ufologistas abandonaram a ETH em favor de explicações psicológicas ou sobrenaturais; outros tentaram construir uma versão mais sofisticada. A última corretamente apontou que era provável que uma "inteligência" alien genuÃna seria provavelmente algo muito mais estranho que geralmente se imaginava. Eles começaram a não só pensar em termos de "pessoas de uma forma diferente", mas em termos de um "nÃvel mais alto de organização" além da mente. Isto pode ser chamado talvez de Super-ETH.
O pioneiro nesta linha de especulação foi Aime Michel, que tinha sugerido jÃ
¡ em 1957 que o contato com "o outro" poderia ser impossÃvel porque ele representava uma "ordem mais alta de mentalidade". (9) Em uma série de artigos no FSR (10) Michel elaborou sobre este ponto. Sua "superinteligência" que ele chamou de magonia era talvez a primeira inteligência avançada na galáxia, a qual ela agora permeava de forma similar à forma pela qual a inteligência humana permeia a Terra. Ela está agora, ele sugeriu, muito além do que nós entendemos como mente, e os seres humanos estão em relação à magonia como animais de estimação estão em relação a humanos – o cerne de magonia é inacessÃvel a humanidade, mas a humanidade pode ter acesso ao "humano em magonia" da mesma maneira que um gato pode apreciar o "gato na humanidade."
Os erros lógicos aqui são óbvios. É bastante ilegÃtimo pensar em gatos como sendo de alguma maneira pessoas estúpidas – eles são o produto altamente próspero da própria adaptação evolutiva deles. O que gatos e pessoas têm em comum é sua natureza mamÃfera, o produto de 2 bilhões anos de evolução comum (e divergência evolutiva de apenas uns 70 milhões de anos). Nenhum ET hipotético teria tal ascendência ou natureza em comum. De fato as pessoas têm muito mais em comum com o aardvark, a lesma do mar ou o gerânio que com "ET", com o qual nós partilhamos apenas "leis" da fÃsica e quÃmica.
Nós deverÃamos ser particularmente cautelosos em tratar ET em termos de extrapolação de nosso próprio futuro. Até mesmo em termos de nosso próprio futuro, pensando em termos de espaçonaves melhores e mais rápidas provavelmente é tão absurdo quanto a visão de meu próprio trisavô de um futuro dominado por locomotivas a vapor gigantescas! (11) O melhor que nós podemos dizer sobre o futuro é que aspectos significantes dele não são previsÃveis. (12)
É então incorreto falar sobre ET como "avançado" em relação a nós. É provável que ET seja completamente diferente, de forma que quando eu disser que ET seria ligado a nós apenas pelas leis de da fÃsica e quÃmica, eu deva acrescentar que fÃsica, quÃmica, matemática, leis, conceitos, emoções, motivação, tecnologia, viagem, etc., são fenômenos humanos: produtos do modo como os seres humanos percebem o universo. Nós não podemos estar de forma alguma seguros de que eles permanecem verdadeiros para ETs que podem perceber o universo de um modo diferente de nós. Até mesmo se ET compartilha nossa percepção em geral do universo, haverá quase certamente aspectos da fÃsica disponÃvel a eles, mas não para nós, sobre os quais nós não podemos dizer nada. (13)
Claramente, então, a idéia que a ETH insinua "uma psicologia inimaginável operando uma tecnologia como mágica, impelida por "motivações não-humanas" provavelmente ainda é excessivamente antropomórfica.
É esta situação que os ufologistas pós-revisionistas estão propondo como uma explicação para experiências OVNI. O problema com esta Super-ETH não é que há evidência contra ela, ou que haja muita validez nos argumentos daqueles que argumentam que "eles" não poderiam chegar aqui: o último é claramente tão ingênuo quanto os proponentes de espaçonaves.
Não. A real objeção para a ETH reside no fato de que na ausência de qualquer evidência independente sobre a natureza, poderes, ou mesmo existência de ET, não há NADA que a ETH não poderia acabar explicando. Até mesmo os 90 por cento ou mais de más interpretações concedidas pelos proponentes da ETH poderiam ser explicadas argumentando que os ETs nos fazem identificar mal a lua como uma astronave projetando raios-N sobre nós! Não só tal teoria é impérvia à evidência e não permite nenhuma predição útil, mas uma grande questão existe sobre se a natureza e atividades de tais ETs poderiam de alguma forma ser perscrutadas por análises intelectuais humanas.
O que a Super-ETH (e algumas de suas rivais mais esotéricas) então implica é a evocação do que para todos propósitos práticos é "vontade arbitrária" para explicar certas experiências estranhas. Estas "vontades arbitrárias" são por natureza incapazes de ser suscetÃveis à análise intelectual. Agora todo ethos do empreendimento cientÃfico foi eliminar tais "vontades arbitrárias" como explicações de eventos fÃsicos, portanto pós-revisionistas estão se colocando em um curso de colisão com a ciência – que pode ser considerada como um jogo com seu próprio conjunto de regras, dentre acima de todas está "não há nenhuma vontade arbitrária!". Parece improvável, para deixar de forma mais enfática, que a comunidade cientÃfica endossaria conceitos que, se levados seriamente, significariam um fim ao próprio empreendimento cientÃfico.
Realmente, a aceitação de tais "vontades arbitrárias" teria conseqüências ainda mais drásticas que uma regressão a um estado pré-cientÃfico, uma vez que quase todas sociedades tradicionais impõem limitações sociais muito rÃgidas aos poderes de "espÃritos". Muitos reservam certas áreas importantes da vida a deuses criadores que já não intervêm no mundo fenomenal, e assim asseguram regularidade, enquanto dentro da tradição judaico-cristã houve tentativas repetidas por teólogos de impor limites de facto nas atividades de Deus – um Deus correto não quebraria Suas próprias leis, etc.
Até mesmo se o dano pudesse ser limitado à ufologia (e dada a prontidão de ufologistas para invocar agências misteriosas para explicar tudo de vandalismo de futebol americano para as mortes de mineiros, isso é duvidoso!) é difÃcil ver que possÃvel valor prático tais pessoas poderiam ver em continuar investigações OVNI. O fato de que a maioria o faz sugere que poucos tomam a Super-ETH seriamente, e ao invés disso tratam-na como uma linha intelectual secundária curiosa. Para aqueles que realmente levam a Super-ETH a sério, é difÃcil acreditar que eles poderiam tomar um curso mais intelectualmente honesto que seguir um ex-leitor deste diário [Magonia] que deixou a ufologia pelo misticismo na sua tentativa de compreender o "outro".
Dadas estas conseqüências bastante desagradáveis parece-me muito pouco sábio evocar a ETH exceto como um último recurso desesperado, quando todos outros falharem. Talvez quando nós adquirirmos gravações simultâneas de vÃdeo de uma aterrissagem então tal especulação deva ser reavivada, mas se nós descartamos noções antropomorfas sobre espaçonaves não se segue de forma alguma que evidência de aeronaves incomuns seria evidência de ETs.
Referências
1. É interessante notar que entre os proponentes desta hipótese esta Sir James Jeans, muito admirado por uma geração prévia de ufologistas "anti-materialistas" e investigadores psÃquicos.
2. Veja Cantril, H. "The Invasion from Mars", Harper and Row, 1966. É interessante notar que o estudo de Cantril foi pago pelo Departamento de Defesa dos EUA.
3. Keyhoe, Donald. "True UFO Report".
4. . Keyhoe, Donald E. "The Flying Saucers are Real", Fawcett, 1950; "Flying Saucers from Outer Space", Hutchinson, 1953
5. Heard, Gerald. "The Riddle of the Flying Saucers", Carroll & Nicholson, 1950
6. Cramp, Leonard. "Space, Gravity and the Flying Saucer", Werner Laurie, 1954, é um exemplo clássico.
7. Um exemplo ainda mais ilustrativo vem da declaração de James McCampbell na "Encyclopedia of UFOs" onde ele sugere que nós perguntemos para as pessoas nos discos voadores como suas máquinas operam.
8. Ruppelt, Edward. "The Report on UFOs", 1956 9. in "Flying Saucers and the Straight-line Mystery", Criterion, 1956 10. Michel, Aime. "Of men, cats and magonia&
quot;, Flying Saucer Review (FSR), 16, 5, pp 19-20; "Project Dick", FSR, 18, 1, pp 13-19; "The mouse in the maze", FSR, 20, 3, pp 8-9; "The cat flap effect", FSR, 25, 5, pp 3-5 11. Rowlandson, Thomas Smith. "The Evolution of the Steam Hammer", Eccles, 1865. Este pequeno folheto não está, eu acredito disponÃvel no Museu britânico.
12. É bastante impossÃvel imaginar em detalhe realÃstico, digamos, uma sociedade na qual a mecanização total de produção é somada com a abolição total do desejo. Nós simplesmente não temos o vocabulário para articular os valores e aspirações de tal tipo de sociedade.
13. Discussão deste ponto é contida em Boyce, Chris. "Extraterrestrial Encounter", 2nd ed., New English Library, 1981. Para discussão que freqüentemente entra em antropomorfismo ver Hayakama (ed.). "Cultures Beyond the Earth". Como um exercÃcio intelectual os leitores podem gostar de especular no estilo de vida de seres "inteligentes" com seis sexos, sendo que o sexo da descendência é determinado por um padrão matemático no acasalamento com afinidades ao xadrez tridimensional, e que se comunicam através de mudanças no comprimento de onda no nÃvel do angström na cor de sua bioluminescência!




