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Discos Movidos a Hélice

Abduções e predisposição em pesquisa

20 de julho de 2009 Comments (0) Views: 1384 Ufologia

Passado e Futuro – Ciência e Ufologia

por Fernando José M. Walter, original em CETESbr
Brasília, DF, 26/01/2002

Embora o objeto das tentativas de contacto tenha mudado ao decorrer dos tempos, sempre teve o ser humano o intuito da busca de contacto com as chamadas “entidades superiores” ou “deuses”.

Muitos dos métodos existentes desde tempos imemoriais continuam a serem utilizados: cânticos, drogas alucinógenas, manipulação de objetos, e complexos rituais eventualmente permeados de variados graus de “iniciação aos mistérios” são alguns deles; tudo numa aparente contradição em relação aos recursos científicos disponíveis e que foram sendo também aperfeiçoados ao longo dos tempos. E por quê? Existem aqueles que consideram não só o continuado interesse, como também o aumento do número de adeptos dos acima mencionados métodos – particularmente a partir dos anos 50 – como um reflexo das rápidas e constantes mudanças das condições sociais, políticas e econômicas do chamado mundo civilizado. Entendemos que a questão ainda carece de estudos bem mais aprofundados, não sendo o objeto do presente texto.

É fato inquestionável que a virada do século XIX para o XX trouxe de forma definitiva e marcante a questão dos extraterrestres – modernamente associados em muitos círculos da sociedade leiga aos antigos “deuses” – não só para o imaginário popular como também para as pesquisas científicas. Obras literárias como ‘Somnium’ de Johanes Kepler e ‘Micromegas’ de Voltaire, nas quais o tema era abordado (embora nesta última sob o ponto de vista mais satírico e político) foram publicadas em períodos nos quais a imprensa ainda não atingia o grande público, porém os textos de H.G. Wells, Julio Verne e mesmo Edgar Rice Burroughs (sua série de livros relatando aventuras em Marte influenciaram Carl Sagan, dentre outros), por exemplo, tiveram milhões de leitores. Há que recordarmos também o conhecido caso da brilhante dramatização radiofônica dirigida por Orson Welles da ‘Guerra dos Mundos’ do citado H.G. Wells.

Na ciência, também nos primeiros anos do século XX, Percival Lowell divulgou suas pesquisas altamente controversas sobre Marte(essencialmente vinculadas aos famosos ‘canais’ do planeta vermelho, originalmente observados pelo astrônomo italiano Schiaparelli) e contribuiu ainda mais para o estabelecimento, até os dias de hoje, de toda uma cultura – enfatizamos, permeando a população leiga e a comunidade científica – relacionada ao espaço, a extraterrestres e, logicamente, à interação e comunicação com esses.

Alguns aspectos da questão ‘Comunicação com Extraterrestres’ bem como alguns fatos considerados atualmente como paradigmas (eventualmente como “verdades inquestionáveis”) da Ufologia surgiram, evidentemente, nesse período (fins do século XIX e primeiras décadas do século XX). Por exemplo, o formato típico do ‘disco voador’ atribui-se em geral (erroneamente, aliás) como tendo surgido através do “Caso” Kenneth Arnold em 1947.

Observe-se a figura à direita. Não é a capa de algum fanzine de ficção científica da década de 50, e sim da revista americana Science Wonder Stories de novembro de 1929 (© Gernsback Publications, Inc.). Ou seja, os elementos, a informação visual do ‘disco voador’ já lá estavam presentes. Outro aspecto: os editores ofereciam um prêmio substancial para a melhor história vinculada ao desenho da capa, o que sem dúvida causou a excitação de muitas mentes férteis – afinal, a oportunidade de receber US$ 300.00 em pleno início da Grande Depressão americana não era para ser desperdiçada…

E quanto à questão da comunicação com extraterrestres, no que tange à comunidade científica?

Usualmente, creditam-se as primeiras tentativas de comunicação (pelo menos sob o aspecto teórico das mesmas, utilizando-se o espectro eletromagnético no padrão dos projetos SETI mais convencionais) tendo como base o advento da Radioastronomia, originária das descobertas de Karl Jansky em 1931, as quais permitiram a identificação do ‘ruído de fundo’ produzido pelo núcleo de nossa galáxia. Porém, a história não começou aí. Nikola Tesla já em 1899 cogitou seriamente sobre a questão da comunicação interestelar, assim como Guglielmo Marconi, o qual publicou no New York Times em 1919 um artigo no qual relatava sua esperança quanto ao futuro papel das ondas de rádio na comunicação com eventuais civilizações extraterrestres.

Os textos de Marconi criaram uma enorme polêmica, e acabaram inspirando um artigo interessantíssimo na edição de março de 1920 da Scientific American (‘What Shall We Say to Mars?’), no qual os autores H.W. Nieman e C.W. Nieman sugerem uma forma mais eficiente para a utilização das ondas de radio de Marconi visando à comunicação com os “marcianos”.


Figura (I)

A figura (I) acima reproduz a sugestão publicada na Scientific American de utilização de tiras de papel usadas na época em telegrafia, com traços e pontos sendo definidos de forma a, quando plotados em papel adequado, permitirem a definição de figuras (claro que quanto maior a densidade e a quantidade de traços e pontos, mais precisas poderiam ser as figuras). Esses sinais telegráficos, assim codificados, seriam transmitidos para Marte.


Figura (II)

Sem dúvida um curioso precursor dos esforços desenvolvidos pelos pioneiros dos modernos projetos SETI, os quais, quase 40 anos após, utilizaram-se do – em essência semelhante – código binário(já então o alfabeto-base dos computadores) para enviar a primeira mensagem com informações visuais para estrelas que apresentavam bom potencial para o desenvolvimento de civilizações. A figura (II) ao lado apresenta, de forma referencial e comparativa, a mensagem em caracteres binários enviada por Frank Drake e Carl Sagan a partir do Radiotelescópio de Arecibo(Porto Rico) em 1974.

Vale também a referência da figura vista na metade inferior do desenho no item (I), quando comparado com aquele das placas enviadas junto com as sondas Pioneer 10 e 11, apresentando figuras humanas (a mão levantada em sinal de saudação em ambas as situações também deve ser ressaltada).

E quanto ao governo americano e suas forças armadas? desde quando existe o interesse em civilizações extraterrestres, baseando-se possivelmente em prevenção de ameaças à segurança nacional, etc? desde a Segunda Guerra? desde Roswell? Não, certamente. Em 1924, o astrônomo David Todd convenceu a Marinha e o Exército dos Estados Unidos a realizar uma busca de sinais de rádio eventualmente transmitidos a partir de Marte, aproveitando-se da proximidade do planeta com a Terra. Embora alguns sinais anômalos tenham sido detectados, os estudos iniciais não foram conclusivos – posteriormente foram identificados como perturbações causadas por radiações ultravioleta emitidas pelo Sol.

Na época, claro, teorias de conspiração, acobertamento e similares não estavam ainda em circulação. E assim, a ilustração abaixo foi candidamente veiculada na revista Radio Age de outubro de 1924, apresentando um membro do Exército Americano ao seu aparelho de rádio tentando identificar sinais vindos de Marte:

Um dos pontos que procuramos demonstrar n
este artigo é o de que os progressos científicos fazem-se de modo contínuo. Antigas idéias são constantemente aperfeiçoadas e reaproveitadas, levando-se em conta o progresso e os recursos técnicos disponíveis em cada período da história. Aqui foram apresentados exemplos disso, vinculados ao desejo de comunicação com civilizações extraterrestres, utilizando-se métodos científicos.

O mesmo poderia ser aplicado, claramente, à Ufologia. Muitos fatos que são constantemente associadas a eventos tipo Roswell, ou a teorias como as dos UFOs nazistas, cover-ups, dentre outros exemplos, na realidade permeiam o imaginário da sociedade desde muito tempo antes do seu estabelecimento “oficial” (seja lá o que isso significar). E mais: seguindo-se o exemplo da ciência, a Ufologia séria e responsável jamais deveria abrir mão da perspectiva histórica; fatos antigos não devem ser descartados como “datados” e “superados” por apressados pesquisadores e eventuais interessados no tema. A história contribui com fatos que nos permitem obter a adequada e real perspectiva do fenômeno, e (sem paradoxos) permite que novos conceitos sejam estabelecidos – seja com idéias originais, ou através da quebra de paradigmas impostos pela Ufologia “oficial”.

É o passado gerando o futuro. Justamente a sua função.

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