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Published on março 3rd, 2010 | by Kentaro Mori

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“Invasores” – Histórias reais de extraterrestres na Argentina

invasores ufologia destaques ceticismo “Psychoceramics”, ou psicocerâmica, é o estudo de vasos quebrados, uma fascinante área fundada pelo professor Josiah Stinkney Carberry. Um professor, é preciso dizer, que nunca existiu, para uma ciência, a psicocerâmica, que é uma piada acadêmica. Explica-se.

Os "vasos quebrados" são em verdade um trocadilho com os "crackpots", termo inglês que significa literalmente cerâmicas danificadas, mas também se refere a pessoas que possuem e promovem crenças pouco convencionais. O sujeito excêntrico, que frequentemente se compara a Colombo e Galileu em sua visão única, pouco convencional, é um vaso quebrado, é um crackpot, e é assim objeto de estudo da psicocerâmica.

Até que ponto esta piada pode ser engraçada, ou mesmo útil?

Invasores. Historias reales de extraterrestres en la Argentina”, do jornalista Alejandro Agostinelli (Editorial Sudamericana, 2009) caracteriza e demonstra o melhor que a psicocerâmica pode oferecer.

Longe de tomar uma posição crítica árida, expondo simplesmente as rachaduras nos potes, ou uma talvez pior, a cínica, buscando apenas ridicularizar aos crackpots, Agostinelli mergulha de forma acima de tudo humana, como uma figura ativa, investigando há décadas o tema e expondo a imensa riqueza de detalhes que pode haver em cada figura que alega manter contatos regulares com seres extraterrestres.

“Este livro espera proporcionar um modelo de análise segundo o qual a compreensão destas histórias não termina com descobertas fascinantes como a de Galíndez, [o cientista], segundo a qual a gramática de Ganimedes é idêntica ao castelhano. Para mim, a fantástica obstinação de Zagorski, [o crackpot], por revelar ao mundo sua experiência e deslumbrar com uma obra à qual dedicou considerável tempo e energia tem o mesmo valor histórico que a do cientista que se ocupou de refutá-la”.

O trecho resume a abordagem de "Invasores", e se deve agradar ao crente, não deve assustar ao cético: Agostinelli não é um relativista pós-moderno defendendo que explicações "científicas" sejam apenas um outro sistema de crenças – e que bastaria não acreditar na gravidade para sair levitando pelo Universo. Pelo contrário, há sempre menção às respostas prosaicas que possam estar por trás de fenômenos como supostos ataques de Chupacabras pela Argentina.

Ocorre no entanto que “a história não termina com estas descobertas fascinantes”. Há sempre mais. O que dizer de um cineasta que inventa uma história completamente fictícia e, ao ser confrontado com uma versão quase idêntica promovida como supostamente real, jamais verificada… cogita seriamente se sua história fictícia não poderia ser mesmo real?

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[ O autor, Alejandro Agostinelli, em busca de extraterrestres ]

“Eles riram de Colombo, eles riram de Galileu. Mas eles também riram do Bozo”, brincava Carl Sagan, mas o próprio astrônomo cético demonstrava uma notável compaixão em sua abordagem de crackpots. Porque, afinal, tanto Colombo quanto Galileu eram sim figuras excêntricas aos olhos de seus contemporâneos, vasos quebrados. E um exemplo ainda mais notável de excentricidade é justamente uma das maiores figuras da ciência: Isaac Newton.

O inglês que inventou o cálculo, o telescópio refletor, decompôs a luz e foi a primeira mente a desvendar os mecanismos por trás dos movimentos celestes, de quebra relacionando-os com aqueles bem mundanos, em verdade dedicou mais esforços a seus estudos bíblicos do que àqueles que o imortalizariam na ciência. Era um perfeito crackpot, que defendia sua virgindade com um fervor e orgulho que podem ser motivo de riso hoje. Mas este mesmo Newton, motivo de riso, é Newton, motivo de orgulho para toda a humanidade.

Há uma tênue linha separando o crackpot ridicularizado daqueles que acabam entrando para a história – e que, assim, acabam tendo suas excentricidades relevadas ou mesmo omitidas. E ela nem pode ser uma linha. Pode nem ser uma separação.

É muito pouco provável que quaisquer das figuras abordadas por Agostinelli, por mais curiosas que sejam, entrem realmente para a história, seja por suas idéias ou por seus supostos contatos alienígenas. Mas a psicocerâmica deve servir para descobrir como o espiritismo se mescla com os primeiros contatos com extraterrestres, e como dois irmãos revelando mensagens aliens eram também técnicos, mesmo entusiastas da ciência, dedicados como Newton a atividades mais bem vistas socialmente.

E que, como Marie Curie, podem ter falecido prematuramente por contaminação radioativa decorrentes de seus experimentos. Tais mortes não são realmente tão heróicas quanto a da descobridora da radioatividade – até porque os irmãos, décadas depois, deveriam estar mais do que cientes dos perigos de suas experiências – mas são no mínimo motivo para despertar certa simpatia do mais empedernido cético que ainda seja um admirador da ciência. Vasos quebrados dedicados integralmente a suas idéias e sonhos não-convencionais… com mais deles, as chances de que algum acabe se tornando um novo Galileu ou Newton são muito maiores.

“Invasores” por enquanto está disponível apenas em castelhano, e como o subtítulo deixa claro, são histórias extraterrestres argentinas. Vindas de nosso vizinho, contudo, e sendo a ufologia a área não tão grande que é, há várias referências que abarcam o Brasil, da dupla da revista Cruzeiro familiar a ufólogos tupiniquins João Martins e Ed Keffel, ao episódio do pouso de disco voador em Casimiro de Abreu, Rio de Janeiro, até a bizonha história do culto "Lineamento Universal Superior".

Com uma abordagem que deve agradar tanto àqueles que acreditam como àqueles que duvidam que extraterrestres estejam entre nós, seja na Argentina ou em qualquer lugar do Universo, “Invasores” cumpre seu subtítulo e revela as fantásticas histórias reais de extraterrestres na Argentina. É um livro mais do que recomendado, obrigatório na biblioteca de todo interessado por extraterrestres – e psicocerâmica.

- – -

"Invasores. Historias reales de extraterrestres en la Argentina" pode ser adquirido diretamente com o autor.

O primeiro capítulo com a história da tradução de Ganimedes ao épico poema gaúcho Martín Fierro pode ser conferido aqui: Primero fue el varkulets.

Confira outras resenhas e críticas por todo o mundo em Dijeron de “Invasores”.

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11 Responses to “Invasores” – Histórias reais de extraterrestres na Argentina

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  3. Fabio says:

    A fraquíssima foto de um UFO que ilustra a capa mostra que a obra começa bem… hehehehe

  4. Luís Brudna says:

    Mori, gostei muito das tuas observações neste texto.
    Não é fácil entender os ´crackpots´ e suas abordagens estranhas.
    Alguns crackpots conseguem pontuações maiores no ´crackpot index´ http://math.ucr.edu/home/baez/crackpot.htmlo que indica que são os mais difíceis de tolerar. :-)
    Os mais chatos talvez poderiam ser chamados de ´crackpots troll´. :-)

  5. Rodrigo says:

    Esses casos de extraterrestres na Argentina são reais mesmo?

  6. ¡Claro que son CASOS reales Rodrigo! Desde luego, eso no implica que los protagonistas cuenten la verdad; mi libro propone mostrar una dimensión de la realidad un poco más compleja que si ellos dicen verdades, mixtificaciones o delirios: habla de seres humanos, de sus experiencias, y de las interpretaciones de quienes se interesan por el tema.
    Gracias Kentaro por tu generosa reseña.
    Saludos,
    Alejandro Agostinelli

  7. Pingback: Dijeron de “Invasores” « Invasoresellibro's Blog

  8. Pingback: Perspectivas ufológicas de “Invasores” en los Estados Unidos y México « Invasoresellibro's Blog

  9. Pingback: Notas, entrevistas y críticas (enlaces externos) « Invasoresellibro's Blog

  10. “De los ufólogos serios se espera que rechacen las historias
    de las personas que afirman estar en contacto con seres de otros mundos”

    Creio que esta palavra é idêntica a “rechaçar”, em português, o que significa negar.
    Muita pretensão, e cada vez mais os cético, pseudo-céticos e ufólogos convertidos convertem objetos de estudo em clichês para delírio dos que, nada tendo testemunhado, ou fiéis aos conceitos de Sagan, deixam a neutralidade necessária principalmente por uma pessoal alegria (?) na negação que eu não entendo, pois não constrói.
    Não que eu esteja convencido de contatos com seres extraterrenos.
    Nem li o livro, apenas coletei essa frase inicial na cópia disponibilizada na Internet – PDF).

  11. juliana says:

    oi meu nome e juliana eu adorei esse conmentàrio

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