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O Abominável ET de Ponta
Grossa
Boneco de ET confunde ufólogos
Maurício José Kaczmarech, Vice-Presidente da
Sociedade Pontagrossense de Ciências
Astronômicas
e Kentaro Mori, editor CeticismoAberto |
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"Alienígenas entre nós”,
anunciava na capa, em grandes letras amarelas, a revista UFO de novembro de
2002. E muito apropriadamente, os leitores que abrissem a revista na página 42,
na seção "Encontros Cósmicos", veriam uma figura semelhante à ilustração da
capa, na nota intitulada “Criatura Assusta Casal”. O destaque era que tinha sido
fotografado um estranho ser em Ponta Grossa... quem sabe poderia ser o
“terrível” ET de Ponta Grossa, (um congênere do famoso mineiro, ET de Varginha),
do qual já existiam relatos de ter sido avistado próximo à represa de Alagados.
A história publicada diz que uma senhora ouviu um som estranho e quando olhou
por uma janela chocou-se a ponto de desmaiar ao ver uma criatura horrenda entre
a vegetação próxima da casa. O marido da desfalecida sacou de uma câmara
fotográfica e impressionou a película fotossensível com a grotesca imagem
daquele ente, parado entre os arbustos, a contemplar a casa com os humanos!!! A
fotografia obtida registrava o histórico incidente, mostrando uma criatura com
não mais de 1 metro de altura, entremeada na vegetação, dotada de uma volumosa
cabeça. Era algo revelador, que não era de nosso mundo... afinal, não estamos
mais sós no Universo!
A
farsa
Bem, a solidão para a Humanidade voltou,
quando da chegada às bancas da revista UFO de fevereiro
do ano seguinte, onde aparece a nota “Esclarecida
Fotografia de ET produzida em Ponta Grossa”. Neste
artigo é afirmado que aquela história e a fotografia não
tinham sido analisadas com profundidade, e que após a
grande polêmica que fez surgir entre os leitores daquela
revista, que desconfiavam que aquilo era uma montagem, a
revista teria solicitado a um consultor que fizesse uma
análise da fotografia suspeita.
Na análise
publicada chegava-se à conclusão de que “a foto é uma
fraude muito mal feita. Usando ferramentas gráficas
podemos realçar algumas áreas da imagem e constatar que
não passa de uma farsa” (Revista UFO, nº 84, p.42). Após
um imponente palavreado técnico, diz-se que aquela
fotografia foi feita a partir de um desenho que já tinha
sido publicado naquela mesma revista, várias vezes, e
que é possível dizer que aquele desenho foi aplicado,
via computador, na fotografia de uma mata. Por fim,
desprezou-se a fotografia afirmando que tal tipo de
imagem pode ser conseguida facilmente, com o uso de
programas comuns de editoração de imagens. Finaliza a
nota a admiração de que foi publicada naquele periódico
uma fotografia fraudulenta de ET, com o uso de um
desenho publicado anteriormente nessa mesma revista.
Esse desenho, aliás, é um dos mais vulgares em
publicações especializadas em discos voadores, tendo
aparecido primeiro em livros e revistas estrangeiras.
Era praticamente impossível que alguém não notasse a
semelhança, até demoraram, para isto!
Conclusões
ufológicas
O episódio até aí é interessante, entretanto,
quando outras informações são adicionadas, o fato
torna-se divertido. O vice-presidente da Sociedade
Pontagrossense de Ciências Astronômicas (SPCA) produziu
uma série de materiais didáticos da área da Astronomia,
e entre painéis com trajes espaciais, modelos de
foguetes, asteróides e planetas, consta um ET feito em
isopor e cartolina, com a aparência popularmente aceita
como padrão para o ser extraterrestre: baixinho, com um
corpo magrelo, enfiado dentro de um traje espacial
prateado e uma cachola calva dotada de olhos grandes e
saltados. Esse material didático servia para ilustrar o
assunto “Folclore da era espacial” (quando o lobisomem e
o boitatá foram substituídos pelo ET e pelo disco
voador). E por ser um material bem chamativo, várias
vezes foi emprestado para compor exposições e outras
atividades. Ao comparar a fotografia publicada na
revista e o ET feito em isopor, podemos ver que alguém
de posse de tal “alienígena”, fez alguns “ensaios
fotográficos” desse ET, montando um “book” do mesmo. Tal
fotógrafo também parece ter sido o empresário do ET de
isopor (mais conhecido no meio ufológico agora, como o
ET de Ponta Grossa!), pois pelas imagens da revista,
esse ET foi lançado no meio ufológico com uma imagem
provinda daquela seção ecológica de fotografias.
É difícil realmente
analisar uma fotografia e dizer se o que aparece nela é
uma coisa ou outra. Repetimos contudo que o que aparece
nela já havia sido publicado pela mesma revista, que
desde seu início é liderada pelo mesmo editor, Ademar
Gevaerd. Foram necessários meses para que se dessem
conta de tal, e apenas duas edições depois se
identificava a ilustração. E isto de uma publicação que
até pouco tempo se declarava “dedicada ao estudo do
extraterrestres” – recentemente teve seu mote alterado
para o “estudo dos discos voadores”.
Na análise
publicada afirma-se que a imagem foi provavelmente feita
com programas de computador. Possivelmente, sim.
Entretanto, agora a probabilidade aponta com um mínimo
de erro para o uso daquele boneco pouco eletrônico. E
quando observamos aquela “fraude muito mal feita”,
notamos que diante do corpo do ET aparecem o que devem
ser galhos com folhas em frente de parte da ‘criatura”.
Esses galhos aparecem desfocados, não tendo limites
nítidos com a imagem do ET, pelo contrário estão
opticamente concordantes com uma fotografia que fosse
tirada de algo entre as plantas, com objetos mais
próximos da câmara e outros mais afastados. A afirmação
de que essa fotografia poderia ser conseguida facilmente
com programas comuns de editoração de imagens não é
verdade exceto para profissionais de computação gráfica.
Basta qualquer um tentar montar uma imagem onde se
coloque uma imagem desfocada (que tem bordas pouco
definidas), perfeitamente unidas à imagem de outro
objeto, com a devida variação de tons e mesmo alguma
transparência.
Ignorou-se o mais
simples: que fosse um boneco fotografado em meio à
vegetação. A possibilidade, que agora se confirma como a
explicação ao caso, nem mesmo foi mencionada na
análise.

Crédito Devido
Talvez o grave no episódio sejam seus
bastidores. O leitor deve ter notado que até o momento
não mencionamos o nome do consultor da revista a quem é
atribuída a análise da imagem. Pois bem, ele foi o
consultor de arte Philipe David. Entramos em contato com
Philipe para a publicação deste artigo, apresentando-lhe
um rascunho, e ele gentilmente nos respondeu:
“[O artigo] tem
razão em um determinado ponto que é o fato de eu nem ter
levantado a possibilidade do boneco de papelão ou um
boneco de isopor. Foi mesmo um lapso não ter citado esta
possibilidade que como você sabe não compromete o
resultado dessa história, que é mostrar que [o caso]
era um embuste fajutíssimo, mas dou a mão à
palmatória”, admitiu.
Philipe também nos
confirmou qual ufólogo finalmente lembrou-se da
conhecida imagem. E essa é uma outra pessoa não
mencionada até agora: Josef Prado, ufólogo integrante do
grupo “BURN”.
Foi
Josef Prado o pesquisador de OVNIs que notou que o “ET
de Ponta Grossa” era uma reprodução de uma ilustração já
publicada pela própria revista UFO anos antes.
Vasculhando suas revistas antigas, Prado reencontrou o
desenho em uma edição de abril de 1993, comentando logo
depois sua descoberta com Philipe David. O que aconteceu
depois explica os desencontros ufológicos deste caso.
Não foi solicitada
uma análise da fotografia ao consultor de arte. “O
meu objetivo era mais um alerta para algo que no meu
entender e do Josef era uma imagem fraudulenta sendo
publicada de forma sem critério ou avaliação pela
revista do que uma análise da foto mesmo. Era uma coisa
meio informal e eu nem imaginava que ela seria publicada
em pedaços pela revista como sendo uma perícia”,
escreveu-nos Philipe. Isso responde ao lapso de se ter
ignorado uma possibilidade elementar. Philipe havia
feito comparações, através de um computador, entre a
fotografia e a ilustração. Não era uma análise, foi a
editoria da publicação que, para surpresa do próprio
autor, a converteu em tal.
Ainda mais grave é que,
se apenas nesta última parte mencionamos Josef Prado
como o ufólogo que tardiamente reconheceu o “ET de Ponta
Grossa” de sua aparição anterior na revista UFO, os que
lerem a “análise” publicada na mesma revista
esclarecendo a imagem não irão encontrar seu nome em
qualquer parte. E este não foi um lapso. Outra vez, por
decisão da editoria da revista, omitiu-se o nome de
Prado.
“A atitude da
revista UFO foi vergonhosa de não dar o crédito ao Josef
pela idéia. Isso tem base em desavenças pessoais do
editor [Ademar Gevaerd] com ele. Levei isso ao
conhecimento dele e do Gevaerd. Só lamento”,
disse de forma franca Philipe David.
Isopor
e cartolina
Relatos de assustadores criaturas de isopor
divulgados sem qualquer análise, “análises” tardias que
surpreendem ao próprio autor e decisões editoriais como
a de não publicar o nome de um investigador. É um
episódio da ufologia “dedicada ao estudo dos discos
voadores”.
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Agradecimentos
Devidos a Philipe Kling David e também a Josef David S.
Prado. O co-autor Kentaro Mori deseja expressar também
seu agradecimento a Maurício José Kaczmarech, autor da
quase totalidade deste trabalho.
Nota: Antes da publicação deste artigo,
contatamos Ademar Gevaerd, editor da revista
"UFO", solicitando comentários sobre a
publicação da imagem, mas sem fornecer
detalhes a respeito do conteúdo deste
artigo. "Como editor da publicação, você
teria comentários a fazer sobre o tema? Por
que se decidiu publicar a imagem, como e
quando se constatou sua falsidade, e
quaisquer informações adicionais?",
perguntamos. Reproduzimos a seguir na
íntegra as respostas do editor ao
questionamento:
"A foto foi recebida para publicação como
tantas outras. Chegam dezenas de imagens à
nossa Redação por semana, a maioria delas
digitais. Dessas, escolhemos apenas algumas
para as seções respectivas, por absoluta
falta de espaço. Todas essas seções têm o
objetivo de pemitir ao leitor sua
manifestação, que é publicada com o mínimo
de intervenção editorial (revisão e
copidesque). Não fazemos juízo de valor nem
atestamos a legitimidade ou não dessa forma
de manifestação, que vem em forma de relato
de experiência pessoal, opiniões ou defesa
de posição, crítica ou sugestão. Essa foto,
quando foi recebida, me soou estranha, mas
como havia sido enviada por um grupo de
pesquisa, achei por bem publicar, novamente
sem opinião expressa por parte do editor. O
fato do grupo de pesquisa ser de Ponta
Grossa (PR) pesou na decisão, porque
buscamos sempre prestigiar com a publicação
a manifestação de pessoas das mais diversas
localidades, especialmente de grupos. E
raramente tivemos manifestações de Ponta
Grossa (PR) publicadas. A foto foi uma das
que mais provocou reações na história da
revista, todas negativas, fazendo com que
muitos leitores buscassem esclarecê-la. Isso
foi feito numa edição consecutiva, quando se
publicou o mais consistente dos relatos
contrários à sua legitimidade".
Contestando a informação de que não seria
feito juízo de valor na referida seção,
informamos que na edição de outubro de 2003
(n.92), à página 42, na mesma seção
"Encontros Cósmicos", a revista "UFO"
publicou a imagem de um suposto objeto
luminoso, já acompanhada de um comentário
adequado afirmando ser um reflexo, baseado
em uma análise da mesma.