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A Lua é uma Base OVNI (com Bebês Gigantes)?
Selecione Jezebel
Kentaro Mori
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A humanidade havia dado seu grande
salto. Neil Armstrong marcava seu primeiro passo
em um outro mundo. E junto com mais de meio
bilhão de pessoas grudadas à tela da TV, os
outros mundos também teriam vindo assistir ao
evento. Ao vivo. Rumores de que a chegada do
homem à Lua foram acompanhados por naves
extraterrestres surgiram pouco depois do
histórico dia de 20 de julho de 1969, incluindo
provas como dramáticas transmissões de áudio do
contato imediato.
Logo após
os astronautas Neil Armstrong, Buzz Aldrin e
Michael Collins voltarem à Terra em meados de
1969, uma fita e a transcrição do que realmente
foi dito na Lua começaram a circular entre
ufólogos. A revista National Bulletin de
setembro do mesmo ano anunciava na capa: “Falsas
Falhas de Transmissão Escondem Descoberta da
Apolo 11. A Lua é uma Base OVNI!”. No
artigo, Sam Pepper deu sua versão da
“Transcrição da Fita Ultra-Secreta” de “um
vazamento perto dos altos escalões”. Ela segue
na íntegra, com o diálogo entre a Apollo 11 (A)
e o Controle da Missão (CM):
A:
O que era aquilo, que diabos era aquilo?
É tudo que eu quero saber. Esse bebês são
gigantes, senhor, eles são enormes. Não,
isso é apenas distorção no campo. Oh, Deus,
você não acreditaria...
CM:
O que... o que diabos está acontecendo?
Qual é o problema com vocês rapazes?
A:
Eles estão aqui, abaixo da superfície...
CM:
O que está aí? Controle da Missão
chamando Apollo 11...
A:
Entendido, estamos aqui, nós três, mas
encontramos alguns visitantes. Sim, eles
estão aqui há um bom tempo a julgar pelas
instalações.
CM:
Controle da Missão, repita a última
mensagem
A:
Eu estou dizendo, há outras naves por
lá. Estão alinhadas em fileiras no outro
lado da borda da cratera.
CM:
Repita, repita.
A:
Vamos ter essa órbita escaneada e voltar
para casa. Em 625 ao quinto, auto-relés
ajustados. Minhas mãos estão tremendo tanto.
Filme, sim, as malditas câmeras estavam
clicando daqui de cima.
CM:
Vocês conseguiram capturar algo?
A:
Não tínhamos mais filme na hora. Três
fotos dos discos, ou o que quer que fossem.
Podem ter queimado o filme.
CM:
Controle da Missão, aqui é o Controle da
Missão, vocês estão a caminho, repito, vocês
estão a caminho? O que é essa agitação sobre
OVNIs? Câmbio.
A:
Eles estão alojados lá embaixo. Eles
estão na Lua, nos observando.
CM:
Os espelhos, os espelhos, vocês os
instalaram, não?
A:
Sim, os espelhos estão todos no lugar.
Mas o que quer que construiu essas naves
provavelmente irá vir aqui arrancá-los pelas
raízes amanhã...
Com algumas
variações e trechos omitidos ou adicionados, a
“Transcrição Pepper” e seus “bebês gigantes” é
seguramente o diálogo mais circulado para apoiar
as histórias de encontros da Apollo 11 com
extraterrestres na Lua. Sendo assim, é mais do
que necessário questionar: é mesmo real?
“Nós três”
Antes de
mais nada, uma leitura atenta da transcrição
Pepper denuncia alguns erros crassos no próprio
diálogo. “Estamos aqui, nós três”, os
astronautas teriam dito, o que não faz muito
sentido já que somente Amstrong e Aldrin estavam
sobre a superfície lunar – Collins permanecia em
órbita. Enquanto isso, cada vez que se repete
“Controle da Missão” a transcrição se torna mais
inverossímil. Essa expressão de enrolar a língua
nunca foi usada nas comunicações, dando lugar ao
termo muito mais simples, “Houston” (“Houston,
temos um problema”, ao invés de “Controle da
Missão, temos um problema”). “Repita, repita” é
outra expressão não usada, substituída por “diga
de novo” (Say again), por exemplo.
A essas
incoerências se somam as tecnobaboseiras na
transcrição. Se você não entendeu o que
“distorção no campo”, “órbita escaneada”, “em
625 ao quinto”, “auto-relés ajustados” querem
dizer, não se preocupe. São termos que soam
técnicos mas não apenas nunca foram usados, como
não têm qualquer significado real. A
tecnobaboseira é muito usada em ficção
científica, como a rebimboca da parafuseta.
Apenas isso
talvez já bastasse para descartar a suposta
transcrição como uma fraude mal-feita. A
história, contudo, vem sendo repetida há décadas
na ufologia, apoiada por fontes que lhe
forneceriam corroboração. Uma olhada a essas
fontes notáveis é nosso próximo passo.
Shazam!
Um
grande inconveniente na investigação da
transcrição Pepper é o detalhe de que o próprio
Sam Pepper desapareceu. Não há qualquer outra
contribuição desse jornalista, não localizado
por ninguém, e pouco citado na própria ufologia.
Mas deixemos seu estranho desaparecimento para
depois, o inconveniente é logo deixado para trás
porque outros vieram à tona não só para apoiar a
transcrição e os “bebês gigantes”, mas
ostentando credenciais impressionantes. Entre
eles, Otto Binder, “especialista em
astronáutica”, Maurice Chatelain, “chefe de
comunicações da NASA”, e Christopher Kraft, nada
menos que diretor da base em Houston durante as
missões.
Comecemos
com Kraft, que realmente foi diretor em Houston.
Diversas fontes citam Kraft como a voz do
“Controle da Missão” que falava com os
astronautas durante os contatos imediatos. Elas
geralmente repetem um erro de tipografia e
soletram seu nome como “Craft”. Este é o menor
dos erros, já que o problema principal nessas
histórias é o de que Kraft de fato não falava
diretamente com os astronautas. A tarefa era
atribuída aos Capcom (Capsule
Communicator), normalmente também
astronautas que faziam a ponte para se preparar
para suas futuras tarefas no espaço. O Capcom
da Apollo 11 durante as atividades fora do
veículo foi o Capitão Bruce McCandless, que em
1984 se tornaria o primeiro homem a flutuar
livre no espaço, sem um cordão prendendo-o à
espaçonave.
Passemos a
Otto Binder, fonte muito citada como
“especialista em aeronáutica”, o que ele
realmente não foi. Binder era autor de histórias
de ficção científica e revistas em quadrinhos em
meados do século 20, sendo particularmente
famoso no ramo. Roteirizou e criou personagens
de centenas de histórias da Marvel, em
particular do capitão Marvel (“Shazam!”).
Entusiasta de OVNIs e empolgado com os rumores
de naves acompanhando a Apollo 11, promoveu-as
com afinco e foi retribuído ao ser envolvido
como uma das peças centrais em tais rumores. Seu
artigo na revista Saga sobre o assunto é
muito citado. Posteriormente ele publicaria na
mesma revista um artigo sobre mortes misteriosas
de ufólogos.
E chegamos
a Maurice Chatelain. Se a transcrição Pepper é a
mais conhecida, provavelmente é porque seu
trecho dos “bebês gigantes” foi repetida por
Chatelain, invariavelmente citado entre todos
rumores de astronautas e OVNIs, já que
supostamente seria “chefe de comunicações da
NASA”. O que ele definitivamente não foi.
Engenheiro francês que emigrou para os EUA,
Chatelain trabalhou com sistemas eletrônicos de
comunicação e eventualmente foi empregado de uma
empresa chamada North American Aviation.
Essa empresa de fato esteve envolvida com o
projeto Apollo, como uma das milhares de
empresas e universidades com trabalho
terceirizado pela agência espacial. Em seu ápice
no projeto Apollo, a NASA contava com 35.000
funcionários diretos e mais de 400.000
indiretos. O interessante a nós é que Maurice
Chatelain não era nenhum deles.
James
Oberg, engenheiro espacial em Houston, contatou
a
North American Aviation na Califórnia em
busca de mais informações sobre o que exatamente
Chatelain teria feito enquanto trabalhava lá. E
descobriu que Maurice Chatelain já não
trabalhava mais na companhia durante o projeto
Apollo. Nunca foi “chefe de comunicações”, e
assim dificilmente instruiu os astronautas em
palavras-código, como propagandeado. Chatelain
nunca esteve associado à NASA, nem mesmo como
empregado de uma empresa terceirizada.
Tanto com
Kraft, como com Binder e Chatelain, podemos
traçar o caminho provável pelos quais eles se
transformaram em fontes desses rumores.
Cristopher Kraft, diretor do centro especial em
Houston, pelo descuido de alguém se transformou
na própria voz do “Controle da Missão”. Otto
Binder, autor de histórias em quadrinhos e
ficção científica, se tornava pelo lapso de
outro alguém em “especialista em astronáutica”.
E Maurice Chatelain, autor de um livro chamado “Nosso
Ancestrais Vieram do Espaço”, onde é
descrito pouco modestamente como “ex-responsável
pelos sistemas de comunicação da NASA e um dos
fundadores do programa Apollo” se
transmutava em “chefe de comunicações da NASA”
pela falta de investigação de todos.
Para
encerrar nossa olhada nas fontes, voltamos então
ao jornalista Sam Pepper e seu desaparecimento.
Antes de pensar em conspirações, quem sabe
olhando ao artigo de Binder sobre mortes
misteriosas de ufólogos, é bom notar que o
National Bulletin era um tablóide, veículo
popular na América do Norte e que aqui no Brasil
teria um paralelo com o infame e já extinto
Notícias Populares. É prática comum de tais
tablóides inventar histórias, e com elas,
inventar jornalistas. O que significa que na
transcrição Pepper, tanto a transcrição como
Pepper eram fictícios.
Selecione Jezebel
A
transcrição Pepper não está sozinha. Uma fraude
um pouco melhor, desta vez com uma gravação
propriamente dita – e não apenas uma transcrição
– lhe faz uma certa homenagem, já que é
inspirada nela. Promovida em um documentário
italiano, divulgada por ufólogos e muito
circulada pela internet, onde pode ser baixada e
ouvida, a gravação original em inglês pode ser
traduzida como:
Armstrong: Ah! O que é isto?
Aldrin: Temos alguma explicação para
isto?
Houston: Não temos, não se preocupem,
continuem seu programa!
Armstrong:
Oh, garoto, é...
é... é algo realmente super
fantástico aqui... você... você nunca
poderia imaginar isto!
Houston: Entendido, nós sabemos sobre
isso, você pode ir para o outro lado? Volte
para o outro lado!
Armstrong: Bem, há algo como um topo
lá em cima com uma coisa bem espetacular...
ah meu Deus! O que é aquilo lá? É tudo que
eu quero saber! Que diabos é aquilo?
Houston: Vá para Tango, Tango!
Armstrong: Ah! Há agora algo como uma
luz lá!
Houston: Entendido, nós sabemos,
perdendo comunicação... Bravo Tango, Bravo
Tango, selecione Jezebel, Jezebel!
Armstrong:
... sim... ah!...
mas isto é inacreditável!
Houston: Nós o chamamos, Bravo tango,
Bravo Tango!
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“Science Report, 1 de abril de
1977” |
Uma das
primeiras fontes que promoveu essa gravação foi
um livro intitulado “Alternativa 3”,
baseado em um programa de TV transmitido pela
Anglia Television britânica meses antes, em
20 de junho de 1977. O programa era o último de
uma série de documentários científicos sérios,
Science Report, mas estava originalmente
agendado para ser exibido em 1 de abril, como
uma brincadeira. Embora tenha acabado sendo
exibido em junho, permaneceu com o crédito final
destacando a data original: o dia da mentira,
dos tolos.
Os que
assistiram ao pseudo-documentário de TV
descobririam que o misterioso desaparecimento de
alguns cientistas ingleses revelava uma enorme
conspiração mundial em que o governo dos Estados
Unidos e a União Soviética, em um dos auges da
Guerra Fria, eram na verdade parceiros que
cooperavam em segredo. O plano sinistro, a
“Alternativa 3”, envolvia o colapso ambiental da
Terra e a morte da maior parte da população,
enquanto a elite estabelecida escaparia para
colônias espaciais na Lua ou em Marte. O sóbrio
apresentador encerrava o programa dizendo: “nós
sentimos muito que as implicações do que você
viu são pouco otimistas sobre o futuro da vida
neste planeta, contudo, tem sido nossa tarefa
apresentar os fatos, como os entendemos. E
esperar a resposta. Boa noite”. Isso, claro,
seguido pelo crédito de 1 de abril.
Quando
assisti ao pseudo-documentário, o que sim
descobri foi que o suposto áudio “da Apollo 11”
que estava investigando não estava baseado no
livro Alternativa 3, e sim que era nada
menos que o áudio copiado diretamente do
programa de 1 de abril! O áudio original desse
diálogo pode ser ouvido pouco mais de um minuto
após o início da segunda parte do show.
Os créditos
finais da paródia “Alternativa 3”, se havia
dúvidas sobre a autenticidade do programa,
listam os personagens e os atores que
desempenharam os papéis. E lá estava o ator
Shane Rimmer como nosso astronauta, “Bob
Grodin”. Uma pesquisa rapidamente revelou sua
página pessoal e a descoberta de que Rimmer é um
ator com décadas de profissão que deve ser
familiar a todos amantes de ficção científica.
Sua estréia como ator, em 1963, foi como o
“co-piloto Ace” no clássico de Kubrick,
Doutor Fantástico. Daí em diante, Rimmer
estrelou vários filmes como Fu Man Chu,
com Peter Sellers, a série 007, Superman
2 e 3 e nada menos que Star Wars, como um
engenheiro Incom.
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| Shane
Rimmer em 007 e Star Wars |
Rimmer
também foi a voz de “Scott Tracy” na série
animada Thunderbirds, dos anos 60. Contatei
assim o ator para confirmar se ele era de fato a
voz do “astronauta Bob Grodin” no áudio em que
diz ver coisas “super fantásticas” na Lua. Ele
gentilmente respondeu:
“Sim,
aqui está a confirmação de que era eu, Shane
Rimmer, como a voz de Bob Grodin em ‘Alternativa
3’. Foi divulgado, como parte da promoção da
exibição aqui no Reino Unido, que era gravado de
um link secreto de comunicação entre a Apollo 11
e o controle da missão.”
Negativas
A NASA,
claro, nega oficialmente todas essas histórias.
O que faz com razão, já que como vimos, elas
podem ser demonstradas como fraudes. James Oberg
entrevistou dois peritos da agência, Terry White
e Charles Redmond, para “Os Incidentes OVNI da
Apollo 11”, capítulo de seu livro em que lida
com diversas fotografias e filmes de supostos
OVNIs nas missões espaciais.
“Nós não
temos nenhum segredo OVNI. De fato, esta é uma
área onde nosso escritório gastou mais tempo
vasculhando fotografias e transcrições para as
agências de notícia, em resposta às assim
chamadas 'alegações OVNI'. Mas até a sugestão de
que estamos retendo qualquer coisa, simplesmente
não é verdade”, disse Redmond. “Nós
sabemos sobre casos onde fornecemos filmes e
relatos e estudos técnicos e então vimos essa
informação distorcida e dando falsas impressões.
Isso é de onde estas histórias sobre astronautas
e OVNIs vêm: informação não verificada e
distorcida”, completou White.
Todas as
fotografias, transcrições de voz e relatórios da
missão Apollo estão em domínio público,
disponíveis para exame aos interessados. Para a
Apollo 11, são quase 1.500 fotografias e dúzias
de rolos de filme, com transcrições chegando aos
milhares de páginas. Quem se deu o trabalho de
checar todo esse material?
“Eu fiz
esse trabalho”, declarou Oberg, que continua
“Outros escritores também. O Dr. J. Allen
Hynek visitou o centro espacial de Houston em
julho de 1976 e lhe foi mostrado o material em
questão. A história original da NASA,
surpreendentemente, foi confirmada: Todo o
material está disponível. Hynek disse isso em
uma entrevista para a Playboy em janeiro
de 1978. A opinião de Hynek: estas histórias
OVNI são falsas”.
E estes
supostos áudios são assim tão reais quanto Papai
Noel – que segundo Chatelain seria o código
usado pelos astronautas para quando vissem
discos voadores. Mas como vimos, o francês
Chatelain nunca fez parte da NASA.
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