"A Maior Manifestação de UFOs já
vista na Terra, ... com enormes luzes
observadas sobre várias regiões dos Estados
Unidos, por mais de 100 mil pessoas. ... O caso
é considerado o maior acontecimento ufológico
de todos os tempos".
É assim que um documentário sobre as chamadas
"Luzes de Phoenix" vem sendo vendido no Brasil.
Mas o que aconteceria se descobríssemos que o "maior
acontecimento ufológico de todos os tempos"
em verdade já foi explicado há vários anos, e
não envolveu OVNIs?
Phoenix, no Arizona, EUA, realmente foi palco de
um espetáculo OVNI na noite de 13 de março de
1997. Uma série de luzes no céu foi descrita por
várias testemunhas, e por volta das dez horas da
noite, a "pièce de résistance" OVNI: as
luzes em uma formação triangular puderam ser
vistas claramente durante vários minutos por
milhares e milhares de testemunhas. E, desta
vez, várias delas filmaram o evento, entre elas
a americana Lynne Kitei, que produziu o
documentário "As Luzes de Phoenix: Não estamos
sós". Confira o trailer:
Este realmente poderia ser o "maior
acontecimento ufológico de todos os tempos". Não
fosse o detalhe de que a abundância de evidência
física permitiu identificar as luzes.
Quando há vários vídeos de um mesmo objeto
tomados de pontos de vista diferentes, é
possível estimar sua distância e posição a
partir de uma técnica simples chamada
"triangulação". É trigonometria simples,
ensinada no colegial. Avaliando a direção em que
cada um dos observadores apontava, e traçando
sua posição exata, constrói-se um triângulo em
que uma das pontas indicará onde estava o
objeto.
Foi o que fez em 2 de setembro de 1998, pouco
mais de um ano depois dos eventos, o físico
americano Bruce Maccabee. Maccabee é um
ufólogo que defende a existência de OVNIs
mas ainda é capaz de realizar algumas análises
sérias. Seu trabalho, com base em três vídeos
das Luzes, pode ser lido em
Report On Phoenix Light Arrays. Disponível
há quase dez anos, sua conclusão:
"descobrimos que as luzes estavam muito
distantes (muito mais do que se
acreditava). Também concluímos que as
luzes não permaneceram imóveis. ...
Medidas cuidadosas das luzes individuais
do conjunto de 13 de março mostra um
movimento descendente e à esquerda. Além
disso, enquanto todo o avistamento tenha
durado vários minutos (meia hora, etc.),
a duração de cada luz individual estava
na faixa de 4 a 5 minutos quando vista
em sua 'duração completa'. As luzes de
duração mais curtas no vídeo de Krzysten
de 13 de março são provavelmente devidas
à obstrução pelos topos das montanhas
perto do pico 4512', uma vez que
determinamos que as luzes estavam
ligeiramente acima das montanhas
enquanto desciam".
A distância das luzes, determinada com base em
evidência objetiva múltipla, era de 110 a 130km!
Muito distantes, realmente. E como vimos, a
triangulação permitiu determinar não apenas a
distância, como a posição das luzes. Que estavam
justamente sobre uma área militar de treinos,
atrás de uma cadeia de montanhas, em particular
a de "Estrella". Maccabee conclui ainda:
"Todas
as características ... são consistentes
com sinalizadores militares
lançados a grande altitude sobre a área
de exercício da Força Aérea e vistos de
grandes distâncias sobre as cadeias de
montanha. A luminosidade extrema destes
sinalizadores em particular não deve ser
descartada. Eles irradiam quase 2
milhões de lúmens de luz visível,
comparável ao farol de um avião apontado
diretamente ao observador de muitos
quilômetros de distância. A uma
distância em torno de 100 quilômetros a
dificuldade de ver a fumaça ou o
pára-quedas sustentando o sinalizador
seria comparável à de ver um grande
planeta próximo de uma estrela
brilhante: a radiação refletida seria
ofuscada pela radiação direta da fonte
de luz".
Sim, as Luzes de Phoenix foram
sinalizadores militares, uma espécie mais
sofisticada de fogos de artifício fabricada para
ser visível a centenas de quilômetros. Não só
seu comportamento, aparência e posição foram
determinados de forma objetiva, como os próprios
militares admitiram sua responsabilidade neste
"espetáculo OVNI".
O tenente coronel Ed Jones pilotou um dos quatro
aviões A-10 que lançaram os sinalizadores
naquela noite. Como
contou ao jornal Arizona Republic,
ele e seus colegas estavam voando na última
noite da "Operação Snowbird", e em seu caminho
de volta a Tucson, ele instruiu todos a ejetar
os sinalizadores que ainda tinham a bordo. Já
que era a última noite de manobras, era mais
simples ejetar os sinalizadores do que pousar
com eles e armazenar a munição em terra.
"Um
de nossos colegas tinha em torno de 10
sobrando, e ele começou a soltá-los, um
depois de outro", Jones disse. "Assim,
em intervalos de alguns segundos, quando
o próximo sinalizador estava pronto para
ir, ele apertava o botão e o liberava".
Jones olhou para trás e viu uma série de luzes
igualmente espaçadas sobre o deserto, flutuando
muito lentamente. Cada uma era extremamente
brilhante, alguns milhões de candelas, ele
sabia. Eles pareciam flutuar porque o calor do
sinalizador subia em direção ao pára-quedas,
como se fossem pequenos balões de ar quente. Os
aviões se dirigiram à base.
Como se isso não fosse suficiente, outras
análises ainda mais gráficas mostraram como o
desaparecimento gradual das luzes nos vídeos
podia ser mesmo associado às montanhas. Enquanto
os sinalizadores caíam, um a um desciam abaixo
do nível das montanhas à sua frente. O
laboratório Cognitech comparou filmagens dos
"OVNIs" à noite com uma filmagem diurna no mesmo
local, demonstrando muito claramente como cada
ponto de luz desaparece exatamente quando desce
abaixo das montanhas:
Não há margem para dúvida razoável. Os múltiplos
vídeos, quando analisados, permitem determinar
claramente que as luzes estavam atrás da cadeia
de montanhas, sobre uma área de treinamento
militar. Seu comportamento, registrado
fisicamente nos vídeos, é o de pontos de luz
extremamente brilhantes caindo lentamente,
derivando levemente para os lados. Exatamente
como sinalizadores militares, sobre os quais há
confirmação de que foram lançados exatamente
naquele momento.
Não estamos sós Mas nem toda essa evidência convence
alguns. Entre eles a própria Lynne Kitei, autora
e vendedora do documentário sobre as Luzes
referido acima. O mais curioso é que os vídeos
de Kitei são um dos três vídeos usados por
Maccabee em suas análises, e sobre os quais se
pôde determinar conclusivamente serem
sinalizadores.
Frente a tal,
Kitei tentou argumentar que "ninguém pôde
triangular os vídeos ... porque os cinegrafistas
filmaram em um período de tempo de 30-40 minutos
de direções diferentes". Não se entende muito
bem o que Kitei quis dizer, mas supondo que ela
compreenda o que seja uma triangulação, ela pode
ter tentado dizer que não haveria vídeos tomados
simultaneamente o que impossibilitaria uma
análise.
Isso não é verdade. A própria análise de
Maccabee detalha como ele associou os três
diferentes vídeos. Não apenas isso, não foi
apenas Maccabee que pôde fazer uma triangulação.
Ainda em 1998, e mesmo antes de Maccabee, o
americano Timothy Printy também pôde efetuar
triangulações baseado em dois vídeos, um dos
quais também foi usado por Maccabee.
Kitei também diz que "nos dez anos desde este
avistamento em massa histórico, ninguém relatou
ter visto a formação anômala de luzes atrás da
cadeia de montanhas por volta de 10 horas de
noite".
Isso também não é verdade. Como
Printy nota, Bill Hamilton descreveu
inicialmente as luzes "sobre" as montanhas e
pouco depois, repetiu que elas estavam "atrás"
das montanhas. Um dos cinegrafistas, Tom King,
também relatou inicialmente que elas "poderiam
ter ido atrás das montanhas" e que estavam
"sobre" elas. Posteriormente tanto Hamilton
quanto King insistiriam que as luzes estavam à
frente das montanhas. Mais alguns anos depois, e
King admitiu que o vídeo era de sinalizadores. O
ufólogo Bill Hamilton, assim como Lynne Kitei,
ainda insistem em negar os fatos.
As verdadeiras
Luzes de Phoenix O mais irônico é que os vídeos que
foram os principais responsáveis pela fama das
Luzes de Phoenix, e que foram identificados como
sendo sinalizadores, acabaram por literalmente
encobrir um avistamento de fato inexplicado do
que podem ter sido OVNIs naquela mesma noite.
O próprio Bruce Maccabee alerta que "um
avistamento anterior, por centenas de pessoas ao
redor das 8:30 da noite de um objeto triangular
negro que bloqueou as estrelas, era um OVNI".
Isso mesmo, poucas horas antes do espetáculo dos
sinalizadores militares, várias testemunhas
relataram um enorme OVNI triangular com algumas
luzes que teria voado sobre suas cabeças.
Infelizmente, não há muita --se é que há --
evidência física segura deste avistamento
anterior. Há essencialmente apenas muitos
relatos, e nenhum ufólogo esteve interessado em
analisá-los seriamente. Como resultado, este
"OVNI" permanece inexplicado.
Tim Printy tem, em inglês, uma boa compilação e
análise de todo o episódio das "Luzes de
Phoenix" em seu sítio:
March 13, 1997: The Arizona UFOs. Printy
chega a sugerir uma explicação mesmo para este
OVNI anterior, mas apesar de prosaica e muito
interessante, ela não é conclusiva, justamente
pela falta de maior evidência física.
Os verdadeiros OVNIs em Phoenix não são assim
muito diferentes de outros casos conhecidos e
ainda não resolvidos, baseados quase unicamente
em relatos. Já as "Luzes de Phoenix", em vários
vídeos e imagens, foram sinalizadores militares.
Nos anos seguintes, outros exercícios militares
na região provocaram mais "avistamentos de
OVNIs", devidamente explorados por "ufólogos",
mesmo quando os militares alertaram de antemão
sobre suas peripécias.
Esse é, enfim, "o maior acontecimento
ufológico de todos os tempos".