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O Ovo do ET e a Bola de Cristal
Kentaro Mori
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"De
repente, aquelas três tochas de fogo compridonas
passaram e ficou todo mundo aperreado, gritando, meu
Deus, meu Deus, já vai se acabar o mundo agora”, contou
Gonçala Souza da Silva. Falava sobre o fenômeno nos céus
do estado do Piauí e Ceará que interrompeu a festa de
casamento de seu filho no fim de julho de 2004.
Em outra festa a cinqüenta quilômetros de distância de
Gonçala, João Batista de Souza também relata o que
testemunhou: “Eu olho para o céu e vejo aquilo vindo,
com a velocidade mais monstro do mundo, como se fosse um
anjo de braços abertos. Eram três bolas de fogo, uma no
lugar de cada mão e outra na cabeça, e eu disse para o
Genival, meu genro: 'Rapaz, vamos correr daqui senão vai
morrer todo mundo'. Ele disse que não era caso, mas mal
as bolas de fogo tinham passado ouvimos três estrondos e
começou a ficar escuro, escuro. Parecia que ia chover,
mas como, se o céu estava estrelado? Depois, logo
clareou, e quedê o povo? Um bocado de gente correu para
o mato e ficou escondida embaixo dos cajueiros”.
Apenas meia hora depois as pessoas temerosas com o fim
do mundo começaram a retornar. “Continuou a festa; se
fosse para morrer, o povo morria se divertindo”,
completou João. Eles haviam pago para entrar na festa,
afinal.
O fenômeno em questão foi bem real, testemunhado por
centenas, talvez muitos milhares de pessoas. Ele deixou
evidências físicas claras, destroços chegaram ao chão e
foram recolhidos. Mas a forma simplória e supersticiosa
como foi visto – e temido – pela população se torna
ainda mais curiosa quando descobrimos o que afinal caiu
sobre o nordeste brasileiro.
O objeto foi parte de um dos maiores feitos científicos
da história humana. Ou pelo menos do ano de 2004. E de
fato teve a ver com “coisas de outro mundo”.

Trajetória da reentrada do
objeto (Cords)
NASA
Passados dias, mesmo semanas depois da queda do objeto,
sua identidade permanecia uma incógnita, apesar das
autoridades terem visitado o local e partes dele terem
sido enviados para perícia. Talvez a parte mais
interessante, uma esfera apelidada pelos locais do
município de Cabeça de Vaca, Ceará, como “Ovo do ET”,
deixava evidente que era um objeto artificial. Mas
considerá-lo “ET” de pronto seria apenas outra
superstição, não muito diferente de pensar que seria o
fim do mundo.
Todo esse mistério poderia ser resolvido com uma busca
na internet pelos termos “reentrada” e “atmosfera”, em
inglês. Através deles, já na primeira página, o
venerável Google revela o sítio do Center for Orbital
and Reentry Debris Studies (Cords), com sede na
Califórnia, EUA. Foi o que encontrei quando fiz a busca
em 31 de julho. Encontrei lá a lista de reentradas
previstas para objetos em órbita, e o possível culpado.
Entre os dias 24 e 25 de julho de 2004, justamente a
data da queda, o segundo estágio de um foguete lançador
Delta II deveria ter reentrado na atmosfera. Não só a
data e o horário coincidiam, a previsão da trajetória do
objeto passava justamente pelo norte e nordeste do
Brasil. Contatei o Cords e solicitei informações que
confirmassem que a queda de objetos no Brasil fosse de
fato devida à reentrada prevista. Fui rapidamente
atendido pelo diretor do centro, que agradeceu a
informação e prometeu uma confirmação.
Em 4 de agosto, finalmente recebi uma confirmação da
identificação, e ela veio da própria NASA, através de
Nicholas L. Johnson, cientista-chefe e coordenador do
Orbital Debris Program Office, do NASA Johnson Space
Center.
“Sr. Mori,
Sou o Cientista-Chefe e Gerente do Programa
de Destroços Espaciais na NASA. Uma de
minhas responsabilidades é monitorar a queda
orbital e reentrada de espaçonaves e
estágios superiores de veículos lançadores
da NASA. A reentrada do segundo estágio
Delta 2 foi acompanhada de perto no fim do
mês, e notamos que a reentrada inicial
ocorreu sobre o norte do Brasil durante a
noite de 24-25 de julho, de fato apenas
poucos minutos depois de 25 de julho GMT”,
confirmou Johnson. “Hoje fui informado de
que alguns fragmentos desse estágio podem
ter sido recuperados no Brasil e que você
está familiarizado com a situação”,
completou.
Estava finalmente
identificado o objeto, o segundo estágio de um
foguete lançador Delta 2. Partindo em 7 de julho
de 2003 do Cabo Canaveral, ele lançou uma carga
muito especial: o segundo Rover marciano,
Opportunity. A mesma missão dos Rovers
marcianos, que no momento em que escrevo estas
linhas continuam funcionando em Marte, e que foi
reconhecida como o maior avanço científico do
ano de 2004 pela prestigiada revista Science.
Depois de lançar com sucesso a sonda rumo ao
planeta vermelho, cumprindo sua parte na
sofisticada missão científica, o estágio do
foguete Delta 2 permaneceu em órbita por pouco
mais de um ano, até que reentrou na atmosfera
sobre o nordeste de um país ao sul, provocando
pânico e todo tipo de especulações, do
supersticioso apocalipse até a pseudociência dos
extraterrestres.
O “Ovo do ET” era da NASA.


Dois momentos da mesma esfera
pressurizada: antes de seu lançamento,
sendo examinada no Cabo Canaveral, EUA; e depois
da reentrada na atmosfera,
no município de Cabeça de Vaca, Ceará: o "Ovo do
ET"
Mídia e
autoridade
Os relatos da senhora Gonçala e do senhor João
Batista, no início deste texto, são parte de uma
boa matéria publicada pelo jornal Estado de São
Paulo, “Bolas de fogo no céu e os cabras todos
aperreados”, do enviado Valdir Sanches,
abordando outras histórias e relatos locais. Com
tal enfoque, a imprensa pareceu mais interessada
no curioso pânico da simplória população local
do que exatamente no que havia caído. Publicada
em 8 de agosto, quatro dias depois que a NASA já
havia confirmado a identificação do objeto, a
matéria ainda informava que “até hoje não se
sabe o que provocou as luzes e a explosão”.
Talvez a imprensa tenha assumido que seria
apenas um desinteressante lixo espacial, e
também porque confiasse que as instituições
nacionais resolvessem o mistério. Contudo, não
só a mídia não havia identificado o objeto, tudo
indica que nenhuma autoridade brasileira
tampouco o havia feito corretamente, e assim a
própria NASA desconhecia que fragmentos haviam
de fato chegado ao solo e sido recuperados.
A precariedade da situação se torna evidente
quando ficamos sabendo que justamente o “ovo do
ET”, em verdade uma esfera pressurizada de
titânio e o fragmento mais relevante, acabou
sendo roubado antes que fosse encaminhado à
perícia. Ainda não foi recuperado.
Todas essas falhas e confusões são mais
decepcionantes quando lembramos que em 20 de
janeiro do mesmo ano um evento praticamente
idêntico ocorreu na Argentina, ao sul da cidade
de Corrientes. Lá também, a população ouviu um
estrondo, assustou-se, encontraram-se fragmentos
de objetos, especulou-se sobre uma origem
alienígena, constatou-se uma origem terrestre e
mesmo confundiu-se a origem terrestre: teriam
visto a inscrição "Made in Italy" em um dos
fragmentos.
Mas, no caso argentino, apenas um dia depois da
queda a Comisión Nacional de Actividades
Espaciales (Conae) emitiu comunicado à imprensa
identificando corretamente o culpado: também um
foguete lançador Delta 2, americano, mas de seu
terceiro estágio. Jornais como Clarín divulgaram
a nota imediatamente. Gol dos argentinos, que
identificaram seu “ovo de ET” prontamente.
Nem tudo é lamentação. Em se tratando de “ovos
de ET”, o caso ainda é engraçado pela atuação de
alguns ufólogos dedicados.
“Foguete chinês”
Talvez por seu enfoque centrado na curiosidade
do evento, os veículos de notícia também
consultaram “ufólogos”, que não se saíram muito
melhor que a senhora Gonçala, uma humilde
lavradora, em esclarecer o que havia ocorrido
nos céus. É bem verdade que reconheceram ser
mera sucata espacial, e não uma nave
extraterrestre. Mas além deste acerto, houve uma
comédia de erros.
“O objeto é apenas sucata espacial e pode ser o
pedaço de um foguete chinês que partiu ao espaço
há 20 dias para o lançamento de um satélite”,
teria declarado o ufólogo Reginaldo de Athayde
para a Folha, em nota publicada no dia 30
de julho. Procurei contatar o ufólogo para saber
qual poderia ser esse foguete, já que
aparentemente o único foguete chinês lançado no
mês de julho o foi no dia 25 – o próprio dia da
reentrada dos objetos sobre o Brasil. Mas o
ufólogo não respondeu a minha mensagem.
As confusões de ufólogos não pararam em
declarações à imprensa, pois todo o caso foi
pouco depois matéria de capa da revista “UFO” de
agosto de 2004, uma “publicação dedicada ao
estudo dos discos voadores”. Sendo Athayde
co-editor da publicação, o artigo não foi muito
melhor que sua declaração sobre o satélite
chinês – explicação que, a propósito, não é
mencionada no artigo da revista.
Em “Alerta no Nordeste”, o artigo cita um
suposto relatório de “N. L. Johnson”, “postado
no site da Agência Especial [sic]
Norte-Americana dias após o fato”, identificando
o objeto e “encerrando a polêmica acerca dos
acontecimentos”. Está-se falando de Nicholas
Johnson, que de fato confirmou a identificação
do objeto, mas não em um site da “Agência
Especial” americana, e sim em mensagem a este
autor, que logo a divulgou em um blog que mantém
na internet. Devo esclarecer que meu blog não é
um site da NASA.
O bizarro é que, apesar de atribuir uma
informação circulada por mim a um suposto site
da NASA, o artigo de fato cita meu trabalho.
Mencionado como um “jornalista” – não o sou
–citam uma frase do artigo “A Queda do
Não-Investigado”, que publiquei no “Observatório
da Imprensa” sobre o assunto.
A citação não é de crédito, e sim de crítica:
“Comentou um jornalista, aproveitando o fato
para fazer piadas”. Sim, este autor, que
identificou o objeto, que contatou as
instituições apropriadas, que divulgou
abertamente os esclarecimentos que obteve,
“aproveita o fato para fazer piadas”. Ou pelo
menos, é o que o artigo de capa da revista
dedicada a estudar discos voadores afirmou.
Se o problema fosse apenas de crédito, menos
mal. Se fossem apenas ataques, apenas um tanto
menos mal. Mas nem mesmo o “Ovo do ET” tais
ufólogos compreenderam. Em certo ponto,
menciona-se o “engenheiro do Instituto Nacional
de Pesquisas Especiais (INPE) e consultor da
Revista Ufo Ricardo Varela Correa”. Bem
informado, Varela oferece um comentário
essencialmente acertado sobre o “Ovo do ET”:
“Trata-se de um tanque de
combustível de satélite, onde fica
armazenado um líquido em alta pressão,
expelido para fora quando o artefato precisa
mudar de posição ou para manter uma
determinada atitude”.
A partir deste comentário o
artigo entende um falso dilema. Perguntam: “se
esse fragmento é apenas um tanque de combustível
de satélite, e não os restos do foguete Delta 2,
onde foram parar estes últimos?”.
A esfera de titânio sim é uma espécie de “tanque
de combustível”, que armazena gás (que, devido à
pressão, se liquefaz). Mas não é exclusiva a
satélites, estando também presente em estágios,
principalmente superiores, de foguetes
lançadores. Aos que confiam mais na NASA do que
em ufólogos dedicados a estudar discos voadores,
Nicholas Johnson enviou em mensagem a este
autor:
“A esfera na foto [da
esfera de Cabeça de Vaca] realmente parece
muito similar às esferas de titânio que
fazem parte do segundo estágio do Delta 2”.
Supor que a esfera era de um
suposto satélite (quem sabe chinês?) que teria
caído ao mesmo tempo que o foguete lançador
Delta 2, e perguntar “aonde foram parar” os
destroços do foguete ajuda a entender como tais
ufólogos também defendem que, além de tudo,
“vários casos ocorreram naquele período, numa
mistura de observações de UFOs – em vôo
solitário e em formação – com a queda de pedaços
de um foguete norte-americano”.
A tais ufólogos, mesmo que a queda tenha sido a
de sucata espacial (seja de um satélite ao mesmo
tempo em que a de um foguete!), também houve o
acompanhamento de “UFOs” autênticos, “em vôo
solitário e em formação”. Falam dos discos
voadores a que se dedicam. Tudo ao mesmo tempo.
De novo!
Toda essa longa história deveria levar a algo.
Todos cometem erros, e por vezes aprendem com
eles. Ou não. Poucos meses depois a história se
repetiria, em uma ironia de proporções
astronômicas.
No dia 6 de novembro de 2004, Allyson Santos, do
“Instituto de Pesquisas Ufológicas do Rio Grande
do Norte”, enviava a listas eletrônicas de
discussão sobre ufologia o relato:
“Hoje exatamente às
17h35min, eu estava no bairro Redinha da
cidade de Natal/RN quando alguns amigos me
alertaram para ver algo que parecia ser
fogos de artifício. Na verdade não eram
fogos!!! Algum objeto, ainda não
identificado, entrou na atmosfera, logo
acima da cidade de Natal, no sentido
Norte/Sul! O objeto estava em intensa
combustão, com fragmentos menores se
desprendendo do objeto maior e se
desintegrando (parecia quando o ônibus
espacial explodiu ao tentar entrar na
atmosfera da Terra). Parecia que os
destroços iriam cair sobre a cidade, mas,
exatamente no momento que eu estava vendo o
objeto queimar no céu, meu celular tocou,
era um amigo que reside na cidade que nasci,
Caicó/RN, distante 280 km da capital do
estado, na qual me encontro, ele estava
dizendo que estava também naquele exato
momento vendo alguma coisa caído em chamas
do céu, assim, indicando que o objeto não
estava tão baixo quanto, no momento do
ocorrido, pensávamos. Era eu e ele ao
celular vendo e relatando um ao outro. Durou
cerca de 3 a 5 minutos, o avistamento”.
Santos ainda comentava:
“Até o momento, nada saiu
nos meios de imprensa. Quem estiver em
outros Estados que tenha visto algo, por
favor, pronuncie-se”.
Dois dias depois, ele
desabafava:
“Amigos, já passam das 48
horas do ocorrido e nenhuma pronunciação dos
órgãos ‘competentes’. Como pode algo que
entra na atmosfera cruzando o céu em chamas
do RN até PE (até agora que temos notícia) e
ninguém ver, por exemplo o pessoal do
INPE.... Nada saiu em nenhum jornal, nenhuma
chamada na tv local... Agora se aparecesse
um infeliz dizendo que tinha viajado num
camelo voador, teria muitos programas dando
atenção a ele....”.
Mas Santos realmente não
estava sozinho. Outras testemunhas partilharam
seus relatos, sempre nas listas de ufologia. Na
lista da revista UFO, Ceiça Medeiros escreveu:
“Aqui em João Pessoa
muita gente viu o objeto cruzando os céus e
ninguém entendeu o motivo da falta de
notícias por parte da imprensa”.
E Rafael:
“Eu vi isso daqui de
Pernambuco! Estava num hotel de campo (Hotel
Campestre de Aldeia, no km 11
aproximadamente, no município de Camaragibe,
que é colado com Recife, exatamente nessa
hora eu e mais três pessoas vimos essa bola
incandescente com outras menores cruzando o
céu, mas passaram por trás de uma nuvem
grande, e a gente perdeu de vista, porém só
a maior deixou um rastro de fumaça quase
como de um jato, que ia praticamente de um
extremo a outro do céu!”
Em outra lista de discussão,
a “Ufolista”, Jaime Galvão comentava:
“Sou natalense e moro em
Fortaleza no bairro Pio XII, e do
apartamento onde moro tenho uma visão de
praticamente 150 graus (horizontal) de um
ceu sempre limpo e sem nenhum obstáculo a
interferir minha bela paisagem. Mais ou
menos às 17:30 horas estava na cozinha (lado
oposto do apartamento) quando meu filho
chamou minha atenção para um objeto que se
deslocava no sentido norte/sul e que deixava
um rastro esbranquiçado que soltava alguns
fragmentos com a mesma intensidade de luz e
velocidade. Tudo durou mais ou menos 1
minuto. Esse acontecimento foi visto também
por minha mulher. Da minha posição de
observador isso aconteceu quase na linha do
horizonte. Não soube de nenhum comentário na
cidade, apesar de ter perguntado inclusive a
alguns vizinho do prédio, ninguém viu nada”.
A
Bola de Cristal
O ufólogo Allyson Santos e todas essas
testemunhas participantes de listas de discussão
sobre ufologia não estavam delirando. Houve
realmente a reentrada de um objeto na atmosfera
sobre suas cabeças, no início de novembro de
2004. A primeira coisa que fiz foi, outra vez,
visitar o website do Center for Orbital and
Reentry Debris Studies e consultar a lista de
previsões de reentrada.
Havia uma reentrada prevista para o dia 6 de
novembro de 2004, e o horário e a trajetória
também eram compatíveis com o evento avistado. A
história se repete, e novamente entrei em
contato com o Cords, através de seu diretor, o
doutor William Ailor, além de com Nicholas
Johnson, da NASA. Em poucas horas, recebi as
valiosas respostas:
“Sr. Mori,
Embora o local e hora exatos da reentrada do
FSW-3 2 não estejam disponíveis, a descrição
que você fornece é certamente consistente
com a trajetória da espaçonave.
Atenciosamente,
Nicholas L. Johnson”
E de Ailor:
“Kentaro--
Obrigado pela informação. O horário relatado
(6 Novembro 2004 às ~20:35 UTC), direção
(aproximadamente Norte a Sul), área do
avistamento (Natal, Brasil), e duração (3-5
minutos) são todos completamente
consistentes com a reentrada do objeto 28402
(FSW-3 2). Além disso, nenhum outro objeto
rastreado reentrou durante o período de 5-7
de novembro de 2004.
Iremos notar na página reentrynews.com que a
reentrada foi vista. Não temos informações
sobre se algum destroço foi recuperado ou
aonde poderiam ter caído.
Obrigado novamente pela informação.
Bill”
Solucionado mais um caso,
este levanta considerações interessantes sobre a
precisão dos testemunhos e a utilidade das
listas de discussão na internet sobre ufologia.
Apenas interessados em OVNIs parecem ter se
importado em partilhar o que viram. Certamente
muitas outras pessoas devem ter visto a
reentrada, mas o caso não ecoou na imprensa.
Também indica que há ufólogos sensatos,
interessados em partilhar o que viram de forma
precisa, sem especular gratuitamente sobre o que
viram. Começando com a mensagem de Allyson
Santos, várias das outras testemunhas
limitaram-se, mesmo em listas sobre ufologia, a
relatar o que viram. Sem dedicar-se a “discos
voadores”.
Este segundo caso ainda é interessante por um
pequeno detalhe. Embora não se tenham recuperado
os restos do objeto que reentrou, a própria
reentrada pode ter sido fotografada. Devo um
agradecimento a Rosângela Vilar por avisar que
Maria Gorete de Figueiredo havia publicado em
seu blog
(http://fuleiragem.typepad.com/fuleira/) uma
fotografia do evento, com o título “Juro que
vi!”. Viu sim, Gorete, e felizmente fotografou,
com sua câmera Sony DSC-P72, no restaurante
Golfinho em João Pessoa, Paraíba.

Fotografia de Maria Gorete de
Figueiredo (link)
Estes não são os únicos casos
em que reentradas de satélites e foguetes na
atmosfera foram motivo para todo tipo de
confusão. Mas os dois casos em particular que
abordamos aqui levam à grande ironia de
proporções astronômicas que mencionamos antes.
Nesta segunda reentrada em novembro, meses
depois da primeira, o objeto que reentrou na
atmosfera foi nada menos que... um satélite
chinês. Sim, chinês como o que não
caiu no primeiro caso de fim de julho, ao
contrário do que o ufólogo Reginaldo de Athayde
havia sugerido, sabe-se lá por qual fonte de
pesquisa.
A coincidência se torna ainda mais curiosa
quando notamos que o satélite chinês que
reentrou sobre o nordeste no início de novembro
foi lançado apenas no fim de agosto de 2004,
muito depois que o ufólogo proferisse sua
incorreta especulação.
Talvez não tão incorreta assim, supondo que sua
fonte de pesquisa seja uma bola de cristal,
estava apenas alguns meses adiantado com seu
foguete chinês.
- - -
Agradecimentos
Com agradecimentos a William Ailor, Center for
Orbital and Reentry Debris Studies; Nicholas
Johnson, Orbital Debris Program Office, NASA
Johnson Space Center; Allyson Santos e demais
testemunhas da reentrada de novembro/2004 que
partilharam seus relatos pela internet;
Rosângela Vilar e a Maria Gorete de Figueiredo,
que teria fotografado a reentrada. A internet é
uma ferramenta poderosa quando há pessoas
dispostas a partilhar informações de forma
aberta e honesta.
Referências
- "A queda do não-investigado", Observatório da
Imprensa, <http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=290OFC001>
- "Reentry Predictions", Center for Orbital and
Reentry Debris Studies, <http://www.reentrynews.com/>
- "Explosão de "OVNI": identificado", Líquito, <http://www.liquito.blogger.com.br/2004_07_01_archive.html>
- "Satélite reentra sobre o nordeste do Brasil",
Perspectivas, <http://www.perspectivas.com.mx/noticias/index.php/2004/11/09/reentra>
- "Reentrada de satélite fotografada",
Perspectivas, <http://www.perspectivas.com.mx/noticias/index.php/2004/11/11/reentrada_foto>
- "Juro que vi", Blog de Maria Gorete de
Figueiredo, <http://fuleiragem.typepad.com/fuleira/2004/11/juro_que_vi.html>
- "Bolas de fogo no céu e os cabras todos
aperreados", O Estado de São Paulo, 8 de agosto
de 2004;
- "Perícia vai examinar restos de explosão", O
Estado de São Paulo, 30 de julho de 2004;
- "Pedaço de satélite é roubado em Boa Viagem",
Diário do Nordeste, <http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=180245>
- "Polícia já tem pistas seguras sobre o autor
do roubo", Diário do Nordeste, <http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=182484>
- "Ufólogos descartam origem extra-terrestre de
objeto encontrado no CE", Folha Online, <http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u97558.shtml>
- Caso "San Roque" - Reingreso de carcaza de
motor Star 48B de PAM-D de Delta II 7925, <http://www.eccentrix.com/members/argreentry2/corrientes1.htm>
- "Alerta no Nordeste", revista UFO, n. 102,
agosto de 2004, <http://www.ufo.com.br>