- A Preparação de Contato
- por Kentaro Mori, Editor CA
Assim que o homem descobriu a escala do Universo e viu que suas fantasias mais selvagens eram de fato minúsculas frente até mesmo à Galáxia Via Láctea, ele tomou providências que asseguraram que seus descendentes fossem incapazes de ver as estrelas.
Carl Sagan - "Contato"
Mesmo os que acreditam que nós estamos sendo visitados por seres extraterrestres reconhecem que não há prova definitiva a este respeito. Existiriam provas indiretas, casos altamente intrigantes, testemunhos confiáveis e infindáveis outras evidências, porém, não há algo para que todos possam apontar e dizer "Esta é a prova clara que ninguém pode negar".
Alguns apontam para Roswell ou para Varginha ou para qualquer outra 'prova' em moda e fazem tal afirmação, mas isto porque ignoram ou desconhecem o rigor do que seria uma prova real. Em última instância, o que essas pessoas fazem é menosprezar a importância da descoberta, para elas, uma afirmação tão extraordinária quanto a presença de seres extraterrestres em nosso planeta pode ser aceita com base em evidência de qualidade questionável. Céticos e crédulos podem discordar sobre até que ponto o Caso Roswell ou Varginha ou qualquer outro caso seria evidência de baixa qualidade, mas o que todos parecem concordar, com maior ou menor entusiasmo, é que não há uma evidência definitiva. Considerando a infinidade de provas cabíveis que podemos imaginar e ainda a consciência de que as melhores evidências da presença extraterrestre seriam justamente as que nós não podemos sequer imaginar (mas, importante, poderemos comprovar uma vez frente a elas), torna-se imperativo perguntar: Por quê?
Existem três respostas principais à ausência de evidência conclusiva. A primeira é a de que os extraterrestres simplesmente não estão aqui, e todos os relatos são fruto de fatores culturais associados talvez ao avistamento de fenômenos naturais desconhecidos. A segunda é a de que os aliens estão aqui, mas seriam pouquíssimas suas atividades, e embora nenhuma precaução com relação a ocultar pistas seja adotada pelos ETs, seriam os poucos governos cientes desta atividade que dariam conta do encobrimento. A terceira e mais conhecida é a de que os ETs promovem vastas atividades em nosso planeta, mas conscientemente procuram ocultar as provas destas atividades, ajudados pelos governos mundiais de forma coordenada ou não.
Pessoalmente, se os ETs estão aqui, creio que seria mais sensato acreditar que a segunda resposta é a verdadeira: pelo menos em nosso planeta não deve existir muita atividade, a ponto de nenhuma precaução ser necessária por parte deles, os poucos indícios deixados poderiam ser encobertos pelos governos capacitados mas perplexos com o fato. E assim, praticamente a totalidade do fenômeno UFO seria fruto de fatores culturais, refletindo mais a humanidade do que transparecendo seres alienígenas. Ainda pessoalmente, porém, parece-me ainda mais sensato ficar bem preparado para a hipótese de que os extraterrestres não só não estejam aqui, como não estejam em lugar algum. Nada prova esta idéia, ela é mesmo paradoxal frente ao conhecimento científico, mas pode ser perfeitamente a realidade. E se for, ela nos destina a explorar a Galáxia para descobrir por que somos os únicos. Mesmo não sendo a hipótese mais atraente, ela me parece a mais produtiva, pois nos leva a pensar sobre nós mesmos ao invés de pensar em utópicos seres alienígenas salvadores. Obviamente, é apenas uma hipótese, não uma certeza.
Na UFOlogia, porém, a idéia de que os ETs estão aqui promovendo vastas atividades é predominante. Neste caso, a ausência de evidência conclusiva não pode ser explicada apenas devido a um encobrimento governamental: os ETs, aliás, todos os ETs presentes em nosso planeta precisam colaborar com esse encobrimento. Uma das melhores explicações sobre por que os aliens não revelam sua presença de forma aberta é a hipótese de preparação de contato.
Segunda ela, os alienígenas estariam nos preparando para um contato aberto, deixando pistas dispersas por todo canto, pistas que embora inconclusivas, seriam indícios de sua presença. E assim, algum dia quando a humanidade estiver mais preparada para um contato, eles finalmente desceriam na frente da Casa Branca, do Kremlin e talvez até mesmo em Brasília. Os ufólogos seriam mensageiros e no futuro pós-contato serão vistos como heróis visionários e apaixonados.
Um defensor da idéia, porém apenas para citá-la como um "desbloqueador" mental, é o astrônomo Bernard Haisch, que urge que os cientistas reavaliem suas posições sobre os OVNIs e sejam verdadeiros céticos. Mas a idéia, em si, é quase tão velha quanto a UFOlogia: já nos anos 50 existiam teorias de que analisando os dados sobre discos voadores, enxergava-se um padrão apontando para uma data em que os ETs finalmente se revelariam. Todas as previsões falharam. Até hoje alguns se arriscam a prever a data fatídica do contato final com base em dados sobre OVNIs, mas todas previsões falharam até o momento.
Infelizmente, a hipótese de preparação de contato tem seriíssimos problemas. Ela postula que os ETs de fato aparecem para nós de forma suficientemente estranha para ser notada e aceita por crédulos, mas não suficientemente sólida para ser aceita de forma científica. Assim, segundo ela os ETs contam com o fato de que a maior parte de nossa população não recorre ao ceticismo, ao ônus da prova e a provas científicas para decidir questões importantes como "Estamos sendo visitados?" Ao aparecer e agir de forma bizarra, os ETs ainda por cima contribuem para que os que analisam o tema de forma racionalista elevem ainda mais seu grau de ceticismo em relação à sua existência.
Enfim, segundo esta hipótese, os ETs estão preparando sua revelação apenas aos crédulos - que aliás, acreditariam em homeopatia, curandeiros e médiuns - e ao mesmo tempo estão despreparando os céticos. Assim essa preparação só tem sucesso se quando eles finalmente se revelarem, nosso mundo ainda seja tão primitivo que a esmagadora parte das pessoas aceitarão tranqüilamente a presença ET, pois sempre acreditaram nisto a despeito da ausência de provas, mas justamente por isso também estarão acreditando em Elvis, em Urandir, em Inri Cristo.
Parece estranho que ETs avançados planejem a revelação de sua presença a um mundo primitivo e supersticioso. A menos que eles queiram nos destruir ou dominar, mas se esse fosse o caso, não é preciso nos preparar por 50 anos, é?
Existe uma resposta possível a esta contradição. É possível que os ETs também deixem propositalmente alguns indícios fortes de sua presença (para convencer os céticos de verdade, não os pseudo-céticos) passíveis de serem constatados cientificamente com razoável certeza (mas não com absoluta certeza, pois então toda a hipótese de preparação rui já que isto quase equivaleria a eles pousarem em Washington). Mas que desta vez sejam os governos a encobrir estas pouquíssimas provas. Isto poderia justificar o porquê do sigilo governamental exagerado em torno do tema, e justificaria a existência de certos casos e evidências que são sempre intrigantes mas que nunca são com absoluta certeza ETs. Esta situação pode inclusive ser dissociada da descrita acima: talvez os ETs não façam todas aquelas coisas bizarras como círculos no trigo ou implantes em órgãos genitais e não estejam preparando os crédulos, mas de fato deixem alguns indícios cientificamente intrigantes para preparar os céticos. E nesta situação, com certeza os ETs já devem ter preparado os governos.
Mas é importante notar uma coisa: estamos justificando a ausência de provas conclusivas. Estamos justificando o fato de que o melhor que há são casos estranhos e inexplicáveis, que não excluem a possibilidade ET e nem a confirmam, apenas podem indicar para ela - se quisermos vê-los desta forma. É triste, mas é certo que da montanha de documentos que chegaram até nós sobre a febre das bruxas na Idade Média devem existir alguns altamente estranhos, intrigantes, que se não atestam cientificamente a existência de bruxaria, não a excluem e até devem indicá-la. Ou seja: sempre haverá casos intrigantes que podem indicar para realmente qualquer coisa, se assim desejarmos procurar. Mesmo os casos de OVNIs mais intrigantes podem ser apenas casos intrigantes inevitáveis em um conjunto de casos realmente enorme. Se procurássemos por bruxas em todos milhões de casos de OVNIs, provavelmente também acharíamos casos extremamente intrigantes. Mas nunca conclusivos. A cultura e a psique humana, bem como a própria natureza, tem muito mais truques do que julga nosso vão senso comum.
Se os ETs existem, sabem que nós existimos, podem nos visitar, mas não fizeram um contato aberto até o momento, é bem provável que nunca o façam. A UFOlogia mística ou holística gosta de apregoar, em uma versão pós-moderna das religiões politeístas do passado, que os alienígenas só farão contato quando nós formos suficientemente 'evoluídos'. No presente momento, um contato seria prejudicial e nós seríamos inevitavelmente predados.
Isso é verdade. Mas o raciocínio é um tanto parcial para ser conveniente: em verdade, é inevitável que uma cultura superior acabe assimilando uma inferior. É inevitável. Se os ETs não fazem contato aberto porque não somos suficientemente evoluídos, não devem fazer nunca. Eles sempre estariam diversos passos à nossa frente e um contato acabaria por nos fazer altamente dependentes da cultura alienígena. É inevitável. Um contato mesclaria nossas duas culturas e nós acabaríamos virando 'eles'. Se eles pretendem fazer isso em um futuro distante, não há porque já não o tivessem feito.
Completando o texto anterior a respeito do paradoxo de Fermi, realmente não parece haver resposta para que se os extraterrestres existam, nós ainda não tenhamos feito contato. Mais: se os aliens fazem contato com apenas algumas pessoas, através de canalizações ou mesmo contatos imediatos, certamente não revelaram o real motivo lógico sobre porque não fizeram um contato mais aberto. Todas explicações que temos são falaciosas e abertas a sérios questionamentos, são em última instância explicações humanas. Errar é humano.
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