|
|
|
Roswell: Avaliando o mito
Nuno A. Montez da Silveira, publicado pela
Sociedade Portuguesa
de Ovnilogia
Licenciado em Direito, pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa
Reprodução gentilmente autorizada
|
|
 |
Exposição de motivos
Desde que me iniciei
activamente na ovnilogia, há mais de 10 anos,
que acreditava que Roswell era um dos mais
importantes e dos mais convincentes casos OVNI
no mundo. Demonstrava, pensava eu, que o governo
norte-americano tinha claramente na sua posse
pelo menos um OVNI e os seus ocupantes e admito
que foi com algum desdém que assisti ao falecido
Eurico da Fonseca afirmar em 1995 na TVI que o
caso Roswell era um Balão Mogul.
Não obstante desde essa
altura que me interessei sobre o que poderia
levar alguém inteligente a considerar essa
hipótese que me parecia descabida. Contudo, sem
internet ou outro meio de contactar com quem me
soubesse responder e com a ausência de livros em
Portugal sobre o assunto, tive de esperar até
2004 quando comprei o primeiro de três livros
escritos por ovnilogistas que aprofundavam o
assunto. Depois de os ler e de os comparar com
os livros “tradicionais” a minha opinião mudou
radicalmente.
Mais recentemente tinha por
intenção divulgar os estudos na palestra mensal
de Março de 2005 da Associação de Pesquisa OVNI
(APO), o que infelizmente acabou por não
ocorrer, devido ao meu pedido de demissão da
direcção a 5 de Fevereiro. Desde essa altura
tive a oportunidade de em duas ocasiões
distintas na comunicação social[1],
expressar a minha opinião pessoal de que nenhum
OVNI caiu em Roswell e que de facto a explicação
mais plausível é a do Balão Mogul. Tendo sido
severamente criticado e apelidado de agente da
desinformação, exponho aqui neste trabalho que
me esforcei por tornar sucinto mas abrangente,
os motivos que me levam a desacreditar da
explicação tradicional, esperando que o leiam
livres de preconceitos.
Introdução
Ainda que a observação de
Kenneth Arnold tenha sido a primeira a lançar
para o conhecimento público o mistério dos
“Discos Voadores”, como foi durante muito tempo
erroneamente chamado[2],
é o caso Roswell contudo que detém a maior fama.
Muitos são os ovnilogistas que o consideram como
o caso mais importante de sempre[3],
como a primeira altura em que um governo
terrestre teve na sua posse a confirmação total
da existência de discos voadores e de
extraterrestres, possuindo quer a sua tecnologia
quer os seus ocupantes. Para muitos a ovnilogia
começou terça-feira, dia 8 de Julho de 1947,
quando a Força Aérea norte-americana admitiu por
momentos que tinha na sua posse “um disco
voador”[4].
Desde então o caso Roswell
tomou tais proporções que a maioria dos
investigadores não ousa questioná-lo, sendo os
poucos que o fazem, rotulados de “conspiradores”
ou de “agentes da CIA” ao serviço da conspiração
mundial do silêncio. Muitos são difamados e
caluniados, votados ao ostracismo e à morte na
comunidade ovnilogista, lembrando o que de
terrível a religião católica fez com os
“hereges” da Idade Média.
Analisemos então se o caso
Roswell é assim tão convincente.
Parte I
A História Inicial
Mac Brazel
Na única declaração pública
que sobreviveu até aos dias de hoje[5],
Mac Brazel, declarou que no dia 14 de Junho
enquanto passeava o rebanho com o seu filho de 8
anos, Vernon, encontrou a cerca de 12 kms do
Rancho onde vivia, um local onde algo
visivelmente se tinha despenhado dos céus.
Explicou como o terreno se encontrava cheio de
destroços de um material estranho que não
conseguiu identificar. Material que recolheu
apenas no feriado do 4 de Julho, juntamente com
a sua mulher e a sua filha Bessie de 14 anos.
Nesse mesmo dia contou a sua história a alguns
dos seus vizinhos, nomeadamente a Floyd e
Loretta Proctor que o informaram de que alguns
jornais ofereciam até 3000 dólares por uma prova
dos chamados “Discos Voadores”, assunto que
fazia furor na comunicação social, devido à
observação dias antes de Kenneth Arnold.
Assim dirigiu-se até à
esquadra de policia do xerife George Wilcox, no
condado de Chavez, no dia 7 de Julho,
segunda-feira, informando-o de que teria
possivelmente um desses destroços. O xerife
telefonou para a base aérea de Roswell onde mais
tarde o Major Jesse Marcel do esquadrão 509º[6],
na companhia do agente de contra-inteligência o
Capitão Sheridan Cavitt se deslocou até à quinta
Foster para analisar os destroços.
Na entrevista à rádio KGFL[7]
no dia 8 de Julho, o rancheiro contou
essencialmente a mesma história que ao jornal
“Daily Roswell Record”, descrevendo os destroços
como “tiras de elástico, papel de alumínio,
um papel bastante duro e paus[8]”
que deveriam pesar no total cerca de 2.25 kgs[9].
Acrescentou ainda que nos destroços era possível
ver fita-cola com flores desenhadas nela.
Admitiu contudo que já tinha visto dois balões
sonda caídos no solo (o que na altura era
frequente) e que estes destroços não eram em
nada semelhantes aqueles.
Outra corroboração desta
descrição dos destroços vem da sua filha Bessie,
que o ajudou a apanhar alguns pedaços para
mostrar ao xerife. Numa entrevista de 1979
afirmou que: “Haviam o que pareciam ser
pedaços de um papel extremamente encerado e um
material semelhante a papel de alumínio. Alguns
desses pedaços tinham uma espécie de números e
letras, mas nenhumas palavras que conseguíssemos
perceber. Alguns dos pedaços de papel de
alumínio tinham uma espécie de fita-cola presa
neles que quando expostos à luz mostravam uns
desenhos de flores de cor pastel”[10].
A maioria dos investigadores
defensores da queda de OVNI explicam que a
entrevista dada à rádio KGFL foi feita sobre
coação psicológica dos militares e para tal
baseiam-se no testemunho de Frank Joyce, o
entrevistador que afirma que após a entrevista o
rancheiro lhe disse: “Sabes o que dizem sobre
os pequenos homenzinhos verdes? Bom, não são
verdes”. Ora esta frase parece muito
suspeita uma vez que em Julho de 1947 a
principal teoria era a de que os discos doadores
eram de origem soviética e a expressão
“homenzinhos verdes” só se tornou popular alguns
anos depois na década de 50. Por outro lado Mac
Brazel morava num local sem luz nem água
canalizada e sem telefone, rádio ou televisão e
como resulta da sua história estava
completamente alheio ao fenómeno dos discos
voadores. A única possibilidade que resta é a de
os militares lhe terem contado sobre os
cadáveres, o que todavia não faz sentido algum.
Como veremos nenhuma das testemunhas principais
viu ou sabia algo de estranhos cadáveres, e não
foram encontrados cadáveres nos destroços perto
do Rancho Foster. Então por que motivo haveria a
Força Aérea de contar ao rancheiro a existência
dos corpos extraterrestres, principalmente
quando de acordo com os investigadores, por
altura da entrevista e do artigo no jornal, o
processo de encobrimento já estava em marcha.
Bill Brazel Jr.
Na altura do incidente, Bill
Brazel, filho de Mac Brazel, vivia na cidade de
Albuquerque e desconhecia em absoluto que algo
se passava no rancho Foster. Afirmou que foi só
quando viu a foto do seu pai na página principal
do “Albuquerque Journal” que se dirigiu para a
casa do pai para lhe oferecer ajuda caso fosse
necessária. Contou que o seu pai lhe tinha dito
que numa noite de uma forte tempestade tinha
ouvido um estrondo alto e que no dia seguinte
enquanto pastava o gado tinha encontrado os
destroços, destroços que apenas recolheu passado
um dia ou dois[11].
Quando inquirido sobre a descrição que o pai lhe
tinha feito, respondeu que tal não tinha sido
necessário pois ele tinha tido na sua posse
alguns pedaços. Confirmou que normalmente após
uma boa chuvada e mesmo após um, dois anos
depois do incidente, conseguia encontrar alguns
fragmentos para a sua colecção que eram capazes
de encher uma pasta. Contou a história de que
certa vez após ter contado sobre a posse dos
mesmos, alguns dias mais tarde militares foram
até sua casa onde lhos confiscaram.
Inconsistências
As discrepâncias na sua
história começam logo no início, pois uma busca
pelos arquivos do “Albuquerque Journal”
demonstram que nunca exibiram uma foto do Major
Marcel, nem nas páginas interiores quanto mais
na página principal[12].
Outro aspecto que entra em contradição são as
suas afirmações de que mesmo depois de os
militares terem limpo o terreno que conseguia
encontrar restos dos destroços com alguma
frequência; sobre isto a sua irmã Bessie disse:
“Nós nunca mais encontrámos pedaços depois de
os militares terem lá estado. Apesar de
passarmos frequentemente pelo local, não
encontrámos nem um pedacinho. Os militares
limparam bem o local”[13].
Mas sem dúvida que a parte
mais controversa da sua história foi o modo pelo
qual os militares lhe confiscaram os pedaços que
guardava. Contou a William Moore que cerca de
dois anos depois do incidente tinha ido até à
cidade de Corona depois da hora de jantar e que
supostamente falou de mais, pois no dia seguinte
os militares foram até ao Rancho Foster e
curiosamente pediram para falar com ele e não
com o que pai, que também não estava presente.
De acordo com o seu relato um Capitão Armstrong
perguntou-lhe se podia ver a colecção de
destroços que tinha, ao que Bill acedeu,
tendo-lhe informado de seguida de que aquele
material punha em causa a segurança nacional
pelo que o teria que confiscar. Bill sem saber o
que fazer acedeu. De seguida os militares foram
vasculhar o terreno e depois de estarem
satisfeitos, foram-se embora dizendo ao filho do
rancheiro que se descobrisse mais destroços ou
que soubesse de alguém que os tivesse para o
avisar na base aérea de Roswell[14].
Contudo para o livro de
Stanton Friedman e de Don Berliner, contou uma
história um pouco diferente. A primeira
alteração foi quanto à data, situando-a agora
apenas um mês depois do incidente. Depois de ter
respondido a perguntas dos populares num bar de
Corona sobre o incidente, os militares
apareceram no Rancho um dia ou dois depois e
pediram-lhe para verem os pedaços que tinha
guardado, relembrando-o de que o seu pai tinha
concordado em entregar tudo e feito uma jura de
silêncio. Bill fez o que lhe pediram. Para os
investigadores voltou a confirmar que o nome do
Capitão era Armstrong mas que vinha acompanhado
de um sargento negro[15].
Afirmou que ambos eram boas pessoas e que não o
ameaçaram.
Esta nova história apresenta
algumas diferenças notórias, primeiro a data que
foi alterada para mais próximo do incidente e de
seguida, o militar negro que lembra o relato
feito por Glenn Dennis que analisaremos mais à
frente. O problema com esta afirmação é o de que
a segregação racial era ainda vigente na Força
Aérea em 1947 e quanto ao Capitão Armstrong,
investigações no registo da Base de Roswell
provaram que entre 1947 e 1949 (data da primeira
versão da história) não existiu ninguém com esse
nome nem com esse posto.
Floyd e Loretta Proctor
Floyd e Loretta Proctor
moravam a cerca de 8 milhas de distância do
local onde Mac Brazel residia e foram das
primeiras pessoas a quem o rancheiro contou a
sua curiosa história. Em Junho de 1979 o casal
foi entrevistado por William Moore a quem lhe
confiaram que Mac Brazel os tinha tentado
convencer a ir ver os destroços, mas que estes
tinham recusado dizendo que estavam
“demasiado cansados”[16]
e que seria uma viagem dispendiosa, “pois a
gasolina e os pneus eram na altura dispendiosos”[17].
Após terem ouvido a descrição dos
destroços aconselharam-no a ir contar às
autoridades em Roswell.
Inconsistências
Numa entrevista gravada a 20
de Abril de 1989 Loretta contou aos
investigadores Kevin Randle e Donald Schmitt que
não só viu alguns destroços trazidos pelo
rancheiro, como este à sua frente lhes mostrou
como era impossível queimá-los. Contudo, apenas
15 meses depois em Julho de 1990 durante uma
conferência patrocinada pela MUFON em Washington
DC, Loretta afirmou que ela e o marido tentaram
cortaram os destroços com uma faca mas que não o
conseguiram, nem queimar usando um fósforo[18].
Aparecem bem patentes as
discrepâncias; na primeira entrevista Loretta
nunca afirmou ter visto os destroços, nem
mencionou os testes que lhes fizeram. Por outro
lado, o seu marido Floyd Proctor, já falecido em
1989, foi a pessoa que mais falou com William
Moore e nunca mencionou ter visto os destroços.
Da leitura do livro “The Roswell Incident”
parece bem claro que foi Mac Brazel que lhes
descreveu os destroços e que foi ele que tentou
cortar sem sucesso com a sua faca. A história de
não conseguir queimar não foi sequer mencionada[19].
Parece que com o decorrer do tempo e com o
aumento da popularidade do caso, Loretta Proctor
fez aumentar consideravelmente o seu papel no
incidente, passando de apenas uma vizinha que se
recusou ir ver os destroços e que ouviu a sua
descrição em segunda mão, para uma das pessoas
que os teve na sua mão, testando inclusivamente
as suas estranhas características.
Todavia o papel de Loretta
Proctor não ficou por aqui, em anos mais
recentes chegou a afirmar que o seu filho Dee
estava presente com Mac Brazel e a sua filha
Bessie aquando da descoberta do terreno
acidentado. Contudo esta história tem três
falhas; enquanto o seu marido era vivo nenhum
deles fez semelhante afirmação, o seu próprio
filho Dee não tem lembranças do ocorrido e
finalmente sempre que um investigador deseja
entrevistar o seu filho, ela desencoraja dizendo
que ele não pretende falar sobre o assunto[20].
Major Jesse Marcel
A figura central do caso
Roswell foi encontrada em Fevereiro de 1978 pelo
investigador Stanton Friedman, que na altura
pesquisava casos de possíveis despenhamentos de
OVNIS. Na primeira entrevista o Major não deu
muita importância ao caso, afirmando nem se
lembrar da data exacta do evento, o que seria de
esperar afinal já se tinham passado quase trinta
e um anos desde o evento. Mais tarde em
entrevistas subsequentes, o nível de estranheza
do caso foi aumentando, sugerindo que não se
resumia apenas a uma queda de um balão
meteorológico mas a algo muito mais estranho.
Descreveu os destroços como
“pequenas varas quadradas de 12 mm com uma
espécie de hieróglifos que ninguém conseguia
decifrar” e que alguns destroços pareciam
“balsa-wood”, que tinham o mesmo peso mas que
não eram de madeira, que eram muito duros mas
flexíveis e que não se conseguiam queimar.
Afirmou ainda que havia “uma grande
quantidade de um material castanho parecido a
papel pergaminho que contudo era extremamente
forte e uma quantidade enorme de pequenos
pedaços de uma substância parecida ao papel de
alumínio mas que não era papel de alumínio”.
Contou ainda que o Capitão Sheridan Cavitt
descobriu uma caixa metálica preta que era a
única coisa que parecia algum tipo de
instrumento de navegação ou electrónico[21].
Inconsistências
Elaborando na descrição do
material recolhido, Jesse Marcel afirmou a
Stanton Friedman nas primeiras entrevistas, que
alguém na base de Roswell lhe tinha dito que
teriam usado um martelo no “papel de alumínio” e
que não teriam conseguido amolgá-lo (dent).
Afirmou ainda que lhe tinham dito que não teriam
conseguido nem queimar nem rasgar (torn). Em
entrevistas subsequentes Jesse Marcel passou a
usar o termo “nós tentámos dobrar, queimar” o
que significa que o teria feito ou o teria visto
fazer, o que entra em contradição com o
primeiramente afirmado. E quanto aos testes ao
explicar a sua definição de rasgar afirmou:
“Quando digo rasgar, digo vincar (crease). Era
possível dobrar o material para a frente e para
trás, até amachucá-lo (wrinkle), mas era
impossível pôr-lhe um vinco duradouro”[22].
Em 1979 o Major contou a
Stanton Friedman e William Moore, que o
comunicado da Força Aérea para a comunicação
social admitindo a posse de um disco voador,
tinha sido emitido por vontade própria e sem
autorização por Walter G. Haut, tendo sido este
altamente repreendido pelos seus superiores[23].
Contudo esta afirmação contraria o depoimento de
Walter Haut que afirmou na sua primeira
entrevista que o tinha feito por ordens do
Coronel Blanchard e que tanto quanto sabia
traduzia a história verdadeira. Em 1980
reuniu-se pela primeira vez após quarenta anos
com Jesse Marcel por alturas de um programa de
televisão, tendo declarado que esta foi a
primeira vez que tinha visto o Major desmentir a
explicação oficial[24].
Marcel afirmou ainda que o
General Ramey o avisou para não dizer certas
coisas na conferência de imprensa e relatou aos
autores que os destroços colocados para serem
fotografados pela imprensa tinham sido
substituídos por destroços de um balão
meteorológico. Não obstante, assegurou que uma
foto continha os destroços verdadeiros[25].
Uma das pessoas presentes na conferência de
imprensa foi um dos meteorologistas da base de
Fort Worth, o oficial Irving Newton, que
identificou os destroços como pertencendo a um
balão Rawin. Contou aos investigadores que:
“enquanto examinava os destroços, o Major Jesse
Marcel ia apanhando pedaços dos paus do
reflector de radar tentando convencer-me que
algumas das anotações nos paus eram de origem
alienígena. Existiam figuras nos paus de cor
roxa ou alfazema, bastante apagadas e que não
pareciam fazer sentido”[26].
Em Fevereiro de 1980, Jesse
Marcel já contava ao jornal “National Enquirer”,
que os destroços que tinha visto “não eram
nada deste mundo”.
Falsidades
Ainda que não hajam dúvidas
de que Jesse Marcel testemunhou e recolheu
destroços de um aparelho que não conseguiu
identificar, qual é o nível de credibilidade que
lhe devemos dar quando anos após a primeira
entrevista onde não deu importância ao caso,
começou a afirmar que eram destroços de uma nave
extraterrestre? Talvez seja interessante
analisar algumas das informações que passou aos
investigadores Stanton Friedman e William Moore
sobre o seu próprio passado. Assegurou-lhes que
se tinha formado como piloto em 1928 e que tinha
pilotado aviões de combate durante o cenário do
Pacífico na Segunda Guerra Mundial, onde teria
abatido cinco aviões inimigos. Contou também que
era bacharel em física da Universidade George
Washington e que enquanto trabalhava no projecto
AFOAT, aquando da explosão da primeira bomba
atómica da União Soviética, tinha escrito
pessoalmente a declaração que o Presidente Harry
S. Truman lera ao povo americano na rádio.
Todavia todas estas informações estão erradas; a
folha de serviço militar do exército demonstra
que nunca se formou como piloto, muito menos
pilotado aviões no Pacífico, a Universidade de
George Washington não tem nos seus ficheiros a
indicação de este ter sido lá aluno e por fim, a
declaração da primeira explosão atómica da URSS
não foi lida pelo Presidente Truman pela rádio,
mas sim transmitida para a comunicação social
através de um comunicado escrito da Casa
Branca.
Estas falsidades levam a
crer que o Major tinha uma certa inclinação para
exagerar a sua importância nos eventos, o que
sugere que possa ter exagerado também quanto ás
suas recordações das características anómalas
dos destroços, especialmente quando sabia que
tanto Friedman como Moore estavam interessados
em histórias de OVNIS caídos, possivelmente numa
tentativa de se vingar da humilhação que passou,
aquando da conferência de imprensa, no que foi
sem dúvida um encobrimento.
Parte II
O Segundo Local da Queda e os Cadáveres
Extraterrestres
Como observámos não há em
nenhum depoimento das testemunhas originais do
caso Roswell, qualquer referência a um segundo
local da queda, nem menções à existência de
cadáveres extraterrestres. Estamo-nos a referir
aos depoimentos de Jesse Marcel, de Mac Brazel,
de Bill Brazel Jr, de Bessie, de Floyd e Loretta
Proctor.
Estranhamente os primeiros
relatos da sua existência somente aparecem mais
de 9 anos após a publicação do livro “The
Roswell Incident” de Charles Berlitz e William
Moore e todos de testemunhas com graves
problemas de credibilidade ou com sérias
discrepâncias nos seus relatos. Por questões de
brevidade vamos nos centrar apenas nas
principais testemunhas. Como veremos a ligação
de um segundo local com os destroços do Rancho
Foster é ténue.
É destes dados que nos vamos
ocupar de seguida.
Glenn Dennis
Glenn Dennis na altura um
mortuário de 22 anos, trabalhava para a “Ballard
Funeral Home” que tinha um contrato com a Base
Aérea de Roswell para tratar de todos os
assuntos referentes a funerais. Glenn afirma que
certo dia de Julho (os investigadores diferem
quanto à data, Randle e Schmitt apontam para o
dia 5 de Julho, Friedman e Berliner para o dia 9
ou 10 de Julho[27])
por volta da uma hora e meia da tarde recebeu um
telefonema do mortuário da base com algumas
perguntas curiosas. Queria saber “o tamanho e
o tipo de caixões hermeticamente selados que a
funerária tinha” e “qual o tamanho mais
pequeno que poderiam fornecer”. Cerca de
trinta a quarenta minutos depois, o mortuário da
base voltou a telefonar com perguntas ainda mais
estranhas, queria saber “como preparavam na
agência mortuária corpos que tivessem estado
expostos aos elementos da natureza, que
estivessem queimados ou que tivessem sofrido
traumas”; perguntou ainda “como é que
fariam para não alterarem qualquer dos
componentes químicos do corpo nem destruírem o
sangue”, passando depois a perguntar sobre a
decomposição dos corpos expostos muito tempo ao
Sol.
Por volta das seis ou sete
da tarde, segundo Dennis, este teve que ir até à
Base Aérea para levar um piloto ferido. Enquanto
lá estava encontrou uma amiga enfermeira de nome
Naomi Maria Selff e que quando se dirigiu para a
cumprimentar, no meio da azáfama da base, esta
lhe disse numa voz em pânico para se ir embora
ou seria morto[28].
Pouco depois foi descoberto pelos militares que
o expulsaram da base e o acompanharam de volta à
mortuária, tendo depois recebido um telefonema
da base para estar calado ou ser morto.
No dia seguinte a pedido da
enfermeira encontrou-se com ela na messe dos
oficiais da base. Lembra-se que a mesma estava
muito nervosa à beira dum colapso nervoso e que
lhe contou a história da noite anterior.
Contou-lhe que tinham recuperado três cadáveres
extraterrestres, todos mortos, dois dos quais
estariam extremamente mutilados. Afirmou que só
depois de os terem congelado é que o cheiro
horrível acabou, cheiro que fazia uma pessoa
agoniar-se até a alguns metros de distância.
Aparentemente agarrou no verso de uma receita
médica onde tinha desenhado os corpos que tinha
visto, pedindo a Glenn para os guardar e fazer
deles segredo. De acordo com o mortuário, os
desenhos foram guardados com todo o cuidado[29].
Tentando contactá-la de novo foi informado de
que ela estaria fora num seminário, e mais
tarde, que tinha sido transferida para
Inglaterra. Dennis decidiu enviar-lhe uma carta
para Inglaterra a qual obteve resposta e onde
supostamente a enfermeira lhe garantiu que
contaria tudo numa próxima oportunidade. Segundo
Dennis, a sua segunda carta veio devolvida com o
carimbo “falecida”.
Inconsistências
A primeira coisa a ter em
conta foi a altura em que Glenn Dennis decidiu
contar a sua história. Um dos seus melhores
amigos era Walter G. Haut (o oficial que emitiu
o comunicado oficial), a quem segundo este,
aquele nunca lhe tinha contado nada. Por outro
lado muitas outras testemunhas, incluindo Haut
já andavam a falar com os investigadores desde
1979, por que é que Dennis esperou por 1989,
mais de 41 anos depois do incidente para contar
a sua história?
Mas mais importante que a
altura em que decidiu contar a sua história, são
os pormenores da mesma que como veremos são de
qualidade duvidosa e têm mudando ao longo do
tempo. Para exemplificar; quanto à identidade
dos militares que o expulsaram da base, nos
dados que deu a Stanton Friedman o agente
responsável foi um Coronel ruivo. Contudo, ao
contar a história para o investigador Karl
Pflock e para Kevin Randle, o Coronel era agora
um Capitão e encontrava-se acompanhado por um
sargento negro que o ameaçou dizendo que se
falasse a alguém ele daria uma “excelente comida
para cães”[30].
Como já observado, a segregação racial ainda
existia em 1947 e a história parece muito
semelhante à contada por Bill Brazel. Resta
saber se e quem influenciou quem.
Noutra ocasião disse ao
investigador céptico Philip Klass que o exército
se tinha deslocado até à agência funerária e
confiscado todos os caixões para bebés e
crianças, contudo para os restantes
investigadores manteve a história de que apenas
lhe teriam perguntado pelo telefone sobre esse
tipo de caixões.
Mas a parte mais controversa
de todo o seu depoimento diz respeito à história
e identidade da enfermeira que lhe deu os
desenhos dos corpos. Num primeiro momento Glenn
Dennis preferiu manter o anonimato da
enfermeira, num segundo momento decidiu falar
com os investigadores e deu o nome de Maria
Self. Depois de Karl Pflock ter feito uma busca
e não ter encontrado dados referentes à sua
existência Dennis afirmou que o nome correcto
era Naomi Maria Selff e mais tarde quando a
busca voltou negativa, mudou o nome para Naomi
Sipes.
Independentemente do nome
que lhe quis dar, a história que dela nos contou
também não é isenta de falhas. Se na sua versão
mais conhecida a enfermeira morreu em Inglaterra
num acidente de aviação, numa entrevista dada em
1991 à investigadora Anne Macfie, afirmou que
lhe tinham contado que ela se tinha tornado
freira após sair do exército e que apesar de não
ter tornado a tentar contactá-la, que esta tinha
morrido em 1988. Quanto à queda de um avião
militar em Inglaterra com enfermeiras americanas
a bordo, quer as extensivas pesquisas de Don
Berliner, quer as de Kal Korff deram negativo. O
mesmo resultado quando procuraram pela
enfermeira. De acordo com os dados do exército
serviam na data em questão 5 enfermeiras na base
de Roswell, nenhuma delas com esse nome, nem
nenhuma delas transferida em 1947. Em 1995 o
jornalista Paul McCarthy encontrou a única
enfermeira viva de nome Rosemary McManus que não
só não se lembrava de uma enfermeira de nome
Selff como também não se lembrava de ter havido
algo de invulgar na base em 1947[31].
Todavia o investigador Karl
Pflock admite que Glenn Dennis se tenha
inspirado numa das verdadeiras enfermeiras da
base para formar a sua história. Após buscas
intensivas, em sua opinião, a única enfermeira
que corresponde à fisionomia avançada pela
testemunha é a de Eileen M. Fanton. Karl afirma
que há também um incidente que é capaz de ter
inspirado o relato do mortuário quanto aos
cadáveres. Descobriu que a 26 de Junho de 1956
houve um acidente com um avião KC-97G[32],
tendo os tripulantes morrido queimados quando
uma hélice perfurou o tanque de combustível e
incendiou o interior da aeronave. De acordo com
as suas pesquisas três cadáveres foram levados
para a “Ballard Funeral Home” e de acordo com os
relatórios da autópsia, os efeitos do fogo nos
corpos poderiam ter inspirado os relatos de
humanóides cinzentos em especial o intenso odor[33].
Para terminar importa
analisar a história dos desenhos dos humanóides.
De acordo com a testemunha apesar de ter
guardado os desenhos com todo o cuidado, dando
de vez em quando uma olhada nos mesmos, ao
deixar o seu emprego em 1962 aparentemente
esqueceu-se também dos desenhos. Quando
inquirido sobre os mesmos por Stanton Friedman
em 1989, o mortuário mostrou-lhe uns desenhos
que afirmou ter feito do que ainda se lembrava
dos desenhos originais, os desenhos são
mostrados pela primeira vez no livro “UFO Crash
at Roswell” e depois no livro “Crash at Corona”.
O problema é que como descobriu Karl Pflock os
desenhos tinham sido encomendados por Dennis a
Walter Henn, um artista do Novo México a quem
Glenn Dennis lhe disse que “poderiam fazer uma
pipa de massa”[34].
De acordo com um amigo, Robert Shirkey, em Junho
de 1987 Glenn Dennis mostrou-lhe o “Roswell
Daily Record”[35]
que figurava um artigo sobre as investigações de
Stanton Friedman incluindo uns desenhos feitos
por Vincent DePaula das supostas criaturas
encontradas no OVNI. Como salienta o
investigador Pflock, as semelhanças entre estes
desenhos e os apresentados por Glenn Dennis dois
anos mais tarde são extremamente parecidos e não
se pode excluir a possibilidade de este se ter
inspirado naqueles[36].
Sargento Melvin E. Brown
Outra das testemunhas a quem
é atribuída uma participação activa na acção de
salvamento dos destroços dos supostos OVNIs é o
sargento Melvin E. Brown. De acordo com a
maioria dos autores pró-queda OVNI ele esteve
presente no primeiro local, viu os corpos
extraterrestres e ajudou a guarda-los durante a
viagem de regresso para a base de Roswell. O seu
testemunho aparece pela primeira vez no livro do
autor britânico Timothy Good “Alien Contact: Top
Secret UFO Files Revealed”, que conta como no
final da década de 70 do século passado enquanto
lia uma notícia sobre o caso no “Daily Mail” de
Londres, disse para a família: “Eu estive lá!”
Inconsistências
Foi graças à pesquisa do
ovnilogista norte-americano Kal K. Korff que
hoje conhecemos alguns factos que na altura
foram ignorados. De acordo com o investigador a
história que lhe é atribuída foi contada pela
sua filha Beverly Bean sendo que Melvin Brown
morreu em 1986 sem nunca ter falado com algum
investigador, deste modo é, como bem afirma o
investigador, uma história contada em segunda
mão e não a história dita por alguém que
testemunhou[37].
Outro aspecto duvidoso é o
facto de Beverly Bean ter oferecido pelo menos
três versões diferentes de como o seu pai lhe
contou que tinha sido testemunha do caso
Roswell. A primeira história foi a acima
relatada no livro de Timothy Good; em 1989
contou a Friedman que era frequente quando era
nova, o seu pai contar aos filhos histórias da
sua juventude e que uma delas era a de quando
tinha visto um ser do espaço, história que a
fazia rir imenso e à família[38].
Nuca a mulher do sargento nem o irmão de Beverly
confirmaram esta versão. Finalmente no início da
década de 90, Beverly contou ao investigador
Kevin Randle e a Donald Schmitt que o pai
finalmente confessou ter visto extraterrestres
em Roswell quando viam na televisão a chegada do
homem à Lua em 1969[39].
Outro problema com a
história contada por Beverly Bean e descoberto
por Korff, é que o cargo de Melvin Brown na base
de Roswell era a de cozinheiro e como muito bem
salienta, parece extremamente improvável que
para uma missão tão delicada como aquela
tivessem que recorrer a cozinheiros para limitar
a área do impacto e para guardarem os corpos até
à base. Finalmente, um dos aspectos mais
reveladores da história de Brown é a sua
descrição dos cadáveres que não são idênticos
aos das outras testemunhas. Segundo Beverly
enquanto o seu pai seguia no camião com os
cadáveres, contrariou as ordens dos seus
superiores, levantou o tecido que os cobria e
por segundos pôde observar dois ou possivelmente
três extraterrestres tendo descrito a sua pele
como tendo uma cor amarelo-alaranjado e com uma
textura semelhante à de um lagarto, não escamado
mas sim tipo cabedal.
Frank J. Kaufmann
Esta é sem dúvida a
personagem mais controversa em todo o caso
Roswell e umas das principais responsáveis pela
ideia de um segundo local. O seu relato é tão
debatido que nem os principais investigadores
estão de acordo quanto à sua credibilidade.
Enquanto Randle e Schmitt apoiam-no, Friedman
não. Mas vamos analisar as suas afirmações e
tirar as nossas conclusões.
A sua história aparece pela
primeira vez no livro “The truth about the
Roswell UFO Crash” e as suas afirmações parecem
ser apoiadas por mais duas testemunhas, Joseph
Osborne e Frank Macenzie. O problema é que como
admitiram os autores, as outras duas testemunhas
são pseudónimos de Frank Kaufmann, ou seja, o
que na realidade parecem ser três testemunhas, é
na verdade apenas uma, como salienta a
investigadora Lynn Picknett[40].
Kaufmann explica que na
noite de 4 de Julho de 1947, por volta das
23h20m estava a vigiar os radares na base aérea
de Roswell, quando de repente o ecrã se iluminou
e o sinal do OVNI desapareceu, indicando que o
mesmo tinha sido atingido por um relâmpago ou
explodido, tendo a sua posição sido triangulada
usando outros dois radares, o de Albuquerque e o
de White Sands. Depois seguiu com a sua equipa
de elite para norte de Roswell e encontraram o
local da queda, tendo visto um OVNI triangular
caído de encontro a um morro e cinco
extraterrestres mortos, três dentro e outros
dois fora do OVNI. De acordo com as suas
descrições os ets tinham 1.55 metros, eram
magros e tinham uma cabeça desproporcional.
Afirmou que pareciam seres humanos, excepto que
eram carecas e tinham os olhos, narizes e
orelhas consideravelmente mais pequenos. Afirmou
ainda que a ideia de seres cinzentos, de grandes
olhos negros estava errada, que na realidade os
olhos pareciam humanos e com pestanas. Quando à
cor da pele afirmou ser de um tom azeitona,
muito idêntico ao do andróide Data da série:
Star Trek –A Nova Geração. Quanto ao OVNI foi
levado sem desmantelar por um avião de carga[41].
Inconsistências
Os problemas começam quando
através da folha de serviço se descobre que
Frank saiu do exército em 1945, tendo trabalhado
contudo na base como civil, na categoria de…. De
acordo com os especialistas o incidente do radar
simplesmente não pode ter acontecido. Segundo
explicam um objecto ao ser atingido por um
relâmpago não faz iluminar todo o ecrã, no
máximo o que aconteceria era o sinal aumentar
ligeiramente de intensidade e só se o raio
atingisse o objecto quando o sinal de radar
estivesse a bater no objecto. Normalmente o que
acontece quando um relâmpago atinge é o sinal
simplesmente desaparecer e dificilmente da
leitura de um ecrã de radar se consegue saber
qual o motivo do desaparecimento do objecto.
Outro problema com a história é que em primeiro
lugar não é preciso três radares para
identificar a posição do objecto, essa pode ser
identificada usando o azimute último detectado e
a distância detectada pelo próprio radar. Ainda
quanto à triangulação tal era impossível, pois
como explicam, na altura com o equipamento
disponível e com uma cordilheira de montanhas de
entre 7 a 12 mil pés de altura situada entre a
estação de White Sands, o local dos destroços e
o local da queda, qualquer tipo de triangulação
seria improdutiva. Quanto ao avião de carga,
apurou-se que não havia nenhum na altura capaz
de levar um objecto com as dimensões dadas por
Kaufmann.
Por fim deu dois locais
diferentes para a queda; as suas descrições do
OVNI e dos seres não se adequam com as das
outras “testemunhas” e mais ninguém apareceu
para corroborar as suas declarações.
Jim Ragsdale
Outra das alegadas
testemunhas que observou a queda, os destroços e
os ocupantes do OVNI foi Jim Ragsdale que em
1993 (depois de saído o primeiro livro de Randle
e Schmitt) contou a sua história a estes
autores, saindo extensivamente no segundo.
Apesar de não se lembrar com certeza sobre a
data exacta, mas julgando ter sido no
fim-de-semana de 4 a 6 de Julho de 1947, contou
que estando a namorar com Trudy Truelove na
caixa aberta duma pick-up, a cerca de 56 kms a
norte de Roswell e a oeste da auto-estrada 285,
viu passar por cima deles uma luz brilhante que
se despenhou a cerca de uma milha de distância.
Ao amanhecer, decidiram averiguar onde a
estranha luz tinha embatido e descobriram para
seu espanto algo semelhante a um disco com
pequenas asas, espetado contra um pequeno monte.
De acordo com a sua descrição haviam bastantes
pedaços espalhados pelo chão; alguns depois de
amachucados voltavam à sua forma original,
enquanto que outros depois de dobrados, ficavam
nessa posição[42].
Para seu espanto observaram
também cadáveres fora da nave com alturas entre
os 1.2 e 1.5 metros de comprimento, mas não
conseguiram ver mais detalhes pois viram ao
longe um comboio militar, de sirenes ligadas e
decidiram pegar no carro, fugir e ver a acção
dos militares à distância, enquanto estes
apagavam os vestígios e levavam o disco e os
corpos[43].
Ainda segundo a mesma testemunha, chegaram a
guardar pedaços dos destroços. Os fragmentos de
Trudy desapareceram do seu carro quando esta
morreu num acidente de viação e os dele,
desapareceram primeiro num assalto ao seu carro
cinco anos depois e os restantes num assalto a
sua casa, em 1985.
Inconsistências
Um aspecto que se tornou
aparente na história de Jim Ragsdale é que ele,
como aconteceu com tantas outras testemunhas,
mudou a sua história. E não contrariando a
tendência generalizada, o seu papel e
importância na mesma foi significativamente
aumentada. Em 1994 numa entrevista com Karl. T.
Pflock a primeira alteração que fez à sua
história foi quanto ao local, desta vez o
incidente tinha-se passado a mais de oitenta kms
a oeste-noroeste de Roswell, nas Capitan
Mountans perto da cidade de Arabella,
discutiremos o motivo mais à frente. Continuou
explicando que o OVNI se tinha despenhado muito
mais perto deles, na realidade “quase sobre as
suas cabeças” e decidiram investigar.[44]
Nesta versão, Ragsdale não se limitou a ver os
destroços, mas decidiu-se a entrar dentro do
OVNI, vendo diversos corpos sem vida de
extraterrestres, tentando até remover um dos
capacetes, mas sem sucesso, sendo o traço mais
notório do cadáveres os seus grandes olhos
negros[45].
Karl Pflock decidiu
averiguar mais pormenores da sua história e numa
conversa com a mulher da testemunha, descobriu
que de acordo com a mesma, Jim só se tinha
mudado para Roswell em 1959[46].
De acordo com as informações de Kevin e de
Donald, Ragsdale estava familiarizado com o
(primeiro) local da queda do OVNI pois estaria
nessa altura a trabalhar a alguns quilómetros
dali na construção de um gasoduto para a
companhia de gás natural “El Paso Natural Gás
Company”, todavia investigações feitas junto da
empresa demonstram que o mesmo só foi idealizado
e construído em 1952.
Actualmente Kevin Randle
admite que a segunda história de Jim Ragsdale
foi mudada para ganhar mais dinheiro,
especialmente com a edição do seu livro e vídeo
“The Jim Ragsdale Story”, mas afirma que
acredita na sua primeira versão. Muitos
investigadores ligam esta história com a de
Barnett e a queda do OVNI nas Planícies de San
Agustin, mas esta ligação apresenta diversas
falhas. Em primeiro lugar os locais não
coincidem, em segundo nenhuma das testemunhas
menciona a presença da outra e Ragsdale não faz
referencia a um grupo de estudantes de
arqueologia[47].
Parte III
Analisando a Hipótese Extraterrestre
Analisadas as falhas das
testemunhas mais importantes do caso Roswell,
vamos analisar então, as evidências que apontam
para a hipótese de ter caído um OVNI de origem
extraterrestre no deserto do Novo México.
Observação de OVNIs e a
data da queda
Em rigor da verdade, só
temos uma observação digna de se chamar de OVNI.
É o caso da família Wilmot. Os Wilmots estavam
na varanda a apanhar ar fresco, no dia 2 de
Julho, quando viram passar um grande objecto
luminoso oval “como dois pratos colados um no
outro com uma luz que parecia vir de dentro”
vindo de sudeste e a voar em direcção à cidade
de Corona. Tanto o jornal “Roswell Daily Record”
como o investigador Stanton Friedman ligaram
esta observação com a queda do OVNI.
As outras observações são
muito semelhantes a um grande meteorito a roçar
na atmosfera da Terra, mas vamos analisá-las. De
acordo com os autores Randle e Schmitt no dia 4
de Julho, várias pessoas viram uma luz no céu
passar a alta velocidade, seguindo numa direcção
sudeste; nomeadamente William Woody e o seu pai,
o cabo E. L. Pyles, e as freiras franciscanas.
Após uma investigação
detalha de Pflock, descobriu que William Woody e
o seu pai não se recordavam da data da
observação, sabendo apenas que foi numa noite do
verão de 1947 e que o objecto luminoso seguia
rumo a norte, tendo desaparecido abaixo do
horizonte. Isto não é consistente com o descrito
no segundo livro, pois mencionam que o objecto
seguia rumo a sudeste e que tinha caído a norte
de Roswell. Quanto ao cabo Pyles, numa
entrevista com o mesmo pesquisador, afirmou não
se lembrar da direcção nem da parte do céu que
olhava e que apenas tinha visto um risco passar
por cima dele no céu, tendo pensado ter sido
apenas um meteorito. Também neste caso a
testemunha não se lembrava da data, sabendo
apenas a estação do ano e o mês. E contudo no
livro aparece que Pyles viu um objecto
passar pelo céu tomando uma direcção norte,
dirigindo-se para o chão. Finalmente temos o
caso das freiras franciscanas, a Madre Superior
Mary Bernadette e a irmã Capistrano, que
enquanto faziam as rondas no “Roswell’s Saint
Mary’s Hospital” escreveram no diário que tinham
visto um objecto a arder no céu, no dia 4 de
Julho, entre as 23h15 e as 23h30.
Deste modo, temos apenas uma
observação com a qual podemos ligar ao dia 4
(apesar de o diário nunca ter sido apresentado a
mais nenhum investigador) e mais duas
observações de algo luminoso nos céus que de
facto não se pode estabelecer a data, e que não
tendo dados sobre se as direcções eram
consistentes também não se pode aferir tratar-se
do mesmo objecto. Portanto é entre a observação
dos Wilmots e a observação das freiras, que
diferem em dois dias, que os dois cenários mais
conhecidos do caso são fundados.
Como constatámos a primeira
grande dificuldade que temos é a da observação
do OVNI e da data do incidente. Como apurámos
nem mesmo os diversos investigadores conseguem
concordar quanto a este simples aspecto. Stanton
Friedman baseado no relato da família Wilmot
indica a data da queda como sendo o dia 2 de
Julho, por seu turno, Kevin Randle baseado no
relato das freiras franciscanas, aponta a queda
para o dia 4 de Julho. Finalmente os
controversos documentos MJ-12 apontam a data da
operação de recuperação para o dia 7 de Julho,
afirmando ter o OVNI caido uma semana antes, dia
31 de Maio ou 1 de Junho[48].
Por último Mac Brazel afirmou que tinha
descoberto os destroços no dia 14 de Junho,
quase três semanas antes e mesmo que estas
declarações tenham sido feitas sob coação
psicológica dos militares (como defendem alguns
autores), mesmo assim não faz muito sentido
mentir sobre a data da descoberta, pois, o que
veio a relevar foi a data em que Mac Brazel
informou as autoridades e se sabe que Jesse
Marcel deslocou no campo. Por outro lado a
mensagem da Força Aérea refere o dia da
recuperação como o dia 7 de Julho.
O número de OVNIs e o
local da queda
Outro aspecto extremamente
importante e que ao contrário do que era suposto
acontecer, levanta imensas dúvidas é a do número
de OVNIs envolvidos e o local da queda ou
quedas. De acordo com o investigador Stanton
Friedman caíram em Roswell dois ovnis que
chocaram entre si, para Kevin Randle só um caiu
devido a um relâmpago. Os documentos MJ-12 que
caiu um OVNI mas não avança com explicações.
Quanto ao local, de acordo
com Friedman o OVNI caiu a duas milhas e meia a
este-sudeste do Rancho Foster. Local que foi
primeiramente confirmado por Frank Kaufmann,
contudo importa referir que ao avançar com este
local, o mesmo já tinha sido referido no livro
de Stanton Friedman “Crash at Corona” e no livro
de Randle e Schmitt “UFO Crash at Roswell”, pelo
que facilmente se poderia ter baseado neles.
Segundo o livro mais recente
da dupla de investigadores o OVNI caiu a 56 kms
a norte de Roswell e a oeste da autoestrada 285
que coincide com a primeira versão de Jim
Ragsdale e com a segunda versão de Frank
Kaufmann. Finalmente de acordo com a última
versão de Ragsdale, o OVNI caiu a mais de
oitenta kms oeste-noroeste de Roswell, nas
Capitan Mountans perto da cidade de Arabella.
Local que é apoiado pelo Internacional Roswell
Museum fundado por Glenn Dennis e Walter Haut.
Na realidade o museu tentou comprar o primeiro
local identificado por Ragsdale para poder
cobrar ingressos pelas visitas, mas não o tendo
conseguido optaram por deslocar o local para um
terreno público que compraram, recebendo
Ragsdale 25% dos lucros que passariam para os
netos, já que lhe haviam diagnosticado um cancro
terminal[49].
Por último os documentos MJ-12, asseguram que o
local era a 75 milhas a Norte de Roswell[50].
O número dos cadáveres e as
suas descrições
Outro problema com esta
teoria é o número de cadáveres apontado e as
suas descrições. Por um lado a enfermeira
“contou” a Dennis Glenn que “viu” três cadáveres
mortos, o sargento Melvin Brown viu entre três a
quatro cadáveres e Frank Kaufmann cinco. A
primeira tal como Ragsdale descreve os cadáveres
como sendo pretos ou cinzentos escuros, grandes
olhos negros e de intenso odor, o sargento como
tendo uma pele de textura réptil
amarelo-alaranjado e Frank Kaufmann, semelhantes
a humanos, sem olhos negros pretos e de cor de
azeitona. Nenhum deles referiu o odor. Por outro
lado de acordo com Frank Kaufmann o OVNI e os
corpos foram logo recuperados, o que entra em
contradição com o testemunho de Glenn Dennis que
afirmou lhe terem perguntado sobre modos de
preservação de corpos expostos ao Sol e aos
elementos durante dias, assim como o odor.
Poderíamos tentar encontrar
uma explicação salomónica, afirmando que os
cadáveres de Glenn Dennis são de um primeiro
OVNI e os de Frank Kaufmann de um segundo.
Todavia esta teoria apresenta algumas questões;
em primeiro lugar nem Dennis nem Kaufmann fazem
referências a segundos OVNIs ou a outros
cadáveres. Acreditando nas palavras de Kaufmann
que supostamente vigiava os ecrãs de radar e
fazia parte de um grupo secreto chamado “The
Hunholy 13” apenas um OVNI foi detectado e caiu.
Já vimos que para Kevin Randle só caiu um OVNI e
Stanton Friedman não acredita na história da
Kaufmann. Por outro lado, teria de haver três
locais distintos, o primeiro dos destroços no
Rancho Foster, o segundo do primeiro OVNI e o
terceiro do segundo OVNI. Em lado nenhum estas
afirmações são feitas, nem pelos autores nem
pelas testemunhas.
Por último como vimos em
nenhuma das testemunhas mais conhecidas há a
ideia de um et vivo, somente na história de
Ruben Abaya[51]
e exagerado no filme “Roswell”.
Descrição dos OVNIs
Noutro ponto onde há
discórdia é no que diz respeito às descrições do
OVNI. Os Wilmot descreveram como dois pratos
colados um no outro, Jim Ragsdale em forma de
disco e com pequenas asas e finalmente Frank
Kaufmann como sendo triangular. Nenhuma das
outras testemunhas afirma ter visto o objecto,
apenas os seus destroços que serão analisado
mais à frente.
Outras evidências
Para finalizar a avaliação
da hipótese extraterrestre como a verdadeira
causadora do incidente, importa referir outros
três pormenores. De acordo com investigadores
ninguém do esquadrão 509º se lembrava de
qualquer agitação causada por discos voadores,
ou qualquer existência de corpos estranhos em
Julho de 1947 e após uma análise do livro de
visitas da base durante o referido período,
constata-se que este se manteve normal, quer no
tipo de visitas que no número[52].
Situação aliás confirmada pela única enfermeira
sobrevivente a ser entrevista, que todavia
faleceu em 1988, que igualmente não se recordava
de nada anormal.
Finalmente outro argumento
contra esta hipótese vem do famoso investigador
Jacques Vallée, que após examinar o grau de
alerta nas diversas bases americanas no mês de
Julho de 1947, não viu nada de extraordinário, o
que acertadamente estranhou, pois de certo que
se um OVNI extraterrestre tivesse caído em solo
americano, o governo deveria estar preocupado se
faria parte ou não da vanguarda de ataque.
Parte IV
Analisando a Hipótese do Balão Mogul
Sem dúvida que a hipótese
extraterrestres é a hipótese mais divulgada e
correntemente aceite pelos ovnilogistas, mas
será que haverá uma outra capaz de explicar o
sucedido no estado do Novo México?
A hipótese de os destroços
provirem de um balão Mogul foi tornada famosa,
quando a Força Aérea americana divulgou o seu
primeiro estudo em 1994, conclusão que recebeu
grande resistência por parte dos investigadores
de OVNIs. Todavia é curioso notar que quem
primeiro avançou com esta teoria foi o
ovnilogista Robert Todd que ao investigar o caso
e recorrendo extensivamente à FOIA (Freedom of
Information Act) chegou à conclusão de que a
explicação mais provável seria a do projecto
Mogul. Analisemos então os argumentos.
O Projecto Mogul
O nome Mogul é o nome
militar dado a um estudo ultra secreto,
inspirado em 1945 pelo memorando do geofísico
William Maurice Ewing, para a Força Aérea
realizado pela Universidade de Nova Iorque, que
tinha por intuito criar balões de alta altitude,
capazes de utilizando o “sofar” (sound fixing
and ranging) através da “conduta acústica” da
tropopausa, causada pela interacção entre a
tropoesfera e a estratoesfera, que detectassem
lançamentos nucleares da União Soviética[53].
Numa altura em que os Estados Unidos eram a
única potência nuclear, foi dado a este projecto
um nível de secretismo de A-1, o grau mais
elevado e igual ao do Projecto Manhattan (que
deu origem à primeira bomba nuclear). De facto o
projecto só foi desclassificado em 1973, altura
em que os próprios cientistas souberem do seu
nome militar, Mogul.
O balão Mogul que media
quase 200 metros de altura, era composto por
cerca de vinte a trinta balões meteorológicos de
neoprene ligados entre si, e por uma carga
composta de transmissores de informação,
controlo de altitude e para quedas. Tudo isto
ligado por um complexo sistema de ligamentos de
linhas de nylon. Os balões meteorológicos eram
equipados com alvos de radar muito semelhantes
aos Rawin, ainda que diversos modelos de balões
e alvos de radar tivessem sido utilizados nas
pesquisas.
No verão de 1947 as equipas
de pesquisa operavam na Base Aérea de
Alamagordo, que se situa a cerca de noventa
milhas aéreas da cidade de Roswell.
O Culpado
Numa primeira investigação
os ovnilogistas pensaram que o culpado dos
destroços teria sido o voo NYU 9, lançado entre
o dia 3 e o dia 4 de Julho (data muito próxima
da apresentada por Randle), que se despenhou e
nunca tinha foi recuperado. Todavia dois
pormenores inviabilizavam esta teoria, em
primeiro lugar o balão do voo 9 era demasiado
pequeno, contendo apenas alguns balões
meteorológicos de neoprene, sem instrumentos e
sem reflector de radar. Por outras palavras,
nunca poderia ter causado a quantidade de
destroços avançadas pelas testemunhas, nem teria
material capaz de ter sido considerado estranho
por Jesse Marcel e outros. Por outro lado no
livro “The Roswell UFO Crash: Update”, Kevin
Randle demonstrou que os ventos da altura teriam
levado o balão para longe do Rancho Foster.
Todavia um pormenor tinha
escapado aos investigadores, é que segundo a
própria declaração de Mac Brazel, os destroços
teriam sido descobertos no dia 14 de Junho e não
no dia 2 ou 4, avançados pelos investigadores
baseados nas testemunhas de OVNIS e não nas
palavras do rancheiro. Assim, procuraram nos
arquivos que outro voo poderia ser o culpado.
Descobriram então o voo NYU 4 lançado a 4 de
Junho. Este voo consistia num balão com cerca de
vinte e um balões meteorológicos de neoprene, um
microfone sonda, explosivos para regular a
altitude do aparelho, interruptores de pressão,
baterias, anéis de lançamento e de (assembly) de
alumínio, três ou quatro para quedas de
pergaminho reforçado de cor vermelha ou laranja
e três alvos reflectores de radar de um modelo
não normalmente usado no continente dos Estados
Unidos.
De acordo com o diário do
Dr. Crary, um dos responsáveis do projecto, o
voo NYU 4 foi acompanhado pelo radar até que
desapareceu a cerca 27 km de distância do Rancho
Foster. As cartas meteorológicas da altura
demonstram contudo, que de acordo com os ventos
prevalecentes na altura, é possível que o mesmo
se tenha vindo a despenhar no local onde Mac
Brazel os encontrou dez dias depois.
Os Destroços
Estabelecemos que existe uma
grande probabilidade de os destroços vistos e
recolhidos por Brazel e Marcel serem do voo NYU
4 do projecto Mogul. Todavia a força desta
teoria apenas se pode comprovar quando comparada
com as descrições dadas dos destroços pelas
testemunhas que estiveram no Rancho Foster.
Nesta parte seguiremos de perto a comparação
feita por Lynn Picknett[54]
e Karl Pflock[55].
Vejamos.
Mac Brazel descreveu os
destroços como “tiras de elástico, papel de
alumínio, um papel bastante duro e paus” e
que nos destroços eram possível ver
“fita-cola com flores desenhadas nela”. A
sua filha Bessie disse que “Havia o que
pareciam ser pedaços de um papel extremamente
encerado e um material semelhante a papel de
alumínio. Alguns desses pedaços tinham uma
espécie de números e letras, mas nenhumas
palavras que conseguíssemos perceber. Alguns dos
pedaços de papel de alumínio tinham uma espécie
de fita-cola presos neles, que quando expostos à
luz mostravam uns desenhos ou pastel de flores”.
Jesse Marcel descreveu como “pequenas varas
rectangulares de 12 mm quadrados com uma espécie
de hieróglifos que ninguém conseguia decifrar.
Que alguns destroços pareciam
“balsa-wood”, que “tinham o mesmo peso
mas que não eram de madeira, que eram muito
duros mas flexíveis e que não se conseguiam
queimar”. Afirmou ainda que “havia uma
grande quantidade de um material castanho
parecido a papel pergaminho que contudo era
extremamente forte e uma quantidade enorme de
pequenos pedaços de uma substancia parecida ao
papel de alumínio mas que não era papel
alumínio” e que o Capitão Sheridan Cavitt
tinha descoberto “uma caixa metálica preta
que era a única coisa que parecia algum tipo de
instrumento de navegação ou electrónico” e
finalmente o seu filho, Jesse Marcel Jr, afirma
ter visto nos destroços varas em forma de I[56]
contendo hieróglifos roxos e que o material
depois de amachucado, voltava à sua forma
natural. Por último temos a descrição do
fotógrafo J. Bond Johnson que fotografou os
destroços na sala do General Ramey e que
descreveu um “forte odor a lixo”.
Confrontado com estas
descrições, o Prof. Charles B. Moore do projecto
Mogul, curiosamente testemunha a 24 de Abril de
1949, de um dos mais impressionantes e ainda por
explicar relatos OVNI[57],
encontrou as seguintes explicações; quanto à
existência de tiras de borracha, papel alumínio
reforçado e paus de madeira, são
materiais efectivamente utilizados na construção
daquele tipo de balões, as referências a um
papel tipo pergaminho castanho e resistente
seriam muito provavelmente os para quedas que
apesar de serem pintados de vermelho ou laranja,
com o passar do tempo e expostos ao Sol (como
parece ter sido o caso) ficavam acastanhados.
Quanto à caixa preta encontrada por Cavitt,
explicou que normalmente os balões tinham essas
caixas que continham as baterias[58].
Quanto às varas que
continham “hieróglifos” roxos e que não se
conseguiam queimar, o Prof. Moore explicou que
muitas vezes era utilizada uma fita-cola para
reforçar a estrutura dos alvos reflectores de
radar, que tinha sido adquirida numa empresa
construtora de brinquedos de Nova Iorque e que
tanto quanto se lembrava era de cor clara,
semi-opaca, com cerca de duas polegadas de
largura e que continha impressa figuras de
flores de cor roxa e cor-de-rosa. Explicação
muito semelhante à descrição dada por Irving
Newton (ver infra).
No que diz respeito à
resistência ao fogo admite que talvez seja
derivado à cola que utilizavam na ponta das
varas, o que as fazia ter alguma resistência ao
fogo[59].
Por último quanto ao cheiro testemunhado por
Johnson, explica facilmente dizendo que haviam
dois motivos para os balões de neoprene
cheirarem mal. O primeiro porque é isso que
ocorre quando os balões rebentam e segundo,
explicou que antes de serem lançados os balões
eram submersos em água quente o que aumentava a
sua resistência e durabilidade e que
infelizmente intensificava também o cheiro
emitido aquando de um rebentamento.
Sob esta perspectiva
entende-se agora porque motivo nem Mac Brazel,
nem Jesse Marcel, nem mesmo os militares da base
de Roswell conseguiram identificar os destroços
e afirmaram não ser os de um balão
meteorológico. De facto o que estavam a
testemunhar era algo diferente, conhecido apenas
senão por um grupo restrito de cientistas e que
continham instrumentação não acessível nem
reconhecível à maioria das pessoas. Por outro
lado o tamanho do balão corresponde com as
informações dadas por Marcel sobre o tamanho do
campo de destroços.
Inconsistências
Se é por de mais evidente
que as explicações do Prof. Charles B. Moore e
que podem ser verificadas nos ficheiros e
diagramas do projecto, respondem à maioria das
descrições feitas pelas testemunhas mais
credíveis e que tiveram contacto directo com os
destroços, dois pormenores parecem contudo não
bater certo. O primeiro quanto ao testes que
Marcel afirmou terem sido feitos, nos quais os
materiais não podiam ser dobrados nem amolgados.
Todavia não existem testemunhas ou evidências
destes testes, e tendo em conta outras
inconsistências e exageros na história de
Marcel, estas informações não devem ser tomadas
muito em consideração. O segundo pormenor é a
capacidade muitas vezes relatada de que o
material depois de amolgado regressar à sua
forma original. Todavia há que ter um aspecto em
consideração estas propriedades anómalas
associadas também a uma grande resistência e um
peso diminuto[60],
aparecem pela primeira vez no livro “The Roswell
Incident” em 1980 e exceptuando Marcel e o seu
filho, quando todas as outras testemunhas
informaram os investigadores das propriedades
dos destroços que teriam visto, o livro já tinha
saído e é curioso notar, como faz Kal Korff, que
nenhuma das outras testemunhas avança com outro
tipo de propriedades ou de pormenores quanto a
um material tão “exótico”. Consideremos ainda
como já foi visto que muitas das testemunhas
passaram de apenas ter ouvido descrições do
objecto para as terem visto. Mas, de facto, a
ser verdade que o material podia ser amachucado
e depois voltava ao normal, não é consistente
com nenhum tipo de material utilizado no Balão
Mogul, o que todavia não é indicação de que o
material seja extraterrestre[61],
não se aplicava à totalidade dos fragmentos e
nem é corroborado por todas as testemunhas.
Para terminar há contudo que
admitir que tirando esta descrição, todas as
outras são inconsistentes com o material de uma
nave interplanetária, que deste modo seria
formado por paus que parecem madeira, tiras de
elástico, um duro papel pergaminho castanho e
material semelhante a papel de alumínio.
O Encobrimento
Logo no primeiro livro
alguma vez publicado sobre Roswell os autores
avançam com a ideia de ter havido um
encobrimento, tendo a Força Aérea divulgado a
história do balão meteorológico para ocultar a
queda e recuperação de um OVNI de origem
extraterrestre.
Esta ideia lançada pelo
Major Jesse Marcel tem também apoio nos
testemunhos de Bessie e Bill Brazel que afirmam
que o seu pai foi obrigado a fazer um juramento
em como não contaria a ninguém o que tinha
descoberto no terreno, acordo que cumpriu até à
sua morte. A ideia de um encobrimento é
corroborada nos testemunhos e amigos de Mac
Brazel que afirmam que nos dias posteriores à
sua descoberta este era acompanhado e vigiado
pelos militares. Dados demasiado importantes
para ignorar.
Mas a questão sobre se houve
ou não encobrimento já não se debate, a própria
Força Aérea admitiu-o em 1994 aquando da
publicação do seu relatório: “Roswell: Facts vs
Fiction in the New Mexico Desert”. A pergunta
actual é antes, o que tentaram encobrir?
Analisemos os dados.
De acordo com Jesse Marcel,
quando este voltou do Rancho Foster foi ordenado
para viajar até à Base de Carswell juntamente
com os destroços e para se apresentar ao General
Roger Ramey. Afirmando que quando entrou na sala
do mesmo, o General mandou entrar Irving Newton
o meteorologista da base, que identificou o
objecto como sendo um balão meteorológico Rawin.
Entretanto J. Bond Johnson tiraria as fotos que
ficariam famosas mostrando Jesse Marcel com os
destroços do balão meteorológico. Jesse Marcel
afirmaria aos investigadores iniciais que os
destroços foram substituídos e que teriam feito
dele um bode expiatório, afirmando contudo que
em pelo menos uma foto estão presentes os
destroços verdadeiros, que de acordo com o
relato do meteorologista, Marcel tentou
convence-lo de que eram destroços de um disco
voador (ver supra).
Entrevistando o assistente
de Ramey trinta e dois anos depois do sucedido,
o Coronel Thomas J. Dubose admitiu a William
Moore que tinha havido um encobrimento afirmando
que:
”A história do balão meteorológico foi uma
invenção para “apagar o fogo” e que julgava
ter sido o General Ramey a inventar essa
história. Contudo, confrontando com a hipótese
de os destroços terem sido substituídos por uns
de um balão meteorológico afirmou: “Tretas! O
material nunca foi substituído”, segundo o
mesmo, foi ele pessoalmente que recebeu o avião
vindo de Roswell e que transportou numa bolsa de
correio os destroços para o escritório do
general Ramey. Portanto, de acordo com o
Coronel, o material exposto era o mesmo que
tinha vindo de Roswell o que voltou a confirmar
depois de olhar para as fotos tiradas.
Como explicar esta aparente
contradição? Por um lado o Coronel afirmou que
tinha havido um encobrimento e que a história do
balão meteorológico era falsa, por outro,
afirmou que o material era o mesmo que tinha
vindo de Roswell. A solução de acordo com Lynn
Picknett[62]
é bastante fácil, sendo o balão Mogul
constituído por balões meteorológicos e outros
materiais consistentes com balões normais,
apenas expuseram estes na conferência de
imprensa.
Mas as evidências de um
encobrimento não acabam aqui. Enquanto Irving
Newton examinava os destroços ouviu o General
Ramey dizer que o voo para a base
Wright-Patterson no Ohio tinha sido cancelado.
Todavia existem fortes indícios de que tal voo
de facto aconteceu, voo corroborado pela
testemunha Pappy Henderson. De facto se os
destroços fossem de um simples balão
meteorológico nunca teriam sido mandados para
Wright-Patterson para análise, o que é
demonstrado também pelo telex do FBI que é
muitas vezes apresentado como prova da queda de
um OVNI mas que como examinaremos de seguida,
não o é.
O Telex do FBI
Sensivelmente uma hora
depois do comunicado de imprensa que
desmistificava o caso, por volta das 18h17 do
dia 8, o escritório do FBI em Dallas mandou um
telex para o director do FBI J. Edgar Hoover em
Washington dizendo o seguinte: “O disco tem
uma forma hexagonal e estava suspenso a um balão
por um cabo, sendo que o balão tinha
aproximadamente 6 metros de diâmetro”. O
telex afirma ainda que de acordo com a base de
Fort Worth o disco assemelhava-se com um balão
meteorológico de alta altitude acoplado com um
reflector de radar, mas a Base de
Wright-Patterson não concordava. E que por isso:
“o disco e o balão estavam a ser transportados
para esta base num avião especial”.
Portanto como vimos deste
telex desclassificado na década de 70, tudo
indica que de facto um voo secreto partiu de
para Ohio, transportando o resto do material
recuperado, contrariando a versão oficial.
Material que de acordo com o telex não se
assemelha em nada a um disco voador mas antes a
um balão.
O Relatório da Força Aérea
Norte-Americana de 1997
Uma das principais críticas
que os ovnilogistas lançaram ao relatório
oficial de 1994 “The Roswell Report: Fact vs.
Fiction in the New México Desert”, era o facto
de não lidar com a questão dos cadáveres
recuperados. Assim por alturas do quinquagésimo
aniversário de Roswell e por coincidência
divulgado no dia 24 de Junho, a Força Aérea
publicou o seu mais recente e ultimo relatório
intitulado: “Roswell- Case Closed”.
Rapidamente se tornou claro
que o relatório continha um sem número de
afirmações e de explicações que eram
simplesmente ridículas para explicar a
existência de corpos, usando basicamente dois
argumentos, bonecos e fiabilidade da memória, um
necessariamente subsidiário do outro como
veremos. Exemplificando; aclarou que os corpos
eram muito provavelmente descrições de bonecos
de teste lançados a altas altitudes de para
quedas. Contudo como esta explicação apenas era
válida a partir de 1954 ano em que começaram as
ditas experiências, tiveram de explicar que
todos
os testemunhos se deviam a uma má memória que
tinha misturado dois eventos separados no tempo
por diversos anos. Se é certo que a memória
(mesmo a mais recente) não é tão exacta como
anteriormente se pensava e que na realidade se
degrada muito com o passar do tempo, a
explicação casuisticamente não se pode aplicar a
todas as testemunhas do caso Roswell. Mas a
Força Aérea foi ainda mais longe; como as
descrição dos corpos diferiam muito das de
humanos e os bonecos tinham sido afinal feitos
para se assemelharem a pessoas (daí o objectivo
dos bonecos), avançaram com explicações de que
com as quedas os bonecos se teriam partido
parecendo mais pequenos, o mesmo acontecendo com
os dedos que assim se podiam adaptar às
descrições de quatro dedos, etc.
Como demonstrámos as
explicações da Força Aérea não convencem e
acabaram por ter o efeito contrário ao desejado,
causando ainda mais suspeita do público sobre a
Força Aérea, as suas actividades e contribuindo
para a mistificação do caso. Mas por que falhou
o relatório? Por que partiu de um pressuposto
errado, o que de os relatos de cadáveres eram
idóneos e que por isso teve que arranjar uma
explicação à força para lidar com este aspecto
do caso. Todavia como vimos, o núcleo de pessoas
a quem se pode atribuir terem visto cadáveres é
restrito, e não apresenta credibilidade.
Considerações Finais
Sendo formado em Direito, se
fosse Juiz e se me deparasse com um caso onde
não há certezas sobre a data, sobre o número de
objectos envolvidos, sobre o local ou locais
onde caiu/caíram, onde não há concordância entre
o número de cadáveres, nem quanto às suas
descrições e onde as testemunhas mudaram
sistematicamente a história, aumentando os
detalhes quando deveria ter sido o contrário
devido ao natural passar do tempo e aumento da
idade, não teria outro remédio senão declarar o
caso como não provado, e com a possibilidade de
elevada de ser falso, ou pelo menos as
pretensões avançadas. Creio que após este
trabalho, demonstrei no mínimo que este caso não
é de todo sólido nem bem fundamentado e no
máximo que nenhuma aeronave de origem
extraterrestre se despenhou em Roswell, tendo
sido antes um balão Mogul. Creio ainda que
qualquer pessoa dotada de senso comum, chegará à
mesma conclusão. Senso comum que deve nortear a
investigação OVNI.
No fundo pretendi demonstrar
que questionar o caso Roswell não é criticar a
ovnilogia, não é minar a ovnilogia, nem pode ser
visto como um acto de traição, ele é antes a
postura natural de um investigador que deparado
com questões contraditórias as expõe, faz nascer
a discussão, esperando com isso contribuir para
a verdade material do caso. A ovnilogia não pode
criar mitos, não se pode alicerçar em dogmas,
nem em tabus, sob o risco de um dia colapsar se
provados falsos. A ovnilogia como ramo do
conhecimento que é, deve e tem de ser um exemplo
de curiosidade intelectual, de pesquisa livre e
da livre discussão, caso contrário, tornar-se-á
no oposto daquilo que nasceu para ser; a
divulgação séria, completa e isenta de casos
OVNI.
Agosto de 2005
Anexo
Fotos do Balão Mogul

Tamanho do balão comparado com monumentos. Vemos
que o balão era grande o suficiente para causar
o volume de destroços avançado.

À esquerda vemos um esboço dos desenhos da
fita-cola utilizada no projecto Mogul, à direita
a recordação de Jesse Marcel Jr. dos hieróglifos
nas barras em forma de I.

À esquerda uma foto de um reflector de radar
Rawin, à direita um para quedas acastanhado
devido à exposição ao Sol

À esquerda o esboço apresentado pelo
investigador Stanton Friedman no jornal “Roswell
Daily Record” em 1987. À direita o esboço
apresentado por Glenn Dennis anos depois.
Nota: Todas as fotos provêm do
livro “Roswell –Inconvenient Facts and the Will
to Believe”
Bibliografia
-
Crash at Corona, Stanton
Friedman e Don Berliner, 1992
-
Documentos MJ-12,
divulgados em 1987
-
Roswell –Inconvenient
Facts and The Will to Believe, Karl T.
Pflock, 2001
-
Roswell UFO Crash Update,
Kevin Randle, 1994
-
The Mammoth Book of Ufos,
Lynn Picknett, 2001
-
The Roswell Incident,
William Moore e Charles Berlitz, 1980
-
The Roswell UFO Crash
–What They Don´t Want You to Know”, Kal. K.
Korff, 1997
-
The Truth about the UFO
Crash at Roswell, Kevin Randle e Donald
Schmitt, 1994
-
UFO Crash at Roswell,
Kevin Randle e Donald Schmitt, 1991