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Contagem de Borda Já!

O Mito do Homem Assassino

26 de julho de 2009 Comments (3) Views: 1040 Ciência, Destaques

O Homem Descobre o Mundo

excertos da série ‘Ciência Ilustrada’,
lançada em 1969 pela editora Abril

Hierão estava satisfeito, naquela tarde, olhando, cheio de mistério, para uma pequena esfera colocada sobre a mesa. Discípulos e convidados acompanhavam com curiosidade os gestos de Hierão, que encheu de água a bolinha, acendeu uma chama debaixo dela e, sorrindo, perguntou:
— Pois bem, amigos, o que vai acontecer agora?
Todos haviam se aproximado da mesa. Apenas Lício, o filósofo, mantivera-se no seu lugar, desinteressado.
— Vai ficar quente — arriscou um dos jovens.
— Vai derreter — disse outro.
— Vai fazer Lício dormir — completou o mais espirituoso.
— Vai mover-se — disse com firmeza Hierão, apontando para a pequena esfera metálica.
E esta, como se obedecesse a uma ordem, começou a girar em torno do eixo que a sustinha. Houve um assombrado silêncio, enquanto a esfera, lançando vapor por dois tubinhos que dela saíam, tomava impulso e girava cada vez mais depressa, assobiando.
— Mas por que ela se move, ó feiticeiro? — indagou um dos rapazes. — Há algum demônio agitado aí dentro?
Hierão abanou a mão, rindo:
— Nada mais que água. É a água que, transformando-se em vapor, a faz mover-se. Isso custou uma manhã de raciocínios. Mas é algo muito simples, apenas uma maneira de aproveitar o movimento da água, como nos moinhos. Poderia construí-la em ponto maior e usá-la para moer grãos de cereais.
Os jovens estavam encantados com a sagacidade de Hierão, que comparavam ao grande Arquimedes. Apenas Lício resmungou indignado:
— E o engenho de um homem de engenho deve perder-se em tais futilidades?
E tua alma, á inteligente idiota? O movimento de tua alma não é mais importante que o da água? Estudaste filosofia para fabricar mecanismos, como qualquer vil artesão? Usas as mãos como um escravo, em vez de usares o espírito como um amigo do conhecimento?
— Ainda assim — comentou pensativo um dos jovens —, o movimento da água também ensina algo ao espírito.
Lício fez um gesto cortante:
— Ensina apenas coisas mecânicas e sórdidas, que são as que se podem extrair do mundo material. Seu conhecimento só convém àqueles que por sua condição estão destinados a manejá-las.
Os presentes estavam divididos entre a admiração pela habilidade de Hierão e o irritado discurso do filósofo.
— Mas, enfim — um dos rapazes pensou ter um argumento irrefutável —, o grande Fídias exerceu uma arte manual ao fazer suas estátuas.
A resposta de Lício cobriu-o de desprezo:
— Pode-se apreciar a obra e desprezar o obreiro. Quem exerce uma arte baixa e manual, mesmo se produz coisas belas, tem estas coisas como testemunho de que foi incapaz de aprender o que é nobre e espiritual.
Tão virtuosas palavras emudeceram a todos. A própria maquinazinha, esgotada sua pouca reserva de água, parecia fulminada. Hierão, dominando a vontade de jogá-la à cabeça de Lício, que lhe estragara o prazer da exibição, fingiu um desinteresse displicente, fez um gesto ao escravo para que a afastasse dali e conduziu então a conversa para outros assuntos.
À volta da casa de campo de Hierão, situada nos arredores de Alexandria, escravos trabalhavam na colheita. Por todo o vale do Nilo, por todo o Império Romano, da Gália à Pérsia, homens giravam moinhos, manejavam as comportas de irrigação, carregavam tijolos em filas intermináveis, puxavam pesos enormes. Navios cortavam o Mediterrâneo, acionados por homens que remavam submissamente em filas compactas.
Era o ano 100, os homens eram baratos, a máquina a vapor um simples brinquedo e a física uma arte vil. Hierão, em bom tempo, emendou-se e resolveu escrever um tratado sobre astrologia e metafísica, pelo qual foi muito congratulado.
Mil e seiscentos anos depois, o francês Papin fervia um ovo na cozinha de sua casa, em Paris, e viu a tampa da chaleira saltar sob a pressão do vapor. Ocorreu-lhe então que essa força podia muito bem ser usada pelo homem. E fabricou um modelo de máquina a vapor.
Ê difícil acreditar que durante quase dois milênios, entre Hierão e Papin, ninguém mais tenha pensado em utilizar a força do vapor de água. Mas o fato é que as máquinas a vapor só começaram a ser usadas depois de 1782, quando James
Watt — partindo da sugestão de Papin — inventou um modelo eficiente (máquinas como as de Hierão e Papin não poderiam ser aplicadas diretamente na indústria). Mais trinta anos e a máquina de Watt, aperfeiçoada, estava cavando minas, movendo locomotivas e barcos, tecendo panos, substituindo o trabalho de centenas de milhares de homens.
Assim, durante séculos conheceu-se a idéia da máquina a vapor, mas só nos fins do século XVIII ela foi aplicada.
A explicação está no fato de que o mundo de Papin e Watt tornara-se muito diverso daquele que cercara Hierão.
Grandes fortunas tinham surgido com o comércio, que não era mais uma atividade vil. Os nobres ainda torciam o nariz para os mercadores, mas a Revolução Comercial abria o caminho para a Revolução Industrial. Muito do dinheiro ganho com as especiarias da Índia, o ouro da América e o tráfico de escravos começava a ser empregado na indústria. As fábricas, especialmente as tecelagens, surgiam e cresciam do dia para a noite.
O comércio e a indústria precisavam de transporte mais rápido para matérias-primas e mercadorias: quanto mais velocidade, maior o lucro. As máquinas substituem parte do trabalho humano, multiplicam sua eficiência, aceleram a circulação dos produtos e do dinheiro, aumentando as rendas. Os inventores passam, pois, a ser festejados, tudo o que é científico vira moda.
Apenas cem anos antes, cientistas ainda se arriscavam a ser queimados vivos pela Inquisição e pelos calvinistas, como Galileu, Giordano Bruno e Servetus.
“A ciência começou com os gregos.” Essa afirmação, típica de manuais, é basicamente falsa. A única Ciência que os gregos desenvolveram foi a geometria, porque era a única que não tratava de coisas “grosseiras e materiais”. O pensamento grego, no que ele tem de admirável, é filosófico e não científico. O experimentador Arquimedes é, antes, uma exceção.
O método científico tem um precursor em Bacon e ganha forma com Galileu Galilei (1564-1642), um século e meio antes da Revolução Industrial. Ë só depois dela que a Ciência assume sua importância na vida do homem.
Se juntarmos todas as descobertas científicas anteriores ao século XVIII, veremos que elas são parte reduzidíssima de todas as que agora possuímos. E hoje, trabalhando, existem cientistas em número maior que a soma de todos os que viveram no passado.
Para suprir a procura de máquinas da indústria nascente, apareceram a mecânica, a termodinâmica, a metalurgia e inúmeras técnicas de cálculo. E cada indústria que surgia, explorando descobertas das novas ciências, produzia outras, numa cadeia sem fim.
Um exemplo desta reação em cadeia, que foi a explosão científica da idade industrial, é o salto que fizeram biologia e medicina, como conseqüência inesperada do aproveitamento da hulha, que, aparentemente, nada tem a ver com as ciências biológicas. Tudo começou em 1735, quando os Abrão Darbis (pai e filho) inventaram a técnica de fundir o ferro usando carvão mineral. Esse avanço da metalurgia levou a uma grande procura de carvão fóssil, fazendo o subsolo abrir-se em imensas galerias, escavadas com o auxílio da reinventada máquina a vapor. Dêsse carvão, que agora podia ser ob
tido em larga escala, William Murdoch extraiu o gás de iluminação outra indústria gigante. Mas nas tubulações de gás acumulava-se um depósito semi-oleoso de cheiro desagradável, o alcatrão, considerado uma sujeira industrial até que, em 1866, William Henry Perkins conseguiu extrair dele as anilinas. Estava aberto o mundo de cores maravilhosas, que as fábricas hoje usam.
Até esse momento, a biologia — se bem que dispusesse do microscópio, inventado por Leeuwenhoeck (1632-1723) nada sabia da estrutura básica da vida. As células vivas são transparentes como água. Sabia-se de sua existência mas havia até quem duvidasse fôssem elas o elemento-base da construção de animais e plantas. Em 1871, Karl Weigert levou ao microscópio cortes de tecidos coloridos com as recém-descobertas anilinas. Em poucos anos, meses mesmo, a literatura biológica encheu-se de coisas nunca sonhadas. Como as várias partes da célula absorvem diferentes corantes de anilina, onde antes só havia uma massa incerta e translúcida, aparecem agora, sob as lentes do microscópio, imagens com membranas e núcleos. Literalmente, uma nova biologia acabara de nascer.
Seiscentas e cinco vezes Ehrlich e Hata fracassaram. Mas na 606a experiência, juntando uma anilina com arsênico, criaram o salvarsan 606, uma substância que, injetada num doente de sífilis, matava seus ferozes espiroquetas — já bem visíveis, graças a outro corante de anilina —, sem fazer nada ao paciente. Era o primeiro remédio sintetizado pelo homem! Por quatro séculos, mais temida que a peste e a lepra, a sífilis devastara a Europa. Um dos tantos derivados da indústria carbonífera decretou o fim do seu reinado de terror.
Hoje — acostumados que estamos a sulfas e antibióticos — é difícil imaginar as imensas esperanças que o surgir do 606 suscitou. Tudo então parecia possível na medicina, O século XIX tomou-se o século do “otimismo científico”. A Ciência ampliaria o poder do homem sobre a natureza até o infinito. Todas as doenças seriam vencidas, todas as nações se toma-riam civilizadas, os homens iriam à Lua para explorar suas riquezas.
A certeza disso tornou-se tal, que quando Júlio Verne e H. G. Wells lançaram um novo tipo de literatura — a ficção científica — suas previsões foram levadas absolutamente a sério.
E mais: a Ciência acabaria com a fome, a doença, a velhice, e mesmo com as guerras. Pois não era ela o triunfo da razão? Ela podia tudo. O que não fora possível em milênios se tornaria realidade em cinqüenta anos ou um século. A Ciência era o poder sobre o mundo, durante tanto tempo desejado.
Na II Guerra Mundial os selvagens papuas, da Nova Guiné, assistiram à chegada dos brancos que abriam pistas na floresta, falavam dentro de latas, e logo depois faziam chegar enormes pássaros metálicos cheios de alimentos e coisas admiráveis. Os brancos afirmavam ser os fabricantes da comida em latas e dos aviões, coisa em que nenhum papua acreditou. O que os brancos tinham era uma mágica eficiente para chamar aqueles pássaros. E logo os papuas começaram a fazer suas próprias pistas e a fabricar imitações das estações de rádio dos brancos, erguendo fios sobre antenas de bambu, falando dentro de latas que imitavam microfones. Não dava resultado? Os aviões não desciam no “aeroporto” dos papuas? Paciência. A mágica não fora bem feita. E recomeçava-se de novo. E uma nova religião, o culto cargo (nome inglês para carregamento), nasceu da observação da técnica científica por parte de quem não tem a menor idéia do que seja Ciência. Mas não temos motivos para rir dos selvagens. A magia — ilusão pré-científica de que é possível obter poder sobre as coisas manipulando obscura-mente forças desconhecidas — floresce ainda nas nossas sociedades industriais. E tal é seu peso que algo de muito estranho se deu: a própria Ciência passou a ser vista como uma espécie de feitiçaria. O cientista é imaginado como um mago que obtém seu poder de fontes obscuras e de uma “inteligência” inacessível ao comum dos mortais.
Faça-se uma experiência: pergunte-se ao homem da rua por que, quando ele toca no interruptor, a luz se acende. Obteremos apenas uma vaga resposta referente a uma entidade mitológica chamada “eletricidade”. Se aprofundarmos o inquérito, ele nos dirá que se trata de coisa muito complicada, que só os “cientistas” — isto é, os novos “feiticeiros” — são capazes de entender. Além disso, a “Ciência”, para ele, só se manifesta através de uma coisa chamada “matemática” — misteriosa confusão de números e símbolos dotada de poder evocatório, como os antigos ritos.
O selvagem não se espanta com os milagres técnicos. Para quem vive cercado de milagres e tudo é mágica — chuva, caça, vento, fogo ou doença —, que podem importar algumas mágicas a mais? Daí sua indiferença pela fotografia, rádio, avião ou luz elétrica.
Nossos avós, que saíam de um mundinho pacato, tradicional, onde as poucas coisas que mudavam o faziam lentamente, espantavam-se e ainda se espantam com os contínuos triunfos da era científica. Mas o homem comum contemporâneo voltou a uma situação muito parecida com a dos selvagens. Nascido num mundo em contínuas transformações, apesar de acreditar na natureza mágica da Ciência, nada mais lhe parece estranho. O anúncio de que homens giraram em torno da Lua causa muito menos entusiasmo que a notícia sobre Santos Dumont erguendo vôo num aparelho mais pesado que o ar.
Os papuas fracassaram em sua tentativa de usar a “Ciência” para fazer descer os aviões do céu. Desistiram dela, voltando à vidinha que têm levado no último meio milhão de anos.
Mas suponhamos que nós tivéssemos de desistir do uso da Ciência. Suponhamos uma estranha amnésia atacando subitamente os cientistas e técnicos do mundo. Todos esqueceriam o que sabem e seriam incapazes de ler os livros científicos, de repente tão misteriosos para eles quanto o são para o homem da rua. Estupefatos, olhariam para seus aparelhos tornados incompreensíveis, tentando adivinhar para que servem. Em questão de horas, grande parte da maquinaria industrial começaria a agonizar e a imobilizar-se, enquanto seus responsáveis procurariam manipulá-la ao acaso. Em poucos dias, milhões de cadáveres juncariam as ruas 4as cidades. O colapso iniciado com a falta de petróleo e eletricidade e o fim dos transportes rápidos, com o passar das horas, atingiria os estoques alimentares das cidades, que se esgotariam sem ser substituídos. À noite, nas cidades paralisadas, apenas o clarão dos incêndios acidentais e a Lua iluminariam as multidões em luta por restos de comida. Das montanhas de lixo sairiam os fantasmas abolidos do passado: peste, cólera, varíola, escarlatina. E as populações urbanas fugiriam das cidades apenas para encontrar de novo a morte nos campos e florestas.
O motivo é simples: o Brasil, na época da independência, tinha 4 milhões de habitantes, menos do que tem hoje a cidade de São Paulo. Produzindo alimentos em escala nunca sonhada na história do mundo, e diminuindo a mortalidade, a técnica científica permitiu um imenso aumento populacional. Sem a possibilidade de produzir alimento em massa, transportá-lo rapidamente e privado dos recursos da medicina, esse “excedente” de população industrial morreria em poucos meses.
Morreria mesmo muito mais que esse “excedente”. Um selvagem abandonado numa ilha deserta tem mais possibilidade de sobreviver que um funcionário de banco, O homem da cidade científica não se assemelha a um antigo camponês egípcio ou chinês: parece-se muito mais com uma formiga, que morre quando desgarra de seu formigueiro.
Não podemos agora viver sem a Ciência. Mais ainda — não podemos viver sem que ela progrida. A população não pára de crescer e a aplicação da Ciência, que fez surgirem as imensas populações das sociedades industriais
, criou para elas problemas que antes não existiam: poluição da água e do ar, superpopulação, novas doenças, habitação, transporte, educação para milhões. Só a Ciência pode resolver os novos problemas que ela mesma suscitou. E a Ciência tem respondido ao desafio, ampliando a produção dos alimentos, criando novos medicamentos, inventando computadores que processam milhões de dados em velocidade fulminante e máquinas de educar, estudando o cérebro humano e os recursos naturais, planejando, prevendo, pesquisando. Mais e mais a sociedade precisa de cientistas e do conhecimento científico para progredir e manter-se viva. Passo a passo, irreversivelmente, a vida se torna mais e mais científica.
O paradoxo de nossa época é que massas de homens, que sem a Ciência estariam mortas, ignoram tudo da Ciência. O “novo selvagem” passeia por entre “mágicas familiares” — máquinas de ver a distância, de voar, de curar — e não tem a menor idéia de como funcionam.
Entre os mais educados dos “novos selvagens” — e há entre eles pessoas alta-mente educadas, universitários, literatos, jornalistas, juristas, filósofos — existe mesmo a crença, muito divulgada, de que a Ciência criou uma vida “antinatural” para o homem.
Mas o que é “natural”? Que é “voltar à natureza”, ao mundo de antes da Ciência? Um moinho de vento, uma enxada, um machado de pedra, o fogo que cozinha os alimentos nada têm de “naturais”. São invenções humanas. Em que um moinho de vento é mais natural que um moinho elétrico, o uso do fogo mais natural que o da energia atômica e o emprego da pedra lascada mais natural que o do aço?
Não há caminho de volta. Nossa sociedade só pode resolver os problemas nascidos da aplicação da técnica científica desenvolvendo a Ciência, aumentando o número de técnicos, educando em massa sua população. Essa educação não se poderá processar apenas nas escolas. Mais e mais a divulgação científica, dedicada aos não-profissionais da Ciência, ao homem da rua, aos jovens, ao especialista de outros ramos, será uma atividade fundamental para a Humanidade.
A Ciência não é uma nova magia e seu método não está reservado a feiticeiros — os cientistas loucos, extravagantes e superinteligentes do cinema. Ela é simples em suas funções, clara em sua estrutura, elementar em seu método, maravilhosa em seus resultados. E pode ser compreendida por qualquer pessoa.
Sempre houve elementos científicos em qualquer pensamento, até na magia. O primeiro homem (ou pré-homem), ao perceber que “o fogo queima”, fez uma observação científica, nascida do bom senso. Mas quando atribuiu ao fogo uma vontade própria e maligna de queimar, deixou de fazer Ciência para criar a demonologia. A Ciência é herdeira do primeiro raciocínio e abandonou o segundo porque ele não era comprovável. O conhecimento científico é, pois, conhecimento com provável.
Comprovável, entretanto, de certa maneira. As provas também têm que ser científicas, O selvagem pode provar a presença de um demônio nas chamas, alegando que ele foi visto certa vez, ou que sonhou com ele, ou que é assim porque “todos sabem disso”. Esse tipo de prova não interessa à Ciência.
A observação diária nos diz que uma pluma flutua no ar e uma pedra se precipita velozmente para o chão. O que leva o bom senso a acreditar que pesos deferentes caem a velocidades diferentes. Se perguntarmos à maioria das pessoas
o que cai mais depressa, um peso de 1 quilo ou um de 10, quase todos apontarão o de 10 quilos. Alguns acrescentarão que o de 10 quilos cai dez vezes mais depressa que o outro, assumindo um ar muito “científico”.
Apesar de a resposta estar baseada no bom senso, ela é completamente falsa: pesos diferentes caem com velocidade igual. Isso foi demonstrado por Galileu, quando jogou bolas de metal e pedra com o mesmo diâmetro, mas com pesos diversos, de cima da torre inclinada de Pisa.
Galileu estava envolvido numa disputa a esse respeito com seus colegas professores. Aristóteles afirmara em seu livro sobre física que pesos diferentes caem com velocidades proporcionais a seu peso. Até a Renascença, quando começa a revolução científica, Aristóteles era autoridade indiscutível. Já que ele tinha dito, devia ser assim. Galileu fez a experiência e achou o contrário. Seus colegas teimaram. Se estava escrito em Aristóteles, então a tal experiência estava errada. E sorriam condescendentes.
Galileu foi para cima da torre e jogou os pesos exatamente na hora em que pela praça passavam estudantes e professores, para que todos pudessem testemunhar os resultados. Os estudantes aplaudiram-no e os professores tornaram-se seus inimigos. Alguns acrescentaram que se. tratava de um truque, uma ilusão de óptica ou uma trapaça qualquer.
A fé que Galileu tinha na Ciência separou-o do mundo universitário do seu tempo e terminou por trancafiá-lo num cárcere da Inquisição. Mas de seus trabalhos nasceu o método científico em estado puro. Foi o iniciador da dinastia dos grandes cientistas modernos que não mantêm relação com a magia, ao contrário, por exemplo, do seu contemporâneo, Johannes Kepler (1571-1630). Um dos fundadores da moderna astronomia (a ele devemos a formulação das três leis das órbitas planetárias), Kepler era, também, um astrólogo convicto. Dava tanta importância a suas descobertas planetárias como a seus horóscopos que — seja dita a verdade — garantiam-lhe o sustento, possibilitando que estudasse o céu. Foi o homem de transição entre a época do pensamento mágico e a do científico, o último dos grandes magos-cientistas, como Paracelso e os alquimistas.
Galileu, ao contrário, só acreditava no método científico. Assim, foi o primeiro a denunciar os grandes inimigos deste método: os argumentos baseados na autoridade e no bom senso. Tanto Aristóteles — autoridade indiscutível — como o bom senso tinham enganado a todos sobre a queda dos pesos. E sobre várias outras coisas, entre elas a categórica afirmação de que a Terra ocupava o centro do Universo.
Galileu foi o codificador do método experimental na física, processo que logo se estendeu a velhos ramos do conhecimento, transformando-os em ciências.
Por exemplo, todo mundo sempre soube que os filhos dos cavalos são cavalos, o mamoeiro só produz mamões, e os filhos dos humanos parecem-se com seus pais. Mas por que é assim? Por que dos hipopótamos não nascem cabras?
Os massudos calhamaços que tratavam da descendência usavam um pesado palavreado grego — taleogonia, atavismo, xenogênese — para ocultar o fato desagradável de que nada sabiam. Em 1866, no mesmo ano em que Mendel publicou seu trabalho de quatro páginas resolvendo o problema da hereditariedade, ó professor Virchow, um dos pais da anatomia patológica, faria editar sobre o assunto um volume de duzentas páginas que, entretanto, nada explicava.
Qual a diferença entre os dois trabalhos?
Virchow acumulou todos os dados publicados sobre o assunto, catalogou-os e perdeu-se entre eles, sem conseguir dar-lhes nexo.
Mendel, antes de tudo, procurou um material que fosse fácil de estudar. Escolheu a ervilha de jardim porque sua reprodução era bem conhecida e tinha características, como a cor das sementes, bem definidas e fáceis de observar.
Tendo garantido que seu material era puro, isto é, que as plantas de semente verde, quando autofecundadas, só davam cor verde por várias gerações e as amarelas procediam da mesma forma, começou a cruzá-las entre si. Sempre anotando os resultados, foi repetindo as experiências, até ter certeza de sua constância e previsibilidade.
Finalmente, descreveu seus resultados de forma que qualquer outro pesquisador pudesse comprová-los por sua conta. Quando terminou, a Ciência possuía uma exata descrição das leis da hereditariedade, sobre a
s quais estruturou-se a genética.
Até Pavlov, a psicologia preocupava-se muito com algo chamado alma. Tratados descreviam suas qualidades, formas, partes e totalidade. E não havia um psicólogo que estivesse de acordo com outro. Pavlov não era psicólogo, mas fisiologista. Não se interessava pela alma. Estudava a salivação dos cachorros. Todo mundo sabe que, quando se aproxima comida da boca de um cão, ele saliva; se coçarmos o interior do nariz, espirramos; se acendermos uma lâmpada, as mariposas voarão de encontro a ela. Essas reações eram chamadas reflexos. Pavlov experimentou dar comida a um cão, ao mesmo tempo que tocava uma campainha. Depois de repetir a experiência várias vezes, tocou a campainha sem apresentar a comida. E o cão salivou. O reflexo da salivação fora condicionado ao som da campainha.
Desta descoberta, em si muito simples, variando-a e complicando-a sucessiva-mente de forma sistemática, Pavlov conseguiu desvendar uma inteira área do funcionamento psicológico — a teoria da aprendizagem. E mais, estabeleceu uma técnica para estudar as neuroses que ele relacionou com a aprendizagem.
Um cão, colocado diante de uma tela branca, cada vez que recebia a comida, via projetada a figura de uma elipse. Em pouco tempo, ao ver a elipse o cão ficava alegre, abanava o rabo e salivava. Quando, pelo contrário, era projetado um círculo, o animal recebia um choque elétrico. E cada vez que via o círculo, ele gania assustado e tentava fugir. Depois a elipse começou a ser projetada cada vez mais achatada, aproximando-se do círculo. Quando o cão não pôde mais distinguir o sinal projetado, se era o do choque ou o da comida, o condicionamento se desfez e o animal desorientado começou a apresentar sinais de colapso nervoso. Esse modelo de experiência, exaustivamente repetida com ratos, cabras e outros animais, demonstrou que o comportamento neurótico podia nascer de condicionamentos contraditórios e de confusões no mundo dos símbolos.
Deixando de lado meditações sobre o “todo da alma” e restringindo-se a detalhes aparentemente simples, que antes seriam considerados irrelevantes, Pavlov – como Mendel e Galileu — criou urna nova ciência, a reflexologia, que tem aplicações na pedagogia e na cura dos desequilÍbrios nervosos.
Nem sempre, porém, a Ciência segue esse caminho. Darwin, por exemplo, usou o método científico de outra forma. Ele era um homem que observava atentamente e refletia com paciência. Na Faculdade de Cambridge, em vez de assistir às aulas, andava pelos campos catando escaravelhos — coisa oficialmente vista como forma de vadiagem. Formou-se sem brilho e embarcou como naturalista no Beagle, navio que ia dar a volta ao mundo. Essa viagem permitiu-lhe estudar espécies de animais e plantas, separadas geograficamente, mas que mostravam evidentes afinidades.
Logo uma coisa o intrigou: por que o mesmo tipo de animal, digamos um pássaro, mesmo vivendo em ilhas próximas, possuía, em cada uma delas, forma ligeiramente diversa? Isso também, notou ele, se passava com as plantas. Por fim, deduziu que essas espécies, que diferiam entre si apenas em detalhes, tinham-se originado umas das outras. As diferenças haviam sido obtidas com o acúmulo de pequenas transformações, ao longo das migrações de ilha para ilha, ou de região para região. Eram, portanto, adaptações progressivas da espécie aos novos ambientes.
Esse raciocínio foi urna dedução de detetive e não uma aplicação do método experimental. Darwin guardou-a para si. Ainda não sabia o porquê da evolução que observara.
A compreensão do porquê veio num estalo de indução, quando leu o trabalho de Malthus sobre o aumento da população. Darwin, então, firmou dois princípios:
1) Toda espécie, em cada geração, produz incomparavelmente mais indivíduos do que o ambiente é capaz de suportar e alimentar. Uma ostra liberta no mar centenas de milhares de ovos. No entanto, o número de ostras não aumenta sensivelmente de geração para geração. Desses ovos todos, apenas um ou dois chegam a ser adultos, capazes também de se reproduzirem. O mesmo acontece com os peixes e com as sementes largadas ao vento, Outro exemplo: a tartaruga põe meia centena de ovos num buraco da praia. Quando as tartaruguinhas nascem, começam urna desesperada corrida em direção ao mar. Mas poucas chegam lá. As aves rondam a praia e devoram boa parte delas. Mesmo no mar, poucas (mais ou menos o mesmo número de tartarugas da geração precedente) chegarão a ser adultas e a reproduzir-se.
2) Nesse massacre de cada geração, apenas os mais aptos (isto é, os mais fortes, ágeis, velozes e naturalmente capazes —- pelo mimetismo —— de se disfarçarem no seu meio) conseguem sobre-viver. Cada geração é composta de indivíduos diferentes entre si e só os melhores sobrevivem, passando aos descendentes suas características de aptidão. Esse aperfeiçoamento permanente —- o adaptar-se, sem cessar, às condições variáveis do ambiente e dos adversários —- faz com que, por acúmulo gradual de peque-nas diferenças, as espécies evoluam.
Toda geração é, pois, composta de indivíduos diferentes entre si. Os menos e os mais aptos. Algo produz essas diferenças. O quê? Darwin nunca soube o que produzia as variações individuais que possibilitavam a seleção natural dos mais aptos. Trata-se de algo que se produz em nível bioquímico, ciência apenas sonhada nesse tempo. Com o avanço da genética descobriu-se a natureza das mutações e conseguiu-se mesmo, em certos casos, reproduzir o processo em laboratório.
A teoria da evolução das espécies através da seleção natural não teve, pois, em seu começo, nenhuma comprovação experimental. Nasceu da indução e da dedução. Mas, desde seu início, a hipótese de Darwin era científica, pois explicava de modo racional os fatos, baseando-se cru causas puramente naturais.
A hipótese darwinista pôde ser comprovada experimentalmente. Há ciências, entretanto, em que a comprovação experimental é limitada. A psicologia, por exemplo, apesar da reflexologia, ainda não é uma ciência inteiramente experimental. E como aplicar o método experimental nas ciências históricas, como a paleontologia e a história das sociedades humanas, onde os fatos não podem ser repetidos em condições controladas ~— que é a própria essência do método?
Nesse caso, a comprovação científica baseia-se no controle minucioso e racional dos dados, deles excluindo tudo o que possa ser preconcebido, originado na autoridade ou no senso comum. A Ciência torna-se o exercício do pensamento crítico, da dúvida sistemática, das exclusões sucessivas.
Resumindo: o método mais geral, e, podemos dizer, o mais completo que a Ciência emprega é o empírico-indutivo. Como seu nome diz, ele parte do exame minucioso dos fatos observados, experimenta repeti-los, mede-os, enquadra-os dentro de um conjunto (correlacionando-os com outros já estudados) e procura dar-lhes explicação. Por fim, comprova a explicação, ao usá-la para o esclarecimento de novos fenômenos.
A aplicação do método começa, pois, com a observação despreconcebida dos acontecimentos.
Tenta-se depois reproduzir o fenômeno em condições de laboratório — isto é, perfeitamente controladas. Esta é a etapa que se chama experimentação.
Escolhem-se, então, entre os dados obtidos da experimentação, aqueles que são essenciais, separando-os dos acidentais ou insignificantes, O fenômeno é, assim, “purificado”. Para chegar a isso é preciso repetir a experimentação fazendo variar as condições.
Coordenam-se agora os dados obtidos na experimentação sob a forma de uma hipótese. Uma hipótese é a organização provisória dos fatos numa explicação que parece plausível. Se possível — o que nem sempre se dá — anunciam-se esses dados na exata linguagem das quantidades — a linguagem mat
emática.
Finalmente, testa-se a nova hipótese deduzindo dela conseqüências que possam ser verificadas pela observação e a comprovem. Se essas conseqüências se verificam, a hipótese é aceita. Com o aumento das comprovações e, portanto, da certeza sobre sua veracidade, a hipótese passa a ser uma lei.
Com seu conjunto de teorias — sistemas organizados a partir das hipóteses e leis —, a Ciência apresenta aos homens uma visão do mundo. As próprias teorias têm mudado e se sucedido rapidamente umas às outras. E essa substituição das teorias científicas umas pelas outras não demonstra a incerteza do conhecimento científico. O que se passa, normalmente, é que as teorias se tornam cada vez mais exatas e descrevem cada vez melhor os fatos observados.
A teoria da relatividade, de Einstein, não destruiu a física newtoniana, como esta não tinha destruído a de Galileu. Apenas completou-a e explicou com maior generalização os fatos que ela descrevia.
“Se pude me erguer tão alto” — disse Einstein — “é porque me alcei sobre os ombros de gigantes.”
Também a moderna genética não destruiu a teoria da seleção natural de Darwin. Pelo contrário, completou-a e estendeu-a.
A imagem do mundo que nos propõe a Ciência, assim, não é acabada. Cada dia que passa é ampliada, retificada. Todo horizonte conquistado descortina outros e esses farão aparecer outros mais. A aventura do saber científico não termina, ela é infinita. O poder que ela traz ao homem é, em princípio, ilimitado.
Se um homem do século XVIII, contemporâneo de Newton, nos visitasse, ele acharia nossa civilização tremendamente científica. Mas se o visitante fosse um homem do futuro, ele teria uma impressão mais exata: estamos na Pré-História do homem. A grande aventura científica apenas começou.

***

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3 Responses to O Homem Descobre o Mundo

  1. João Vieira disse:

    Olá.

    Gosto do conteudo do site e quero sugerir a alteração de fonte dos artigos. O espaçamento entre as linhas esta muito pequeno, acredito que rever a tipografia deixaria a leitura mais agradável.

    abraços

    João Vieira

  2. jack disse:

    Cara, eu queria ler esse texto, mas essa formatação está sinistra.

  3. Edson Morais disse:

    Ótimo texto…inspirador…parabéns…

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