A foto OVNI de Calvine: o melhor registro já capturado?

A primeira fotografia do OVNI de Calvine

É 4 de agosto de 1990, e você é chef de um hotel em Pitlochry, uma cidadezinha pitoresca na Escócia. Por volta das 9 horas da noite, depois do trabalho, você e seu colega de trabalho decidem dirigir até o parque nacional de Cairngorms e caminhar por Calvine.

É aí que vocês veem um enorme objeto em formato de prisma, com mais de 30 metros de tamanho, flutuando silenciosamente pelo céu. Logo depois aparece um caça a jato, que circula o enorme objeto voador não-identificado. Felizmente vocês têm uma câmera em mãos e conseguem capturar nada menos que seis fotos do incidente, até que o OVNI dispara pelo céu, sem ser mais visto.

Que história! E que fotos! Você e seu colega levam as fotos — e os negativos — para um dos maiores jornais da Escócia, o Daily Record.

Fim da história. Não, você lendo este texto, não pulou nenhuma parte. A história, a princípio, acaba aí. Porque nem o jornal, nem os dois colegas chefs de Pitlochry que capturaram as fotos publicaram a história ou divulgaram os registros em nenhum outro meio.

Nick Pope

Foi apenas seis anos depois, em 1996, que o jornalista britânico Nick Pope publicou um livro sobre sua experiência trabalhando no Ministério da Defesa do Reino Unido, como parte de um “Gabinete OVNI” que investigava relatos e avistamentos de coisas estranhas no céu. Era o início da carreira de Pope como um auto-intitulado “Fox Mulder”, o personagem da série contemporânea de TV, “Arquivo X“.

Em seu livro, Pope menciona ter visto “uma foto capturada na Escócia” em 1991, quando chegou ao gabinete OVNI em 1991. Ele fala bem vagamente desta fotografia, apesar de destacar como era impressionante a ponto de ter sido ampliada uma impressão em formato pôster que chegou a ser pendurada na parede do gabinete.

Pôster “Eu Quero Acreditar” da série de TV “Arquivo X”

Em entrevista a David Clarke, em 2001, Pope disse:

“Era realmente coisa do tipo de Fox Mulder. Não tinha a frase ‘Eu quero acreditar’ estampada, mas estava na parede do escritório quando eu cheguei … posteriormente eles a removeram, mas estava lá e até onde eu me lembro foi capturada por duas pessoas andando em Pitlochry que ouviram um som baixo, olharam ao redor, voltaram, e disparou, eu acho, não estou certo se eles capturaram várias imagens ou se apenas uma, mas foi enviado ao Ministério da Defesa. Não sei se tínhamos o negativo, de fato eles [os autores] devem ter pedido ele de volta”.

Se parece estranho que esse “Fox Mulder” tenha visto uma foto que muito provavelmente é a chamativa imagem que inicia este texto em um pôster gigante na parede do “Gabinete OVNI” do Ministério da Defesa britânico, e não investigou esse caso a fundo a ponto de não saber vários dos detalhes básicos dele, é porque Pope realmente não é muito comparável ao personagem de ficção. Imprecisões e exageros são comuns em boa parte das histórias que Pope conta — e, ao final, nem sobre Calvine, nem sobre qualquer outro caso Pope pôde adicionar muita informação que provasse algo aqueles de nós que querem mais do que acreditar.

Por outro lado, foi Pope que primeiro trouxe este caso a público, e é aí que entra David Clarke.

David Clarke

Ao longo das próximas décadas, o professor da Universidade de Sheffield Hallam, David Clarke, continuou investigando a tênue pista que Pope deixou, fazendo todo o dever de casa. Já em 1996 o Ministério da Defesa se posicionou oficialmente sobre o caso:

“Alguns negativos associados ao caso foram analisados pela equipe responsável por assuntos de defesa aérea. Uma vez que foi determinado que não continham nada de relevância à defesa (nacional), os negativos não foram retidos e não temos registro de qualquer fotografia ter sido tomada [dos autores]“.

O próprio Clarke foi consultor do The National Archives britânico no projeto que liberou arquivos relacionados a OVNI, e nesses arquivos o pesquisador vasculhou mais referências, diretas ou não, ao caso das fotos de Calvine.

Em arquivos liberados em 2009, Clarke encontrou informações dos relatos originais dos autores — contradizendo vários pontos da memória de Pope. Não há referência a nenhum barulho, mesmo baixo, do objeto, que teria pairado no ar por dez minutos, “antes de ascender verticalmente a alta velocidade”. Eles também contam terem visto o que acreditavam ser um caça Harrier passar várias vezes, capturando seis fotografias coloridas.

O relatório nos arquivos diz que um oficial da defesa, após entrevistar os autores, garantiu que não haviam feito nada de errado, e eles “seguiram seu caminho”.

Apesar de adicionar várias informações sobre o caso, os arquivos censuravam diversas informações pessoais, incluindo a identidade dos autores. Mas Clarke não desistiu.

Dr David Clarke (direita) com o oficial reformado Craig Lindsay

Craig Lindsay

Apenas 32 anos depois das fotos terem sido capturadas, foi o mesmo Clarke que encontrou Craig Lindsay, o primeiro oficial da defesa que entrevistou os jovens chefs naquela época. E não apenas Lindsay aceitou falar com Clarke sobre o caso, como tinha uma cópia de uma das fotografias guardada! É essa cópia que Clarke acaba de revelar ao mundo.

“Estive esperando alguém me contatar sobre isto há mais de 30 anos”, disse Lindsay, um oficial da imprensa da Escócia, já reformado. “[Já havia] lidado com muitos relatos de OVNI mas a maioria eram só luzes no céu. Este [caso] era obviamente diferente. Quando perguntei que tipo de barulho [o objeto] fazia, o homem disse: ‘Não fazia nenhum barulho’. Até aquele ponto eu não estava tratando o caso muito seriamente, mas quando ele disse que o objeto era silencioso, subitamente veio a mim que nenhuma aeronave que conhecia é silenciosa”.

Lindsay seguiu ordens de que os negativos que os chefs haviam entregue ao Daily Record fossem coletados e enviou uma cópia para o “gabinete OVNI” do Ministério da Defesa. Ele mesmo visitou o Ministério e confirma que viu uma cópia da foto de Calvine aumentada como um pôster na parede do gabinete, corroborando a história de Nick Pope.

“Eu perguntei como estava indo [a investigação]. Eles disseram que estava sendo investigado. Falaram para que eu ‘deixasse isso com [a turma de] Londres’ … pedindo que eu não me envolvesse, e eu fiz exatamente isso. Os anos se passaram e gradualmente eu me esqueci de que tinha uma cópia na gaveta. Agora espero que as testemunhas apareçam e contem suas próprias histórias”, disse Lindsay a Clarke.

Trinta e dois anos

E essa é, até agora, a peculiar história do caso OVNI de Calvine. É extremamente curioso que tenham se passado 32 anos para que uma cópia das fotografias venha a público, e não através de seus autores, mas por investigação obstinada e mesmo sorte — Clarke não conta como descobriu Craig Lindsay uma vez que sua identidade não foi revelada nos arquivos, apenas diz que “deu sorte“.

Antes de supor que o governo tenha abafado o caso, não há nenhum registro de que isso de fato tenha ocorrido. Embora o oficial Lindsay conte ter orientado a coleta dos negativos do jornal à época, não existe registro de que o jornal tenha sido proibido de publicar algo a respeito — embora a ausência de registro também não prove que isso não ocorreu.

Ainda que o jornal tivesse sido orientado, formal ou informalmente, a não publicar nada a respeito, a grande pergunta é por quê os chefs que participaram de algo tão extraordinário, e capturaram nada menos que seis fotografias, nunca vieram a público. Note-se que eram duas testemunhas, não apenas uma. Por que entregaram os negativos ao jornal, teriam a intenção de vendê-los? Não teriam guardado cópias? O que aconteceu com eles? Parte da divulgação que Clarke vem fazendo deixa muito claro que esperamos que eles agora venham à tona e contem sua história.

Análise

Em contato com David Clarke, este repassou uma versão em alta-resolução da cópia — que é a mesma que ilustra o artigo do The Sun — bem como a análise feita por Andrew Robinson, colega de Clarke na Universidade de Sheffield Hallam.

Apesar de parecer curioso que a imagem tenha sido capturada às 9 horas da noite e tenha ainda essa claridade, não só essa claridade como as condições meteorológicas em Calvine naquela data são compatíveis com a fotografia.

A análise de Robinson valida diversos outros pontos, concluindo não ter encontrado sinais de manipulação. Comentários iniciais de outros analistas concordam que a imagem não parece ser resultado de truques fotográficos no negativo ou na revelação.

Mas que o objeto no centro da imagem seja real não significa que seja um objeto voador, muito menos que seja um objeto voador de origem extraterrestre.

Esta é uma aeronave real: é um demonstrador de tecnologia “Have Blue” da Força Aérea dos Estados Unidos, c. 1977

Projeto Secreto: Aurora

Na mesma divulgação que faz do caso, Clarke sugere que o objeto extraordinário na imagem, sendo real, poderia ser uma aeronave secreta, talvez dos EUA, sendo testada em solo escocês, em colaboração com a Força Aérea Real — daí o caça britânico Harrier. De fato há registros sugerindo que poderia haver dois caças acompanhando o objeto, e que as outras cinco fotos mostrariam isto.

Para considerar isto plausível, no entanto, seria necessário considerar que em 1990 haveria uma aeronave secreta do governo americano em formato de prisma que não faria barulho e poderia disparar no céu em alta velocidade.

Mesmo entre rumores da indústria de aviação militar, embora haja sim projetos e protótipos com formas mais exóticas (vide o demonstrador “Have Blue” na imagem acima), não há indicação de que uma aeronave com essas características tenha existido. Talvez isso justifique exatamente o silêncio em torno do caso, mas uma explicação muito mais simples é de que o objeto, sendo real, talvez seja algo bem mais mundano.

Não é uma foto de Calvine: é uma das fotos divulgadas por Amaury Rivera dois anos antes, em 1988.

Fraude

O próprio David Clarke, antes de descobrir Lindsay e encontrar uma cópia da fotografia, era de opinião de que as fotos deviam ser fraudes, possivelmente inspiradas pelas fraudes usando modelos (pequenos) de Amaury Rivera, de 1988. A similaridade entre a composição das imagens é de fato notável: árvores em primeiro plano, caças a jato reconhecíveis, e objetos aparentemente alienígenas muito bem enquadrados.

Tudo isso pode ser apenas coincidência, porém, como notou um analista, “a presença de folhagens em primeiro plano nunca é um bom sinal” em imagens de discos voadores. Este próprio autor sugeriu a Clarke que os objetos nas imagens — incluindo talvez o próprio avião a jato — podem ser pequenos modelos suspensos na árvore, bem próximos do fotógrafo.

É possível também que o avião seja real, ao fundo, e o objeto não-identificado à frente seja um peso de chumbo pendurado em frente à câmera.

Outras possibilidades sugeridas incluem uma pipa ou um balão.

Teria uma fraude simples enganado analistas do Ministério da Defesa britânico? Esta não seria a primeira vez. A foto de Petit-Recháin, considerada por vários anos como evidência de um “triângulo voador” — extraterrestre ou mesmo uma aeronave secreta americana — sempre foi questionada por céticos, e seu autor confessou que era apenas um pedaço de isopor. Essa foto de isopor foi a capa do relatório sobre OVNIs do Ministério da Defesa britânico.

A foto de Petit-Rechain, uma fraude criada com isopor e pequenas luzes

Qualquer que seja a verdade sobre este caso, sabemos que há outras cinco fotografias, e duas testemunhas que estavam lá naquele 4 de agosto de 1990, e que ainda não vieram a público.

Depois de esperar 32 anos para que a primeira imagem venha à tona, esperamos que não demore tanto para saber se a verdade está realmente lá fora.

Com agradecimentos e reconhecimento ao trabalho de David Clarke.

Um comentário em “A foto OVNI de Calvine: o melhor registro já capturado?

  1. História realmente fascinante. E foi essa a impressão que fiquei de Nike Pope depois de entrevistá-lo anos atrás: de que seja alguém que gosta muito do assunto, é bastante curioso… Mas sem uma memória muito boa. 😬

    Enfim, aguardando por mais fotos e análises.

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