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Os Dogon e o mistério de Sírio

De Cthulhu à Clonagem

20 de agosto de 2009 Comments (6) Views: 3733 Destaques, Fortianismo

O demônio ceifador

O fenômeno dos círculos nas plantações como o conhecemos começou por volta de meados da década de 70 no sul da Inglaterra. Contudo, uma evidência mais séria da antigüidade do fenômeno é um panfleto de 1678, que fala sobre o "demônio ceifador", ou "diabo ceifador" e que você confere nesta página.

A gravura pode falar mais do que mil palavras, mas não deve ser tomada como única fonte de informação. O panfleto conta uma história, que é freqüentemente distorcida para sustentar adicionalmente a antigüidade dos círculos nas plantações. Incrivelmente, é muito simples evitar distorções: basta citar o que o panfleto diz:

O DEMÔNIO CEIFADOR: ou NOTÍCIAS ESTRANHAS DE HARTFORD-SHIRE
Sendo verídico o relato de um Fazendeiro que pechinchava com um ceifador pobre sobre o corte de três acres e meio de aveia: desde que o cortador lhe pedia um preço muito alto, o Fazendeiro jurou que o Demônio deveria cortar a safra de aveia ao invés dele. E assim que foi abatido naquela mesma noite, o campo de aveia mostrou-se como se fosse uma só chama: mas na manhã seguinte estava tão cuidadosamente ceifado pelo Demônio, ou algum Espírito Infernal, como  mortal algum o faria tão bem.

Também, agora a aveia jaz no campo mas seu proprietário não tem Força para colhê-la.

Licenciado, 22 de Agosto de 1678.

– – –

Os Homens podem flertar com o Paraíso e criticar o Inferno, tão perspicazmente quanto lhes aprouver mas que há realmente tais lugares, a sábia Revelação da Providência do Todo Poderoso não cessa de evidenciar continuamente. Se por essas circunstâncias acumuladas que geralmente nos induzem à crença de alguma coisa além dos nossos sentidos podemos racionalmente entender que certamente há coisas assim como DEMÔNIOS, devemos necessariamente concluir que estes Demônios têm um Inferno. E da mesma forma que existe um Inferno, deve haver um Paraíso e consequentemente um Deus sendo portanto todas as Obrigações da Religião Cristã conseqüências indispensáveis e necessárias a serem seguidas.

À primeira de tais proposições por confirmar, esta posterior narrativa será de pouca ajuda. 

Há não mais tempo atrás que dentro do correr deste presente mês de Agosto, aconteceu um incidente não usual em Harthfordshire, não só por não ser de narrativa comum e ter provocado a admiração do todo município mas também por poder, por sua raridade, intimidar quaisquer outros eventos que tenham acontecido em quaisquer outros municípios em todos esses muitos anos, sejam eles quais forem. A estória é esta.

No dito município, vive um rico e industrioso fazendeiro que observando uma de suas plantações (de aproximadamente um acre e meio de terra que havia semeado com aveia) pronta para colheita, convidou um pobre vizinho, que se sabia trabalhar usualmente no verão no serviço de lavrador, a concordar com ele quanto a ceifar ou cortar os ditos pés de aveia. O pobre homem, como que na obrigação de empenhar-se a vender o suor de sua fronte e o tutano de seus ossos a um valor tão caro quanto pudesse, estipulou um bom e razoável preço por seu trabalho ao que o Fazendeiro, com escusas em relação a este, ofereceu valor muito abaixo do que o que o pobre homem pediu e, após algumas palavras ríspidas, disse-lhe que não discutiria mais sobre isso. 

Em decorrência do honesto lavrador lembrar a si mesmo de que se não tomasse para si aquele pequeno serviço ele poderia perder muito mais serviços que o fazendeiro teria para empregá-lo dali para frente, correu atrás dele e disse-lhe que ao invés de contrariá-lo, ele faria o serviço por qualquer valor razoável que o agradasse e, como um exemplo de seu desejo em servi-lo, propôs um preço mais baixo do que o que tivesse ganho por ceifar em qualquer época anterior àquele ano. O irredutível Fazendeiro, com uma aparência severa e gestos bruscos, disse ao pobre homem que o próprio Demônio ceifaria seus pés de aveia antes que ele tivesse qualquer coisa a fazer com eles e após isso seguiu seu caminho, deixando o triste trabalhador do campo, nem um pouco preocupado com o fato de ter se descompromissado com alguém em quem residia o poder de fazer-lhe muitas gentilezas.

Mas, entretanto, em uma feliz série de prosperidade interrompida, nós podemos nos vangloriar de nossos eus sobre as miseráveis indigências de nossos vizinhos necessitados, contudo existe um Deus justo lá em cima, que nos avalia não por nossa posses ou pela medida de nossos tesouros: mas olha para todos os homens indiferentemente, como filhos de Adão: então aquele que cuidadosamente anuncia que a grandeza ou posição está onde o Todo Poderoso o coloca ao invés do mesquinho, é verdadeiramente mais merecedor da estima de todos os homens, então aquele que é preferido aos dignatários superiores, e os decepciona: E que decepção maior que o desprezo ao homem abaixo dele: o alívio daqueles cujas necessidades básicas é nenhuma das maneiras mínimas de modo a manter as suas Boas Coisas: que quando esta garantia é confiscada por suas falhas, ele pode razoavelmente esperar por um Julgamento a seguir: ou pelo menos que aquelas riquezas das quais se orgulha de forma tão extravagante possam ser rapidamente tiradas dele.

Nós não tentaremos captar a causa, ou razão, destes eventos Preternaturais: mas certos nós estamos, como os relatos mais gerais e críveis podem nos informar, que naquela mesma noite em que este Pobre Cortador e o Fazendeiro se separaram, este campo de cereais foi visto publicamente por muitos transeuntes como sendo todo uma Chama, e continuou assim por alguma distância, para grande consternação de todos os que presenciaram aquilo.

Aquelas estranhas notícias chegaram ao Fazendeiro na manhã seguinte, e não poderia deixar de produzir grande curiosidade para ir e ver o que sucedera de seu campo de cereais, que ele não podia imaginar, mas que estava totalmente devorado por aquelas chamas vorazes que foram observadas pelos que residiam ao redor de um acre e meio do Local

Certamente uma reflexão sobre sua repentina e indiscreta expressão (de que o Demônio deveria ceifar seus Cereais antes que o pobre homem pudesse ter qualquer coisa a ver com eles) não poderia deixar de vir à sua Memória. Porque se nós nos permitirmos alguma reflexão, para considerar quantos acertos da providência são necessários para a produção de um campo de cereais, assim como a inclinação do solo, as tempestades fora de época, solstícios nutritivos e ventos salubres, etc, nós podemos saudar a Maturidade com Reconhecimentos Devotos a prevenir nossa reunião de desejos profundos.

Mas para não manter o Leitor curioso mais em suspense, o inquisitivo fazendeiro logo chegou no local onde o cereal crescia, mas para sua admiração ele encontrou a plantação cortada e pronta para a retirada; e [como se] o Demônio tivesse em mente exibir sua destreza na arte da lavoura, e para desdenhar o corte da maneira usual, ele a cortou em circulos, e colocou cada palha com uma exatidão que levaria mais que uma Era para qualquer homem fazer o que ele realizou naquela única noite: E o homem que possui [a plantação cortada pelo Demônio] ainda está com medo de removê-la.

FIM

Lendo toda a longa história do panfleto, fica evidente que é uma lição de moral a respeito de um fazendeiro ganancioso, que além disso blasfemou. Francesco Grassi, do CICAP, comenta como o conflito de classes também está bem claro: o fazendeiro é o "rico", e o ceifador, o "pobr
e". Tudo isto não é nada incomum, panfletos medievais eram o meio fácil através do qual estórias de moral e boatos envolvendo bruxas, demônios e afins se espalhavam tão facilmente quanto notícias verdadeiras. Os panfletos medievais dariam origem ao jornal, ao boletim e então às nossas modernas revistas. Mas são melhor comparáveis aos tablóides sensacionalistas de hoje.

Muitos parecem se esquecer que a história é sobre um demônio ceifador, devidamente segurando uma foice, e que os círculos nas plantações que conhecemos não envolvem o corte de plantas. Além disso, a gravura parece estar representando um demônio ceifando aveia que está envolta em chamas. Podemos identificar irradiando do corpo do demônio algumas labaredas. Estas chamas também são descritas no texto, embora relatos de grandes chamas infernais na formação de círculos não sejam comuns presentemente ("orbs", supostas bolas de luz vistas em círculos, dificilmente podem ser confundidos com chamas).

No final da história, também fica claríssimo como a plantação foi ceifada, e disposta cortada de forma meticulosa. Isso difere e muito das plantações contemporâneas dobradas e amassadas. Mas, se há uma coincidência, é o fato de que em ambos casos a complexidade do trabalho resultante leva a especulações sobrenaturais.

Praticamente todas estas avaliações críticas, desassociando o panfleto medieval dos modernos círculos, também foram feitas pelo Dr Owen Davies, professor de história, ao cético Francesco Grassi. Detalhe: Davies é professor da história da Universidade de Hertfordshire. Poucos mais de trezentos anos depois, no mesmo condado inglês.

– – –

Notas: Lendas associadas ao fenômeno das ‘fairy rings‘ (anéis, círculos de fadas), e as fairy rings em si são algo comprovadamente antigo, mas este fenômeno é muito diferente dos círculos nas plantações e, ao contrário dele, explicado como produto natural de fungos. Elas não devem ser misturadas aos círculos nas plantações que conhecemos.

O panfleto sobre o demônio ceifador parece ter sido bem divulgado em "The Hertfordshire ‘Mowing Devil’ Woodcut: A 17th Century Circle Report?", Jenny Randles. UFO Times, no. 5 (January 1990), pp. 30-32. Ele parece ter vindo à tona em The Journal of meteorology UK (vol. 14 nº 143), novembro de 1989 (como citado por Alexandre Borges no grupo de discussão).

A tradução completa do texto do  panfleto foi gentilmente realizada por Lígia Amorese, Vera Filizolla e Homero, membros do grupo de discussão do website. O texto completo, original em inglês arcaico, pode ser lido na página do CICAP.

Leia mais
A página de Francesco Grassi do CICAP sobre o panfleto do demônio ceifador.
– Uma ótima referência em português sobre o tema dos círculos nas plantações pode ser lida no website do Projeto Ockham.
– Para saber mais sobre Doug Bower e Dave Chorley, Dios! tem uma excelente biografia destas ‘raras avis’.

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6 Responses to O demônio ceifador

  1. […] a evidência mais comumente citada da antiguidade do fenômeno, uma história a respeito de um “demônio ceifador”, é em verdade uma lição de moral que, ainda que fosse tomada literalmente como um […]

  2. fred disse:

    ahááááá..!!!

    então quem fazia os circulos era o coisa ruim gringo….

    bom pelo menos ate no inferno tem censo de humor..!!!

  3. Marlan disse:

    Eu já tive vários sonhos com um ceifador,até pensei que ele queria me dizer algo,mas ñ consegui descobrir até hoje qual era a mensagem que ele queria me deixar.

  4. hell disse:

    o ceifador não é um demonio e sim um martir é o anjo da morte descrito na bíblia e é regido pelo todo poderoso q é subordinado as suas ordens tanto q no méxico e outros alguns países da américa central é venerado por católicos como a: santíssima morte (la santissima muerte)e não um demonio) isso é papo de uns pastores vigaristas por aí estudem se informem antes de criticar o anjo apocalíptico q ao meu ver é tão divino como magnífico ser

  5. Sero disse:

    O texto de fato falava de um demônio que cortava a plantação com a foice. É absurdo que usar isso como uma evidência dos “círculos nas plantações”

  6. Sandro disse:

    O texto, apesar de ser um pouco ambíguo quanto a questão da causa dos círculos, já deixa uma margem de dúvida e principalmente suspeita sobre a natureza sobrenatural que tem esse ‘fenômeno’ pois de acordo com o panfleto publicado originalmente ,o ‘demônio ceifador’ seria somente uma metáfora para a ganância de um fazendeiro rico que se recusa a baixar o preço de um serviço prestado pelo trabalhador pobre que cortaria seu campo de aveia,depois tendo-a queimada como uma espécie de ‘justiça’ divina.Não fica claro depois se o campo estava somente cortado depois do incêndio ou se ele parecia estar cortado depois do incêndio cuja culpa foi atribuída ao demônio.Seja como for os crop circles já começam com uma metáfora bem clara para a ganância e incompreensão que foi reinterpretada e ‘ajustada’ de acordo com o gosto da ufologia.
    Podemos concluir então que o ‘demônio ceifador’ não tem nada de demônio e nem de ceifador sendo apenas uma ideia,uma metáfora atribuída por um homem rico que queria continuar rico mas que com a ufologia e os ‘crops circles’ de Stonehenge ganhou um status de mito e origem.
    Abraços.

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