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Arte e OVNIs? Não, obrigado, só arte…

A Invasão de Wells

6 de julho de 2009 Comments (3) Views: 3280 Ceticismo, Ufologia

Arte e OVNIs? Não, obrigado, só arte…

Diego Cuoghi, traduzido com sua gentil permissão 

MADONNA COL BAMBINO E SAN GIOVANNINO
(Madonna e Criança com São João Criança)

Atribuída a Sebastiano Mainardi ou Jacopo del Sellaio
(Firenze, Museu Palazzo Vecchio, Sala d’Ercole)

A Madonna e Criança com São João Criança, à mostra da Sala d’Ercole em Palazzo Vecchio, Florença, foi variadamente atribuída. A etiqueta do Museu diz "Jacopo del Sellaio", mas a entrada de catálogo sob o n. 00292620 diz que a pintura é melhor atribuída a Sebastiano Mainardi (1450-1513), membro do grupo exclusivo de Ghirlandaio que trabalhou na Florença ao término de 400. Também se declara que há algumas semelhanças notáveis com trabalhos de Lorenzo di Credi, especialmente na figura da Madonna. 
Esta é a pintura que mais que qualquer outra gerou discussões entre ufologistas, que vêem na parte suerior direita da cena atrás da Madonna a prova de um "encontro imediato" com um objeto voador não-identificado. Na cena mencionada acima nós vemos um persongaem mantendo uma mão à testa e olhando para uma aparição no céu. Com ele há um cachorro que também olha para o objeto estranho. 
Em um artigo por Daniele Bedini em Notiziario UFO n. 7 (Jul-Ago 1996) se diz: «nós claramente vemos a presença de um objeto no ar com cor de chumbo e inclinado, com uma "cúpula" ou "torre", aparentemente identificável como um dispositivo voador móvel em forma oval».


Mas esta não é a única peculiaridade da pintura: por exemplo, na parte superior esquerda nós vemos a Estrela da Natividade com três outras estrelas pequenas, ou talvez chamas.

Estes particularidades – três estrelas, uma nuvem luminosa – nos conta que esta pintura segue uma iconografia antiga, um modo austero e rígido não só de interpretar temas sagrados mas a própria vida na cidade, que foi pregada pelo Fra (Irmão) Girolamo Savonarola, e precisamente na Florença do fim do século 15. Depois que a família Médici foi deposta, Florença declarou a República, que Savonarola orientou de forma teocrática, exercendo uma vigilância minuciosa das pessoas e seus modos de vida (hoje em dia nós poderíamos traçar um paralelo com os fundamentalistas islâmicos do Aiatolá Khomeini na república do Irã), até mesmo ao ponto das "fogueiras de vaidade", onde cartas de jogo, dados, perucas e vestuários elegantes junto com quinquilharias e bugigangas, livros considerados obscenos e mesmo quadros e objetos preciosos foram juntados e queimados. 
As pregações de Savonarola influenciaram grandemente as obras de arte do período e vários artistas, por exemplo Sandro Botticelli, renegaram seus próprios trabalhos precedentes como pagãos, e passaram a representar assuntos místicos dentro de um estilo mais "puro", mas também mais rígido, arcaico e didascalico.

A simbologia religiosa que nós encontramos nesta Madonna está então em linha com esta iconografia mais antiga que na Florença do humanismo e Neo-platonismo tinha sido perdida. Por exemplo, as três estrelas aparecem freqüentemente nas pinturas do século anterior, e especialmente nos ícones bizantinos da Madonna; freqüentemente, eles foram pintados no seu véu, nos ombros e testa; outras vezes são substituídos por três raios; eles sempre representam a "virgindade em três níveis" da Madonna, i.e., antes, durante e depois do nascimento virgem. As três estrelas, no mesmo significado, também são encontradas no brasão da ordem Oratória de São Filippo Neri (conseqüentemente, também chamada "Filippini"), que são particularmente devotos à Madonna.

Voltando ao detalhe mencionado acima, o que foi interpretado como um OVNI, nós vemos que será encontrado em muitas "Natividades" de ‘400 e ‘500. É apenas o anúncio para os pastores, como contado em no Evangelho de São Lucas:

«… e havia nos mesmos pastos, pastores no campo mantendo vigília sobre o seu rebanho à noite. E olhe, um anjo do Senhor passa acima deles, e a glória do Senhor brilhou em círculo sobre eles: e eles estavam muito amedrontados. E o anjo disse a eles, Não temam!, eu trago boas novidades de grande alegria que deverá ser a todas as pessoas. Porque para vocês nasceu este dia na cidade de Davi um Salvador que é o Cristo o Senhor…»

Nós podemos ver esta cena representada do mesmo modo da Madonna com Criança de Palazzo Vecchio em muitas outras pinturas da Natividade ou a Adoração da Criança:

Pinturicchio

Vincenzo Foppa

Giovanni Di Paolo

Amico Aspertini

Lorenzo Di Credi

Lorenzo Di Credi (part.)

Agnolo Bronzino

Antoniazzo Romano

Pinturicchio

Pinturicchio (part.)

Maestro della predella

Bernardino Luini

miniatura sec XV

Bernardino Fasolo

Domenico Ghirlandaio

Hugo Van Der Goes

Acima são apenas alguns exemplos, tomados de dúzias de pinturas da Natividade de Cristo. Em todas, nós reconhecemos claramente o Anjo, e vemos que quase sempre há um pastor com a mão sobre a testa, como se estivesse protegendo seus olhos da luz da Glória do Deus se referindo à citação anterior do Evangelho. Freqüentemente também haverá um cachorro olhando para a aparição. Em muitos casos o Anjo sai de uma nuvem enfileirada por luz, ou, em quadros mais antigos, por raios dourados. 
Também outro "tondo", atribuído à escola de Sebastiano Mainardi e à mostra em Sommariva Perno, exibe a mesma cena de um pastor que, com uma mão na testa e um cachorro ao seu lado, olha para a aparição do Anjo vestido de vermelho. E no centro, sobre a cabeça da Madonna, há a mesma nuvem com raios de luz.

Na Natividade de Lorenzo Monaco (1409), nós encontramos a mesma nuvem em cima da Madonna, enquanto o Anjo sai de uma nuvem semelhante para fazer seu anúncio aos pastores.

Nós podemos identificar então com segurança na Madonna e Criança com o São João Criança exibida em Palazzo Vecchio a mesma cena de anúncio que é descrita pelo Evangelho de Lucas. Mas uma pessoa poderia desejar saber, já que não há nenhuma conversa sobre "nuvens luminosas" em Lucas, de onde este detalhe poderia ter vindo? 
Na arte sagrada do Renascimento, eram representadas não apenas cenas tiradas dos quatro Evangelhos canônicos. Artistas, comumente, tiravam suas inspirações de textos devotos mais recentes, contendo personagens e situações com raios e narrativas mais populares. A estes textos nós devemos a Apresentação de Maria ao Templo, ou o Casamento da Virgem, pintado por Giotto; o encontro entre o Jesus e São João Batista pintado por Leonardo em "A virgem das pedras"; são todos temas que derivam de fontes externas aos Evangelhos de Marcos, Maeus, Lucas ou João. Pintores (e seus empregadores que decidiam os temas) freqüentemente misturavam cenas e situações de textos heterogêneos, por exemplo a "Lenda Dourada", de Jacopo da Varazze, ou os vários evangelhos apócrifos
Um dos evangelhos apócrifos mais usado como fonte de temas para os artistas deste período é o Protoevangelho de Tiago. E é lá que nós encontramos uma descrição da Natividade na qual nenhum anjo aparece, substituído por (você adivinhou) uma nuvem de luz assim como parteira:
[19, 2] "Eles se levantaram no lugar da caverna, e veja!, uma nuvem luminosa em cima lançou sombra sobre a caverna. E a parteira disse: Minha alma tem sido magnifica este dia, porque meus olhos viram coisas maravilhosas: que a salvação foi trazido a Israel. E imediatamente a nuvem desapareceu para fora da caverna, e uma grande luz brilhou na caverna que os olhos não podiam suportá-la". ("Evangelhos Apócrifos", editados por Marcello Craveri, Torino, 1969, pág. 21 edição italiana). 
Nós notamos uma diferença com São Lucas, que disse "e a glória dele o Senhor brilhou em círculo sobre eles". Aqui, o autor adiciona que "os olhos não podiam suportá-la". E veja!, em muitas pinturas nós podemos ver como o pastor faz sombra sobre seus olhos com a mão. 
No mesmo Protoevangelho nós encontramos uma descrição da Estrela, mas o que é mais importante, nós também lemos como o São João criança teve que fugir de Herodes:
[22, 1] "e, quando Herodes soube que tinha sido zombado pelos Magos, em uma fúria ele enviou assassinos dizendo até eles: Mate as crianças de dois anos de idade ou menos. [2] E Maria, tendo ouvido que as crianças estavam sendo mortas, tinha medo, e levou a criança, e O enrolou, e O colocou em uma baia de boi. [3]Elizabete também tendo ouvido que eles estavam procurando João, o tomou, e foi para as colinas, e continuou procurando onde escondê-lo. Mas, não havia nenhum esconderijo. E, Elizabete gemendo em voz alta disse: Ó Montanha de Deus, receba uma mãe e sua criança! E, imediatamente a montanha foi partida e a recebeu. E uma luz brilhou sobre eles já que um Anjo do Senhor estava com eles para cuidar deles."
E foi assim que nesta passagem do Protoevangelho de Jaime a luz foi identificada com um anjo da guarda, sem que ele aparecesse em pessoa. 
A representação da nuvem apenas, sem o Anjo, é rara, mas um exemplo pode ser visto em uma pintura pelo Mestre Franke, na Adoração da Criança. Este mesmo autor em outro lugar mostra o próprio Deus dentro da nuvem, enquanto um anjo faz o anúncio aos pastores:

Marco Bussagli escreveu vários livros sobre a iconografia dos Anjos. Em particular em "History of Angels" (Rusconi, 1991) ele cita pseudo Dionigi declarando que: «As Escrituras Sagradas os representam na forma de nuvens para indicar que as entidades santas estão cheias com uma luz escondida de um modo sobre-mundano, e simplesmente é anfitriã da primeira luz em sua primeira emanação…». O mesmo Bussagli, no catálogo de "Wings of God", escreve: «Todas as coisas consideradas a Idade Média mostrou ser um período central para o desenvolvimento da iconografia de Anjos, cujas soluções seriam re-interpretadas em um modo marcadamente naturalista pela cultura posterior do Renascimento e Barroco. Tal é o caso dos ‘Anjos de Nuvem‘, que seriam propostos depois como figuras aladas em cima de almofadas macias de vapor.» (http://www.enec.it/AliDio/09e_Iconografia.pdf)


Sano di Pietro, o Anjo da "Proclamação para os Pastores" (metade do século XV)

Nós podemos, então, ligar o "tondo" com a Madonna e Criança com São João Criança com a tradição inconográfica daquele período, o fim do século V na Florença. O detalhe arcaico do símbolo de três estrelas da virgindade e três níveis de Maria e a pintura do Anjo não como um personagem antropomórfico mas como uma "nuvem de luz", nos faz pensar de uma parte do autor adepta aos ensinos de Girolamo Savonarola, o
monge de Dominicano que pregou um retorno à tradição e pureza nas artes assim como na vida urbana. Na entrada de catálogo do Museu Palazzo Vecchio para esta pintura, lê-se que há "semelhanças notáveis" com trabalhos de Lorenzo di Credi. E pode ser bom notar que Lorenzo di Credi era um dos mais devotos entre os seguidores de Savonarola, chegando a queimar de todo desenho de nus que ele jamais fez, e finalmente se tornando um monge.


Conclusões:

Na pintura chamada Madonna e Criança com São João Criança, provavelmente feito por Sebastiano Mainardi (escola de Ghirlandaio) não há nenhum OVNI. As três pequenas estrelas abaixo da grande Estrela da Natividade são símbolos da virgindade tripla de Maria (antes, durante e depois do nascimento), O pastor com a mão na testa é semelhante a muitos outros pastores em dúzias de pinturas de Natividade ou Adoração da mesma época; e nuvem de raios, símbolo da Glória do Deus, entra da narração da natividade no Protoevangelho de Jaime (capítulo 2, 19). 
– – –

Confira mais:

Parte 1
(português)

Parte 2
(italiano)

Parte 3
(italiano)

Parte 4
(italiano)

Parte 5
(português)

Parte 6
(italiano)

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3 Responses to Arte e OVNIs? Não, obrigado, só arte…

  1. Silverio disse:

    Óptimas explicações mas com uma grande falha; e se os ovnis retratados na antiguidade representavam efectivamente a interpretação e tentativas de ligação a uma religião ou crença? Não foi isso que aconteceu em Fátima?

    Vejam as semelhanças e desta vez com fotos reais.

    http://blog.cancaonova.com/peregrinacoes/files/2007/11/milagre-do-sol2.jpg
    http://www.geocities.com/portugalfatima/13_Outubro_1917_Milagre_do_Sol_09_800x500.jpg

    E agora esta descrição de uma testemunha idónea.

    “O Dr. Almeida Garret, o professor da Faculdade das Ciências da Universidade Coîmbra, escreveu: ” (…) Estava a apenas mais de cem metros… A chuva caía sobre as nossas cabeças, fluia ao longo dos nossos fatos, molhava-os completamente. Alguns momentos antes das 2 horas da tarde (hora oficial que, realmente, correspondia ao meio-dia no horário solar), o astro brilhante furou a espessa cortina de nuvens que o escondia. Todos os olhares se levantaram para ele, como atraídos por um ímã. Tentava, também, fixá-lo e vi o similar a um disco com contornos nítidos, brilhando mas não deslumbrando. As pessoas em redor de mim comparavam-no com um disco de prata mate o que me pareceu incorrecto. O seu aspecto era de uma clareza nítida e variável, recordando “o Oriente” de uma pérola. Não se assemelhava de modo algum à lua de uma bonita noite; não tinha nem a cor, nem as manchas. Dir-se-ia antes uma roda lisa, recortada nas válvulas prateadas de uma concha. Isto não é poesia; vi-o assim dos meus olhos. Não se podia confundir também com o sol através do nevoeiro. De nevoeiro, não havia vestígio, e além disso, este disco solar não era nem turvo nem encoberto de nenhuma maneira, mas brilhava claramente no seu centro e na sua circunferência.

    Este disco colorido e celeste parecia ter a vertigem do movimento. Não era a cintilação da luz viva de uma estrela. Girava sobre ele mesmo com uma rapidez perturbante.
    De repente, vibra desta multidão um grande clamor, como um grito de angústia! O sol, guardando ao mesmo tempo a sua velocidade de rotação, precipitava-se para a terra, ameaçando esmagar-nos sob o peso da sua imensa massa de fogo! Foram segundos de uma emoção aterrorizante!”

  2. Reinaldo disse:

    Sinceramente…
    O que foi que vocês fumaram!!!!
    Ou será que são que são os idolos de Bacon, leiam Francis Bacon!!!
    E conquistem um raciocinio mais claro.

  3. Cooperador disse:

    Bem, para não ofender os comentários de outros, vou direto ao assunto. A sua pergunta relativa à nuvem, não há de fato nenhuma referência em Lucas e em nenhum outro escrito do Novo Testamento. Você poderá encontrar vários, no entanto, no Antigo. A nuvem era um sinal visível da presença de Deus junto com os hebreus no êxodo, no tabernáculo no deserto, no templo construído por Salomão, etc, etc, etc. Com certeza o pintor tinha este conhecimento. Êxodo 24:16, 34:25, 40:34,38; Números 9:16, 10:11; Deuteronômio 31:15; 1Reis 8:10; Ezequiel 1:4, 10:4. fikadika

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