Prefácio ao livro “A Invenção dos Discos Voadores”

Deus. Amor. Disco voador. Poucas palavras são tão carregadas de significado, que não haja aqueles que ao ouvi-las não as entendam. Dentre elas, a última — disco voador –, uma palavra composta, que descreve forma e ação, não só foi inventada, como o foi há menos de 100 anos.

Como sabemos que os discos voadores foram inventados? Da mesma forma que copiadores de mapas podem ser descobertos. Porque se um mapa nada mais é que a representação de um terreno real, com suas ruas e avenidas, como perceber que um cartógrafo copiou um mapa já existente, ao invés de sair a campo e criar um novo mapa, desde o início? O terreno é o mesmo, mapas feitos por diferentes cartógrafos são, ou deveriam ser, essencialmente iguais. O terreno é descoberto, mapeado, não inventado.

Trap Street
Trap Street

Pois justamente para descobrir plágios em mapas é comum que tenham alguns poucos elementos descritivos distorcidos ou até ruas inteiras inventadas, chamadas de trap streets. O cartógrafo preguiçoso copiará o elemento inventado em seu mapa, sem distinguir o real do imaginário, revelando por este pequeno detalhe a verdadeira origem de “seu” mapa: mera reprodução de algo, não a descoberta e representação de algo real.

O que, claro, não significa que mapas não sejam representações da realidade, apesar da esporádica adição de algumas ruas imaginárias. Antes de perguntar o que há de real e imaginário nos discos voadores, no entanto, cabe explorar o que entendemos como discos voadores.

Neste fascinante trabalho do historiador Rodolpho Gauthier Cardoso dos Santos, você mergulhará na gênese do conceito moderno de disco voador, com base em larga pesquisa em material da época, focando seu olhar para o Brasil, terra natal do autor, entre os anos de 1947 e 1958. Entre tanto material, Gauthier conduz a exposição de forma leve e objetiva, apresentando diferentes recortes e pontos de vista representados por setores diversos como a imprensa, cientistas e autoridades militares, referenciando também análises e teses de alguns dos principais pesquisadores do tema.

Da origem seminal de Kenneth Arnold — a “trap street” dos discos voadores –, passamos por detalhes preciosos como o relato de um disco voador literal — um disco pequeno, como um disco de vinil, de algumas polegadas de tamanho — tocando a música “Tico-Tico no Fubá” enquanto voava pelo céu. O que pode parecer uma cena demasiadamente pouco séria para ser digna de notícia, mas o que a história contada neste livro revela é que o ridículo desta ideia não era tão evidente. O que é ou não óbvio ou ridículo sobre os discos voadores evoluiu imensamente ao longo dos anos, deixando um rastro que as próximas páginas permitem degustar em sua efervescência e caos inicial.

Acompanhar a invenção dos discos voadores é também acompanhar paralelamente a evolução recente de outros conceitos carregados de significado: o de vida extraterrestre, da pluralidade de mundos, de nossa origem e nosso próprio futuro. Afinal, para alguns, deus, amor, discos voadores, extraterrestres e salvação são todos e ao mesmo tempo um só conceito. Seria uma resposta fácil, embora talvez tão útil ou reveladora quanto uma mapa que diga que “você está onde se encontra”.

Desta lista de termos ao mesmo tempo tão amplamente entendidos mas ainda assim misteriosos, apenas um deles tem sua origem tão recente e bem documentada. É uma oportunidade fantástica acompanhar a história da invenção dos discos voadores.

Boa leitura!

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Prefácio para a edição em espanhol do livro “La invención de los discos voladores. Guerra Fría, prensa y ciencia en Brasil (1947-1958)“, do historiador Rodolpho Gauthier Cardoso Dos Santos, publicado por Ediciones Coliseo Sentosa

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