Ceticismo no image

Published on agosto 9th, 2009 | by Kentaro Mori

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A Navalha de Occam

original em Filosofia e Idéias

Não se deve recorrer à pluralidade sem necessidade.
William de Ockham, Quodlibeta, Livro V (c. 1324)

William de Ockham (Occam é a grafia latina), teólogo inglês do começo do século quatorze, é hoje, na melhor das hipóteses, um ilustre desconhecido. Comparados com ele, Tomás de Aquino e Duns Scotus são superstars e, no entanto, foram os pensamentos de Occam que prefiguraram a modernidade.

Se existe uma coisa que alguns logo lembram é a chamada "navalha de Occam", o instrumento lógico que ele brandia para despojar uma tese de seus ornamentos absurdos. A máxima de Occam era que, quanto mais simples uma explanação, melhor. A menos que seja necessário, não introduza complexidades ou suposições em um argumento. Não só o resultado será menos elegante e convincente, como também terá menos probabilidade de estar correto.

Como veremos, uma das suposições que a navalha de Occam dispensou foi a da existência de Deus. Não que ele não acreditasse que Deus existe, é claro. Simplesmente, ele achava que você não poderia provar isso, porque para fazê-lo teria que recorrer a argumentos bastante complexos (e difíceis de acreditar). Os teólogos queriam uma prova científica de Deus; mas o que Occam dizia, e que a maioria das pessoas eventualmente aceitava, é que a ciência e a teologia têm objetos diferentes e requerem métodos diferentes.

Na verdade, Occam não foi o primeiro a empregar a navalha; e em parte alguma de sua obra vamos encontrar a conhecida fórmula: "entidades não devem ser multiplicadas sem necessidade". Mas ele a usou como desforra, principalmente em reação contra os métodos preponderantes da teologia e da filosofia. Seu predecessor Aquino e outros "Escolásticos" — nome que ganharam por preferirem as palavras à experiência — acalentaram a esperança de tornar a teologia científica. Eles esperavam resolver as aparentes contradições entre a ciência antiga e os ensinamentos das escrituras, e oferecer explicações racionais ou provas dos conceitos teológicos (a existência de Deus, por exemplo).

Uma etapa deste processo foi tratar conceitos universais como "bom" ou "grande" (e mesmo universais terrestres, como "árvore" ou "cachorro") como entidades reais, independentes. Se chamamos este olmo e aquele carvalho, tanto um como o outro, de "árvores", então deve existir alguma coisa real que eles compartilham (uma propriedade arborescente, uma "arboridade", diríamos). Da mesma forma, se tanto Sócrates como Parmênides são bons, é porque existe uma coisa que é a bondade, que ambos têm. Tal doutrina — que é mais platônica que aristotélica — é chamada de "realismo".

Occam achava que o realismo era simplesmente um contra-senso, uma confusão de categorias elevada à ciência. É um erro, pensava ele, tratar nomes como realidades em vez de descrições. (A idéia de que nomes são apenas nomes é chamada de "nominalismo".) Se chamamos tanto o olmo como o carvalho de "árvores", é porque determinamos o que faz com que uma árvore seja uma árvore, não porque exista separadamente, na realidade, uma "arboridade". Se todas as árvores de repente desaparecessem, não restaria nenhuma "arboridade" para contar a estória, exceto como memória ou pura abstração.

Occam usou a navalha para liquidar com os universais da teoria do realismo, insistindo que uma explanação válida tem que ser baseada em fatos simples e observáveis, suplementada por pura lógica. Aceitar essas condições significa que não seremos capazes de provar cientificamente a existência de Deus ou Sua bondade, ou quaisquer outros dogmas da fé. Tal conclusão não o perturbou, de modo algum: ele achava que teologia era uma coisa (matéria de revelação) e ciência, outra (matéria de descoberta). Esta idéia levou um tempo para se firmar, como Galileu bem poderia contar a você, mas a ciência e a religião terminaram seguindo seus próprios caminhos separados. Em grande parte, é disso que o modernismo trata.

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3 Responses to A Navalha de Occam

  1. Macc says:

    É impressionante como os da sociedade ocidental alienada distorcem a filosofia e o conhecimento. Occam iria se contorcer de tanto rir dos usos “navalhescos” de seus comentários. Esse texto biográfico “chupado de algum lugar”, é interessante, mas somente para quem “coleciona selos”, pois faz tudo menos o que interessa na ciência, discutir a validade da proposição lógica de William Ockham.
    Já que Occam nunca afirmou sequer: “Entia non sunt multiplicanda praeter neccesittatem” (Não multiplicar os entes além do necessário). Ou como afirma o texto, teria proferido: “Nunquam ponenda est pluralitas sine necesitate” (Não se deve supor uma pluralidade sem motivo), ou “Pluralitas non est ponenda sine te necessite” (Não terá que supor uma pluralidade sem ser necessário) – E também: “Frustra fit per plura quod potest fieri per pauciora” (É vão fazer com muito o que se pode fazer com pouco); “Non sunt ponenda plura ubi sufficiunt pauciora”, ou “Quando propositio verificatur pro rebus, si duae res sufficiunt ad eius veritatem, superfluum est ponere tertiam”, o que quer dizer que quando uma afirmação pode ser verdadeira por duas razões, e estas são suficientes, é supérfluo supor uma terceira.
    Bem, como isto virou “magicamente”: “A explicação mais simples é sempre a correta”? – eu já posso imaginar!
    De qualquer maneira, Occam fala de “necessidade” (o que é ou não necessário), do que é “supérfluo” ou não. Acontece que esse equacionamento baseado numa necessidade previa, “estas escolhas” são julgamentos de valor subjetivos, e não alguma fórmula “invencível” tirada da lógica cartesiana e objetiva.
    Para Occam essa epistemologia era coerente pois na Idade Média a maneira de se pensar ciência era de forma essencialista (a relação com o materialismo ainda era medida parcamente num Idealismo da época pitagórica). A teologia do aristotelismo era predominante, essa que considerava que todas as coisas existentes tenderam ao longo do tempo para a realização de suas formas ideais, que não existiam ainda em uma manifestação do mundo. Este movimento para o telos foi, portanto, a causa final de todas as mudanças que tiveram lugar no mundo, e neste sentido, toda a matéria era essencialmente ativa e o resultado de sua essencia.
    No mundo prático, as “necessidades” de Occam, a quantidade de dados suficiente para explicar um fenômeno, depende sempre de um valor teórico que se sobrepõe aos fatos, é sempre uma escolha muito pessoal do pesquisador. Acontece que na ciência moderna, tal subjetividade não pode ser invocada, pois não é a teoria que deve dar forma aos fatos, mas o contrário.
    Podemos ver isso claramente quando os “pseudocéticos” tiram da cartola a frase deturpada: “A explicação mais simples é sempre a correta”, e ai nos perguntamos: O que é mais simples? Mais simples para quem? Estas não são perguntas desimportantes, pois “o que é mais simples” irá depender do universo cognitivo de cada pesquisador e por isso algo subjetivo.
    Por fim, vemos aqui que o enunciado “infalível” de Occam é uma farça lógica dos modernos “pseudocéticos” e uma histórica perpetuada para os “burrocratas” da ciência de butiquim que esperam que suas explicações favoritas sejam as mais “simples”, assim como acreditam que fazendo isso, estão fazendo ciência objetiva – e não percebem que essa “navalha” já ta enferrujada faz tempo!

  2. Stratus says:

    Macc, apesar de vc achar que a navalha está enferrujada, iria pedir para tentar usá-la em seu post. Com a correria que vivemos nos tempos modernos, fica cansativo ver explicações demasiadamente longas, repetindo várias vezes em latim e português a idéia central do artigo. Mas, imagino que fez isso de propósito! Parabéns pela forma como se posicionou! huahuahuah Forte Abraço!!

  3. Bruno Costa says:

    Não se pode afirmar que a resposta mais simples é a correta, mas se a mais simples responde por completo a questão, porque adicionar elementos extras e totalmente desnecessários?

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