Ceticismo

Published on agosto 30th, 2009 | by Kentaro Mori

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Experiência não é algo que sentimos, e sim algo que fazemos

J. Kevin O’Regan*, Laboratório de Psicologia Experimental,
Centro Nacional de Pesquisa Científica, França
Tradução gentilmente autorizada

Se eu lhe mostrar uma imagem e mudar algo nela, como abaixo, você verá a mudança imediatamente. Não há nenhum problema, ela se destaca.

Mas se eu realizar a mudança ao mesmo tempo em que introduzo um leve piscar na tela, desta forma, então em muitos casos você não perceberá a mudança.

Aqui está outro exemplo.

É muito interessante que às vezes você pode estar olhando diretamente para a mudança e ainda assim não vê-la. Desta forma, se aqui eu lhe disser para que olhe para o nariz do homem, você estará a alguns pixels da mudança, mas provavelmente não irá vê-la: é a barra no fundo indo para cima e para baixo.

Aqui está outro exemplo:

Algumas mudanças são mais fáceis de perceber que outras. Contudo, mesmo uma mudança que ocupe uma grande porção do campo visual pode não ser notada se não fizer parte do que seria o tema da imagem. Aqui por exemplo:

Você normalmente não diria que a imagem é sobre… o reflexo no lago. Mas assim que eu lhe falar sobre isso, você verá a mudança. Enquanto isso, aqui:

você provavelmente considerará que a imagem é sobre um copo de leite, assim é fácil perceber que é isso que está mudando, embora seja muito menor que o reflexo no lago anteriormente.

Este fenômeno foi chamado de cegueira de mudança e atraiu muita atenção nos últimos anos. Há muitas variações do fenômeno. Eu lhe mostrei o paradigma do relance [flicker], mas o fenômeno também foi obtido com movimentos do olho, piscadas, cortes de filme e até mesmo em situações da vida real.

Uma variante particularmente interessante do paradigma de cegueira de mudança é o paradigma das manchas.

A razão por que isto é interessante é que as manchas são posicionadas de modo que não cobrem o local da mudança. Dessa forma não se pode dizer que a razão pela qual você não percebe a mudança é porque ela é de alguma maneira mascarada ou apagada por qualquer tipo de sobreposição com o relance.

Está claro que há algo muito chocante sobre todos estes experimentos: eles parecem sugerir que nossas representações internas do mundo externo, em vez de ser muito detalhadas e ricas são na verdade bastante pobres. Assim o que está acontecendo aqui? Como podemos ter a impressão de riqueza no mundo se não há nenhuma riqueza em nossas cabeças?

Eu sugiro que uma solução possível seja a idéia do que eu chamo o Mundo como Memória Externa. A idéia é a de que para ter a impressão de riqueza, não há realmente nenhuma necessidade da riqueza estar em nossas cabeças. O que tem que estar em nossas cabeças são apenas os algoritmos ou receitas para chegar à informação no mundo.

E nós temos tais algoritmos, na forma de movimentos dos olhos ou mudanças no foco de atenção. Se estivermos interessados em algum detalhe do sentido visual, precisamos simplesmente mover nossos olhos ou nossa atenção àquele detalhe, e ele está imediatamente disponível.

Em vez de armazenar toda a informação sobre o mundo externo no cérebro, nós usamos o mundo externo como um armazenamento de memória externo. Assim, adquirimos a impressão que estamos vendo tudo o que há para ver no campo visual, porque se nós pensarmos mesmo vagamente se estamos mesmo vendo algo, viramos nosso olho (e nossa atenção) para aquela coisa, e ela fica disponível para ser processada.

Talvez você tenha brincado quando criança em um jogo no qual alguém põe um objeto doméstico como uma rolha, batata ou uma gaita em uma bolsa, e você pôs sua mão dentro da bolsa e tentou adivinhar o que o objeto era.

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No princípio você sente esta ou aquela textura nas pontas de seus dedos. Você não tem nenhuma idéia do que o objeto é. Mas de repente você tem um tipo de experiência “Arrá!”. De repente você sente que não está apenas tocando pedaços de textura nas pontas dos dedos, mas está segurando um objeto inteiro: é uma gaita. E está TODA lá imediatamente, embora você esteja na realidade tocando apenas algumas partes dela. Não é apenas que você sabe ser uma gaita inteira, você de fato sente ser uma gaita inteira.

luzgeladeira destaques ciencia ceticismo A razão que você tem para sentir tocar a gaita inteira é que você SABE que SE você fosse mover seus dedos deste modo, então você teria ESTA sensação, e se você os movesse daquele modo, você teria AQUELA sensação. Você se sente familiar com todas as coisas que pode fazer com seus dedos neste momento. É o conhecimento de se sentir em casa com as coisas que você pode fazer, e com as mudanças resultantes nas sensações das pontas de seus dedos, que lhe dão a impressão de ter a gaita inteira em sua mão.

Estendo-se ao domínio de visão, esta analogia sugere como seria possível ter a distinta sensação de ver objetos e cenas inteiras, embora só uma parte minúscula da cena esteja realmente disponível para processamento visual em qualquer momento. A impressão de ver tudo que há para ver no campo visual é então um tipo de ilusão…

É algo parecido com a luz da geladeira.

A luz sempre parece estar ligada: você abre a porta, e a luz está acesa. Você a fecha. Você rapidamente abre a porta outra vez, para conferir: é… a luz ainda está acesa. Você tem a ilusão que a luz está acesa todo o tempo, mas precisa continuar checando para se convencer disto.

Deixe-me ir adiante para mostrar algumas das conseqüências desta forma de pensar com relação à percepção de cenas.

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Esta imagem mostra o caminho que o olho de um observador percorreu enquanto buscava por grandes mudanças que ocorriam toda vez que ele piscava.

Aqui está um exemplo do caminho percorrido pelos olhos em outra imagem.

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Este caminho corresponde a alguns segundos de exploração, e você pensaria que uma vez que o observador estava procurando uma mudança ativamente, ele daria uma olhada na imagem de forma bastante sistemática, cobrindo todos os elementos da figura. Mas se você olhar para o que o observador fez pelas próximas dezenas de segundos, isto é o que você descobre.

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Parece que o observador está apenas caminhando em círculos. De fato este tipo de comportamento é típico do que as pessoas fazem quando olham para imagens. Apenas um número bastante limitado de posições é fixado diretamente pelos olhos, e elas são fixadas repetidamente. Por que isto ocorre?

Do ponto de vista do mundo como memória externa que estou esboçando aqui, isto pode ser explicado. Poderia ser que ver uma imagem não é acumular informação em uma representação interna, mas ao invés checar se você tem acesso às coisas as quais a imagem representa. Se você pensa que a imagem é sobre um casal jantando, então ver a figura envolve se certificar que as coisas que você pensa que o quadro deve ser a respeito estão realmente lá. O olho irá então andar em círculos verificando.

Continuidade
Em um resumo até agora, eu sugeri a possibilidade de que a sensação que temos de ver tudo no campo visual não requer que tenhamos uma representação interna de tudo. Basta ter acesso imediato à informação no mundo externo, que age de forma similar a um local de armazenamento externo de memória.

Mas você poderia argumentar que ainda há um problema. Considere novamente a comparação com a luz da geladeira. Quando eu olho para o mundo, tenho uma impressão bem diferente da que possuo com respeito à luz da geladeira:

Eu preciso continuar abrindo a porta da geladeira de surpresa, e ainda permanece um pouco de dúvida sobre se a luz realmente fica acesa o tempo todo. Eu acho que está continuamente acesa, mas eu não a vejo acesa continuamente. Isto difere do mundo real, onde tenho a impressão de ver de uma forma contínua. Por que isso ocorre?

Penso que a resposta tem a ver com duas coisas. Eu chamo uma “corporeidade”, e a outra, “acessibilidade.”

Corporeidade é o fato de que na visão, as coisas que você faz para adquirir informações estão muito intimamente relacionadas com ações corporais mínimas ou mesmo inconscientes: A mais leve movimentação de um músculo ocular lhe permite mudar de um ponto da cena a outro. Um pequeno movimento da cabeça ou do corpo modifica o que você vê.

Em virtude desta corporeidade, o mundo externo está intimamente ligado a você, quase como se fosse parte de seu próprio corpo. Eu sugiro que isto torna a visão mais real, mais percebida e contínua que a luz da geladeira que não se move quando você se move ao redor dela.

Agora me deixe falar sobre a acessibilidade.

Todos nós sabemos que se uma luz piscar subitamente no campo visual, não podemos evitar olhar imediatamente para ela. Isto ocorre porque há mecanismos nas primeiras fases do sistema visual projetados para descobrir transições rápidas em luminância local, os quais tomam a sua atenção sem falha. Detectores de movimento são exemplos de tais detectores transientes.

Poderia ser que esta acessibilidade de eventos súbitos constitua um segundo fator que contribua à sensação de presença ininterrupta, e da continuidade da estimulação visual. A acessibilidade faz parecer como se tivéssemos “marcadores” ininterruptos em tudo o que está ocorrendo no campo visual, e nos dá a ilusão de ver as coisas continuamente, porque se qualquer coisa mudar nós somos imediatamente informados.

Desenvolvimentos
Deixe-me voltar agora e fazer algumas observações sobre o modo de pensar que esbocei aqui.

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Sob o conceito padrão, ver consiste em fazer uma representação interna do mundo externo. Sob o novo conceito, ver consiste em saber sobre as coisas diferentes que você pode fazer, e saber sobre as mudanças que estas coisas produzirão em sua estimulação sensória.

Embora antinatural à primeira vista, este novo conceito tem uma vantagem interessante:

Na neurociência hoje, um dos problemas que as pessoas estão tentando solucionar é entender como uma entidade física como um cérebro pode dar origem a algo como a sensação de ver, que é patentemente não-física.

Algum mecanismo ainda desconhecido, misterioso, possivelmente mesmo não-físico tem que ser postulado para instilar a experiência no cérebro. Mas sob este novo conceito, o problema desaparece porque a experiência simplesmente não está no cérebro.

Ela está no fazer da exploração e no conhecimento das coisas que mudarão enquanto você explore. Em vez do papel do cérebro ser gerar a experiência de ver, o papel do cérebro se torna simplesmente o de gerar a atividade exploratória que está por trás do ato de ver, e de possuir o conhecimento de possibilidades correntes para a ação que está por trás do ato de ver.

Assim, o problema de encontrar um mecanismo para gerar a experiência no cérebro desaparece.

Mas ainda há uma objeção que pode estar perturbando você. Você poderia dizer, OK, ver é uma coisa que nós fazemos… eu vejo a xícara vermelha quando estou continuando a conferir se tenho acesso a ela pelos relances de meus movimentos oculares. Mas e quando estou de fato olhando diretamente para a xícara vermelha? Eu tenho agora uma estimulação vermelha em minha retina. Agora seguramente deve haver algo que recebe a estimulação vermelha em minha retina e me faz experimentar a vermelhidão. Nós parecemos estar de volta à situação de ter que explicar como a ativação cerebral pode gerar experiência.

Mas parece a mim que é possível escapar até mesmo da dificuldade para a sensação bruta de vermelhidão.

Considere olhar para um pedaço de papel vermelho. Dependendo de como você vira o papel de forma que a luz refletida seja a luz solar amarelada, ou azulada do céu, ou a incandescente avermelhada, o espectro da luz sentido pelo olho é bastante diferente. Eu sugiro que você vê o papel como vermelho quando as leis que são obedecidas pelas mudanças no espectro recebido forem típicas de vermelhidão. Assim, vermelho não é um padrão de excitação causado pela luz recebida, mas um conhecimento sobre as leis que a excitação obedece quando você move o papel por aí.

Outro fato sobre o vermelho tem a ver com o modo como o olho detecta a cor. Ao centro da retina, a informação de cor está prontamente disponível, sendo detectada por cones sensíveis à luz de comprimentos de onda longos, médios e curtos, simbolizados por pontos coloridos na figura. Mas a densidade dos cones diminui bastante rapidamente enquanto nos afastamos do centro da retina, de forma que a natureza da excitação neural que surge de olhar diretamente para uma superfície vermelha é bastante diferente daquela obtida de olhar para a superfície com a visão periférica. Aqui, há muitos mais fotorreceptores em bastão, simbolizados pelos pontos pretos, que não são sensíveis a cores diferentes. Eu sugiro que a qualidade do vermelho não é apenas a combinação particular da estimulação de comprimentos de onda longos, médios e curtos, mas também o modo pelo qual a excitação muda enquanto você move seu olho pelo objeto vermelho e além.

Como a experiência de ver tudo, a experiência de ver o vermelho é então também um tipo de conhecimento: conhecimento de que contingências apropriadas entre estimulação sensória e ações motoras são atualmente aplicáveis.

A noção de contingência sensoriomotora pode ser generalizada para cobrir não apenas a sensação de vermelho, mas, eu suspeito, todos os aspectos da visão, tanto gerais como particulares. Por exemplo, o fato de que a imagem retinal essencialmente cessa quando piscamos, ou muda de formas obedientes a leis quando movemos nossos olhos, ou tem um campo de fluxo maior ou menor quando movermos nossas cabeças de um lado para outro, são fatos sobre a visão em geral.

Um fato que é mais específico, característico de linhas retas, por exemplo, é o fato de que quando você move seus olhos ao longo delas, não muito acontece com a estimulação sensória, enquanto que quando você move seus olhos por elas, a estimulação sensória muda mais drasticamente.

Em suma, a experiência de ver pode derivar de estar familiarizado (no sentido de que se está familiarizado com a experiência prática) com uma grande variedade de contingências sensoriomotoras relacionadas com o modo como o aparato visual detecta o ambiente. Poderia ser que nós sentimos que estamos vendo neste momento, quando sabemos (de um modo prático) que todas estas contingências são atualmente aplicáveis. A experiência de ver não seria assim gerada pela ativação de um mecanismo cerebral. Seria constituída pelo conhecimento de que se você fizer certas coisas, certas coisas acontecerão com a estimulação sensória.

Você não vê sempre o que você está olhando
Estas idéias têm algumas conseqüências interessantes.

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Deixe-me voltar para a experiência onde nós medimos movimentos oculares enquanto as pessoas estavam procurando mudanças em imagens.

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Nós olhamos para a probabilidade de descobrir a mudança como uma função da posição do olho. Descobrimos, como você poderia esperar, que quanto mais distante o olho estava do local da mudança, menor a probabilidade de descobrir a mudança. Você pode ver isto do fato de que a linha do gráfico cai rapidamente enquanto vamos à direita, correspondendo a maiores distâncias. Não se preocupe com o fato de que há duas curvas, elas correspondem apenas a dois tipos diferentes de mudanças que usamos.

Mas uma coisa muito surpreendente é visível neste gráfico. A probabilidade de detectar a mudança quando você está olhando diretamente para ela, no ponto mais à esquerda do gráfico, é menor que 60%.

Isto é, em quase 50% dos casos quando o olho estava olhando diretamente para a mudança, ela não é vista!

Este fato é coerente com a abordagem que eu venho propondo. De acordo com ela, quando algo é projetado em sua retina, ou quando seu sistema visual processa algo, isso não significa necessariamente que você o vê. Ver só acontece quando você estiver exercitando seu domínio das contingências sensoriomotoras associadas com aquela coisa, algo como “manipulá-la” com seus olhos. Quando eu olho para um objeto, posso estar consciente de qualquer número de seus aspectos: sua cor, sua identidade, seu plano de fundo, sua posição, etc. Eu diria que só o aspecto que estou conferindo no momento está sendo visto de fato. Assim, os outros aspectos, até mesmo se estiverem sendo olhados diretamente, não serão vistos.

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Figuras ambíguas e competição de figuras e seus planos de fundo de fato fornecem exemplos que ilustram isto. Aqui, você pode estar se fixando no nariz branco e não perceber o nariz preto, embora ele esteja no mesmo local.

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Um achado similar bastante chocante foi relatado por Haines, no Centro de Pesquisas Ames da NASA na Califórnia. Ele fez pilotos de aviões comerciais pousarem um 727 em um simulador de vôo, usando um visor de certos instrumentos no pára-brisas. Em algumas aproximações de aterrissagem, Haines subitamente sobrepôs uma pequena aeronave estacionária bem no meio da pista. Ele esperava que os pilotos abortassem suas aproximações de aterrissagem imediatamente. Mas dois entre oito pilotos simplesmente pousaram tranquilamente passando sobre o avião no caminho. Quando lhes foi mostrado um vídeo do que haviam feito, os pilotos ficaram chocados e incrédulos, e notaram que talvez devessem abandonar o vôo comercial.

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Aqui está outro exemplo: você pode olhar durante minutos e ainda pensar que diz “A ilusão de enxergar”. Mas na verdade diz: “A ilusão de de enxergar”.

Acima você confere ainda outro exemplo onde você pode estar olhando diretamente para a mudança e não vê-la. Esta imagem está mudando. Exceto que está mudando muito lentamente. A mudança é bastante grande: veja se você descobri-la. Dan Simons em Harvard também tem feito experiências com mudanças lentas como essa.

O ponto é, ver é manipular mentalmente algum aspecto da cena. Se nenhuma mudança visual que chame a atenção leve seu olho ou sua atenção para alguma área da imagem, você não a verá, muito menos perceberá que mudou.

Estudos como estes fazem parte de uma literatura crescente no que é chamado cegueira de desatenção: Ulrich Neisser foi um dos primeiros a pesquisar isto, mas Mack e Rock publicaram há pouco um livro sobre a questão. Dan Simons realizou recentemente algumas belas experiências mostrando que seu olho pode estar muito perto de alguma coisa totalmente óbvia em uma imagem e ainda assim não vê-la.

A energia de nervo específica de Müller e substituição sensória
Agora eu gostaria de discutir outra conseqüência do que venho dizendo, que diz respeito à qualidade das diferentes modalidades sensórias.

Todos concordam que a natureza qualitativa de experiência em uma modalidade sensória é bastante diferente da experiência em outra modalidade: ouvir é bastante diferente de ver, que é uma sensação bastante diferente do paladar ou do tato… A explicação para isto permaneceu problemática desde que Johannes Müller ao término do século retrasado havia sugerido que caminhos neurais diferentes poderiam ter o que ele chamou de “energias de nervo” diferentes.

Por outro lado uma abordagem natural e fundamentada do problema poderia estar disponível se nós adotarmos a idéia de que ver é um tipo de conhecimento sobre o que acontece quando você faz certas coisas. Dirigir um carro é uma sensação diferente de dirigir um caminhão ou andar de bicicleta, porque envolve fazer coisas diferentes. De forma similar, ver é uma sensação diferente de ouvir, provar, tocar, porque também envolve fazer coisas diferentes.

Por exemplo, nós sabemos que estamos vendo quando sabemos que: se nós piscarmos, a estimulação sensória muda drasticamente; se nós andarmos para frente, há um campo de visão em expansão; se nós movermos nossos olhos, há um campo de visão em translação; se nós bloquearmos nossos olhos com nossas mãos o campo visual é obscurecido; por outro lado, se nós bloquearmos nossas orelhas com nossas mãos, não muito acontece.

Por outro lado sabemos que estamos ouvindo se: quando piscamos ou movemos nossos olhos não muito acontece; se nós andarmos para a frente a intensidade da estimulação obedece uma lei inversa ao quadrado; se nós movemos nossa cabeça a assincronia e o espectro da estimulação muda de certos modos característicos; se bloqueamos nossos olhos com nossas mãos, não muito acontece; se bloquearmos nossas orelhas com nossas mãos, a intensidade muda de um certo modo.

Graus de sensação bruta
Eu tenho sugerido que, ao contrário de nossas intuições, a memória e a experiência visual poderiam ser de fato uma só e o mesmo tipo de coisa: ambas envolvem formas conhecidas de chegar à informação: em um caso a informação está no cérebro, no outro caso está no mundo externo.

No caso de memória de verbos em latim, por exemplo, sei que posso recuperar a conjugação de um verbo particular prestando atenção àquele verbo. Analogamente, no caso de ver, sei que posso recuperar a informação sobre algum objeto na cena prestando atenção nele.

A explicação para a diferença na qualidade da experiência que obtemos de nossa memória para verbos em latim e a experiência que obtemos ao enxergar poderia ser devida à quantidade de corporeidade e acessibilidade envolvidos.

A memória para verbos em latin não tem nenhuma corporeidade e nenhuma acessibilidade: nenhuma corporeidade porque meus movimentos corporais não afetam a disponibilidade de verbos em latim em minha memória; e nenhuma acessibilidade porque mudanças em minha memória não chamam minha atenção — por exemplo, se uma palavra sumir de minha memória durante a noite nenhum sino irá tocar em minha mente para me avisar.

Enxergar por outro lado envolve muita corporeidade e acessibilidade: o mais leve movimento de um músculo do olho muda minha estimulação visual, e qualquer mudança da estimulação chama a minha atenção.

Assim vemos que a memória e a visão estão situados em dois fins de um continuum de corporeidade e acessibilidade. Como esperado então, a memória não tem nada do que uma pessoa chamaria de “sensação bruta”. A visão por outro lado tem muita sensação bruta.

É interessante agora pensar sobre se há casos intermediários.

Considere a experiência de ser rico, por exemplo. Como a visão, a riqueza é uma forma de conhecimento sobre acessibilidade. Contudo, tem mais corporeidade que a memória de verbos em latim porque a riqueza consiste nas expectativas de que quando eu fizer certas coisas com meu corpo, eu esperarei certos resultados. Por exemplo, eu peço para o gerente do banco que me dê o dinheiro, e ele o faz. Porém as coisas que você faz para obter os resultados são coisas que não estão muito intimamente ligadas com o menor dos movimentos de seu corpo. Assim eu não daria uma nota muito alta à corporeidade da riqueza.

A riqueza por outro lado não é nada “acessível”: a menos que eu tenha um gerente de banco ou contador particularmente consciencioso, quando minha conta estiver se esvaziando ou o mercado estiver em baixa, nada irá me alertar deste fato. Nenhum sino irá tocar em minha mente. Mas nós vemos que na escala de sensação bruta, uma vez que tem um pouco de corporeidade, a riqueza tem notas mais altas que os verbos em latim. Isto explica por que as pessoas dizem, às vezes: Eu me sinto rico.

Considere agora dirigir um carro. Aqui a corporeidade é um pouco mais íntima que com a riqueza: um pequeno movimento de meu pé no acelerador ou minha mão no volante tem efeitos no carro e assim na estimulação sensória. Mas e sobre a acessibilidade. É verdade que enquanto eu dirijo minha atenção pode ser automaticamente levada a várias coisas acontecendo, mas nunca é atraída à experiência de dirigir em si mesma. Assim eu diria que dirigir não tem nenhuma acessibilidade. Comparando com a riqueza e a memória de verbos em latim, vemos que por causa da corporeidade extra poderia haver um pouco mais de “sensação” em dirigir. Eu penso novamente que isto corresponde às intuições das pessoas: há algo como uma “sensação” de dirigir um carro.

Preciso dizer que acho muito promissor este uso dos conceitos de corporeidade e acessibilidade para realizar uma classificação da quantidade de “sensação” que um estado mental ou atividade possui. Acredito que pode haver um modo simples de estender esta abordagem para incluir emoções e dor.

Conclusão
Em conclusão então, a abordagem que consiste em tomar a posição bastante contra-intuitiva de dizer que ver não é algo contínuo, mas sim uma forma de conhecimento, como a memória, foi no princípio dura de engolir.

Ela nos levou a postular que a impressão que temos de ver tudo no campo visual é de fato um tipo de ilusão, gerada pela disponibilidade imediata, a um mero movimento do olho ou da atenção, da informação visual.

Também nos levou a postular que a impressão de continuidade da visão também era uma ilusão. Eu sugeri que os conceitos de corporeidade e acessibilidade poderiam responder por que temos esta ilusão.

Agora esta abordagem parece bastante dura de engolir a princípio, mas tem algumas vantagens muito interessantes.

A abordagem coloca a experiência no realizar da exploração, em lugar de no cérebro. Desse modo nós escapamos do problema de ter que encontrar um mecanismo cerebral que gere a experiência.

A abordagem explica de maneira fundamentada as diferenças nas qualidades sensórias das diferentes formas dos sentidos. Não tive tempo de mencionar como ela responde pela inefabilidade das sensações.

Finalmente, a abordagem fornece uma boa classificação da fenomenologia de certos estados mentais como memória, riqueza e sensação.

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* Baseado em uma palestra de J.K. O’Regan de A. Noë na ASSC Brussels

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16 Responses to Experiência não é algo que sentimos, e sim algo que fazemos

  1. @kmjoel says:

    Wow! excelente artigo! muito esclarecedor. A ciência é fantástica!

  2. Braz says:

    Parabéns!

    Ótimo texto.

  3. Fabuloso! Muitas boas ideias sobre o tema vertiginoso da experiência consciente. Gostei sobretudo das noções de “corporeidade” e “acessibilidade”.

    Mas é importantíssimo frisar que os exemplos de ilusão visual, aqui mostrados, provam apenas o seguinte: que nossa imagem mental, que sempre EXISTE, muitas vezes não capta a realidade tal como está diante de nossos olhos.

    Enfaticamente, os exemplos NÃO PROVAM que nossas imagens mentais inexistem, ou que estamos iludidos sobre ter imagens mentais – TEMOS imagens mentais: é apenas que elas podem falhar ao captar o mundo objetivo.

    Isto é importante porque a questão realmente central é que nossas imagens mentais, “patentemente não-físicas” nas palavras do autor, é que são o verdadeiro mistério. Se elas acertam ou não a realidade objetiva, isto é de menor importância frente ao fato de que, precisas ou imprecisas, nossas imagens mentais existem. Podemos negar o conteúdo das aparências, não as próprias aparências.

  4. Fernando says:

    Fantástico. É o tipo de artigo enorme, mas que te prende logo no começo e vai desconsertando certezas não ditas.
    Acho que nunca mais vou conseguir ter certeza se estou vendo o quadro completo ou somente olhando pontos específicos.

    Agradecido por bagunçar minhas certezas visuais.. rs :)

  5. Jesa Nideck says:

    Consegui ver as mudanças rapidamente mesmo piscando, talvez por serem muito grotescas.
    Mais uma vez trocando o efeito pela causa.
    ESTUDAM A MÁQUINA MAS NÃO CONSEGUEM ESTUDAR O MOTORISTA.

    Pequenas verdades e grandes mentiras.

  6. Jesa Nideck says:

    Nosso cerebro é muito complexo, principalmente quando se fala da percepção material( que ainda é um segredo tão bem guardado, que para estudá-lo é preciso mergulhar no infinitamente pequeno) ele ainda não é perfeito porque só usamos uma pequena parte de sua capacidade, com o tempo, digo evolução isso cairá por terra.
    Tá certo tem que beber a sopa pelas beradas senão queima a boca.
    TREINE BASTANTE O JOGO DOS 7 ERROS

  7. Jesa Nideck says:

    MAIS UMA TEORIA CÉTICA que tem algo a ver com as observações materiais, mas que tentam negar o espírito mascaradamente, que argumento fraco para tentar provar a inexistencia da consciência que comanda e que habita o ser carnal.

  8. Pingback: Você acredita em tudo que vê? «

  9. JC says:

    Não consegui entender o que esse artigo deseja comprovar…
    Não vi comprovação de nada… apenas do óbvio… que só olhamos no mundo aquilo que desejamos olhar…
    Neste caso… o ceticismo analisa o mundo ceticamente…. perfeitamente correto… MAS… e as outras visões experimentadas por tantos outros?
    E a psicologia junguiana, que aborda todas as formas que são ditas pseudociências, de forma absolutamente científica? E as teorias conceituadíssimas do mitólogo Joseph Campbell, que aborda o substrato psíquico de onde vem todas as imagens mitológicas, místicas e espirituais?
    Meus amigos céticos… quem sabe vocês não precisam melhorar os movimentos dos seus olhos mais do que qualquer outra pessoa?

  10. Robespierre says:

    Essa abordagem é bem interessante e pode muito bem estar correta,uma vez que corrobora com o fato, bem conhecido mas que ele não menciona, de não lermos detalhadamente cada letra em uma frase mas apenas as primeiras e últimas letras caso estejam na ordem correta. Ou seja ,ecorremos à memória do que deveria estar escrito e apenas quando vemos uma difereça no geral partimos para analisar erros específicos.
    Eu penso (e foi o motivo de ter escrito este comentário) que, se for verdade esta teoria, nada mais faz do que provar que a máquina humana é mais simples e a natureza mais engenhosa do que se acreditava, uma vez que este novo processo gastaria menos energia e exige menos complexidade.
    Além disso, leva a implicações em informática, aonde podemos simular em um robô que pode deixar de checar a se o que está captando é exatamente igual ao que tem em memória, para partir com menos dados básicos, para o que deveria ser (mesmo correndo o risco de se tornar tão falho quanto um humano). Como por exemplo o software de reconhecimento de rosto com poucos pontos.

    Itnemzilefee anugls serfom no ptnemasneo, o mmseo tpio de iãsulo erobma ncnua pebecram, puqroe nagem a rdadilaee…

  11. Rodrigo says:

    Parabéns pela tradução e veiculação do artigo. O artigo é muito interessante mesmo. Os trabalhos do O’Reagan e Noë são das melhores tentativas para começarmos a entender o problema da experiência consciente, principalmente ao nos conscientizar como a experiência é fragmentária e pobre, mas parecemos não perceber isso. Juntamente com as idéias de gente como o Humberto Maturana e do finado Francisco Varela que ajudaram a inserir a enação/incorporação nos estudos de cognição e cérebro humano, estes e outros autores deveriam ser melhor conhecidos e mais divulgados. Essas abordagens situadas e sensorio-efetoras trazem um complemento necessário aos trabalhos de modelagem e registro da dinâmica cerebral.

    O fato de que, de certa forma, nossa experiência consciente seja uma ilusão (não no sentido que ela não exista, mas no de que ela seja algo bem diferente do que imaginamos e de como nos referimos a ela com nossa linguagem) pode ser a chave para desbaratar esta questão. A corporalidade (o fato de estarmos intimamente manipulando nossas sensações através da manipulação de nosso corpo, desde a atenção visual, movimentos sacádicos e até através de nossos movimentos relativos de cabeça e do corpo como um todo, me parecem um das idéias mais interessantes nas neurociências e das ciências cognitivas das ultimas décadas. A visão de que perceber e experimentar são habilidades ou mesmo possibilidade e familiaridade de ação deve ser levada mais a sério pelos cientistas e filósofos modernos.

  12. Pingback: Neuroaventura | Projeto Medith

  13. Michely says:

    ótimo artigo. é o segundo deste site que uso, e minha professora gostou muito. :)

  14. Marcos says:

    A abordagem desse autor se parece muito com a abordagem dada pelos behavioristas radicais e a complementa mostrando evidências empiricas.

    B. F. Skinner sempre defendeu que o ver era um comportamento e não uma sensação.
    Assim como o imaginar se compoem pelo comportamento de ver “na ausencia da coisa vista” ou seja, não é algo mental que acontece quando você imagina algo, mas é apenas o seu comportamento de ver acontecendo na ausência do estímulo discriminativo e do reforçador sensorial (o objeto da visão).

    Te convido a dar uma visita no meu blog Kentaro.

    http://analisefuncional.livrespensadores.org/

    Lá eu discuto sobre a filosofia, Psicologia e Ciência.

  15. Marcos says:

    Correção:

    B.F. Skinner sempre defendeu que o ver, o ouvir, o sentir, e etc.. São comportamentos.

  16. Pedro says:

    Excelente artigo e, de fato, Skinner já antecipava tudo isso.

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